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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

A pedra - António Ramos Rosa

A pedra é bela, opaca,
peso-a gostosamente como um pão.
É escura, baça, terrosa, avermelhada,
polvilhada de cinza.
Contemplo-a: é evidente, impenetrável,
preciosa.

EM - POESIA PRESENTE - ANTÓNIO RAMOS ROSA - ASSÍRIO & ALVIM

domingo, 22 de fevereiro de 2026

O grito claro - António Ramos Rosa

De escadas insubmissas
de fechaduras alerta
de chaves submersas
 e roucos subterrâneos
onde a esperança enlouqueceu
de notas dissonantes
dum grito de loucura
de toda a matéria escura
sufocada e contraída
nasce o grito claro

EM - POESIA PRESENTE - ANTÓNIO RAMOS ROSA - ASSÍRIO & ALVIM

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Louvar - António Ramos Rosa

Louvar
após o longo apagamento do crepúsculo
o que se tinha recolhido no silêncio
e é o ar que ascende
com a respiração das árvores.

EM - POESIA PRESENTE - ANTÓNIO RAMOS ROSA - ASSÍRIO & ALVIM

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

O círculo, a pedra do mundo - António Ramos Rosa

O círculo, a pedra do mundo
o gozo do claro despertar
a lenta existência do igual
o que está sempre velando adormecido
eterno nas suas veias de silêncio.

EM - POESIA PRESENTE - ANTÓNIO RAMOS ROSA - ASSÍRIO & ALVIM

sábado, 7 de fevereiro de 2026

Em qualquer parte um homem - António Ramos Rosa

Em qualquer parte um homem
discretamente morre.

Ergueu uma flor.
Levantou uma cidade.

Enquanto o sol perdura
ou uma nuvem passa
surge uma nova imagem.

Em qualquer parte um homem
abre o seu punho e ri.

EM - POESIA PRESENTE - ANTÓNIO RAMOS ROSA - ASSÍRIO & ALVIM

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Dizem que é jardim - António Ramos Rosa

Dizem que é jardim
porque repousa

E diz-se também que se ilumina
em pausas
repentinas

Mas que dizer da trama
em movimento?

Que dizer do vento?
Que se prepara o incêndio
aqui na folha

EM - POESIA PRESENTE - ANTÓNIO RAMOS ROSA - ASSÍRIO & ALVIM

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Quem fala - ANTÓNIO RAMOS ROSA

Quem fala
não sou eu
é o outro o que me expulsou
da concha do meu sol

É ele que caminha nos meus passos
e eu olho-o e esqueço-o
Quem pode suportar em reflexo?
Quem pode viver contra o seu duplo?

Eu digo eu ainda
mas sou eu que declino
sou eu que caio
com a ferida do sol que ele me arrancou

EM - NUMA FOLHA LEVE E LIVRE - ANTÓNIO RAMOS ROSA - LUA DE MARFIM

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Alguns chamam-lhe pássaro ou peixe - ANTÓNIO RAMOS ROSA

Alguns chamam-lhe pássaro ou peixe
é um prazer simples mas intenso
está à mão e a própria mão o modela
não se está no mundo
ou o mundo é o sossego de uma brisa
o ténue gorjeio de um pássaro

É doce e subtil o formigueiro
no interior do retesado dardo
com uma ponta redonda
e que em redonda e rescendente duração
flui

Até que
uma gota surge da sua fenda
e a boca bebe-a
como a essência salgada do universo

EM - NUMA FOLHA LEVE E LIVRE - ANTÓNIO RAMOS ROSA - LUA DE MARFIM

quarta-feira, 5 de março de 2014

Nas pedras e nas sílabas - ANTÓNIO RAMOS ROSA

Nas pedras e nas sílabas
se esconde um escorpião
que nunca é abolido
na sua minúscula sombra

Se a palavra precede os lábios
e prova que o mundo existe
alguém sem dizer diz
que essa verdade é incerta

Mas quando a língua é incapaz
de formar uma só palavra
é necessário o ritual de um relâmpago
para não morrer completamente

Para além das fanfarras dos risos
amo esse quintal de espinhos
onde deixei tombar sobre os excrementos
a minha coroa de frágeis sílabas

EM - NUMA FOLHA,LEVE E LIVRE - ANTÓNIO RAMOS ROSA - LUA DE MARFIM

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Ó prisioneira... - ANTÓNIO RAMOS ROSA

Ó prisioneira de um imóvel pássaro
e teu reino é branco sob uma coroa de silêncio
o teu nome é a tua própria respiração
O teu quarto é uma imagem mas é também uma pedra
As tuas pálpebras são irrigadas pelas falanges da chuva
Num lado tu desvias e separas
no outro situas e reúnes
A íris escuta sob a íris
o horizonte divisa-se através das árvores
os círculos esvaziam-se dos seus nomes
o vazio multiplica os elos do vazio

EM - DELTA/PELA PRIMEIRA VEZ - ANTÓNIO RAMOS ROSA - QUETZAL

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Há um pouco de sol... - ANTÓNIO RAMOS ROSA

Há um pouco de sol como uma arma tranquila
tenho os dedos enamorados sobre a página
Sinto os arbustos do mar de cor vermelha
A ligeireza do ar e a dura densidade
formam frescas verdades numa sala feliz
Um anjo terrestre ou só a mão alada
respira nas paredes e no solo como um desejo
que para nós voltasse o rosto transparente
Com o rumor do sono a mão enamorada
reconhece nas formas a suave aridez
que atravessa as portas brancas desta página

EM - DELTA - ANTÓNIO RAMOS ROSA - QUETZAL

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Daquele lugar...* - ANTÓNIO RAMOS ROSA

