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segunda-feira, 11 de setembro de 2023

Sei - SANDRA RAMOS

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Conheçam a In-Finita neste link

Sei de mim e de Ti...,
sei as primitivas e as derivadas das palavras,
o soneto ondulatório das pautas musicais,
a ação gravítica do passional liquidado...!
Sei de Ti e de mim...,
sei a posição grave e aguda das estrelas polares,
as ligações duplas conectadas no centro abismal,
a mitigação do risco pandémico da Vida...!
Sei de nós...,
sei da pavorosa ilusão de Bocage,
da noite sem lua, do deserto sem água de Sophia,
dos poemas mais extensos e da cintilação das sílabas de Eugénio
de Andrade...!
Sei de vós...,
da escultura interdita do traço coerente,
do pincel incessante em busca da pedra grega de Orfeu,
da voz silenciosa cantante do pulsar de um fadista,
da prosa poética espelhada no rosto de um poeta!
SEI...,
porque sei... da vivência intemporal,
do 'el ascetismo Cristiano' assoberbado da dureza interina...!
SEI...,
Não me questionem o quê…,
Simplesmente... SEI!

EM - AMANTES DA POESIA E DAS ARTES - COLETÂNEA - IN-FINITA

sábado, 19 de agosto de 2023

Só porque hoje...! - SANDRA RAMOS

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Conheçam a In-Finita neste link

Apetece-me o tempero da tua especiaria,
provar o teu cálice adocicado,
despir-me ao som da sinfonia,
levitar-me num Tempo sem tempo.
Apetece-me colidir com os demais,
abraçar as palavras fatais,
repousar no teu ombro enamorado,
adormecer na candura do teu peito.
Apetece-me rasgar as intempéries,
exorcizar-me da extenuante felicidade,
adivinhar cada posição celeste,
encher as ruas desertas de licor.
Apetece-me... tanto...,
comemorar a minha liberdade,
acender as minhas horas de espasmos,
ofertar cada fragmento à leveza do meu Sentir...!
E só porque hoje me apetece...,
oferto-te o meu sorriso,
rompo os minutos que crescem em cada encontro,
embebedo-me com o teu paladar,
e... sou soberana dos instantes...,
dos nossos...,
excelsos estilhaços migratórios de prazer.
Só porque hoje...!

EM - EROTISMO E SENSUALIDADE - COLECTÂNEA - IN-FINITA

segunda-feira, 31 de outubro de 2022

Recolhe-te...! - Sandra Ramos

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Recolhe-te...!
Ordeno-te que te refundas,
segue o teu caminho áspero e vazio,
recuso a tua presença melancólica,
personagem assídua da laceração e distante.
Já "gritei" vai...!
Solta-me e deixa-me na minha vontade,
embrulhada no meu manto...!
Parte... o bilhete já o tens;
as indicações estão apreendidas,
almejo que não crucifiques outras almas,
porque - TU - és cruel e Alfa.
Já te disse... esgotei...
és malfadado, persona non grata;
maçã envenenada de um conto impiedoso,
bruxo temido de um pesadelo tenebroso.
Leva contigo o pior de Ti,
lembra-te de esqueceres de mim,
porque, finalmente, eis que chegou o teu Fim!

EM - TOCA A ESCREVER 2022 - COLECTÂNEA - IN-FINITA

domingo, 30 de outubro de 2022

Mulher, Mãe - Sandra Ramos

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Conheçam a In-Finita neste link

Mulher/Mãe em chamas, engolida pelas trevas do obtuso;
Mulher/Mãe silenciada por paradoxos condicionantes da sua existência
Imposição de antagonismos, resgatadores soberanos do seu direito
Violação deliberada de si, do seu leito... do seu respeito.
Mulher/Mãe, cujas palavras esfumaçam no vento vindo do Norte
Só apenas mais um rosto vazio, entre um mar de olhos adormecidos...
Uma Mulher, uma Mãe, esmagada, coagida a cedências abruptas
Vazia de objetivos na visão terrorista desumana
Invisível ao mundo novo apetrechado e tão distante de si.
Mulher/Mãe, à mercê involuntária do cumprimento da desumana ignorância
Esmagada na força e engolida pelo ódio machista, pela cólera ao mundo;
Mecanismos eloquentes de supressão à sua existência
De contaminação, de totalitarismos e de escravidão.
E, hoje, sou essa Mulher/Mãe;
Aprisionada num efeito paralisante
Por onde as minhas palavras se deslizam num circuito fechado.
Estou viva, e no massacre que me engole
Direi, gritarei e não deixarei de "dizer"
Que, no respirar da humanidade, amor ser Mulher/Mãe...!

