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sexta-feira, 20 de março de 2026

Estranhamente - Laurinda Rodrigues

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Saibam mais do projecto Conexões Atlânticas neste link
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Às vezes, estranhamente, o mal é belo,
é bela a insegurança e a inquietação…
Por que razão não quero e me rebelo
contra aquilo que parece ser em vão?

Afinal, se olhares bem, tudo está certo;
ninguém te prometeu algo diferente:
um outro que de ti estivesse perto
ou te envolvesse num abraço quente.

És sempre tu que, ao pensar, temeste
(até com medo de pareceres normal)
com tanta, tanta coisa, que prendeste
ao teu imaginário teatral.

Mas, se puderes olhar aquilo que passa
com a distância que vai da lua ao sol,
será apenas céu o que embaraça
o teu lindo cabelo… em caracol.

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS X - COLETÂNEA - IN-FINITA

sexta-feira, 6 de junho de 2025

Camões é Portugal - Laurinda Rodrigues

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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É no teu rosto, Portugal, que eu penso.
São os teus versos, Portugal, que eu escuto.
Contigo canto o teu cantar, suspenso.
Contigo choro o teu chorar, enxuto.
Leio-te a história de guerreiro ardente.
Relembro o sonho que deixaste um dia.
Olho, com o teu olhar, a fantasia
de um universo inteiro, à tua frente.
Contigo perco o que ganhaste, outrora.
Contigo ganho a solidez do nada.
E é com o teu corpo que construo a estrada
aonde acaba a noite e nasce a aurora.
Conheço o teu perfil, teu gosto a sal,
gosto bravio de marinheiro errante...
É em ti que eu aporto, Portograal,
a mensagem que trago do Levante.

EM - COUSA AMADA 2 - COLETÂNEA - IN-FINITA

quarta-feira, 9 de agosto de 2023

Confusa e quente - LAURINDA RODRIGUES

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Solta-se a raiva e a fusão persiste:
o livro ao canto e o canto na viola
Dizem que és o Outro mas que existe
como a ave que voa na gaiola.

As palavras fatais destroem tudo!
Que bom este silêncio feito mar,
cena de um filme de cinema mudo
onde os gestos passeiam devagar.

Voltas e ris, à beira do cinismo:
uma auréola de luz presa na boca.
Querias saber de mim? Eu sou abismo
mas – ai de ti! - quando me julgas louca.

Enrolo-me nos versos. Madrugada
de uma história poética e infantil…
Caminhando sozinha, sou a estrada
que leva apenas sonhos no cantil.

EM - AMANTES DA POESIA E DAS ARTES - COLETÂNEA - IN-FINITA

domingo, 25 de julho de 2021

Viagem - LAURINDA RODRIGUES

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Desço ao fundo de mim, ao inconsciente
onde dormem vivências esquecidas.
Sei que naquilo que sou já fui diferente
e que hei-de ser diferente noutras vidas.

Sou toda um Uni-verso entrelaçado
de peças materiais que vão expandindo.
Fico parada no imenso céu alado,
sentindo uma pulsão que está abrindo.

Meu outro Ser perdurará na luz
que me envolveu na terra feita em cruz
que não pode fugir ao seu destino...

Mas é aqui e agora que me habito:
mesmo que o sonho seja apenas mito,
a alma cantará, convosco, um Hino.

EM - TOCA A ESCREVER 2021 - COLECTÂNEA - IN-FINITA

sábado, 24 de julho de 2021

Caos - LAURINDA RODRIGUES

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Num mundo tão cruel e venenoso
não me condenem o culto da indiferença,
que não responda nunca ao mentiroso
e, ao maldoso, que use negligência.

Não quero acreditar em outra vida
nem desejo, sequer, reencarnar.
Não há sentido algum para ser querida
ou bem e glória que queira partilhar.

Não temo imaginar ir para o inferno
porque ele está aqui e é eterno
na arte de sangrar as nossas feridas...

alvez seja possível noutro espaço
porque o espaço solar está um cansaço
com ciclos de desgraças repetidas.

EM - TOCA A ESCREVER 2021 - COLECTÂNEA - IN-FINITA

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Dualidade - LAURINDA RODRIGUES

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
Saibam mais do projecto Mulherio das Letras Portugal neste link
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Onde estás, ó meu corpo desnudado?
Em que planeta deixaste os teus sentidos?
Já não ouço a voz de Deus na tempestade
nem a terra responde aos meus gemidos.

Quero sentir o frio de uma caverna
ouvindo o eco da voz dos animais,
reconhecendo em mim o que é eterno
antes de ser o fruto dos meus pais.

Grita-me o grito visceral na pele:
é meio cavalo alado e meio humano.
Uma parte deseja, outra repele,
num bailado taurino, mano-a-mano.

Sou de um tempo vivido, aprisionado
na lua negra, que pariu paixão.
É a vós que eu entrego a voz do fado,
para sentirem, no peito, o coração.

EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL (POESIA) - COLECTÂNEA - IN-FINITA

sábado, 25 de maio de 2019

Desaprendido - LAURINDA RODRIGUES

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA AUTORA
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Não ter brechas no meu corpo luminoso
Sem um modo impecável
Na fantasia e no ser

Vir ao mundo falar-vos de Saudade
E regressar
Para o nada que de tudo é feito

Aceitar as vossas queixas
Cântico
De passagem para o silêncio

Tudo deveria (pelo menos)
Ser desaprendido

EM - VERTIGENS DO SER - LAURINDA RODRIGUES - EDIÇÃO DE AUTOR

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Presente - LAURINDA RODRIGUES

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O face a face
Com os valores
Do dia a dia

As opções verdadeiras
Os sonhos

O poder ser assim
Ou ser diferente

Beber com alegria
O momento a momento

Rir-me de mim
E caminhar em frente

EM - VERTIGENS DO SER - LAURINDA RODRIGUES - EDIÇÃO DE AUTOR

domingo, 5 de maio de 2019

O espaço - LAURINDA RODRIGUES

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Atravessaste o espaço
Sem saberes
Qual a parte de ti
Que viajava

Ludovina sorria
Ludovina sonhava

Mas o espanto
Abria fendas
No ventre
Descoberto

Sabes mais do que pensas
Sabes como as crianças ao nascer

Vens de outro mundo
De luz
Para este mundo
De trevas
Atravessa atravessa atravessa

EM - VERTIGENS DO SER - LAURINDA RODRIGUES - EDIÇÃO DE AUTOR

domingo, 28 de abril de 2019

Análise - LAURINDA RODRIGUES

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II

... e, agora, ficou apenas o fluir do silêncio
sem medo, sem raiva
reconciliada com as raízes
reconhecendo tranquilamente a beleza da força
que, adentro do silêncio, foi sendo recriada
e a força
da beleza de amar assim talqualmente
a minha vida
e o meu silêncio

EM - VERTIGENS DO SER - LAURINDA RODRIGUES - EDIÇÃO DE AUTOR

quinta-feira, 18 de abril de 2019

Análise - LAURINDA RODRIGUES

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA AUTORA
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I

Esta noite sonhei finalmente contigo
e contigo sonhei inquietude finalmente
ficou o teu corpo a ter forma de corpo
e uma intencionalidade
nunca revelada
revelou-se;
tomei banho   sem saberes   na tua banheira
e, estranho do sonho, nem eu sabia que tomava...
mas vieste dizer-me que aquela era a tua casa
que eu estava em tua casa   porquê?

Aí a resposta acordou-me
(era mistura de desejo e de uma fragilidade
entontecida).

EM - VERTIGENS DO SER - LAURINDA RODRIGUES - EDIÇÃO DE AUTOR

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Lado a lado - LAURINDA RODRIGUES

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA AUTORA
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Trago, no meu silêncio, o teu silêncio;
No meu olhar, o teu olhar, parado
e trago, neste sonho, a que pertenço,
o teu sonhar, ainda atormentado.

Trago, no meu cansaço, o teu cansaço;
No gesto desta mão, a tua mão
e trago, no limite do meu espaço,
o teu espaço, aberto, de ilusão.

Mas - ai de mim! - como o mistério é breve,
quando, ao lado do meu, teu corpo leve,
desfeita a sensação, fica vazio...

Triste do Amor que é feito sem sentido
que, do mágico encanto já perdido,
é, apenas, anseio e desafio.

EM - VERTIGENS DO SER - LAURINDA RODRIGUES - EDIÇÃO DE AUTOR

quarta-feira, 27 de março de 2019

Neste canto - LAURINDA RODRIGUES

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Foi aqui, neste canto, que escrevi
os sonetos de amor e de alegria,
não pelo amor ou p'lo prazer, em si,
mas pelo estado de alma em que vivia.

Enquanto o tempo passa, nem o vejo:
é uma sensação de estar sem ter um fim,
sem ter, mesmo, um depois ou um desejo:
estar, apenas, comigo. Ser em mim.

Cresce, no céu, suave, o sol nascente.
Cresce mais, deslizando para poente,
imenso em força, imenso na beleza...

E é tão serena a terra: tem um alo
de subtil enlace... Quando falo,
responde-me o silêncio, a natureza.

EM - VERTIGENS DO SER - LAURINDA RODRIGUES - EDIÇÃO DE AUTOR

domingo, 17 de março de 2019

Fado - LAURINDA RODRIGUES

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA AUTORA
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Aqui vos deixo, sem paixão, sem medo,
Como um cego, que corre no vazio:
Não vendo nada, conhece-lhe o segredo,
Cheira-lhe o gosto e pressente o frio.

Não quer palavras, nem significados:
A sombra é sombra e a luz é luz.
No além da vida, não há mais pecados,
Ameaças de dor, símbolos de cruz.

Talvez por termos sido apenas gente,
Em forma de animais, mas consciente
De não podermos adiar a morte,

Ainda andamos para aqui atordoados
À deriva das luas e dos fados
Sem tomarmos, a pulso, a nossa sorte.

EM - VERTIGENS DO SER - LAURINDA RODRIGUES - EDIÇÃO DE AUTOR

quinta-feira, 7 de março de 2019

No espaço que deixaste - LAURINDA RODRIGUES

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA AUTORA
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No espaço que deixaste, minha Mãe,
no vazio que deixaste, no teu espaço,
nada há para preencher que saiba bem
nem bem que sejo bom para o meu cansaço.

Não são recordações que te dão vida.
O que te fiz, em vida, já é morte.
Fiquei assim confuso, assim perdida,
eu que, para toda a gente, sou tão forte.

Mas sei-te o olhar, aqui neste meu canto,
atento e preocupado, a querer dizer,
que não deixe da morte acontecer
o acontecer à vida desencanto.

EM - VERTIGENS DO SER - LAURINDA RODRIGUES - EDIÇÃO DE AUTOR