terça-feira, 30 de junho de 2015

Crucificada - FLORBELA ESPANCA

Amiga... noiva... irmã... o que quiseres!
Por ti, todos os céus terão estrelas,
Por teu amor, mendiga, hei-de merecê-las
Ao beijar a esmola que me deres.

Podes amar até outras mulheres!
- Hei-de compor, sonhar palavras belas,
Lindos versos de dor só para elas,
Para em lânguidas noites lhes dizeres!

Crucificada em mim, sobre os meus braços,
Hei-de poisar a boca nos teus passos
Pra não serem pisados por ninguém.

E depois... Ah! Depois de dores tamanhas
Nascerás outra vez de outras entranhas,
Nascerás outra vez de uma outra Mãe!

EM - SONETOS - FLORBELA ESPANCA - BERTRAND 

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Cansaço - MARIA ROSA MARQUES

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA EDITORA

Cansada desta caminhada
sem fim...
nesta longa estrada
que quando a olhava
parecia acabar, já ali...
mas continuava dentro de mim

Amei muito...
dei-me por inteiro
mas tão pouco recebi
e como sofri!

Agora chegou o meu fim
nos braços frios da morte
percorrerei todos os silêncios
já nem os ventos de norte
abalaram de mim

Meu descanso eterno

EM - VIDA E MORTE - ANTOLOGIA - EDIÇÕES OZ

domingo, 28 de junho de 2015

Embriaguez de seiva - JOÃO CARLOS ESTEVES

já só me encontro nos silêncios
de paisagens vazias de vozes e rostos

envolto numa capa de neblina amorfa
esqueço-me até
da voz do pensamento

ambiciono o sonho da raiz
e a vertigem dos ramos livres
em embriaguez de seiva

EM - MARGINÁLIA - ANTOLOGIA - EDITA-ME

sábado, 27 de junho de 2015

Alcanede - VÍTOR CINTRA

Tomou-te Dom Henrique de Borgonha,
Tornando-te mais um dos seus tesouros,
Mas, porque nada é como se sonha,
Voltaste a ser tomada pelos mouros.

Mas eis que Afonso Henriques, vários anos
Passados, conquistando Santarém,
Com força e com engenho sobre-humanos
Ataca-te e conquista-te também.

O teu primeiro alcaide fez seguro,
Mais forte e consistente o teu futuro,
Tal como quis o rei, que o nomeou.

Por isso foi brilhante a tua História,
Até que te tornaste uma memória
Depois que o terramoto te abalou.

EM - NA SENDA DOS TEMPLÁRIOS - VÍTOR CINTRA - LUA DE MARFIM

sexta-feira, 26 de junho de 2015

A mulher e a dança - MÁRIO SAA

Oh, como adoro esta afeição furtiva
que em si desapareça, em si se esconda,
livre sempre de si, sempre cativa,
cativa, sempre, em seu poder de ronda
que por melhor ainda se entregar
com mais asas ligeiras foge a sonda.
Voluía entre folhas amarelas,
a como um par de braços se destrança
e vem de lá de baixo das turbinas
a espiralar cantigas de criança;
na água fria dos meus olhos lestos
os seus formosos olhos de menina
e os meus gestos por cima dos seus gestos!
Oh, como adoro esta afeição furtiva
que em si desapareça, em si se esconda,
livre sempre de si, sempre cativa!

EM - POESIA E ALGUMA PROSA - MÁRIO SAA - INCM

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Entre mim e o mar* - GRAÇA PIRES

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA AUTORA

Entre mim e o mar
ainda me causa espanto a madrugada.
Sempre diferente. Sempre idêntica.
Tons de mel, de romã,
de diamante, de milho seco.
Sopro de sal, de sangue, de limos.
E, por trás das dunas,
a respiração dos amantes
sobressaltando as aves.

EM - ESPAÇO LIVRE COM BARCOS - GRAÇA PIRES - POÉTICA EDIÇÕES

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Bucólica - TOMAZ KIM

Planície quieta como lagarto ao sol:
Ao longe o celeiro, irreal no que promete.

Golpe-a-golpe a enxada rasga a terra:
Os braços já cansam, e o sol inda a prumo!

Nem perfil de serra
Ou sombra de árvore:
A planície estende-se a perder de vista,
Prenhe e sábia, e a negar o pão.

Cedo virá o Inverno.

