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terça-feira, 22 de março de 2016

Auto-retrato - RUY BELO

Estado civil casado
nacionalidade portuguesa
triste se alegre e sorridente quando triste
muito mais egoísta se se veste de altruísta
chefe só de família olhar cansado
calva prometedora e tendência obesa
à beira dos quarenta anos de idade
e ajoujado ao peso de vários passados
tímido e trágico e capaz de crueldade
tanta quão tamanho o arrependimento
temendo hoje não tanto já fazer o mal
como fazer algumas ou pior uma só vítima
incoerente e instável ora dado a bons bocados
como logo açoitado pelos ventos dos cuidados
poeta para mais por condição
homem que só pensar sabe afinal fazer
que vive a arte o amor a vida até como destruição
digam vossas mercês como devia ele ser
pois sempre assim seria inútil mesmo renascer

EM - TODOS OS POEMAS III - RUY BELO - ASSÍRIO & ALVIM

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Poema do burguês na praia - RUY BELO

Há mãos de mãe sobre a seara
que às três da tarde ondula no seu gesto
Já tudo tem um rosto
e o amor de que ele gasta resto

O mar faz-lhe lembrar um cego horizontal
de olhar embaciado

Veio de lisboa para o seu passado
está de acordo com tudo

EM - TODOS OS POEMAS VOL. I - RUY BELO - ASSÍRIO & ALVIM

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Na morte de Nicolau - RUY BELO

José maria nicolau fugiu. Quem o apanha?
Nunca ele pedalou tanto como agora
Decerto vai chegar antes da hora
A etapa era decisiva e está ganha

Ele que várias vezes deu a volta a portugal
deu desta vez a volta a quê? Talvez à vida
A alguns anos já da primeira partida
fugiu. Tudo se torna agora mais real

Que média fez num terreno tão mau
É tudo serra custa muito subi-la
Deixem que eu vista a camisola amarela
ao grande corredor josé maria nicolau

EM - TODOS OS POEMAS VOL. I - RUY BELO - ASSÍRIO & ALVIM

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Fundação de Roma - RUY BELO

Grande te chamo cidade. Ainda há
o espaço em ti de um domingo
para as folhas caírem
Talvez até
com o gládio do espírito eu possa
rasgar à tua volta um areal de silêncio
onde o sol ilumine os cristais dos meus dias

jerusalém é o teu nome cidade

EM - TODOS OS POEMAS I - RUY BELO - ASSÍRIO & ALVIM

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Homem de grandes dias - RUY BELO

E a cal casa de cada qual

Tens as orelhas brancas
longa é a lança que dos olhos lanças
És tu e tens mistérios de mulher
ó breve ó longo
Faço percebes horas
Há muitos pés pela cidade
Oh [longo] és possível
elefante branco visto em África
E não há mais ninguém

EM - TODOS OS POEMAS I - RUY BELO - ASSÍRIO & ALVIM

domingo, 10 de março de 2013

Uma vez que já tudo se perdeu - RUY BELO


Que o medo não te tolha a tua mão
Nenhuma ocasião vale o temor
Ergue a cabeça dignamente irmão
falo-te em nome seja do que for

No princípio de tudo o coração
como o fogo alastrava em redor
Uma nuvem qualquer toldou então
céus de canção promessa e amor

Mas tudo é apenas o que é
levanta-te do chão põe-te de pé
lembro-te apenas o que te esqueceu

Não temas porque tudo recomeça
Nada se perde por mais que aconteça
uma vez que já tudo se perdeu

EM - TODOS OS POEMAS I - RUY BELO - ASSÍRIO & ALVIM

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Breve sonata em sol[um] (menor, claro) - RUY BELO

A solidão da árvore sozinha
no campo do verão alentejano
é só mais solitária do que a minha
e teima ali na terra todo o ano
quando nem a chuva ou vento já lhe fazem companhia
e o calor é tão triste como o é somente a alegria
Eu passo e passo muito mais que o próprio dia

EM - TODOS OS POEMAS II - RUY BELO - ASSÍRIO & ALVIM

domingo, 14 de outubro de 2012

Das coisas que competem aos poetas - RUY BELO

Nas terras onde os sinos andam pelas ruas
há horas surdas sós e sem cuidados
há mar condicionado ao possível verão
e vendem-se manhãs e mães por três ideias
Nas terras onde a música é o fogo de artifício
a camioneta curva a carga sob os plátanos
e à sombra dos lacrimejantes carros
o gato dorme a trepadeira sobe
o soba grita nunca ninguém sabe
a erva cresce e as crianças morrem
O mar aceita chão a mão do sol
Que plural deplorável o da magna agência mogno
E nas tílias há riscos dos vestidos do retintas raparigas
e o dente resistente número quarenta cheira a pepsodent

EM -  TODOS OS POEMAS II - RUY BELO - ASSÍRIO & ALVIM

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Na praia - RUY BELO

Raça de marinheiros que outra coisa vos chamar
senhoras que com tanta dignidade
à hora que o calor mais apertar
coroadas de graça e majestade
entrais pela água dentro e fazeis chichi no mar?

