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quarta-feira, 26 de abril de 2023

Deixa-me dar-te o verão - JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

O verão é feito de coisas
que não precisam de nome
um passeio de automóvel pela costa
o tempo incalculável de uma presença
o sofrimento que nos faz contar
um por um os peixes do tanque
e abandoná-los depressa
às suas voltas escuras

EM - A NOITE ABRE MEUS OLHOS - JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA - ASSÍRIO & ALVIM

domingo, 16 de abril de 2023

Revelação - JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

Meu o ofício incerto das palavras
a evocação do tempo
o recurso ao fogo

Meu o provisório olhar
sobre o rio
o fascínio consentido das margens
sitiando a distância

Meus são os dedos que em tumulto
modelam capitéis
de sombra e arestas

Mas oculto na brisa
és Tu quem percorre o poema
despertando as aves
e dando nome aos peixes

EM - A NOITE ABRE MEUS OLHOS - JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA - ASSÍRIO & ALVIM

quinta-feira, 6 de abril de 2023

Inscrição - JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

o brilho é o leve
jubilo
que sustenta os versos

ainda que sejamos obscuros

e nenhum nome
sirva jamais para dizer
o fogo

EM - A NOITE ABRE MEUS OLHOS - JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA - ASSÍRIO & ALVIM

sábado, 25 de julho de 2015

Os girassóis - JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

As paisagens alteram-se sem resolução
narrativas imortais desaparecem
e os girassóis assim
vulneráveis a desconhecidas ordens

Tu estás tão perto
mas sofro tanto
porque não vejo
como possa falar de ti
antre dois ou três séculos

EM - A NOITE ABRE MEUS OLHOS - JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA - ASSÍRIO & ALVIM

sábado, 18 de julho de 2015

Do que me lembro - JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

lembro-me da música dos lugares a oeste
dos planos para esse reino amado
que pretendemos tanto tomar de assalto
antes dos brados do fogo

Mas as minhas mãos traziam já
uma sina mais escura, nem a noite

Qualquer penumbra serviu
ao meu coração oculto
a miséria do inverno
o treino dos falcões nas escarpas
a glória iludida
em que se consumiu o tempo

EM - A NOITE ABRE MEUS OLHOS - JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA - ASSÍRIO & ALVIM

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Simone Weil - JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

Mantinha um fascínio indeciso
uma impressão capaz de proteger
tanto a ordem como a rebeldia
sozinha perante pedidos
agitações e escombros
desligada há muito de motivos

EM - BALDIOS - JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA - ASSÍRIO & ALVIM

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Arte poética - JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

Tinha passado toda a noite
ele mesmo se sentia perdido
diante dessa presença sem palavras
que lança trevas nos símbolos
e torna os argumentos
insustentáveis

é possível que resida nisto
sua parte mais importante
a partir deste ponto desaparece

EM - BALDIOS - JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA - ASSÍRIO & ALVIM

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Compaixão - JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

Vi pela primeira vez o mar
era muito difícil frente a mim
compreender esse território absoluto
falámos só de coisas inúteis
e o mundo inteiro se escondia

somos novos. Lemos nos olhos fechados
precauções, derrotas, recusas
quando a intimidade sugere
a maior compaixão

EM - BALDIOS - JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA - ASSÍRIO & ALVIM

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Setas - JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

A verdade é que não conseguia curar-se
de uma delicadeza infinita
senão consigo
ao menos para com o mundo
a glória desejava semelhante
no escuro e à luz dos campos
embora tanto se achasse incapaz

preferiu sempre a seta que desaparece
ao nome breve que se guarda

EM - BALDIOS - JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA - ASSÍRIO & ALVIM

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Ardis - JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

A incompreendida figura do amor
a céu descoberto sem que se exprima
rodeamo-nos de vinganças, medidas, ardis
e enchemos os livros da ardente ausência
de nós próprios

ao entardecer corremos
ao pontão sobre o mar
e a vida só se parece
com alguma coisa que sabemos