EM - TOCA A ESCREVER 2022 - COLECTÂNEA - IN-FINITA

sábado, 29 de outubro de 2022

Estapafúrdia Segregação - Sandra Ramos

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Discriminadores sem pejo e guarida
Isentos de pedagogia e condutores críticos da incoerência
Sintomáticos de gritos de violência e praticantes da exclusão
Não tombam nem tão pouco sustentam em si a coesão.
Realidade social esgotante, onde proliferam vitimados e reivindicadores;
Ecos de gozo esvoaçam em ideais desalinhados e malícias discriminatórias
Expõem, em gritos de punição, os que conduzem para a praça pública;
Elegem o sopro do vento agonizante e cortante da injustiça.
Eis que os "vitimados" adormecem na solidão apaziguadora e exacerbada
Aniquilam os laços sociais outrora partilhados
e tornam-se invisíveis às exigências perversas
e desenfreadas, sem lei e sem norte;
Alimentam-se da frustração corrompendo ideais de vida
Colocam-se de joelhos numa covardia assumida e pretendida.
Sociedade estratificada, de desigual acesso e incoerente distribuição social;
Embutida em matrizes racistas, económicas e psicológicas;
Elemento inibidor da mobilidade social
Enferma, radical e totalmente anti cultural.
És doentia... assim grito por ti, julgas-te insana e capaz;
Mas, minha cara... és apenas uma feiticeira nascida na ilusão
de uma Estapafúrdia Segregação. 

EM - TOCA A ESCREVER 2022 - COLECTÂNEA - IN-FINITA

quinta-feira, 8 de setembro de 2022

Loba - SANDRA RAMOS

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Loba...
Companheira das noites frias,
chama queimante do indefinido,
leito derramado na febre do sabor,
doce enlace da gota do pudor.
Loba...,
das cartas sorvidas da ondulação,
guerreira absoluta das horas vazias,
louco ventre invocado no seu ser,
abrigo da tempestade do teu querer.
Loba...,
Devota no fervor do êxtase,
soberana da descoberta vigorosa,
senhora firme do íntimo dessentir,
alfa da noite dominante do teu dormir.
Loba…,
Imaculada mulher,
despida de ansiedade,
coberta de vontade,
senhora de si... refém da sua liberdade!

EM - TOCA A ESCREVER 2022 - COLECTÂNEA - IN-FINITA

quinta-feira, 1 de setembro de 2022

Pediste-me o Sol... SANDRA RAMOS

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Pediste-me o Sol, ofertei-te a Lua;
pediste-me um beijo, ofertei-te
um abraço;
pediste-me o colo, ofertei-te o embalo;
pediste-me a palavra, ofertei-te a melodia.
Soluçaste perdão, coloquei-o na tua mão;
Soletraste amo-te, pedi-te que 'não';
inferiste pesar, sentiste o meu pulsar;
imploraste clemência, dei-te a minha ausência.
Exigiste o exequível, pintei o meu abismo;
suplicaste o inatingível, desalgemei a minha liberdade;
exigiste o que não sou, parti sem resposta;
gritaste para voltar, viajei no meu soltar.
Pediste.... Pediste.... Pediste...,
nada ofertaste,
medíocre na exigência,
amante sem sacrifício,
figurante do Nada...!

