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sábado, 27 de maio de 2023

Ciclo - ANTÓNIO CAPELLA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Não te limito aos alicerces do meu peito.
Ficas nas periferias dos meus olhos, para que vislumbre
as pétalas dos teus borboletejantes sorrisos dançando em mim,
sem atentarem nas encruzilhadas quentes e impenitentes.
Não me molhes com lágrimas congeladas.
Porque não te esquentas com o sol da manhã, para que me revejas?
Oh, como acarreto as tuas palavras/luz no lusco-fusco do
entardecer, onde a fosforescência invade o meu palato com odores
de madressilvas mordiscantes.
Sabes que sou avesso em guardar amor de escumas de podridão!
Não serei vela esfrangalhada por açoites de gordos talos durante
trevas de toutiços desbragados.
Sei que o meu olhar dormirá em ti e sempre resistirei em vestir
cilícios de sonhos cortantes.
Contigo sei que lá, além nos deitaremos de barriga para o ar, para
que o Sol volte aos nossos umbigos e os doire por todos
os solstícios que nos virão visitar.

EM - PALAVRAS ESCRITAS, PALAVRAS PINTADAS - ANTÓNIO CAPELLA - IN-FINITA

segunda-feira, 22 de maio de 2023

Um olhar - ANTÓNIO CAPELLA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Invento passadas e passeio nas correntes com asas cortadas.
Serei doido, mas nunca anjo.
Cicio o tédio com que me enforco e arregalo os olhos para
os palhaços que entre douradas espigas dormem.
Não são vocês, sou eu que vos deixo entre pragas e animais
nocivos, que vos aprisionam e que comem os tutanos a quem
teima em ser homem.
Deito-me nas mantas de farrapos que teci com o estrelar
da nostalgia, mesmo assim nunca terei sangue domado.
Tenho tardes que me besunto com mel nas urzes da sombra
e que me carrego com ais nas cimitarras afiadas.
Um dia fiz-te rainha da minha barcaça e entrei no teu redondo
olhar, como penetra num tempo de fotografia “a lá minute”
a se revelar.
Recoleto infâncias de animais canibais empanturrantes de gentes
deste país arreatados numa RESILIÊNCIA que tão bem estava
emalada e fechada.
Matuto nas chagas que não tapo e tremo de cio aberto no topar
o cheiro de curvatura apertada.

EM - PALAVRAS ESCRITAS, PALAVRAS PINTADAS - ANTÓNIO CAPELLA - IN-FINITA

quarta-feira, 17 de maio de 2023

Um dezembro isento de neve - ANTÓNIO CAPELLA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Chegamos ao definido ponto onde a fronte me aprisiona
e também onde se pára, ou se rola. Aconchegamo-nos numa
bolha insuflada de palpitantes corações, por mim mesmo
na borda parada.
Ficamo-nos e logo os nossos olhos bailaram com brilho de rosa
carnuda, afagada por leve airada.
Foste louva-a-deus e eu o grande inseto de cachoeira sangue.
No teu aperto fiquei uma libelinha de queratina melada,
que respondia com um delicado fincar de doçura amestrada.
Escusamos tons e olhos redondos, ou mesmo os de viés
disfarçados, como os de raposa gulosa à espera de galinha
extraviada.
As luzes ofuscam-nos quando inesperadamente, sobre as janelas
se debruçaram e, momentaneamente, perdemos o coalho
das palavras, entre o baralho de serpentes rubras e enleadas.
Enfeitiçados esquecemo-nos, que as luzes também aquecem
e arrefecem cios, logo que o dia aclara, ou enegrece.
Plasmados e dedos fortemente cruzados e pregados,
saímos pelo bocal que tínhamos entrado.

EM - PALAVRAS ESCRITAS, PALAVRAS PINTADAS - ANTÓNIO CAPELLA - IN-FINITA

sexta-feira, 12 de maio de 2023

Normalmente - ANTÓNIO CAPELLA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Normalmente, não sou este
que se aconchega em ti.

Normalmente
não me escancaro contigo
parti as dobradiças da porta.

Sou um poema: eu.

Sou um poema teu.

Lê as palavras deste racional.

