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quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Mangas e pitangas - JOSÉ LUIZ MELO

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO PELO AUTOR

As suas ondas vagam num vestido
de um fustãozinho, fino e delicado,
galopam, em um trote divertido,
enquanto espio e fico fascinado.

Ou são romãs, debaixo do tecido
de organdi, que transpira emocionado,
com bicos trauteando um sustenido,
num triste coração desafinado.

Não sei como dizer, mas, maravilha
pusesse as mãos nas conchas dessas quilhas
redondas, que ressonam no divã.

Tendo nos lábios, presas as pitangas,
saboreando a carne destas mangas,
beber nas taças do teu sutiã.

EM - SEGUNDO LIVRO DOS SONETOS - JOSÉ LUIZ MELO - NOVOESTILO

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Fantasia musical - JOSÉ LUIZ MELO

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO PELO AUTOR

Hoje a manhã me amanheceu sorrindo,
além do teu quintal, um avelós
que nunca vi, abriu um riso lindo,
quando escutei o som de sua voz.

risonha, como a flor da tamarindo,
do chamego dos pássaros, a sós,
de um riacho na foz do mar surgindo,
das lágrimas da chuva no algeroz.

Eu não sei se desperto ou dormindo,
me embalava no sono que bem-vindo,
no murmurejo que fazia o cós

do seu vestido, que presumo abrindo,
meu céu, um mar de flores colorindo,
quando, nesta manhã, ouvi sua voz.

EM - SEGUNDO LIVRO DOS SONETOS - JOSÉ LUIZ MELO - NOVOESTILO

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Desenho - JOSÉ LUIZ MELO

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO PELO AUTOR

Vejo distante, longe, no horizonte,
uma linha quebrada que desenha
a imagem caprichosa numa senha,
a marca digital na própria fronte.

Me desafia a linha, ali, defronte,
cheia de si, embora, nada tenha
que ameace; nem temo, algo que venha
no bojo do seu colo que amedronte.

Mas sinto que esta linha, ela me embrenha
nesga fumaça renda, nesta brenha,
e me não deixa ver além do monte.

que surgiu de repente, atrás da linha,
no caminho do voo da andorinha:
- Sem que mais nada veja no horizonte.

EM - SEGUNDO LIVRO DOS SONETOS - JOSÉ LUIZ MELO - NOVOESTILO

terça-feira, 16 de julho de 2019

Passatempo - JOSÉ LUIZ MELO

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO PELO AUTOR

Se tem que ser Finito, seja breve,
apenas, mais um entretenimento,
passe tão leve como um ultraleve,
ou uma pena alçada pelo vento.

Se tem que ser Finito, seja leve,
não deixe marca de ressentimento,
seja discreto, como faz a neve,
que desmancha e não mancha o calçamento.

Se tem que ser Finito, não perdure
com a preocupação que o tempo dure
um milésimo a mais que dura o tempo.

Se tem que ser Finito, prove agora,
que o sabor mudará em outra hora.
Se tem que ser Finito - é Passatempo.

EM - SEGUNDO LIVRO DOS SONETOS - JOSÉ LUIZ MELO - NOVOESTILO

sábado, 6 de julho de 2019

Fantasia de Carnaval - JOSÉ LUIZ MELO

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO PELO AUTOR

Beijo-lhe as mãos como beijasse o andor
que conduz minha Santa pelas ruas,
de tão belo encandeia o seu fulgor,
- é como se beijasse as mãos da lua.

Beijo-lhe as mãos como beijasse a flor
que se oferece inteira, toda sua,
ao beijo ardente de um beija-flor,
sem vestes que lhe cubra, toda nua.

Beijo-lhe as mãos, e beijo a cada dia,
como um crente que reza a Ave Maria e
se oferece em holocausto a sua fé.

Beijo-lhe as mãos assim, contritamente,
imaginando então, na minha mente,
que se beija o céu - beijo seus pés.

EM - SEGUNDO LIVRO DOS SONETOS - JOSÉ LUIZ MELO - NOVOESTILO

quinta-feira, 27 de junho de 2019

Praia de piedade - JOSÉ LUIZ MELO

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO PELO AUTOR

O mar se abria em vagas que dobravam
alvos lençóis de espuma nas areias,
e, nas plumas do mar se emaranhavam,
rilhando com seus dentes de sereias.