EM - OBRA POÉTICA - TOMAZ KIM - INCM

terça-feira, 23 de junho de 2015

Post scriptum - EUGÉNIO DE ANDRADE

Agora regresso à tua claridade.
Reconheço o teu corpo, arquitectura
de terra ardente e lua inviolada,
flutuando sem limite na esperança
da noite cheirando a madrugada.

Acordaste na aurora, a boca rumorosa
de um desejo confuso de açucenas;
rosa aberta na brisa ou nas areias,
alta e branca, branca apenas,
e mar ao fundo, o mar das minhas veias.

Estás de pé na orla dos meus versos
ainda quente dos beijos que te dei;
tão jovem, e mais que jovem, sem mágoa
- como no tempo em que tinha medo
que tropeçasses numa gota de água.

EM - AS PALAVRAS INTERDITAS/ ATÉ AMANHÃ - EUGÉNIO DE ANDRADE - ASSÍRIO & ALVIM

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Canção do tédio - DOMINGOS MONTEIRO


Sensação de vazio
E de alma despejada,
Nem sequer o amavio
Anónimo do nada...

Uma tristeza morna
Sem causa, nem sentido
Uma frase que torna
Continuamente ao ouvido...

Nem dúvida, ou certeza
Esperança ou temor,
Para além da tristeza
E para além da Dor...

EM - POESIA - DOMINGOS MONTEIRO - INCM

domingo, 21 de junho de 2015

Zodíaco - JORGE DE SENA

Os deuses nascem quando a vida estreita
laços de olhar, em torno da memória;
lembrar com medo é refazer a história
de quantos deuses uma estátua é feita.

Surgem desígnios que a morte ajeita
ao jeito permitido... Sim! Devore-a
a pura terra em água mais eleita,
que, ao chamar gruta à solidão marmórea,

dará, e a Deus, um cântico e um destino.
Se foi impunemente que menino
me demorei no tempo e não perdi

o bibe sujo que ficou como era,
tenho maior direito ao que se espera:
criei constelações e nunca as vi.

EM - ANTOLOGIA POÉTICA VOL IV - JORGE DE SENA - GUIMARÃES

sábado, 20 de junho de 2015

Primeiro beijo - JAIME CORTESÃO

Beijo de Tempestade e de vertigem,
Como a descarga súbita do raio,
Refluxo vital tocando a origem,
Fundindo bocas ébrias em desmaio.

Genésico florir em pleno Maio,
Água pra qual em fogo se dirigem
Bocas ardentes no primeiro ensaio
De mitigar a sede à Carne virgem.

E enquanto sobre as bocas, como brasas,
As pombas do Desejo unem as asas
E um ar de Primavera voluptuosa

Abre no rosto em flor lírios vermelhos,
A Alma junta as mãos, trémula, ansiosa,
E, em delíquios de Amor, cai de joelhos!

EM - POESIA - JAIME CORTESÃO - INCM

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Charneca em flor - FLORBELA ESPANCA

Enche o meu peito, num encanto mago,
O frémito das coisas dolorosas...
Sob as urzes queimadas nascem rosas...
Nos meus olhos as lágrimas apago...

Anseio! Asas abertas! O que trago
Em mim? Eu oiço bocas silenciosas
Murmurar-me as palavras misteriosas
Que perturbam meu ser como um afago!

E, nesta febre ansiosa que me invade,
Dispo a minha mortalha, o meu burel,
E já não sou, Amor, Soror Saudade...

Olhos a arder em êxtases de amor,
Boca a saber a sol, a fruto, a mel:
Sou a charneca rude a abrir em flor!

EM - SONETOS - FLORBELA ESPANCA - BERTRAND

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Morte - MARIETE LISBOA GUERRA


LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA EDITORA

A morte chegou às alturas
em estádio convulsivo de Dharma
renegou a dor profunda
rejeitou os carnais fantasmas

Perdoou os erros cometidos
na clareira de fogo, agonizada

Vivia dentro de um cativeiro
colidiam as asas coladas e inquietas

Que idade tinhas quando a vida mudou?

Era tarde, não sei era tempo branco e distante
veio a luz e queimou a boca
e as mãos ficaram a pairar, como sendo livres

Era a armadilha da vida

EM - MORTE E VIDA - ANTOLOGIA - EDIÇÕES OZ

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Sei - EDGARDO XAVIER

Sei do raspar das palavras
por todos os sentidos
e do tumulto do sangue
no corpo.

Sei da pele
do espanto
e da noite.

