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segunda-feira, 2 de agosto de 2021

Por mim - ALICE VIEIRA

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
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só por mim
sem o fantasma absurdo a renascer em ódios
sem o estertor do luar a esmagar-me na teia
sem a voz insensível no adeus adiado

só por mim
e não pelo possível nenúfar a chorar-me nos olhos
ou o mar desmedido a inundar-me os braços
ou a paz desenhada no meu corpo mole

só por mim
           terra esquecida

com o teu olhar perdido sobre a lama

EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL (POESIA) - COLECTÃNEA - IN-FINITA

domingo, 12 de abril de 2020

Todas as noites são a mesma noite - ALICE VIEIRA e JOÃO DORDIO


LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Nesse tempo o teu olhar limpava o que
lá por fora me garantia que tudo havia
de terminar depois das sete da tarde
ao ritmo de elevadores e portas fechadas

deixavas a mão no meu peito
e murmuravas tudo está por dentro
das palavras que não dizemos
e o silêncio é uma arma tão frágil que
só pode ser servido em copos de cristal

depois adormecias e eu sabia
que havias de sonhar com
as escadas que já não conseguias subir e a voz
que dentro de ti gritava
todas as noites são
a mesma noite

Nesse tempo os teus lábios sonhavam
porque eu deixava que eles sonhassem
pelos teus olhos que tudo miravam
para me encontrarem à saída da alma pelo corpo

Deixavas os teus lábios nos meus lábios
e todas as conversas passavam a ser para dentro
tal como todos os sonhos que tínhamos de dia
ficando a noite para os nossos brindes
de copo em corpo derramado pele na pele

A noite tinha-nos à sua disposição
com candeeiros de estrelas em abajures galácticos
que mantinham as palavras e o desejo
de sermos amantes eternos
pelas noites que são a mesma noite
quando nos amamos mesmo de mente...

Mas pela noite chega a aragem que me traz
o lugar certo de todas as coisas
do teu corpo das flores largadas à entrada
não, não, a noite há-de ser outra noite
e nunca mais a mesma
senão
que diríamos a quem nos perguntasse
que fizeste da tua vida?

E pela alvorada chegam os chilreares
e os primeiros raios de sol a espalhar sombras
pelos objectos perdidos e pelas paisagens
distraídas ainda pelos olhares e pelas letras
que as descrevem
e a noite terá mesmo que ser outra noite
com outra história
com uma nova vida...

EM - DUETOS DORDIANOS - COLECTÂNEA - IN-FINITA

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Cantiga - ALICE VIEIRA

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verde a árvore que me prende e rasga os olhos
verde o corpo sem raízes que te dou
verde o afago sem nome que me dói
verde o dia sem cor que me deixaste

EM - DE ESTARMOS VIVOS - ALICE VASSALO PEREIRA (ALICE VIEIRA) - IN-FINITA

sábado, 24 de agosto de 2019

Programa - ALICE VIEIRA

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sem luar de ocasião
sem ruas decoradas nos passos indiferentes
sem promessas de sol para o corpo dorido
sem flores de lágrimas nas despedidas lentas
sem palavras iguais a escorrerem silêncio
sem medo das noites que amanhã vão surgir

EM - DE ESTARMOS VIVOS - ALICE VASSALO PEREIRA (ALICE VIEIRA) - IN-FINITA

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Saudade - ALICE VIEIRA

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estes dias sem asas na cidade inquieta
este grito sem voz abafado em sorriso
este amor sem palavras que dói
               nos olhos
               nas mãos
               nas cadeiras vazias

estas lanças de fogo
ávidas de fontes
                       e de ti

EM - DE ESTARMOS VIVOS - ALICE VASSALO PEREIRA (ALICE VIEIRA) - IN-FINITA

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Despojos - ALICE VIEIRA

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ninguém sabe que nos nossos olhos
ainda existe uma canção que pede gritos
terra
vento
areia
ainda existe um poema perfeito
de água
de fogo
de granito
ainda existe um último luar que exige
corpos
cio
primavera

ninguém sabe que nos nossos olhos
ainda existe a solução do dia seguinte

EM - DE ESTARMOS VIVOS - ALICE VASSALO PEREIRA (ALICE VIEIRA) - IN-FINITA

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Distância - ALICE VIEIRA

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que importa a hora
                  o aviso
                  o muro

se antes de eu ter falado de esperança
já tu cantavas no fundo dos meus dias
e entre nós e o luar
havia apenas o rumor glacial do nevoeiro
a saudade intempestiva dum corpo saciado

que importa o sangue
                  o grito
                  o ódio
se o lume ardente é a única verdade
a tropeçar no ritmo dos teus dedos

EM - DE ESTARMOS VIVOS - ALICE VASSALO PEREIRA (ALICE VIEIRA) - IN-FINITA

domingo, 4 de agosto de 2019

Pórtico - ALICE VIEIRA

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nunca te direi as palavras essenciais
que buscam no tempo incerto
a mensagem incompleta do poeta desconhecido

nunca te darei o meu corpo inteiro e verde
                    nas manhãs de girassóis
                    nas nuvens claras
                    nos horizontes de cravos
                    nos espelhos serenos

nenhum sinal de lírios na boca de quem passa

apenas o segredo
duro e hermético
à flor do peito na cidade estranha

EM - DE ESTARMOS VIVOS - ALICE VASSALO PEREIRA (ALICE VIEIRA) - IN-FINITA

domingo, 28 de julho de 2019

Lamento - ALICE VIEIRA

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se eu um dia gritar todo o meu cansaço
       todo o meu desespero
       sufocado no peso ancestral de lágrimas paradas
       para não perturbar o sono dos homens felizes
hão-de ver que é de raiva o meu lamento
       por não ter asas para poder quebrar nos olhos espantados
       dos meninos que me não entendem
       por ter de ficar imóvel na praia ambicionada
       perpetuamente moribunda
       coberta pela bandeira universal do sangue

hão-de ver que é de raiva o meu lamento

(ou se preferem
de amor)