EM - ALMA DE POETA, ALMA INQUIETA - COLECTÂNEA - IN-FINITA

sexta-feira, 19 de agosto de 2022

Eu...! - SANDRA RAMOS

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
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Na ousadia que me assiste, fico em silêncio;
aromatizo a pele com um leve pó de arroz e,
mergulho a alma num perfumado odor.
Pincelo a minha noite com preceito,
a vontade em seguir é soberana,
adocico o olfato com um leve vinho,
jogo o anel ofertado e deixa -o sozinho.
Os pés suaves procuram o seu par,
dançam ao som do eco soante,
brilham na Luz gritante e.… rodopiam,
em perfeitos círculos giratórios angulares.
Eu, simplesmente nua e crua de tudo;
caminho segura na soberana vontade,
e esculpida a rigor... liberto-me das correntes e,
lanço à sarjeta as imperfeições dos artefactos.
Enfrento o vento que ondula os fios de cabelo,
apetrecho os punhos - agora - de aço,
ignoro todas as mensagens de perigo,
liberto o veneno fatal da vontade, da paixão.
Eu..., apenas uma entre tantas;
que cobiça a lua, a terra, o sol, os astros...!
Eu..., somente uma outra face nua;
que cobiça o desejo do antídoto para a minha cura...!
Eu... que me permito ser... apenas o que Eu quiser...!

EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL - COLECTÂNEA - IN-FINITA

quinta-feira, 18 de agosto de 2022

Avó - SANDRA RAMOS

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Graciosa e imponente, a tua Entrega é Certa!
As tuas mãos enrugadas agarram o impossível,
órbitas em volta do eixo da seiva e no éter musical libertas
a tua ousadia!
Sem esperas, rodopias...!
Aconteces-te em cada momento e nas entrelinhas da água,
segues a corrente.
Brotas a tua subtileza e nos destroços da Alma, respiras o
sabor do templo tocado...!
Chegas ao Céu e tocas o raio do Sol,
respiras o mistério da tua Arte e sonhas!
Um sonho onde és a principal/ única protagonista e na
leveza do teu amor, delícias quem te rodeia.
Esqueces as lágrimas do presente,
entrelaças o cabelo e posicionas-te...!
O Espetáculo está no fim... és a grande Soberana e tens
em ti o início e o fim do sabor alquímico do Mundo!
A multidão aplaude ao som das tuas palavras tocantes e ...!
inundada pela tua beleza, sente o fogo da Admiração!
E tu... AVÓ... converges em ti todas as certezas do teu
propósito!
És seda.
És estrela ancestral.
És rio confluente.
És a ternura que nos toca na Alma e no Coração!
AVÓ, meu doce.... um ser iluminado cristalizado num
poema!

EM - TOCA A ESCREVER 2022 - COLECTÂNEA - IN-FINITA

domingo, 12 de dezembro de 2021

Tecla solta de rubi - SANDRA RAMOS

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
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Piano velho, gasto e cansado,
absorvido em pensamentos desconetados,
perdido na sala de uma penumbra invencível,
mudo, surdo na solidão incompreensível.
Desamparado na poeira temível,
camuflado pela cor insolente,
gélido, pedinte e prisioneiro desajustado,
ser inóspito, entregue ao receio abastado.
Eterno e extasiante aprendiz,
de uma lição prometida e divina,
compositor da valsa de uma bailarina fugitiva,
prisioneiro de uma paixão aflitiva.
Mulher-menina de olhos penetrantes,
vestida de um corpo esbelto e sedutor,
rodopiava e rodopiava num movimento parabólico,
e ele... tocava e tocava assoberbado pela dor de um amor platónico.
O adeus bateu-lhe à porta de mansinho,
o cabelo, o véu e as sapatilhas de cetim partiram,
sem aceno, a fita do cabelo do aprendiz, foi largada,
e ele... resgatado na incrédula emboscada.
Aprendeu a amar erradamente,
a entrega foi repentina e fugaz,
com ela seguiu metade de si,
o coração e a sua alma… a sua única tecla solta feita de rubi.

EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL (POESIA) - COLECTÃNEA - IN-FINITA

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

A Bruma da minha Luz - SANDRA RAMOS

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
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Grito em surdina a minha vontade,
sou mulher, mãe, amante, sábia e rainha da minha vida,
creio em fadas, na “Entidade Soberana” que se estende;
cada vez me afasto mais, luto para me manter viva;
erro e acerto tantas vezes, molhada pela água evasiva.
Na maré dos dogmas, enfrento a ondulação;
saboreio o sabor do sentimento agridoce que me
acompanha,
luto pela virtude e o conhecimento que me assiste,
galgo montanhas e vales na direção da intuição feminina,
luto pela fortaleza da poderosa muralha, como uma
heroína.
Sou mito e lenda da minha memória,
as palavras proferidas são sacrossantas e mágicas,
transformada em coruja, nada temo, permito-me voar na
noite oculta,
restituo a alegria e a prosperidade da minha eternidade,
desobedeço ao que não me acresce e faço-me renascer nas
cinzas,
parto em busca de mim– sem dor e sem morte –
peregrina do meu ensinamento.
Endireito a minha verticalidade,
levanto o meu rosto,
ergo a minha defesa,
ilumino a escuridão,
da noite que nasce e do dia cintilante… que reluz,
... com tanto amor... a Bruma da minha Luz.

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS VI - COLECTÂNEA - IN-FINITA

segunda-feira, 13 de setembro de 2021

Uma leoa que viveu com a Lua - SANDRA RAMOS

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Só, caminha junto à terra molhada;
iluminada pela constelação da Ursa Menor,
confiante na insegurança conturbada,
anestesiada pela felicidade assoberbada.
Ela segue, sem fraqueza, mas inquieta;
o caminho é árduo e espinhoso,
os pés almejam a chegada prometida,
e a alma incandescente pela luz comedida.
A Lua embala-a nas melodias de solidão,
rasga o ventre com remendos perfumados,
declama-lhe versos de um amor obstinado,
acolhe nos seus braços um querer cerrado.
Com ela aprende a ser felina de duas metades,
degusta o verdadeiro abraço do sonho,
semeia a devota paixão da aurora,
enterra a dor enlouquecida de outrora.
Uma estrela que ofertou,
Uma felina que degustou,
dois anjos de alma crua e nua...,
protagonistas de um conto...
de uma leoa que viveu com a Lua.

EM - TOCA A ESCREVER 2021 - COLECTÂNEA - IN-FINITA

domingo, 12 de setembro de 2021

A sombra que lia poemas - SANDRA RAMOS

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Embrulhada nas folhas secas do inverno,
deslumbrada com o romper da aurora,
embutida no odor da terra molhada,
refém de uma nova era anunciada.
Na sua mão, jazia cada pedra lançada,
na alma, vivia a vontade absoluta;
no peito, os remendos estavam concertados;
no olhar, as súplicas eram incessantes e acertadas.
A vida corria cada momento sem reclamar,
as preces faziam-se ouvir,
o deserto subsistia na arena seca, e ela, tão escura,
brilhava na Luz da imaculada indumentária preta.
Refundia-se nas letras desconcertadas,
cimentava cada sílaba do seu saber,
sem eufemismos fixava as figuras de estilo,
determinada resgatava o ensinamento escrito.
Na sua escuridão, a luz brilhava;
aprendeu a suportar a distância das estrelas,
no negro da sua sombra, dançou na harmonia da cor;
e... resgatou do negro divino, o seu odor.
Apenas uma sombra, sem cor que aprendeu a viver em si,
a amar-se sem pensar no destino,
uma escuridão magra e estendida para toda a vida,
de uma sombra que lia poemas,
uma compositora que entendeu como subsistir
nos amargos problemas.
Apenas uma sombra, no meio de tantas, inundada
de dilemas..., que - sozinha - aprendeu a ler poemas.

EM - TOCA A ESCREVER 2021 - COLECTÂNEA - IN-FINITA

domingo, 14 de fevereiro de 2021

Sei - SANDRA RAMOS

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
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Sei de mim e de Ti...,
sei as primitivas e as derivadas das palavras,
o soneto ondulatório das pautas musicais,
a ação gravítica do passional liquidado...

Sei de Ti e de mim...
sei a posição grave e aguda das estrelas polares,
as ligações duplas conectadas no centro abismal,
a mitigação do risco pandémico da Vida...