EM - PALAVRAS ESCRITAS, PALAVRAS PINTADAS - ANTÓNIO CAPELLA - IN-FINITA

domingo, 7 de maio de 2023

Cantiga em dó menor - ANTÓNIO CAPELLA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Com o nosso abeirar, teus olhos vão crescendo e neles fico
pássaro de fogo atrapalhado no encantamento de serpente alada
emboscada.
Estou sem norte e em ti sou agulha de magnetismo à sorte,
que se afunda na fixidez do teu fitar.
Trago-te rosas. Não, não as cortei, foram por mim pintadas
com estrelas cadentes que dos céus arrebatei.
O perfume que sentes é do desvelo que tenho tido com todas
as outras cheirosas irmãs, que em mim tenho vindo a cultivar.
O que fez que me resignasse a ficar sempre a um passo
de te amar?
Que punhal amargo golpeou a desdita? A sorte?!
Olha para os prantos mudos nas janelas que clamam
por bondades e eu e eles reféns do teu tácito calar.
Nada dizes, então partamos no corcel de fogo que se avizinha
e procuremos rio cremoso de absurdidades, onde possamos
remar com remos por inventar, para que fiquemos circunscritos
à muita, ou pouca capacidade…
… De sonhar.

EM - PALAVRAS ESCRITAS, PALAVRAS PINTADAS - ANTÓNIO CAPELLA - IN-FINITA

terça-feira, 2 de maio de 2023

Voar - ANTÓNIO CAPELLA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Com a luz de mim, emolduro o vosso corpo com estes emotivos
dedos que teimam em vos presigar.
Agora que já acabaram os sorrisos de descaros e de medos,
enlaçai-me forte neste voo sobre montes desencontrados.
Breve teremos os ansiados e já notados quentes rios.
Não temais incertas e mesmo as prováveis lonjuras.
Eu sou o mesmo das mãos brancas de afagos que vos acalenta,
também sou o grão que em vós poisa e alimenta, na mesma,
sou a boca que apazigua a chama que tanto vos atormenta.
Agora em mim, deslizai meigamente sobre estas ondulantes
costas que ternamente vos suporta.
Afastai as cabeças e fitai estes arregalados olhos de açor
açucarado que em vós de levezinho e de soslaio vos vai
penetrando. Prestes nos estenderemos no sonhado aconchego
dos baloiçantes nenúfares já embriagados pelos nossos próximos
e desencontrados odores que sôfregos e entusiastas gineceus
já palpitam por os nossos descontrolados e almiscarados amores.

EM - PALAVRAS ESCRITAS, PALAVRAS PINTADAS - ANTÓNIO CAPELLA - IN-FINITA

quinta-feira, 27 de abril de 2023

Uma história da grande história - ANTÓNIO CAPELLA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Ainda com o estilete em mim cravado, direcionas chispas
de quimeras para a grande e já murcha chaga barrares.
Mesmo assim fica até eu sentir o recuar do teu indómito olhar.
Olha para esta renovada noite, onde volto a ser inseto de luz
que tanto tens feito devanear.
Como zombo quando vagueias em mim!
Nem percebes este jogo de cabra cega de chamas de atiçar.
Agora a remansear lentamente esbracejo neste meu agitado
amarar.
Inquieto-me em levantar todas as lianas que te estão a fincar
para que arredes brumas desses teus olhos de lago salgado
e limpidamente em mim voltares a mergulhar.
Eu sei que é noite e que já não abrirás diques para penosamente
continuar a reparar e assim com estes braços alados vou-te
poisar nesta enxerga de cabelos de loura panha onde remexerás
a tua nudez já sem um talvez.
Agora estou certo do meu aconchegar prenhe de lasciva
perseverança de fazer brotar.

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sábado, 22 de abril de 2023

Enfado - ANTÓNIO CAPELLA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Enfadam-me canhestros escribas das rimas e fados.

Fico a norte e também num desnorte, quando se esquecem
de um respirar delido por orgíaco sexo que termina em enfado.

Sem fuga flutuarei por ares viciosos e nos escolhos de águas
marotas, onde se abrem fartas flores de lótus de cortarem
a respiração e só com bebedeira do teu olhar, cambaleio
e ato-me na ternura dos teus braços nus.

EM - PALAVRAS ESCRITAS, PALAVRAS PINTADAS - ANTÓNIO CAPELLA - IN-FINITA

segunda-feira, 17 de abril de 2023

Momentos - ANTÓNIO CAPELLA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Na timidez de um tal momento atrevo-me a bordejar levemente
os contornos da tua insinuante boca e logo sinto os incontidos
gorgomilos em movimento de trote de desnorte.