E lá, na beira mar, onde ficavam
meus pais e meus irmãos; as marés-cheias
com os seus lábios brancos apagavam
a teia que a pegada pisoteia.

No mar, os ventos-leste, rumorosos,
bolinavam as ondas, buliçosos,
deixando crespas suas cabeleiras.

Enquanto, no arrecife, repicava
o som bronze do sino que tocava,
- Aplaudindo a maré de lua-cheia.

EM - SEGUNDO LIVRO DOS SONETOS - JOSÉ LUIZ MELO - NOVOESTILO

quarta-feira, 26 de junho de 2019

Pressentimento - JOSÉ LUIZ MELO

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO PELO AUTOR

Tonto de azul, lhe vi, tonta de azul,
muito mais que o azul do firmamento,
cujo azul me parece fingimento,
se comparando com o seu halo azul.

Tonto de sol, lhe vi, então, taful,
vindo feliz como um pressentimento,
que chega misturado a voz do vento
mas, não sabe se do Norte ou Sul.

Assim, no azul lhe vejo, à luz da noite,
mas não demora, após à meia-noite,
depois da madrugada vir trançar.

seus loiros cachos na manhã dourada,
vejo você, agora, ensolarada,
e a auréola do sol lhe coroar.

EM - SEGUNDO LIVRO DOS SONETOS - JOSÉ LUIZ MELO - NOVOESTILO

segunda-feira, 17 de junho de 2019

Côncavo/convexo - JOSÉ LUIZ MELO

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO PELO AUTOR

Este soneto que lhe faço estando
a minha alma de joelhos, genuflexa,
junto aos seus pés, assim, como rezando,
numa atitude mana, circunflexa.

Ela se sente um cego tateando,
procurando no escuro alguma brecha,
buscando a luz que acende lhe ofuscando,
ignorando o que fazer, perplexa!

Mas não fatigue o fogo enquanto briga
para manter acesa a doce flama,
que lhe arde e que chameja como urtiga.

Não se saiba sequer quando começa,
nem quais arpejos dança aquela chama,
que sapateia côncava, convexa!

EM - SEGUNDO LIVRO DOS SONETOS - JOSÉ LUIZ MELO - NOVOESTILO

sexta-feira, 7 de junho de 2019

As primas - JOSÉ LUIZ MELO

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO PELO AUTOR

Nos dias de domingo, em nossa sala
da casa patriarcal, era um alvoroço
das tias e das primas na mandala
formada em torno à mesa, após o almoço.

E dispostas ao léu, noutra antessala,
se estendem as convivas. Perfumoso
aroma de café embala a fala,
enquanto a língua prova um licoroso.

A tarde ainda é criança, e bem a noite
se espreguiçava ao longe, atrás dos montes,
rostos louçãs mostravam sua graça.

Porém, no tempo, o tempo e seus açoites,
fustigavam os rostos, vincam suas frontes,
que desidratam como as uvas passa.

EM - SEGUNDO LIVRO DOS SONETOS - JOSÉ LUIZ MELO - NOVOESTILO

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Cabeça tonta - JOSÉ LUIZ MELO

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
Saibam mais do projecto conexões neste link

Conheçam a IN-FINITA neste link


Florbela Espanca, 1894/1930
“Amar”
“Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente”.

Em qual lugar no peito habita uma alma,
em que canto onde sonha, onde é que sente?
− Se sente como a gente, ou apenas mente,
sim, verdadeira/mente, a face calma.

Este jeito que fala... Nem se sente,
qual voz que entoa o canto; nessa fauna
milagrosa de faunos indecentes,
num verso venenoso que me acalma. 

A vida é muito tempo, e por enquanto
deslumbra o amor, matreiro, seu encanto
transforma em imortal o passageiro.

Depois, na vida afora, é um faz de conta,
e não se sabe na cabeça tonta,
se o juramento é falso ou verdadeiro.


EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS - ANTOLOGIA - IN-FINITA

terça-feira, 29 de maio de 2018

Absorta - JOSÉ LUIZ MELO

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
Saibam mais do projecto conexões neste link

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Foi de repente, − vi, você surgiu,
quando não mais julgava que viesse
com tanta pressa. O véu então se abriu,
como se a noite, enfim, amanhecesse.

Estrelas gorjeando, − o que se ouviu,
quando beijei seu rosto. Se perdesse
o céu, nada perdeu, quem possuiu
azul maior que o céu, se merecesse.

Hoje, quando um verão explode fora
da janela, em minha alma, nesta aurora,
um outono zangado bate à porta.

Insiste para entrar; eu distraído, e
mouco à aldrava bater com alarido,
meu pensamento em si, minha alma absorta.

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS - ANTOLOGIA - IN-FINITA

sábado, 25 de novembro de 2017

Almocreve - JOSÉ LUIZ MELO

A noite vai bem alta, mas o sono
não chega numa nuvem de algodão.
Numa cesta de vime, no abandono
deito, sob o telhado da amplidão.

Mas eu confesso que me emociono,
pela contigüidade com o chão,
me puxa para si, como meu dono,
não posso resistir à compulsão.

Eu não sei realmente se não devo,
se quero resistir a esta união,
ou se devo amoldar-me ao seu relevo,

com ele compartir o mesmo pão,
se somos alimária e almocreve,
filhos do mesmo pai, somos irmãos.

EM - LIVRO DOS SONETOS, DOS PRIMEIROS AOS PENÚLTIMOS - JOSÉ LUIZ MELO - NOVO ESTILO EDIÇÕES DE AUTOR

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Desenguiço - JOSÉ LUIZ MELO

Mudei apenas a perspectiva
com que encaro a vida frente a frente,
sem deixar margem para invectiva,
sequer pestanejar,rapidamente

dar minhas costas. Atitude altiva
de quem seu rumo toma,indiferente,
às palavras que seguem compassivas,
enquanto outras murmuram acremente.

Eu não sei que vantagem ganho nisso,
ou se apenas eu fiz um desenguiço,
livrar-me de um feitiço abrasador,

de sempre procurar a minha estrela,
mais distante, de fora da janela,
quando lhe tinha sob o cobertor.

EM - LIVRO DOS SONETOS, DOS PRIMEIROS AOS PENÚLTIMOS - JOSÉ LUIZ MELO - NOVO ESTILO EDIÇÕES DE AUTOR

domingo, 5 de novembro de 2017

Hibisco - JOSÉ LUIZ MELO

Possa o amor com seu jeito, sua artimanha,
mudar esta maneira em lhe querer,
um possessivo amor na insegurança,
deste medo diário em lhe perder.

Vai me dizer: - Amor, é uma estranha,
interesseira forma em bem-querer.
Na eternidade não se vê tamanha,
infinita vontade de viver.

Chega um momento que no Paraíso,
surpreendendo, sem nenhum aviso,
no jardim,entre as rosas,um hibisco,

impaciente busca um novo aprisco,
e logo seu estame fica inquieto,
tocado pelos lábios de outro inseto.

EM - LIVRO DOS SONETOS, DOS PRIMEIROS AOS PENÚLTIMOS - JOSÉ LUIZ MELO - NOVO ESTILO EDIÇÕES DE AUTOR

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Geleia - JOSÉ LUIZ MELO

Da janela do meu apartamento,
situado num prédio, numa esquina,
de quatro ruas, em um cruzamento,
de lá percebo sombras pequeninas.

Vê-las, somente com lente de aumento,
como um bando de larvas, tão franzinas,
quem sabe,inseto, em busca de alimento,
na azáfama da festa natalina.

Elas rejuntam suas chanfraduras,
sem que possa entrever uma criatura,
na mancha que escurece o calçamento.

Esta geléia, sempre se dilui,
na enorme multidão que logo flui,
sem nada interromper seu movimento.

EM - LIVRO DOS SONETOS, DOS PRIMEIROS AOS PENÚLTIMOS - JOSÉ LUIZ MELO - NOVO ESTILO EDIÇÕES DE AUTOR 

domingo, 15 de outubro de 2017

Dito popular - JOSÉ LUIZ MELO

Não tem pressa nenhuma esta maré,
que passa todo o mês num vaie vem,
joga tudo o que tem num cabaré,
muitas vezes também o que não tem.