Daquele lugar onde a sombra é lisa
desmoronado respiro
as pétalas de argila Abro-me
à concavidade do início
na lenta consciência das plantas
Pelas janelas de sombra se alonga a inocência
Tudo se salva no animal mais flexível
de ribeiros frágeis se forma um caudal brando
E a brisa pára sobre a água imóvel
e o reconhecimento é a expansão propícia
que reúne a concha à espiral da sombra
e as idades mistura na fábula do presente

EM - DELTA/PELA PRIMEIRA VEZ - ANTÓNIO RAMOS ROSA - QUETZAL

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Era um fosso...* - ANTÓNIO RAMOS ROSA

Era um fosso talvez com flores e urtigas
e toda a paciência minuciosa do mundo
Havia no fundo a estática transparência
que se dourava num tranquilo azul
A ausência era visível como uma torre invertida
Ó subterrâneo perfume entre o zumbir de abelhas!
Pertencíamos ao tempo e às cisternas do silêncio
Estávamos ali misteriosamente densos
numa residência sem pena no absoluto
de um redondo sossego enamorado

EM - DELTA/PELA PRIMEIRA VEZ - ANTÓNIO RAMOS ROSA - QUETZAL

terça-feira, 5 de abril de 2011

Pela graça...* - ANTÓNIO RAMOS ROSA

Pela graça que tem tão subtil
vê-la é ver o branco iluminar o tema
que não havia nem latente nem abstracto
como se apenas se abrisse o leque
da página que em si subisse a uma alta estância
E quanto se diz é produzir o acto iluminante
que faz ser visto o movimento de estar vendo
a animação silenciosa de um vazio navio
que é só feito do vento de não haver mais nada
do que o estremecimento do silêncio na palavar

EM - DELTA/PELA PRIMEIRA VEZ - ANTÓNIO RAMOS ROSA - QUETZAL

quinta-feira, 31 de março de 2011

Por vezes a boca...* - ANTÓNIO RAMOS ROSA

Por vezes a boca e o horizonte comunicam
longínquos mas sobre a mesma mesa
e da espessura do sono a melodia
levanta-se na glória de uma sala transparente
E tudo está presente em vermos da varanda
o ébrio sossego dos longos voos das aves
ou a tranquilidade dos rebanhos de arbustos
que nas encostas sobem até ao cimo azul
Reencontramos assim a nitidez do nascimento
e o canto das sílabas brancas e o corpo intenso
no seu ritmo de júbilo em ser o pleno espaço

EM - DELTA/PELA PRIMEIRA VEZ - ANTÓNIO RAMOS ROSA - QUETZAL

terça-feira, 22 de março de 2011

Há um pouco de sol...* - ANTÓNIO RAMOS ROSA

Há um pouco de sol como uma arma tranquila
tenho os dedos enamorados sobre a página
Sinto os arbustos do mar de cor vermelha
A ligeireza do ar e a dura densidade
formam frescas verdades numa sala feliz
Um anjo terrestre ou só a mão alada
respira nas paredes e no solo como um desejo
que para nós voltasse o rosto transparente
Com o rumor do sono a mão enamorada
reconhece nas formas a suave aridez
que atravessa as portas brancas desta páginas

EM - DELTA/PELA PRIMEIRA VEZ - ANTÓNIO RAMOS ROSA - QUETZAL

sábado, 12 de março de 2011

Ó prisioneira...* - ANTÓNIO RAMOS ROSA

Ó prisioneira de um imóvel pássaro
e teu reino é branco sob uma coroa do silêncio
o teu nome é a tua própria respiração
O teu quarto é uma imagem mas é também uma pedra
As tuas pálpebras são irrigadas pelas falanges da chuva
Num lado tu desvias e separas
no outro situas e reúnes
A íris escuta sob a íris
o horizonte divisa-se através das árvores
os círculos esvaziam-se dos seus nomes
o vazio multiplica os elos do vazio

EM - DELTA /PELA PRIMEIRA VEZ - ANTÓNIO RAMOS ROSA - QUETZAL

quarta-feira, 2 de março de 2011

O ignorante absoluto...* - ANTÓNIO RAMOS ROSA

O ignorante absoluto o imóvel nómada
no imponderável acorde da deriva da terra
com as velas do sangue voltadas para o mar
na incendiada inércia da sombra como um fruto
ouve o único canto que nunca se repete
e os lúcidos animais acaçapados
por detrás de arbustos invisíveis
A sua lucidez é o abandono às marés sem margens
e a sua sabedoria uma distracção que o conduz ao centro

EM - DELTA/PELA PRIMEIRA VEZ - ANTÓNIO RAMOS ROSA - QUETZAL

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

São objectos da noite...* - ANTÓNIO RAMOS ROSA

São objectos da noite nos limites da luz
Sombras e palavras em confusas massas
areias ervas ondas e números sementes
alfabetos e entre os cabelos flutuantes
uma cabeça verde Uma espécie de pele
forma um volume azul de contornos negros
Mas o cego que gira no centro de uma roda
restabelece o vazio e a brancura perfeita
Aí se concentram todos os fios da trama
e nela o tranquilo sono de uma estrela

EM - DELTA/PELA PRIMEIRA VEZ - ANTÓNIO RAMOS ROSA - QUETZAL

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Agreste eclosão...* - ANTÓNIO RAMOS ROSA

Agreste eclosão entre os órgãos de argila
e os navios brancos de inércia deambulante
à luz da pedra vêem-se os rumores
e o ouro e o verde da serena fluidez
Sem pálpebras é o alvo na longínqua paisagem
A palavra segue a sombra cintilante
da serva das serpentes. O insignificante
é o repouso insular nas toalhas do vento

EM - DELTA/PELA PRIMEIRA VEZ - ANTÓNIO RAMOS ROSA - QUETZAL