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sábado, 12 de outubro de 2019

Bella ciao - PATRÍCIA PORTO

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO PELA AUTORA


(À Agnès Varda)

estamos destroçados
corações destruídos
minha bela Agnès
Ciao...
aqui enterramos
nossos mortos nas montanhas
o fascista diz que somos cães
farejando ossos
poetas blasés fazem o bello
e deles precisamos
mas estamos dispersos
nossos caminhos torcidos
porque tanques voltaram por cima
de nossas nuas nucas
e atiram em nossas crianças
com cantores entoando hinos
e aplausos

mas nós esperamos o dia
nós seremos o dia


EM - CASA DE BONECAS PARA ELEFANTES - PATRÍCIA PORTO - EDITORA PATUÁ

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Cabelo de boneca - PATRÍCIA PORTO

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO PELA AUTORA


Esta que dança no escuro da terra é minha avó,
ela saiu da cidade, ela cortou o cabelo,
ela teve muitos filhos, mas só criou uma

minha avó é aquela de calça comprida,
ela fugiu com um aviador,
ela largou meu avô e nove filhos

a mulher que dança no sol é minha avó,
ela encolheu de repente,

ela viveu em São Paulo,

esta que veste chambre é minha avó,
ela fala em línguas estranhas,
ela envelhece de raiva,
seus cabelos são longos como os da Rapunzel

a mulher que dança no mar também é a minha avó,
ela escuta a rádio relógio,
ela é a mulher das horas,
seus cabelos tecem o ventre do Novo Mundo

- e ele está vazio

Você sabia?


EM - CASA DE BONECAS PARA ELEFANTES - PATRÍCIA PORTO - EDITORA PATUÁ

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Êxtase - PATRÍCIA PORTO

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO PELA AUTORA

Tão intenso esse ruído de memória batendo os cascos na terra ceifada.
A terra onde se pode acumular da pedra um corpo de memória.
Corpo dilacerado de memória, um gosto de poema na boca.
Uma sensação fina depurada de desgaste no que se resmunga,
a descoberta tardia de que uma topada na pedra é apenas uma topada na pedra.
Vasta ideia de lembrança deitada na cama
- vestido azul, sapatos pretos, brincos de prata,
a arrumação inútil do marido, rosto sem maquiagem,
um sopro feroz de vida nas narinas.

Nosso tempo se foi,
murchando em flores miúdas que me cobrem os olhos.

EM - CASA DE BONECAS PARA ELEFANTES - PATRÍCIA PORTO - EDITORA PATUÁ

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Perseguindo o corvo - PATRÍCIA PORTO

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO PELA AUTORA

nada está fora do lugar
os graves e os agudos
tocam o réquiem
de peso grama

nenhuma gota a mais
nada sobrando
o peso sobre a folha
um sonho profanado

dormir é morrer pequeno
peço que o coração pare
na miúda oração de anjo
mas o dia me espera como noiva

abotoando sessenta botões
nenhum fecha sangrias
não morrer todos os dias
morrer todos os dias

pólvora alguma será néctar

EM - CASA DE BONECAS PARA ELEFANTES - PATRÍCIA PORTO - EDITORA PATUÁ

terça-feira, 10 de setembro de 2019

Desprogramada - PATRÍCIA PORTO

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO PELA AUTORA

Palavras na cozinha sem solução:
Resistência,
Potência,
Alta e baixa tensão,
vidros de encher,
lacres e tomates.
Parto os tomates,
parto em metades,
as vermelhas,
fruto bom de sementes,
furto bom de comer.
Melhores que as palavras:
Presente,
Futuro,
Ausências.
Olho debruçada
e desejo.
Pois não dou conta.
A idade meia, malha.

Corto tomates feito quem desplaneja castelos.
Mordo as duas partes.
Descomo sementes

EM - CASA DE BONECAS PARA ELEFANTES - PATRÍCIA PORTO - EDITORA PATUÁ

quarta-feira, 26 de junho de 2019

Constelação - PATRÍCIA PORTO

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
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uma mulher se desprendeu de meus braços
era outra a outra
era eu mesma a outra nela acenando
partindo de mim em volume de terra
a planta terráquea e faminta
retorcida em todo corpo
dos dedos dos pés até o alto
envolvida torta nos meus cabelos
atravessada carnívora na carne doce
me esmagando até o sufocamento
se nutrindo de minhas partes mais moles
sólidas doídas e sem camuflagem
de enormes garras entranhando vísceras
misturada ao que eu era
já não sou mais argila húmus e lodo
há o nada e emborco vazia
na outra que agora sai viva no aparte
com tronco prótese osso enigma
já não é mais outra
eu a procuro
sou legião
nuvem massa pernas e peitos
tenho várias cabeças
todas nelas hidras
outra que era eu
quando eu outra era a mesma
onde está?
reflexo e pedra
da mesma língua
levadas juntas na correnteza
fluxam nossas sementes envenenadas
fluxos de nossas regras libertadas

EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL (POESIA) - ANTOLOGIA - IN-FINITA

domingo, 6 de janeiro de 2019

Parto reverso - PATRÍCIA PORTO

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA HELVETIA EDIÇÕES

Há um punhado de favas lançadas na minha ossatura nova.
     Fico mais leve sem meus fantasmas noturnos. Ouso
     bailar sem eles nesta falsa vigília onde quebro prantos em
     mortal silêncio difuso.
Não vejo da minha crista horizonte menos cinza. Gasto
     minha paciência com dias sem minha presença por rotina.
Mas ousei dançar sem meus fantasmas.
Guardei mesmo o retrato da avó com o último pano fino de
     tempo, o fino diante dos anos de pobreza.
Vivo nadando em lama contra meus destroços.
Sou uma desconstrução sem benefícios.
Ossada nova. Metade pedra. Metade metal.
Rompi a bolsa e estou de parto reverso.
No estigma. Na contra-concha.
Não me catem.
Sou contra.

EM - A VIDA EM POESIA 3 - ANTOLOGIA - HELVETIA EDIÇÕES

domingo, 21 de outubro de 2018

O desterro - PATRÍCIA PORTO

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
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Andei entre os homens e vi massacres,
mas não encontrei nenhum mapa.
Andei no deserto e vi o sol, a areia, a rotação, o tempo
que se move quente.
Não achei o Minotauro nem pedacinhos de pão.
Descobri que o desafio do território é dentro,
algo muito sem fio.

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS II - ANTOLOGIA - IN-FINITA

sábado, 20 de outubro de 2018

Das palavras que vêm, das palavras que não servem - PATRÍCIA PORTO

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
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Há sol que brilhe para toda poesia.
Há um sol que nasceu hoje
que é o mesmo que nascerá amanhã,
por isso escrevo para quem comunga comigo
do simples e óbvio,
do pequeno e do pão dividido
que há nas palavras mais corriqueiras:
mundo, sonho, janela, liberdade
Não escreverei o difícil sinônimo da palavra estoica,
rútila, refratária
ou juntarei em cimentos a poesia esvaziada.
Escrevo porque sinto e me comunico
com os que me entendem
na minha linguagem.
Sou testemunha do meu tempo.
Não estou compondo um réquiem de palavras de vitrine
para os estetas.
Aconselho-me com as próprias palavras desprovidas
de cinismo ou
qualquer indiferença.
Ando a dialogar com o ódio alheio num relicário cheio
de renúncias.
E me inscrevo nessas lutas e cansaços
através da história, do poço da casa,
dos sentidos cotidianos

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS II - ANTOLOGIA - IN-FINITA

quinta-feira, 21 de junho de 2018

Farpados - PATRÍCIA PORTO

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA AUTORA
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uma bacia branca
uma água parada
um salgueiro
uma dança salgada nas tripas
agulhas para os pés
infinitos para a existência
quem sabe esse cordel nos sustente
essas rugas de arsénico
essa tâmara na carne

quem sabe teu amor me alimente
ou me dilacere o que teima sobrar

nessa terra de cegos
todos nós somos farpados

EM - CABEÇA DE ANTÍGONA - PATRÍCIA PORTO - EDITORA REFORMATÓRIO

segunda-feira, 11 de junho de 2018

Encontrando Bouvard - PATRÍCIA PORTO

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA AUTORA
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A diáspora e a espada se encontram.
Terra que ninguém pisa é a cabeça.
A cadeira vazia forja a fragilidade do grão.
Dar sentido ao futuro? Quem poderá?
Coração na boca
nada suspende ou irrompe,
nada consegue não orquestrar sua queda.
Nada contém o salto, que é em si.
O suspense está na corda bamba,
o coração um equilibrista - cai não cai,
rufam bambos os tambores, bambas as pernas,
laços entre os pés sem rede,
a corda ruída, sabotada
- e o salto de quem ama é mortal.

EM - CABEÇA DE ANTÍGONA - PATRÍCIA PORTO - EDITORA REFORMATÓRIO

sexta-feira, 1 de junho de 2018

O poço - PATRÍCIA PORTO

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA AUTORA
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perto do poço
uma mulher faz vigília
o tempo acostumado aos relógios
é uma pequena morte de tudo

a mulher espera a poça
no pouco da vida
tem sentimentos de chuva
mas não chove

tem cabelos de ilha
mas não parte

parece que tem uns olhos grandes
feito dois horizontes
e às vezes eles escurecem

todos os dias alimenta os bichos
que a comem por dentro
tem sede de palavra que nela esgota
feito um fiapo de nada

perto do poço
muito perto
esquece dos dias terríveis de guerra
alcança um espelhinho quebrado
e retoca o rosto
como quem esculpe sonhos
na rede que lhe leva a corpo

EM - CABEÇA DE ANTÍGONA - PATRÍCIA PORTO - EDITORA REFORMATÓRIO

domingo, 27 de maio de 2018

Unicórnio - PATRÍCIA PORTO

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA AUTORA
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Tem dia que acordamos com esse unicórnio
atravessando nossa cozinha
um cheiro de café que vem do bule
um cheiro de quem quer
café?!
Tem dia que acordamos assombrados
e levamos o unicórnio na cabeça
para desfilar na praça dos leões
Tem gente que dança assim
será?!
Tem dia que basta sair com o unicórnio
para receber afago
e é só colocar camisa branca
sapato de lista
pra sentir o odor da ilha
Hoje saliências me dominaram a tristeza
Peguei meu unicórnio
Andamos pela cidade, andamos pela aldeia,
conversamos num banquinho
e embarcamos para casa da velha Zuza
Tem pirão?!