EM - TODOS OS POEMAS II - RUY BELO - ASSÍRIO & ALVIM

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

O valor do vento - RUY BELO

Está hoje um dia de vento e eu gosto do vento
O vento tem entrado nos meus versos de todas as maneiras e
só entram nos meus versos as coisas de que gosto
O vento das árvores o vento dos cabelos
o vento do inverno o vento do verão
O vento é o melhor veículo que conheço
Só ele traz o perfume das flores só ele traz
a música que jaz à beira-mar em agosto
Mas só hoje soube o verdadeiro valor do vento
O vento actualmente vale oitenta escudos
Partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto

EM - TODOS OS POEMAS II - RUY BELO - ASSÍRIO & ALVIM


sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Aos homens do cais - RUY BELO

Plantados como árvores no chão
ao alto ergueis os vossos troncos nus
e o fruto que produz a vossa mão
vem do trabalho e transparece luz

Nenhum passado vale o dia-a-dia
Sonho só o que vós me consentis
Verdade a que de vós só irradia
- Portugal não é pátria mas país

EM - TODOS OS POEMAS II - RUY BELO - ASSÍRIO & ALVIM

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Gaivota I - RUY BELO

A tão difícil paz facilmente alcançada
a máxima inquietação ao fim e ao cabo queda
a serenidade em duas curtas asas resumida
em corpo tão pequeno a vida toda
a voz da ambição afinal muda
perfeitíssima obra onde tudo se equilibra
- que assim se cubra quanto tanto se celebra
e uma chave só tal mundo abra a ninguém lembra

EM - TODOS OS POEMAS II - RUY BELO - ASSÍRIO & ALVIM

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Mas que sei eu - RUY BELO

Mas que sei eu das folhas no outono
ao vento vorazmente arremessadas
quando eu passo pelas madrugadas
tal como passaria qualquer dono?

Eu sei que é vão o vento e lento o sono
e acabam coisas mal principiadas
no ínvio precipício das geadas
que pressinto no meu fundo abandono

Nenhum súbito súbdito lamenta
a dor de assim passar que me atormenta
e me ergue no ar como uma folha

qualquer. Mas eu que sei destas manhãs?
As coisas vêm vão e são tão vãs
como este olhar que ignoro que me olha

EM - TODOS OS POEMAS II - RUY BELO - ASSÍRIO & ALVIM

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Relendo Daniel Filipe - RUY BELO

Desertar do céu deste inverno a andorinha
bem pouco diz talvez não o notar
Mas não a ver nem quando o sol domina
ilumina o seu voo sobre o mar
que terra tenho eu para mo perdoar?

EM - TODOS OS POEMAS II - RUY BELO - ASSÍRIO & ALVIM

sábado, 4 de agosto de 2012

As impossíveis crianças - RUY BELO

Nesta manhã de outono dos primeiros frios
mais a caminho da velhice que da minha casa
eu vejo-vos em roda todas a cantar
Impossíveis crianças deixais-me brincar?

EM - TODOS OS POEMAS II - RUY BELO - ASSÍRIO & ALVIM

terça-feira, 24 de julho de 2012

Enterro sob o sol - RUY BELO

Era a calma do mar naquele olhar
Ela era semelhante a uma manhã
teria a juventude de um mineral
Passeava por vezes pelas ruas
e as ruas uma a uma eram reais
Era o cume da esperança: eternizava
cada uma das coisas que tocava
Mas hoje é tudo como um fruto de setembro
ó meu jardim sujeito à invernia
A aurora da cólera desponta
já não sei da idade do amor
Só me resta colher as uvas do castigo
Sou um alucinado pela sede
Caminho pela areia dêem-me um
enterro sob o sol enterro de água

EM - TODOS OS POEMAS II - RUY BELO - ASSÍRIO & ALVIM

segunda-feira, 28 de maio de 2012

O jogador do pião - RUY BELO


Faz rodar o pião redondo tudo em volta
Atira a primavera e recupera o verão
Terras e tempos - tudo assume esse pião
que rodopia e rouba o chão à folha solta

Rasga o espaço num gesto ríspido de vida
Reergue o braço a prumo, arrisca - nessa roda
possível de maçã ao muro - a infância toda
Tudo é redondo e torna ao ponto de partida

O sol a sombra a cal os pássaros os pés
o adro a pedra o frio os plátanos... Quem és?
Voltas? rodas? regressas? rodopias? - Nada

Mão do breve pião, levanta ao céu a enxada:
que a vida arrebatada aos demais olhos seja
ao comprido coberta pelo chão da igreja

E Abril traz o Senhor e até esse esquece
o operário inútil imolado à messe

EM - TODOS OS POEMAS VOL. I - RUY BELO - ASSÍRIO & ALVIM

sábado, 24 de março de 2012

Compreensão da árvore - RUY BELO

A tua voz edifica-me sílaba a sílaba
e é árvore desde as raízes aos ramos
Cantas em mim a primavera breve tempo
e depois os pássaros irão
povoar de ti novas solidões

E eu sentirei na fronte permanentemente
o sudário levemente branco do teu grande silêncio
ó canção ó país ó cidade sonhada
dominicalmente aberta ao mar que por fim pousas
na fímbria desta tua superfície

EM - TODOS OS POEMAS I - RUY BELO - ASSÍRIO & ALVIM

quarta-feira, 14 de março de 2012

Quanto morre um homem - RUY BELO

Quando eu um dia decisivamente voltar a face
daquelas coisas que só de perfil contemplei
quem procurará nelas as linhas do teu rosto?
Quem dará o teu nome a todas as ruas
que encontrar no coração e na cidade?
Quem te porá como fruto nas árvores ou como paisagem
no brilho de olhos lavados nas quatro estações?
Quando toda a alegria for clandestina
alguém te dobrará em cada esquina?

EM - TODOS OS POEMAS I - RUY BELO - ASSÍRIO & ALVIM

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Quadras quase populares - RUY BELO

Sei tão de cor estes dias
que a única emoção forte
seria ele vir até mim
do fundo da sua morte

Nua a cruz a mesa lisa
Na mínima paisagem
branco e redondo de coragem
quando couber no tempo agoniza

EM - TODOS OS POEMAS I - RUY BELO - ASSÍRIO & ALVIM