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quinta-feira, 27 de julho de 2023

Sirventês - Jorge Gomes Miranda

Já que falas disso, lembras-te
também da professora
da segunda classe, gentil e rara,
tratando como príncipes 
todos aqueles ranhosos?
O que diz agora a névoa
que cobre o rio,
ou certas ruas debruadas
a luz de granito?
Simples, tosca e soberana 
sirventês
a quem com um sorriso
nos tirava do nada.

EM - VELHOS - JORGE GOMES MIRANDA - TVR

sábado, 22 de julho de 2023

Levantou-se ao romper da alvorada - Jorge Gomes Miranda

Embirrenta, amarga,
até diante de uma criança
se mostrava seca,
incapaz de um agrado.

Fizesse chuva ou sol
não desarredava das suas lembranças,
quereres, recriminações.

Se me visse caída no meio da rua,
se calhar passava ao largo.
Bem capaz disso era ela.

EM - VELHOS - JORGE GOMES MIRANDA - TVR

 

segunda-feira, 17 de julho de 2023

Jardim - Jorge Gomes Miranda


Não um velho no jardim,
mas um jardim velho, cercado de
sombras sem memória
da luz, pedras gangrenadas
por palavras de renúncia,
vento turvo, aterrado - 
corpo na direcção do inverno,
apodrecidas sementes dentro,
quando o conheceste, mulher,
nem o leve brasido de chuva
vivia com ele.

EM - VELHOS - JORGE GOMES MIRANDA - TVR

quarta-feira, 12 de julho de 2023

Sementeira - Jorge Gomes Miranda


Com um garfo
separava
para uma saca de plástico
arroz,
pedacinhos de pescada,
carapaus, chicharro,
as espinhas deitava-as ao lixo.
O melhor do conduto
era sempre para os gatos.
Semelhante ao poeta
que guarda a parte maior
da sua vida,
as palavras,
para o leitor.

EM - VELHOS - JORGE GOMES MIRANDA - TVR

sexta-feira, 7 de julho de 2023

A regougar - Jorge Gomes Miranda


Alguém coloca diante de si uma malga
comer aquela mistela, quente
só água de caldo, sem carne alguma,
terá de ser.
Outrora insurrecto nos patamares da 
chuva, na ladeira dos sentidos,
de nada adianta amofinar-se agora.
Sem a anestesia da beleza nocturna,
seu é um corpo arpoado,
e regougar no vazio.
De resto, já no tempo das uvas americanas
principiava a correr um vento frio.

EM - VELHOS - JORGE GOMES MIRANDA - TVR

domingo, 2 de julho de 2023

O coro - JORGE GOMES MIRANDA


Hoje, as crianças do jardim de infância
foram visitar o lar de idosos;
acomodado nos sofás
ou em cadeiras de plástico
o coro da tragédia grega
a aplaudir e a chupar rebuçados.

No pequeno palco improvisado
a voz, uma rosa
ofertada aos rabugentos,
resmungões,
os mais difíceis de aturar.
"Certo dia o semeador semeou muito trigo...
nasceu logo a sementeira..."

EM - VELHOS - JORGE GOMES MIRANDA - TVR

sábado, 2 de janeiro de 2016

Jantar de negócios - JORGE GOMES MIRANDA

Meios sorrisos,
três doses de fanecas,
água mineral,
cintos de segurança
à mesa.

Sancionando perdas e ganhos
em cada gesto.
Todos muito solenes
de gravata
no sexo.

EM - ESTE MUNDO, SEM ABRIGO - JORGE GOMES MIRANDA - RELÓGIO D'ÁGUA

domingo, 7 de setembro de 2014

Esta noite - JORGE GOMES MIRANDA

Não me fales como se eu estivesse só,
envolto em celofane,
qual uma angústia ou um riso.
Não me fales como se pelas ruas
da tua cidade de província
passasse uma companhia de circo itenerante
e eu fosse aquele que arruma os adereços
entre cada actuação.