Sei dos dedos que me lêem o fogo
e da boca onde nascem
obscenas
sementes de luxúria.

EM - MARGINÁLIA - ANTOLOGIA - EDITA-ME

terça-feira, 16 de junho de 2015

Abrantes - VÍTOR CINTRA

Teu castro Junius Brutus ocupou,
No tempo em que os romanos se instalaram
Em terras lusitanas, e ficou,
Até que os visigodos o expulsaram.

Mas vindo os muçulmanos à conquista
Das terras dos cristãos, numa batalha
Alcançaram a vitória e, nessa crista,
Ergueram, p'ra defesa, uma muralha.

Mais tarde, Afonso Henriques, rei cristão,
Expulsa os ocupantes do islão,
Tomando, por fronteira, o rio Tejo.

Doada a posição a Gualdim Pais
Foi este, como consta dos anais,
Quem torna fortaleza o castelejo.

EM - NA SENDA DOS TEMPLÁRIOS - VÍTOR CINTRA - LUA DE MARFIM

segunda-feira, 15 de junho de 2015

XXIV - VICTOR OLIVEIRA MATEUS

A brancura do muro contrasta com a negritude do mundo, com o salteio acobardado dos que na cegueira se fingem. É uma brancura que gratifica, que apura a teimosia de um olhar que busca e que levanta, para lá da sombra das árvores, essa qualquer coisa que se não vê, mas há. A brancura do muro não me separa da assassina frieza da rua, tão-só me protege do alvar sorriso de muitos, quando à noite o carro camarário, no seu ronceiro mastigar de imprestáveis, engole sacos com lixo, sofás esbeiçados, lavatórios antigos, tão antigos como a brancura do muro.

EM - NEGRO MARFIM - VICTOR OLIVEIRA MATEUS - LABIRINTO

domingo, 14 de junho de 2015

Temos um destino marítimo* - GRAÇA PIRES

LIVRO GENEROSAMENTE OFERECIDO PELA AUTORA

Temos um destino marítimo
na memória, me ensinaram.
Por isso gosto de seguir a linha
verde da costa com a face exposta
ao hálito da maresia e os pulsos
cravejados de conchas.
Fixo cristais de névoa no olhar
para desvendar o átrio privado
onde se escondem os barcos
quando o êxtase das ondas
explode dentro do vento.

EM - ESPAÇO LIVRE COM BARCOS - GRAÇA PIRES - POÉTICA EDIÇÕES

sábado, 13 de junho de 2015

Olá bom dia - DAVID MARQUES

Deixe que lhe deixe este rabisco
sobre suas páginas amareladas:
Distante... o olho direito pisco,
para acordar emoções guardadas...

Na vida, quem não tem doces pedacinhos
de vivências bem fechadas no coração,
aguardando despertar com novos beijinhos,
incendiar para uma nova e melada paixão?

Nesta nova madrugada de calmaria,
deixe que lhe deixe este raminho,
de doces aromas e cores de alegria;

perfumar ainda mais seu caminho
no futuro, no presente e neste dia,
com amor, amizade e carinho.

EM - MENSAGEIRO DA ALMA - DAVID MARQUES - CHIADO EDITORA

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Ao acaso - VÍTOR CINTRA

Ao acaso escrevi os meus poemas
Sem receio das críticas de alguém;
Ao acaso seleccionei os temas
Convencido de que o fazia bem.

Ao acaso deixei meus pensamentos
Estampados em folhas de papel;
Ao acaso senti, muitos momentos,
Nesses versos amargo gosto a fel.

Ao acaso deixei correr o tempo,
Mergulhado na minha solidão,
Sem ter medo da perda da razão;

Conseguindo viver, a meu contento,
O direito dum sonho, sem ter prazo,
Ao acaso, mas não por mero acaso.

EM - AO ACASO - VÍTOR CINTRA - LUA DE MARFIM

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Asas que não vês - ALICE SANTOS

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA AUTORA

Deus deu-me asas
Asas que não vês
Tornam-me mais alta
Superando a tua pequenez.

São elas o pilar
Força transformadora
Não servem para voar
São parte da minha pessoa.

Deus deu-me asas
Que jamais poderás ver
Como poderias vê-las
Sem me conhecer.

Asas negras
Carregam almas de luz
Diamante que não reluz.

Elevam-me e protegem
Transformam bondade, amor
As sombras que me perseguem.

EM - FRUTOS VERMELHOS - ALICE S - EDIÇÕES VIEIRA DA SILVA