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terça-feira, 20 de julho de 2021

Evanescente - IZILDA BICHARA

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
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Minhas gatas morreram todas de velhas
meu pai também morreu de velho
e minha mãe está velha e cheia de dores
meus irmãos, amigos, eu mesma
estamos todos cada vez mais velhos
envelheceram meus amores
morreram de velhos
ou de desamor

Flores nascem todos os dias
algumas duram apenas poucas horas
há as que renascem a cada ano
até que param de brotar
gosto de flores e de gente
gosto de muita gente
mesmo de quem não conheço
de quem conheço gosto mais

Minhas filhas estampam
as cores e o viço que rareiam em mim
buscam fazer do mundo
um lugar que tenha eco para outras vozes
e eu me renovo nelas
meus netos correm pela casa alegres
e me fazem murchar mais devagar
provam que a vida
pode escorrer de um jeito bonito

Em meio a flores e amores
mais e mais me sinto evanescente
bolha de sabão
prestes a estourar
um balão vermelho
a escapar no vento
presa por um fio
num eterno instante
sigo adiante, adiante

É esse o meu espanto
é esse o meu encanto

EM - MULHERIO DAS LETRAS NA LUA - COLECTÂNEA - IN-FINITA

sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

Tantas - IZILDA BICHARA

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
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Em mim uma criança dança descalça
na sala
toma sol num sofá-praia
quer sair para brincar
Uma velha prende a criança
em casa
peço que tenha modos
a vida é perigosa
há um vírus à espreita

Quero silêncio para ler e escrever
mas me distraio com os chamados da velha
já tomou o seu remédio?
precisa beber mais água
e o lixo, já tirou?

Às vezes, acordo animada
planejo aspirar os quartos, lavar cozinha,
banheiros
mas logo volto a dormir.
A velha então me chacoalha, limpeza acima de tudo
passo cloro nos sapatos
álcool em gel nas maçanetas
e higienizo biscoitos

Em algumas manhãs raras,
caminho cinco mil passos
de uma parede a outra
às quartas, mexo na terra
faço bolos, bolinhos e pão
sigo cursos inusitados
troco lâmpadas queimadas
derrubo a panela de arroz

Por chamada de vídeo, a mãe conversa com a filha,
a filha cuida da mãe, a avó brinca com o neto,
a amiga consola a outra
Foto feliz nos stories
unhas pintadas
pijama

À noite, uma grande cama
vazia e cheia de sonhos
estranhos
Sendo uma, à própria sorte,
a driblar saudade e medo
Somos tantas.

EM - PANDEMIA DE PALAVRAS - COLECTÂNEA - IN-FINITA

sexta-feira, 24 de maio de 2019

Poema do desalento - IZILDA BICHARA

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Neste dia, um poema.
Um só poema,
que pede para ser escrito,
que pede para ser o grito
das vozes que nunca falam,
dos estômagos vazios,
das crianças sem escola,
daqueles que dormem nas ruas,
daqueles que morrem de frio,
dos que se escondem no medo,
dos que madrugam nas filas,
das mulheres espancadas,
dos inocentes tombados.
Um poema sem futuro
àqueles a quem tanto faz,
já que não têm amanhã.
Nem hoje.
Nem nunca.
Neste dia, um poema.
Só este poema-grito.
Um poema silencioso,
sem rima, sem esperança.
Um poema sem poesia.

EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL (POESIA) - ANTOLOGIA - IN-FINITA