EM - BALDIOS - JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA - ASSÍRIO & ALVIM

sábado, 17 de setembro de 2011

Esplanadas - JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

Um sofrimento parecia revelar
a vida ainda mais
a estranha dor de que se perca
o que facilmente se perde:
o silêncio as esplanadas da tarde
a confidência dócil de certos arredores
os meses seguidos sem nenhum cálculo

por vezes é tão criminoso
não percebermos
uma palavra, uma jura, uma alegria

EM - BALDIOS - JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA - ASSÍRIO & ALVIM

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Fogueiras e gelos - JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

Contra o coração
abraçava ramos de flores magras e azuis
sentimentos muito triviais
e por vezes a maior escuridão

perseguis sem cessar certos gestos
que na paz
seriam seus

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sábado, 27 de agosto de 2011

Avisos - JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

Explosões ouviam-se cada vez mais perto na baía
mas dizia-se são pescadores furtivos
amanhã veremos centenas de pequenos peixes
mortos na praia

um vento ríspido trazia do deserto
nuvens de areia
depositava às portas e nos telhados
uma muda ameaça

EM - BALDIOS - JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA - ASSÍRIO & ALVIM

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

O nocturno atalho - JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

O que de sublime e doloroso o tempo guarda
precisava disso de maneira que até é difícil
porque se sentia só nos campos
onde os outros triunfam
descia o sombrio, o nocturno atalho

assim chegava cedo de mais à beira não do fim
mas do informulável
para quem as nossas pequenas imposturas
são uma perda, um delito, uma culpa

EM - BALDIOS - JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA - ASSÍRIO & ALVIM

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Coisas tão felizes - JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

Entre amigo e amigo
jamais se afastam
coisas tão felizes
os instantâneos silêncios de certas formas
os protestos inocentes à nossa passagem
a natureza fortuita, dizia eu
imortal, dizias tu
do vento?

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sexta-feira, 29 de julho de 2011

Fuga de Bizâncio - JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

Não queria nenhum lugar
viajava ao longo dos anos mais para longe
sem nada de muito caro
sem pedidos de socorro
implacável nessa forma de gentileza
tão própria a quem não ousa

EM - BALDIOS - JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA - ASSÍRIO & ALVIM

terça-feira, 19 de julho de 2011

A casa - JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

Esta casa é a tua casa
quanto ao que permanece
nem sei que dizer
tanto me feriu a
insignificância do mundo
a relativa veracidade concedida aos lírios
minhas habilidades inexperientes

a obscuridade brilha para lá
da própria enseada

EM - BALDIOS - JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA - ASSÍRIO & ALVIM

sábado, 9 de julho de 2011

Calle Principe, 25 - JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

Perdemos repetidamente
a profundidade dos campos
os enigmas singulares
a claridade que juramos
conservar

mas levamos anos
a esquecer alguém
que apenas nos olhou

EM - BALDIOS - JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA - ASSÍRIO & ALVIM

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Terraços - JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA

Éramos adolescentes e nem notávamos
preocupados ainda em estar junto dos outros
o primeiro amor fazia-nos sofrer
como não supúnhamos possível
enchíamos os terraços de gambiarras
ou armávamos fogueiras enormes na praia
e dançávamos todo o verão
quase sem tempo para mais

por cima de todos os meses
a morte tomava tais proporções

EM - BALDIOS - JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA - ASSÍRIO & ALVIM

segunda-feira, 20 de junho de 2011

A voz solitária do homem - JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA


Há palavras que escrevemos mais depressa
o terror dessas palavras derruba
o passado dos homens
são tão pouco: vestígios, índices, poeira
mas nada lhe é desconhecido
as horas em que vigiamos o escuro
os sítios nenhuns das imagens
a ligeira mudança que resgataria
o abandono, todo o abandono

EM - BALDIOS - JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA - ASSÍRIO & ALVIM