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quarta-feira, 24 de abril de 2019

Viver ao relento - FRANCISCO SILVA


LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA EDITORA

Vivo na rua sem opção.
Tenho a lua como companheira
Duas pedras da calçada como travesseira
E os cartões da loja como colchão.

Estendo a mão a pedinchar.
Sou humilhado e escorraçado
Raramente sou acarinhado
Até um reles cigarro custa cravar!

Para os passantes sou invisível.
Sou um ser vil e desprezível.
Não existo nem ali estou,
Só eu sei como tudo começou

Maldito patrão que me despediu;
Maldita esposa que me enxotou;
Maldito pó alvo que me consumi;
Maldita sorte que me abandonou...

EM - III CONCURSO LITERÁRIO - ANTOLOGIA - EDIÇÕES VIEIRA DA SILVA

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Crenças - FRANCISCO SILVA

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA EDITORA
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Nossa Senhora me ajude
Todas as noites a adoro
Rezo para me dar saúde
E para dormir seguro

Rezo para ter comida
Para agradecer aquela manta
As palavras trocadas que dão vida
E que sinta que nada me falta

Rezo para algo divino me proteger
Rezo para arranjar trabalho e merecer
Rezo para ter forças de viver
Rezo para a minha mulher me acolher

Rezo a Nossa Senhora com fé
Para que me acolha no seu seio
Rezo para a minha alma se aguentar de pé
Fugir ao inferno e a um lugar no céu feio

Sou católico mas podia ser ateu
Podia ser muçulmano ou judeu
Hindu ou budista
Sou o que sou sem ser fundamentalista

EM - RIMAS AO RELENTO - FRANCISCO SILVA - EDIÇÕES VIEIRA DA SILVA

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Leituras - FRANCISCO SILVA

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA EDITORA
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Desde pequeno que gostei de ler
Em casa devorava os livros e revistas
Os jornais e pasquins e as suas tretas
Mas também os clássicos para aprender

Agora na rua, leio o que posso
O que apanho no lixo ou me dão
Leio tudo no meu canto com atenção
À luz mortiça da montra cor de osso

De dia sou rato de biblioteca
É o meu único prazer
Entro ao abrir e até fico sem comer
Mesmo quando me dá a fomeca

Só saio quando as portas fecham
Queria ler mais, mas não deixam
Vivo na rua mas continuo a gostar de ler
O resto... bem o resto suporta-se, há que sobreviver

EM - RIMAS AO RELENTO - FRANCISCO SILVA - EDIÇÕES VIEIRA DA SILVA

sábado, 2 de fevereiro de 2019

Artesanato - FRANCISCO SILVA

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA EDITORA
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Faço babetes, guardanapos e bordados
Não porque goste mas por necessidade
Moro na rua com outros desamparados
E aí o dinheiro é uma preciosidade

Faço por encomenda ou por atacado
No sítio onde à noite fico deitado
Aproveito os restos de pano e fio do lixo
Para devagarinho fazer um lindo bordado

Quando posso vou vender algures na cidade
Fazer dinheiro para me alimentar e dormir
Quando tenho algum vou à taberna curtir
Quando não tenho choro de raiva na intimidade

Queria deixar o raio das linhas e agulhas
Ser dono de teares maravilhosos
Viver sem estes esquemas manhosos
Ter uma vida de rico sem agruras

Mas quando?
Só quando Deus me levar para outras finuras

 EM - RIMAS AO RELENTO - FRANCISCO SILVA - EDIÇÕES VIEIRA DA SILVA

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Ruídos - FRANCISCO SILVA

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Maldito barulho da cidade
Carros, carros e mais carros
O barulho não escolhe idade
Nem deixa ouvir os pássaros

O barulho não me permite descansar
Até parece que os ouvidos vão rebentar
Fico com a cabeça a latejar
E os olhos a quererem chorar

Busco sossego onde o não há
Procuro a paz que a noite traz
Só sei que a vida assim não dá
Cheia de ruído que nada satisfaz

Indago onde mora a tranquilidade
Talvez lá ao longe naquela imensidão
Será que lá encontrarei a felicidade
De o ruído ser apenas uma ilusão

Não sei nem quero saber
Só me resta viver

EM - RIMAS AO RELENTO - FRANCISCO SILVA - EDIÇÕES VIEIRA DA SILVA

domingo, 13 de janeiro de 2019

Insónia - FRANCISCO SILVA

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Não consigo adormecer
Durmo cada vez menos
Estarei a envelhecer?

Não consigo dormir
Estou sempre alerta
Vejo a minha vida ruir
Até o sonhar me desperta

Quando a rua fica deserta
Encosto o esqueleto na pedra
Mantenho a mente alerta
Logo qualquer ruído me desperta

Maldito sono sem o ser
Preciso descansar para viver
Senão... vale mais morrer

EM - RIMAS AO RELENTO - FRANCISCO SILVA - EDIÇÕES VIEIRA DA SILVA

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Verão - FRANCISCO SILVA

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Verão estação do calor
A melhor estação do ano
Visto como um espartano
Vejo as mulheres bonitas
Principalmente as turistas
Os dias são maiores e melhores
As ruas estão animadas e sem lama
Os bancos de jardim servem de cama
Arruma-se carros sem drama
Verão estação do amor
Verão estação do calor
As dádivas de dinheiro são maiores
As insónias são menores
Os engates acontecem
Os namoros sucedem
A aparência melhora
E o melhor de tudo
Sou olhado de outra maneira
Deixo de estar estigmatizado
E passo a ser uma pessoa porreira