Atrevo-me e digo-te num entrecortado sussurro:
É o ponto para a dança, vamos bailar? Agora redopias
em mim num intenso baloiçar e já não receias voltar a tocar,
num qualquer gelado ribeiro, pois sentes que nenhum te voltará
a destemperar.

Lembras-te quando timidamente te disse que era vulcão
a afoguear? Tu em estremecida galhofa disseste que eras
um extenso glaciar.

Agora rio-me da tua estupefação por sentires como em ti escorre
uma não sustida torrente de acelerada e descontrolada fusão.

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quarta-feira, 12 de abril de 2023

Efémero - ANTÓNIO CAPELLA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Calam-se góticos sangues, primaveris espermas.
Rastos podres de chuvas de álgidos Invernos, com contornos
de patos feios e cisnes quebrantados, prostrados em árvores
de cinza, que reverberam ainda.
Fiquemos com cuidados nos pormenores de um Barroco
Para estendidos panais de artes novas.
Derivações? Ilusões?
Colhamos a cor do dia, mancha tangível, que transporta
indefinições nos valores das engrenagens das coisas.
Transponíveis?
Não chamemos por santos de pau, ou de pedra.
Tudo são indefinições soltas, das tulhas dos deuses?!
Da natureza?
Encaminhemo-nos para translúcidas neblinas outonais
e esperemos pela transparência dos seres de vários olhos
e de cus ovais.
Tumba! Lá cairemos em quadriculadas e cegas fachadas.
Não passaremos de forasteiros de perigos invertidos
por infernais.

EM - PALAVRAS ESCRITAS, PALAVRAS PINTADAS - ANTÓNIO CAPELLA - IN-FINITA

sexta-feira, 7 de abril de 2023

Retrato consentido - ANTÓNIO CAPELLA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Gemo com o vento nos cilícios dos tormentos idos.

Amo, admiro e entendo os estertores dos impostos
constrangimentos.

Sinto os apelos dos sois que estimulam o brotar.

Julgo-me pouco puro, por vezes até lascivo e noutras
num resvalo para diabrete amotinado.

Também sou um que passa estios com renovada confiança
de voltar às minhas conchinhas e chapinhar, nas sempre
escangalhadas, pocinhas, como criança entretida,
enquanto a sua mãe não deixa de com os olhos o afagar.

EM - PALAVRAS ESCRITAS, PALAVRAS PINTADAS - ANTÓNIO CAPELLA - IN-FINITA

domingo, 2 de abril de 2023

Coisas do tal destino - ANTÓNIO CAPELLA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Cobri-me com teu cálido e cheiroso manto para perder o tino
de qualificar a tristeza dos meus olhos no reflexo de ti
e na mesma afastar a possibilidade de estares longe
de me poder embriagar, com o teu quase certo despudorar.
Assim também e embora tapado consegui o tentador propósito
de olvidar o negrume, que em mim não está para despegar.
Tive sempre sobre mim luas abertas e até as eclipsadas
que paulatinamente me rasgaram e dolorosamente,
as fui transportando, sempre com a persistência de coartar
a força para gritar: quero ser curado!
No vazio dos tempos que se vão reformando, dei por mim
com os pés arrastando, pelas lezírias do pensamento,
mutilando corolas de um forte amarelo, sempre
com as renovadas esperanças de arrancar a última pétala
que calhe no bem-me-quer tão rebuscado!
Nada encontrando e já com o ruim desânimo embarquei
com o João Fagundes para a Terra Nova, na esperança
que o gelo curtisse todas as chagas e assim sarar.
Sabia que sempre ficaria preso nas fortes cordas do mar,
ao ponto de estrebuchar e nada poder fazer do que resignar
e ficar e esquentar o desânimo do tanto procurar,
o que não consegui encontrar.

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segunda-feira, 27 de março de 2023

Barco de pau - ANTÓNIO CAPELLA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Não quero as cobras na manjedoura que me reservaste.
Recuso o teu querer e deambularei na procura de ínsuas
de desejo, fugindo sempre das sedes de deserto grande e mau.
Não, não me atires pedras da calçada, que tanto por nós foi
calcada!
Retorna-me o mundo do teu cheiro inteiro e morde-me a carne
viva onde o sangue lateja e vibra – um dia arrefecerei – à cautela
deixa sempre uma frincha da porta aberta.
Voltarei de madrugada quando me amedrontar com
os fantasmas de todos os outros espaços, residências das caras
pérfidas, duendes e sujos palhaços.
Enquanto neste remanso ainda espero pelo barco de pau envolto
numa imensa espuma de sal!
Planto os pés quase, quase no areal, cemitério dos que se afogaram
neste espaço quando era imenso vau.
Além corre a planície, onde pássaros entontados viajam em voos
rasantes e de relógios avariados com tinos em coitos safados.
Protejo-me com o hálito quente do vento e sem possibilidade
de retornar adormeço sonhando com o barco de pau,
que me recolherá já feito numa grande pedra de sal.