EM - DE ESTARMOS VIVOS - ALICE VASSALO PEREIRA (ALICE VIEIRA) - IN-FINITA

terça-feira, 23 de julho de 2019

Canção para um segundo abril - ALICE VIEIRA

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hei-de voltar contigo à terra do silêncio renovado
a escorrer
              morno
dos lírios das nossas mãos unidas

encheremos os olhos de raízes verdes
e as palavras de sangue
serão apenas o murmúrio original
dos rios que vão surgir
sob os nossos dedos

saberemos que é dia
e que o sol vai nascer pela primeira vez

EM - DE ESTARMOS VIVOS - ALICE VASSALO PEREIRA (ALICE VIEIRA) - IN-FINITA

quinta-feira, 18 de julho de 2019

Primeira folha dum diário esquecido - ALICE VIEIRA

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hoje
prometi amar
como se a minha ternura bastasse para justificar
as cruzes
             as tempestades
                                  o cansaço

e aquele menino a soluçar perdidamente
             no meu silêncio

EM - DE ESTARMOS VIVOS - ALICE VASSALO PEREIRA (ALICE VIEIRA) - IN-FINITA

sábado, 13 de julho de 2019

Prelúdio - ALICE VIEIRA

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perdidos        encontrados
na cidade indiferente de chamas e loucura
esperámos o navio sem nome
no porto pressentido
do nosso desencanto

encontrados         perdidos
no ritmo magoado das paisagens iguais
fomos no horizonte descoberto
um véu de esperança
                              de orvalho
                              e de maresia

esgotado no espaço
apressado no tempo

EM - DE ESTARMOS VIVOS - ALICE VASSALO PEREIRA (ALICE VIEIRA) - IN-FINITA

segunda-feira, 8 de julho de 2019

Canção para Florbela - ALICE VIEIRA

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em cada olhar inventaste
o olhar que envelhecia as tuas noites
e encheste de ti
a solidão da charneca

(afinal a torre de marfim
tinha muros de lama e de calcário
e as aranhas prendiam
o teu corpo de terra)

torturaste a boca
com medo que o teu choro perturbasse
o convívio dos deuses paternais

e descobriste
que não valia a pena esperar mais

EM - DE ESTARMOS VIVOS - ALICE VASSALO PEREIRA (ALICE VIEIRA) - IN-FINITA

quarta-feira, 3 de julho de 2019

Poema da nossa despedida - ALICE VIEIRA

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hoje seremos loucos
        dolorosamente loucos

por isso te digo
as doces palavras interditas
soluçadas no último poente de dedos ansiosos

por isso te digo
o amor sufocado amanhã
mas hoje vivo no meu corpo habitado de esperas inúteis

por isso te digo
a saudade desflorada em noites lentas
no rasto aberto dum grito
mascarado de esperança fugitiva

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sábado, 29 de junho de 2019

Canção perdida - ALICE VIEIRA

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repousei nos teus olhos
o abandono sereno do meu corpo
e falei de flores
para que o silêncio
se afogasse no lago dos teus braços

havia um deus tresmalhado
em cada frémito de amor
e as constelações desnudavam-se
desamparadamente
no meu seio

(foi de calma ou de espanto
que calei a dor dos meus segredos
no teu sorriso?)

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segunda-feira, 24 de junho de 2019

Hoje quando amanhece - ALICE VIEIRA

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dantes
tudo era necessário

                          sol
                          boca
                          flor


                          na terra se encontravam
                          e se multiplicavam

e era urgente saber
o rumo que os esperava

hoje
já nada surpreende

                                e quando amanhece
                                já ninguém pergunta
                                porquê

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quarta-feira, 19 de junho de 2019

No movimento puro - ALICE VIEIRA

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no movimento puro dos teus dedos
no espanto do teu corpo
– a verdade é um país distante
              que amanhece

sobre os lagos tranquilos do silêncio
na penumbra do teu rosto
– o amor é uma ave transparente
              que permanece

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sexta-feira, 14 de junho de 2019

Aos meus amigos direi - ALICE VIEIRA

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aos meus amigos distantes
direi que a noite tinha cactos e espinhos
e horas sem regresso

aos meus amigos perfeitos
direi que o cansaço e a loucura
povoavam docemente de medo a minha face

aos meus amigos saudosos
direi que era preciso um longo amor
para esperar ainda

aos meus amigos verdadeiros
direi o resto

EM - DE ESTARMOS VIVOS - ALICE VASSALO PEREIRA (ALICE VIEIRA) - IN-FINITA

domingo, 9 de junho de 2019

Instante - ALICE VIEIRA

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amanhece o meu rosto

e o pássaro encerrado na minha voz de carne
acalma ao pressentir que nos meus olhos
o teu rosto anoitece

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terça-feira, 4 de junho de 2019

De estarmos vivos - ALICE VIEIRA

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havia sol no meio dos teus cabelos
e restos de mar na paisagem quieta

havia a voz magoada
a falar de amanhã
e a recordação da infância
com os porquês absurdos
a que ninguém respondeu

havia uma lembrança vaga de navios distantes
nas palavras que nos roubaram

                e no mais fundo de nós
                o espanto inesperado
                de estarmos vivos

EM - DE ESTARMOS VIVOS - ALICE VASSALO PEREIRA (ALICE VIEIRA) - IN-FINITA