EM - CABEÇA DE ANTÍGONA - PATRÍCIA PORTO - EDITORA REFORMATÓRIO

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Auto-ajuda ou cavalgue o leão - PATRÍCIA PORTO

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA AUTORA
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não pise na faixa
não cuspa na faixa
não defeque na faixa
a faixa na cabeça
não se cruza com a máquina de moer

não trafegue
não coma a faixa com farinha
não fale com a faixa na boca onde moram seus dentes
não seja o elemento x, não cruze o farol
não faça sinais obscenos, não morda o guarda
não se guarde da chuva, não componha uma música de mar
não atravesse ainda, não seja o morto da vez

salve sua palavra do seu próprio atropelamento

não mantenha contacto visual com as pontes movediças
não leve jamais a faixa pra casa, não beba a faixa

leve apenas o seu trânsito de sagitário

e cavalgue o leão

EM - CABEÇA DE ANTÍGONA - PATRÍCIA PORTO - EDITORA REFORMATÓRIO

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Antídoto - PATRÍCIA PORTO

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA AUTORA
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gosto desse corpo que me aquece os sentidos,
meu medo de cair da janela,
um futuro no jogo de dados,
deus não joga dados,
eu jogo

Eu passo.

EM - CABEÇA DE ANTÍGONA - PATRÍCIA PORTO - EDITORA REFORMATÓRIO

sábado, 21 de abril de 2018

La mer - PATRÍCIA PORTO

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA AUTORA
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escavo com a unha a derme da escrita
vou de encontro ao mar

vou de encontro à morte
frágil, humana de escrita,
levo o mar escrito nessa linha

vou de encontro e só,
o verso que espume

EM - CABEÇA DE ANTÍGONA - PATRÍCIA PORTO - EDITORA REFORMATÓRIO

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Maquinagem - PATRÍCIA PORTO

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA AUTORA
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a maquinagem se desfazendo

a chuva trazendo a cheia, fluxo de sangue,
toalhinhas lavadas

o tempo das janelas moringa
mal posso esperar para ver crescer os espinhos,

para ver as engrenagens deste rosto,
uma maquinagem de expectativas
mnemónicas

o seu lugar um átimo,
o fio terra de avó, a língua incrustada na pedra

dias de esquiço de ave
e de nunca mais limpar os canos
das máquinas

EM - CABEÇA DE ANTÍGONA - PATRÍCIA PORTO - EDITORA REFORMATÓRIO

domingo, 1 de abril de 2018

Juke box - PATRÍCIA PORTO

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA AUTORA
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aquele fiapo maldito na lapela
olhei para o homem que vestia calça e camisa
parecia meu pai nos vincos
carregando fiapos por todo o corpo
alegre demais por suas fiações

se tiro o fio
não como o fio
meu avô tinha casa de tecidos
cashmere no epitélio

serei grata por toda indecisão cafona
de ler sinais nos cravos do caixeiro

nos sonoros da Juke box
músicas de fazer chorar
ultimatos:

levantar
saber sair
levar o corpo com a pedra

tecido bem não dói

EM - CABEÇA DE ANTÍGONA - PATRÍCIA PORTO - EDITORA REFORMATÓRIO

segunda-feira, 26 de março de 2018

O terror - PATRÍCIA PORTO

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA AUTORA
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da urina
do cão
dos dias de cimento

segunda-feira com cheiro
de pesadelo da criança

pés descalços em espinhos
mal da flor decepada
um verme escorrendo
sem anjo nenhum
nem peito nem bica

um verso atirado
a arma de meu pai
apontada pro céu
por descuido

carregada

EM - CABEÇA DE ANTÍGONA - PATRÍCIA PORTO - EDITORA REFORMATÓRIO

sexta-feira, 16 de março de 2018

Casa velha - PATRÍCIA PORTO

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA AUTORA
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esse poema é uma casa com vista para os fundos
nele há notícias velhas de escombros
uma parede infiltrada
arranhões e fraturas

parece um poema antigo desabitado
mas é só um poema em demolição

casa pequena posta abaixo
para a construção insalubre
de um arranha céu
na garganta
feito nó
apertado
- uma cinta

EM - CABEÇA DE ANTÍGONA - PATRÍCIA PORTO - EDITORA REFORMATÓRIO