Sei de nós...
sei da pavorosa ilusão de Bocage,
da noite sem lua, do deserto sem água de Sophia,
dos poemas mais extensos e da cintilação das sílabas de Eugénio
de Andrade...

Sei de vós...
da escultura interdita do traço coerente,
do pincel incessante em busca da pedra grega de Orfeu,
da voz silenciosa cantante do pulsar de um fadista,
da prosa poética espelhada no rosto de um poeta!

SEI...
porque sei... da vivência intemporal,
do ‘el ascetismo Cristiano’ assoberbado da dureza interina...

Não me questionem o quê… simplesmente... SEI!

EM - PANDEMIA DE PALAVRAS - COLECTÂNEA - IN-FINITA

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

Alma - SANDRA RAMOS

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Comprei a minha alma.
Tive que comprar a minha alma.
As crianças nascem com corpo,
A alma vem dormente, embrionária.
Com tempo, cresce, prolifera,
Ganha personalidade, vontade,
Autonomia, independência.
Os pais saudáveis dão asas
Dão brisa, apoio, sopro
À vida do novo ser.
Os outros, os doentes,
Os que se sentem ninguém,
Aprisionam o novo ser,
Agrilhoam o espírito,
Guilhotinam vontades,
Promovem dependências.
O vil metal, arma letal
Nas mãos erradas,
Ao invés de investido no novo ser,
É usado como controlo basilar
Arremesso face à fome, ao frio,
às básicas e elementares necessidades.
“Enquanto viveres debaixo do meu tecto,
Não te é permitido pensamento, vontade
Ou opinião, muito menos liberdade”.
Por isso, sabia-o então, sei-o agora,
Era tão importante a fuga, a libertação.
Estudos esmerados, empregos conquistados,
Espaço próprio conquistado a cada batalha.
Alma própria a desbravar caminho,
A conquistar a luz, a pelejar pelo ar,
Numa sobrevivência urgente.
E o vil metal, arma letal,
Passou de maldição a libertação,
Possuindo agora a arma, conseguida
Alcançada de forma dura, ironicamente
Garantida a imunidade a acenos de riqueza
A troco pelo controlo mental.
Comprei a minha carta de alforria.
Comprei a minha própria soberania.

EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL (POESIA) - COLECTÂNEA - IN-FINITA

sexta-feira, 26 de abril de 2019

Viagem - SANDRA RAMOS

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
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No dia em que disseste que acabou,
Espantada, chocada, surpresa,
Rodei os pés no sentido oposto,
Afastei-me de ti, parti além.
Vislumbrei paisagens,
Desconhecidas ou esquecidas
Vi que havia além-nós-dois.
Ganhei espaço e tempo
Interesses e sorrisos.
Tinhas partido,
Não sem olhares para trás:
Por pena de mim, ou orgulho,
Para veres se me arrastava.
Ainda me viste a partir,
Exultando pelo recomeço.
Eu já não te vi,
Ocupada com o mapa da minha vida.
Surpreendi-te. Surpreendi-me.

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS III - ANTOLOGIA - IN-FINITA

quinta-feira, 25 de abril de 2019

Menina - SANDRA RAMOS

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Aproxima-se o fim do estio,
A chuva cai forte na eira,
Antecipando o frio,
Flameja já a fogueira.
Menina de lenço à cabeça,
Espera, sentada à janela,
Que a avó, enfim, apareça,
Carregando a gamela.
Mas eis que surge o cão,
Molhado e de pata suja,
Num ímpeto salta para o chão,
Ai que ele ainda enferruja.
O patolas, vadio sem dolo,
Senhor da sua cauda altiva,
Resiste ao doce colo,
Ensaia uma corrida.
Mas a menina, aguerrida,
Segue-lhe a peugada,
Abraça-o com a vida,
Dá-lhe guarida, à porta fechada.
Desabituado do conforto,
Do quente do cobertor,
Quatro-patas amansa,
Num saboroso torpor.
Cansada, a ele se junta,
Partilhando o calor,
Encosta-se ao seu dorso,
E adormece, em amor

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS III - ANTOLOGIA - IN-FINITA