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domingo, 5 de março de 2023

Glaciais Correntes d’água - TECA MASCARENHAS

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GLACIAIS CORRENTES D’ÁGUA
represadas no fugidio tempo das entremarés
agora me percorrem as finas veias
e circum-navegam minhas lacunas
transportam barcos fantasmas carregados de crepúsculos
e semiesquecidos tesouros ofuscados pelo tempo
fios de pérolas enredados nas velas controlam os ventos
enquanto a cintilância das algas esboça o caminho

ainda que a memória persiga brisa suave e complacente
pelo bem-querer à poesia da calmaria
eternas ondas insistem na inesgotável revinda
a um outrora de desenlaces e nostalgia

ainda que a lembrança teime em atrair sons de oboé
estão cegas as janelas
e nenhuma escuta nutre esse desejo
oxidado num espelho que reflete o inapagável

mas a alma permanece em vigília a esperar consolação
e o caudal entorpecido desagua turvo em minhas retinas
já cansadas de tanta singradura

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS VII - COLECTÂNEA - IN-FINITA

quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

Eu não sei - TECA MASCARENHAS

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EU NÃO SEI
se a melodia do mar cabe numa concha
ou se as retinas podem guardar um eclipse
mas sei que a minha memória não alcança
romper o silêncio que antecipa o vento
sorver o aroma da tua respiração
e seguir o rumor dos teus passos deixados na areia

não sei onde estás
agora que as estrelas imergiram em quietude
e a Via Láctea sinaliza um invisível caminho
— se em Marte Delfos ou Eldorado
abraçado ao esqueleto de algum violoncelo intangível
dormindo sob um céu de saudade ou apagamento

ou quem sabe
meu pensamento não te procure em vão
e como a nascente que se esconde na palavra sede
faz verter o canto da mulher apaixonada
ele enfim te encontre feliz da vida
no bico de um pássaro ou nas asas de um peixe-voador
se embebedando de liberdade e zombando do amor

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS VII - COLECTÂNEA - IN-FINITA

domingo, 6 de março de 2022

Quinhentos mil barcos sulcam (poema inacabado) – TECA MASCARENHAS

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QUINHENTOS MIL BARCOS SULCAM
o mar dos meus olhos já corroídos de tanto sal
velas brancas como mortalhas embalam
as quinhentas mil almas que vogam à deriva
e quinhentas mil lanternas ardentes
sinalizam os desenlaces
nos suplícios das solitárias separações
sem despedidas
 
quinhentas mil velas reluzentes como fogo fátuo
se incrustam feito cravos em minhas retinas
indeléveis marcas de inimagináveis e devastadores
tempos de guerra
que vitima desarmados soldados-heróis
e deixa quinhentos mil nomes amados
escritos a fogo nos desolados corações remanescentes
 
– que se colham dos bosques das campinas
das montanhas das colinas
quinhentas mil flores das mais belas
quinhentas mil camélias e quinhentas mil papoulas
quinhentos mil lírios e quinhentas mil calêndulas
quinhentos mil miosótis e quinhentas mil açucenas
quinhentas mil rosas e quinhentas mil violetas
quinhentos mil jasmins e quinhentas mil verbenas
quinhentas mil flores das mais belas
 
– que se clamem aos quatro ventos que dispersem
sobre os quinhentos mil barcos
esse véu de lágrimas perfumadas
e envolvam em diáfano bálsamo
as quinhentas mil almas dizimadas
e cada um dos seus quinhentos nomes
reverenciando a memória das intempestivas mortes
 
para que enfim sigam seu destino
até o mar do infinito sideral
onde à espera jazem ancoradas
outras centenas de milhares de estrelas...

EM - VERSO & PROSA - COLECTÃNEA - IN-FINITA

domingo, 19 de dezembro de 2021

Ainda há tempo - TECA MASCARENHAS

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AINDA HÁ TEMPO
de encontrar ‘a alma perdida’
aos poucos
nas curvas do caminho
cobri-la de úmidas heras
e conservá-la viva junto ao coração

um coração sem alma só geme
não pulsa
e uma alma sem coração só voa
não pousa

sempre é possível juntar alma e coração
e viver-se inteiro
ainda que o tempo passe célere
feito tempestade
que os amores se transformem
feito nuvens
que a memória empalideça
feito afresco

- A lembrança de amor
sempre será um pouco de amor...

EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL (POESIA) - COLECTÃNEA - IN-FINITA

sábado, 20 de fevereiro de 2021

Feito um Borges - TECA MASCARENHAS

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FEITO UM BORGES
terei que quebrar as palavras
com minhas próprias mãos
para falar desse tempo de trevas
aos que ainda não nasceram

vestir-me de luto
baixar os olhos
cobrir os espelhos
acalentar os anjos de colo
e silenciar o voo dos pássaros

semear as palavras despedaçadas
no côncavo dos cântaros
onde os dias amedrontados se escondem
e protegê-las dos abutres
vorazes por almas aladas

ainda que cada noite seja um poço sem fundo
e remanesça inescrutável a mensagem do mar
ainda que os deuses se finjam de cegos
e se encolham de paúra
as crianças as mulheres e os homens

aos que vislumbrarão o amanhã
escreverei na pele
com o sangue dos mortos
a indelével história de hoje
macerada de solidão ausência e saudade

traduzida em soturnas memórias
de oásis de fraternidade
em vazios abissais
e de adeuses cibernéticos
anuviados de lágrimas factuais

enquanto o escárnio dos insensíveis
lança cal sobre os túmulos
e seu desprezo dança com os fantasmas
escancara-se a desumana face
e em esgares de gozo
vilipendia a dor dos amores destroçados

- escrevo, ainda que jamais se consiga
decifrar a linguagem do Mal

EM - PANDEMIA DE PALAVRAS - COLECTÂNEA - IN-FINITA

segunda-feira, 30 de novembro de 2020

O tempo, sorrateiro - TECA MASCARENHAS

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O TEMPO, SORRATEIRO
me faz algum favor
subtrai-me d’alma
o desapreço ao estranho
e o medo do escuro

se permaneço
ou desvaneço
já não floresce no peito
a inquietude

são ganhos os dias
em que o amor
me acolhe e alegra
o mais é menos
e no vai e vem das marés
navego

nenhum deus me guia
ou está à minha espera

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS V - COLECTÂNEA - IN-FINITA

segunda-feira, 16 de novembro de 2020

Ainda que incrédula das metafísicas - TECA MASCARENHAS

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anuncio que é chegada a hora de rezar
pelo Homem

nas profundezas dessa mata
catedral das divindades
abrigada na sombra permanente
da abóbada de vetustas árvores
isolada em meio a musgos
folhas e cipós

aqui onde a voz humana não penetra
e a noite nunca termina
eu me desnudo dos sonhos
e das asas

abraçada a rizomas ancestrais
bebo a água intocada da nascente
me irmano aos bichos
falo a língua dos pássaros
e me alimento dos frutos da terra
sou filha da natureza

para sempre distante de outra
humanidade
acastelada em nome do amor
doravante meu verso ecoará
num infinito fractal

na busca dos insondáveis corações dos
seres
-- sagrado mantra universal --

e despida de qualquer vestígio
de inocência ou culpa
reflorescerei rumo à centelha cósmica
que me levará ao Samadhi

EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL (POESIA) - COLECTÂNEA - IN-FINITA

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Se não navego - TECA MASCARENHAS

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SE NÃO NAVEGO
naufrago em terra firme
e o barro inclemente a me envolver
terá alento de morte

uma nuvem de pó
cegará meus olhos indóceis
e minh’alma cativa do tempo
se desolará feito um deserto

minha boca sequiosa
de palavras pulsantes
beberá a seiva acridoce das árvores
e minha língua calada
abraçará primitivas raízes

até quem sabe
num dia de outono
na pausa das folhas
exalando à flor
nasçam meus versos
que o vento despetalará
- poetizando meu nome

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS II - ANTOLOGIA - IN-FINITA