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quarta-feira, 22 de março de 2023

Menina - ANTÓNIO CAPELLA

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Hoje voltei a fitar o espelho carrancudo que sempre me
atormenta com fragmentos de cinzento sangue, num depuro
de temporal recuar aos impreparados e circulares beijos,
nas opadas de desprevenidas sementes que mirraram
por teimosia do alongado e convergente ar de tisnar.
Aceno-te com o primeiro lençol tão neve e com uma fímbria
de roxo maculado.
Ainda estonteada, fitas os ventos dos terríveis adamastores.
Caíste em mim com manto de orvalho e com todos os coalhos
de fantasmas emalados.
Já sorvo o renovado ar que vai chegando em jeito de corcel
peitudo de macieza de fumo sublimado.
Seguro-te nestes fortes braços e rodopio sobre ti para bussolar
o certo rumo.
No caminhar sei que continuaremos a ter interregnos em fontes
de doces brumas, mas também em montanhas de corrosivas
espumas.
Prensei-te em mim, para que mais facilmente fintemos
os esfíncteres das estradas, na procura das alargadas.
Vai chegar o tempo de nova paragem, não soltarei mais sons,
enquanto não criar para ti uma canção com este refrão:
Obrigado por existires maliciosa andorinha.

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sexta-feira, 17 de março de 2023

Pintura - ANTÓNIO CAPELLA

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Dou vida a uma parada pintura.
Mudo de paleta e trago cores florais e pingentes das lágrimas
criadas nas covas dos teus olhos de prometidos arraiais.
Nas exuberâncias que nos desunem perpetuarei numa singela
pétala os sorrisos que guardaste para mim.
Todo o quadro é tocado pela mudança de um sentir na moldura
empertigada, pelo consciente desenquadrado.
Olhemos para a tela inconstante do firmamento.
Olha, vês essa enorme obra, que ninguém ousa dizer
que o pintor foi gente!
O que te assusta?
São os infindáveis astros, ou as marés que em ti redopiam,
na cadência do enraivecimento no revés do teu fado?!
Sempre achas que o impossível é mentira?
Vês o azul ali em hipnótica harmonia?
Toca-lhe ao de leve para que ele também sinta que és vida.
Nunca caminhes comigo, quando por dentro caminhas só.
Cultiva a abrangência dos sonhos, que para nós a terra faz
sementeira em plangente toada.

EM - PALAVRAS ESCRITAS, PALAVRAS PINTADAS - ANTÓNIO CAPELLA - IN-FINITA

domingo, 12 de março de 2023

Afirmação - ANTÓNIO CAPELLA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Relâmpagos que nos trespassam.
Trovoadas que nos despertam.
Noites escuras de gambuzinos mortos.
Luz que nos afaga.
Sois com braços que nos assam.
Promontórios, pesqueiros de chuvas de prata
e níquel de borda oxidada.
Mais um dia passou e tanta gente esperando
temperada água que alimente as suas fontes.

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terça-feira, 7 de março de 2023

Recuso - ANTÓNIO CAPELLA

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Nesta vidraça fosca de desalento, deixo que nelas escorram
lágrimas prenhes de arrependimentos e vadiagens por acabar.

Neste atravessar, tenho medo dos tempos escuros e vou sentindo
a luz, que alguém está a abafar.

Assim neste lusco-fusco, ao rugoso chão criarei raízes,
até que o verde e o mar me venham buscar.

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quinta-feira, 2 de março de 2023

Laços - ANTÓNIO CAPELLA

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Os olhos vão-se escancarando, tal como bolas rotativas
e caleidoscópicas, cujos fios o tempo vai amarelando
e levando nos socalcos do girar do planeta mente.

Lá se alicerça e se constrói e se desmonta, mas mesmo
que restem fragmentos, estes não se abatem e sempre
teimam em resistir para se reconstruir com a mesma matriz,
uma renovada gente.

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