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quinta-feira, 26 de junho de 2025

Ao páramo celeste (Soneto hendecassílabo) - Iran Lobato de Andrade

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Após estertor da morte insana,
Falência orgânica da lei fatal,
Aparto-me da derme e plasma letal,
E o umbilical, à gestão microbiana.

Desnudo a irreal vaidade humana,
Acendo a chama para o transcendental.
Com a alma liberta da larva mortal,
Vislumbro o local do eterno nirvana.

Sacrário lirial onde a musa aparece
Em forma de prece, fulgura e enobrece
Num coral de anjos e no de arcanjos,

Onde o estro do vate o verme não come,
Declamo risonho os versos helenos
No alto parnaso rimando pra Vênus.

EM - COUSA AMADA 2 - COLETÂNEA - IN-FINITA

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Tédio - IRAN LOBATO DE ANDRADE

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Soneto Inglês alexandrino

Se teu olor vir no tédio que a mim se hospeda,
A saudade amiga vem morar comigo
Atenuando uma aflição que medra
E transforma em mel o travo do castigo.

Não crês se a ti confessar o infausto amigo
Que o fado da tua ausência ao tino enreda
Por termo aos meus ais sob um ermo jazigo,
Rendido ao peso do teu coração de pedra...

O meu penar é grave, igual um sino ao longe
Que tange o cavo réquiem do passamento,
E no passado tangeu o peito do monge
Que casto, enclausurou-se por teu encantamento.

- Então cismo, - por que afinal não me queres?...
- Quiçá ainda exista amor no coração das mulheres

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS III - ANTOLOGIA - IN-FINITA

domingo, 17 de fevereiro de 2019

Lua dos meus encantos - IRAN LOBATO DE ANDRADE

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Ah lua de andar lento que no éter clareia,
Camélia prateada e luz que me insinuam
Anelos de amores que no céu flutuam
Nas rimas dos meus versos quando és nova e cheia.

Ah lua que no alto despida passeias
Exibindo a todos tua face nua
E não percebes, ó despudorada lua,
Meus ciúmes as insólitas visões alheias.

Ah lua nova, e cheia de fazes vulgares
Feita amantes nas esquinas sem pudores.
A induzir incautos com falsos glamoures...

Com tua nudez que é a razão dos meus males,
No átrio do universo a escutar meus cantos,
Afaga com teus beijos meus cabelos brancos.

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS III - ANTOLOGIA - IN-FINITA

sábado, 16 de fevereiro de 2019

Boi, boi, boi, boi da cara preta - IRAN LOBATO DE ANDRADE

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Para minha neta Ana Luiza

Ser avô vai além de um coração valente.
Cabe-me o ofício de te ninar
Nas rimas que o estro às deixem poetar
As canções do passado que minh’alma sente.

Quiçá meus versos fossem flores, de repente
A envolverem em um manto a perfumar
E o som do violão nostálgico a tocar
Quando dormes o teu sono inocente...

Dorme, que a caminhada será aguerrida
Para alcançar o cobiçado encanto
Da coroa de louro ou palma de acanto...

E ao ver-te assim formosa e adormecida
Quisera eu saber se os sonhos teus
Foram os mesmos, quando na infância, os meus...

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS III - ANTOLOGIA - IN-FINITA

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Vigília - IRAN LOBATO DE ANDRADE

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No suor doloroso de um sonho medonho,
Vens vagando as verdes várzeas vespertinas
Por todo horto e solidão das campinas,
Aonde a morte conduz um rebanho tristonho.

Na procura entre as cruzes em abandono,
Oro à paz dos mortos sob’as casuarinas,
Ouço o cantochão em funéreas surdinas
Nos alvos vasos de rosas murchas no outono.

Sob os ciprestes que o olhar envereda,
Um marmóreo aprisco entalhado na pedra
Vela teu sono com angelical ternura...

A nostalgia invade, a alma se inspira,
E dependuro a alquebrada e muda lira
Na solidão da cruz da tua sepultura.

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS III - ANTOLOGIA - IN-FINITA