Fala-me como se eu fosse um muro
no recreio da escola
e chegasses tu, spray na mão,
e o cobrisses de sinais, traços, nomes
obscenos.
Fala-me como se diante dos teus olhos
solares e teatrais
esta noite eu fosse o acrobata ou o domador de leões.

EM - ESTE MUNDO, SEM ABRIGO - JORGE GOMES MIRANDA - RELÓGIO D'ÁGUA

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Depois da tempestade - JORGE GOMES MIRANDA

Veio para casa como de costume
pousou a carteira e ele não estava.
Nessa noite colocou mais um cobertor na cama
não repetindo para si própria:
"vai ficar tudo bem."

A cidade era um brinquedo,
um livro de colorir
a chuva misturou umas cores
a angústia e a decepção outras.

Depois da tempestade
com uma toalha enxuta
e um secador eléctrico
a cabeça fica como nova?

EM - ESTE MUNDO, SEM ABRIGO - JORGE GOMES MIRANDA - RELÓGIO D'ÁGUA

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Secundária - JORGE GOMES MIRANDA

Fui ter com ela e perguntei-lhe:
Que se passa com o teu irmão?
Dantes andava às caçadinhas,
fanava a eito, levava tudo à murraça.
Agora fica no quarto o dia todo
a ler e a escrever,
feito um desses reguilas de sacristia.
Se não o conhecêssemos de catraio
já lhe tínhamos desadoçado a voz.
Ele e a professora
com a mania das palavras caras:
sensibilidade, sublime, poesia.
Vê lá mas é se falas com ele!

EM - VELHOS - JORGE GOMES MIRANDA - TEATRO DE VILA REAL

terça-feira, 19 de março de 2013

A manhã - JORGE GOMES MIRANDA

Na véspera de dizer o que fere,
reduz, interdita,
há uma manhã onde me sento,
rio, escrevo.
Tem a duração de uma infância
reconquistada,
e não vive sujeita a decretos-lei
ou ao pagamento de taxa
sobre os rendimentos fixos.

Há os que esperam
o percurso do lume
nos lábios
para cantar, a aclamação
dos corvos para compor.
Piores são aqueles que lançam cinzas
para mais tarde dizerem que
também eles atearam a fogueira.

Contempla, poeta, serenamente, os trópicos
e o círculo polar.

EM - ESTE MUNDO, SEM ABRIGO - JORGE GOMES MIRANDA - RELÓGIO D'ÁGUA

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

A missão - JORGE GOMES MIRANDA


Acamado,
guerreiro depois do combate,
o seu corpo que muitos golpes recebeu
apenas aceita hoje arroz branco, sopas de leite
e bolachas.
Ainda assim não cessa a sua cólera
por a sorte funesta lhe ter tirado tudo:
terras, bens, companheiros;
o primogénito num acidente de viação.

"Dêem-lhe um outro sedativo", diz o genro.
"Ainda Mais?", responde a filha.

Abruptamente, uma voz que só ele ouve
anuncia que muito em breve o deus
lhe destinará nova missão.

in... Velhos - JORGE GOMES MIRANDA - TVR

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segunda-feira, 19 de julho de 2010

A canção - JORGE GOMES MIRANDA


Amontoam-se caixas de cd's vazias
a teu lado, furiosamente.
Há mais de uma hora que procuras
uma canção
que o vento jurou não levar consigo.

A memória de uma noite límpida
instinga-te a continuar essa busca,
até que fatigado percebes que os fragmentos
da canção que ouves, logo passando à próxima,
são a única música que esta tarde ouvirás.

A outra que porventura te faria feliz
talvez nunca mesmo tenha existido
ou apenas na tua memória
tecida uma noite em que alguém partiu
ou te sentias particularmente sozinho.

in... Este mundo, sem abrigo - JORGE GOMES MIRANDA - Relógio D'Água

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