Enquanto vamos nós, na boa fé,
de valsar na maré, dança, porém,
não se sabe dizer no rodapé,
se pisamos ou não, o pé de alguém.

Assim, sigamos nós, fazemos figa,
e também prometendo À sorte amiga,
que finalmente vãos merecê-la,

se nesta vida alguém perde o telhado,
nas noites estivais, do seu sobrado:
- Irá ganhar um céu, cheio de estrelas!

EM - LIVRO DOS SONETOS, DOS PRIMEIROS AOS PENÚLTIMOS - JOSÉ LUIZ MELO - NOVO ESTILO EDIÇÕES DE AUTOR

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Penitência - JOSÉ LUIZ MELO

O silêncio me chega de mansinho,
com mil cuidados em não me acordar,
do sonho que não sonho se sozinho,
sem seu amor para compartilhar.

Porque na alma me rói devagarinho,
de leve para não me machucar,
a falta que me fez do seu carinho,
lhe ouvir, no telefone, me falar.

Nem pergunto o porquê da abstinência,
sei bem porque, não é uma impressão,
que este amor, minha doce penitência,

na margem dos setenta da existência,
me desperta do sono o coração,
e exala arpejos de concupiscência.

EM - LIVRO DOS SONETOS, DOS PRIMEIROS AOS PENÚLTIMOS - JOSÉ LUIZ MELO - NOVO ESTILO EDIÇÕES DE AUTOR

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Sangue azul - JOSÉ LUÍZ MELO

Entre o cajado e o alfanje o meu pescoço
oscila em ziguezague na incerteza:
Se o pau esmaga e vem antes do almoço,
a espada chegará na sobremesa.

Mas ninguém há de ver que sou medroso,
meu sangue azul escorre sobre a mesa
da festa nupcial,em um treloso
desejo de soltar-se de mão presa

numa outra mão que fecha e que se agarra,
lugubremente prende e que se amarra
a um castiçal tão cego como o coice,

que a mula branca deu no meu fantasma,
agonizando num acesso de asma,
metamorfoseado numa foice.

EM - LIVRO DOS SONETOS, DOS PRIMEIROS AOS PENÚLTIMOS - JOSÉ LUIZ MELO - NOVO ESTILO EDIÇÕES DE AUTOR

sábado, 16 de setembro de 2017

Vento leste - JOSÉ LUIZ MELO

Havia um corpo de mulher boiando,
naufragado no mar e insubmerso,
no balanço das ondas balançando,
sem gravidade, solto no Universo.

Mas, houve um vento leste que soprando,
O corpo-morno-amor em bruma imerso,
na praia calva o trouxe flutuando,
nos afagos da tarde submerso.

Então, a carne mansa se fez alga,
(água salgada), e a alga fez-se areia,
E areia alva fez-se pedra e mágoa.

Depois,na mesa, a imagem se fez ceia,
De puríssimas almas e arrecifes:
- As pupilas e os cílios do Recife.

EM - LIVRO DOS SONETOS, DOS PRIMEIROS AOS PENÚLTIMOS - JOSÉ LUIZ MELO - NOVO ESTILO EDIÇÕES DE AUTOR

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Magreza das palavras - JOSÉ LUIZ MELO

Cravaram-te na carne pontiagudo
aço-salgado que não tinha fim,
e tua alma enforcaram num segundo,
tuas noites jogaram num jardim.

E não deram escolha, nem teu sim,
nada se ouviu: - ignoraram tudo!
Teu suor,teus rumores,tudo enfim,
E te escavaram como um poço agudo.

Depois, te revestiram duma teia
delicada de rendas e de veias,
azulando teu rosto e o que lavravas.

De ti, deixaram só, uma dor sedenta,
Um gesto de gemido que alimenta,
Lembranças, e a magreza das palavras.

EM - LIVRO DOS SONETOS, DOS PRIMEIROS AOS PENÚLTIMOS - JOSÉ LUIZ MELO - NOVO ESTILO EDIÇÕES DE AUTOR