EM - RIMAS AO RELENTO - FRANCISCO SILVA - EDIÇÕES VIEIRA DA SILVA

domingo, 30 de dezembro de 2018

Pedinte - FRANCISCO SILVA

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Sento-me naquela movimentada esquina
Cruzo as pernas e faço cara triste
Tiro o copo da sacola com a mão cretina
Estico o braço em riste

Pouco a pouco as moedas vão caindo
A minha alma vai sorrindo
Todos os dias os mesmos rituais
E os benfeitores... esses são os habituais

Também sou roubado, insultado e pontapeado
Por gandulos e chulos sem coração
Às vezes pela miudagem que não dá opção
Roubam, fogem e como correm, meu irmão!

Mesmo assim nada me abala a pedir
Se assim não for não mato os vícios
Ah, mas eu peço sem mentir
Ao contrário dalguns estropícios

EM - RIMAS AO RELENTO - FRANCISCO SILVA - EDIÇÕES VIEIRA DA SILVA

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Ladrão 2 - FRANCISCO SILVA

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Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão
Fiquei à espreita e quando tive ocasião
Gamei um cobertor e um édredon bem grandão
Pirei-me rapidamente com eles escondidos na mão

Escondidos... Salvo seja
Até eram bem visiveis
Meti debaixo dos cartões frágeis
Espero que ninguém veja

À noite quando me deitar
Desejo que ainda lá estejam
Quero dormir e ressonar
E também continuar a sonhar

Sonhar que sou um bom ladrão
E que Deus me dê o perdão

EM - RIMAS AO RELENTO - FRANCISCO SILVA - EDIÇÕES VIEIRA DA SILVA

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Ladrão - FRANCISCO SILVA

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Apesar da camaradagem e união
Às vezes acontece algo não desejado
Ninguém quer a visita de um ladrão
Mas hoje fui eu o contemplado
As mantas, os cobertores e o meu transistor
Quando cheguei encontrei só o local
Nada escapou das mãozinhas do amigo do alheio
Chorei pelo transistor apesar de antigo e feio
Jurei vingança, mas contra quem?
Outro mendigo como eu mas desonesto
Bolas, podia roubar quem muito tem
Mas tive de ser eu, um desamparado honesto
Cuecas, meias e as calças novas também levaram sumiço
O cabrão do ladrão foi fino como um alho
Deixou os cartões e os sacos com os trapos num molho
Mas soube levar o cobre e chumbo inteiriço
Semanas de trabalho levaram sumiço
Filho da puta até o vinho levou
Mas as sandes e o frango deixou
Deve ser um drogado agarrado
Talvez até tenha sido roubado
Seja que for, por mim está perdoado

EM - RIMAS AO RELENTO - FRANCISCO SILVA - EDIÇÕES VIEIRA DA SILVA

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Dor - FRANCISCO SILVA

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Tenho uma grande dor
Dor por não ter ninguém
Encaro o futuro com temor
Será que voltarei a ser alguém?

Naquela casa fui muito feliz
Tinha tudo o que queria
E uma vida que não merecia
Falhei o suicídio por um triz

Recuperei e fugi de casa
Afastei-me de família e amigos
A rua acolheu-me nos seus abrigos
E eu comecei a ter um grãozinho na asa

Tenho uma grande dor
Uma dor que me consome o peito
Nem sei dormir com jeito
A minha vida é um horror

EM - RIMAS AO RELENTO - FRANCISCO SILVA - EDIÇÕES VIEIRA DA SILVA

domingo, 18 de novembro de 2018

Patrão - FRANCISCO SILVA

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Naquele dia, tal como nos outros
Estava de fato e gravata
Atrás da secretária, recebia os louros
Era um verdadeiro burocrata

Agia como um magnata
Mandava em todos como um diplomata
Também sabia ser tecnocrata
Mas... na verdade sentia-se aristocrata

Muitas vezes era um verdadeiro ditador
Agia como dono e senhor
Prepotente... Gélido, sabia ser agressor
Mas nunca guardava rancor

O dinheiro gastava em  mulheres e carros
Às vezes com jóias, férias e cavalos
Tinha gostos refinados e caros
Nunca deixaria de amá-los

Só que no melhor momento
Acordei encharcado em suor
Continuava na rua, parado no tempo

EM - RIMAS AO RELENTO - FRANCISCO SILVA - EDIÇÕES VIEIRA DA SILVA

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Saudade - FRANCISCO SILVA

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Bateu-me forte a saudade da família
Lembranças dos filhos e da mulher
Até a sogra não consigo esquecer
Nem do padre e a sua homilia

Sinto saudades da comida caseira
Dos acolhedores serões à lareira
Das discussões que levam à parvoeira
Dos beijos no meio da maluqueira

Sinto saudades da minha antiga vida
Bem bom que não sabem da minha vida de rua
Nunca confessei a minha situação sofrida
Tenho vergonha que saibam a verdade crua

Falta também a coragem para dizer que tenho SIDA
Mas esse segredo vai morrer comigo
Tenho saudades do tempo antigo
Não queria morrer sem recuperar a minha vida

EM - RIMAS AO RELENTO - FRANCISCO SILVA - EDIÇÕES VIEIRA DA SILVA