Ah, louvar a voz
de Deus,
se Deus cantasse,
se a sua divina voz
existisse
antes de estar
no coração dos homens,
se Deus ousasse
ou tivesse estado
entre nós,
antes de nós,
entre um murmúrio
e a neve,
entre o sol e a voz.
EM - O TEMPO QUE NOS CABE - ANTÓNIO MEGA FERREIRA - ASSÍRIO & ALVIM
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sexta-feira, 7 de agosto de 2015
segunda-feira, 8 de julho de 2013
Poema - ANTÓNIO MEGA FERREIRA
Uma nota só, de desordem persistente,
a vibrar no abismo das coisas,
no mapa dos delitos;
acarinhando o pequeno remorso precioso
dos fins por atingir;
dobrando o tempo numa curvatura baixa
que cinge os tornozelos
da fugidia esfinge;
uma nota só, de correcção insidiosa,
na dádiva natural do tempo já vivido,
de dor aflitiva pela palidez das coisas
e o seu nome por dizer.
Falando sempre, sempre lamentando
o que ficou por dizer.
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a vibrar no abismo das coisas,
no mapa dos delitos;
acarinhando o pequeno remorso precioso
dos fins por atingir;
dobrando o tempo numa curvatura baixa
que cinge os tornozelos
da fugidia esfinge;
uma nota só, de correcção insidiosa,
na dádiva natural do tempo já vivido,
de dor aflitiva pela palidez das coisas
e o seu nome por dizer.
Falando sempre, sempre lamentando
o que ficou por dizer.
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terça-feira, 24 de maio de 2011
Pé-de-vento - ANTÓNIO MEGA FERREIRA
De vez em quando, o vento finge
que não está; amaina, dizem
os cegos, e fica-se sem saber
o que mais dói, se a gelada
combustão dos dedos,
se os lábios despedaçados
no recorre
da manhã. O vento
retoma então o seu mistério,
as dunas engolem os presságios,
como as casas as suas sombras,
cada coisa deposita
a sua lágrima de sono
na memória cintilante da noite.
De súbito, o vento reaparece:
é como se a luz
ardesse no olhar dos cegos,
ou alguma criança
morresse
nos braços da manhã.
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que não está; amaina, dizem
os cegos, e fica-se sem saber
o que mais dói, se a gelada
combustão dos dedos,
se os lábios despedaçados
no recorre
da manhã. O vento
retoma então o seu mistério,
as dunas engolem os presságios,
como as casas as suas sombras,
cada coisa deposita
a sua lágrima de sono
na memória cintilante da noite.
De súbito, o vento reaparece:
é como se a luz
ardesse no olhar dos cegos,
ou alguma criança
morresse
nos braços da manhã.
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sábado, 14 de maio de 2011
Na palma da mãos - ANTÓNIO MEGA FERREIRA
Abro as mãos; nelas
podes ver
o que quiseres: apenas
o teu rosto
se não quiseres olhar
para as minhas
mãos
ou as rugas, pregas
finas
nos meus dedos,
outros sinais do tempo
que não foi teu.
Abro as mãos; repara
nelas, deita-lhes ao menos
um olhar
agora que uma estrela
rompeu os céus
no céu de Praga
e as minhas mãos já não cantam
nos teus lábios
para sempre rendidos
ao rasto da estrela
e à luz nocturna
do cristal.
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podes ver
o que quiseres: apenas
o teu rosto
se não quiseres olhar
para as minhas
mãos
ou as rugas, pregas
finas
nos meus dedos,
outros sinais do tempo
que não foi teu.
Abro as mãos; repara
nelas, deita-lhes ao menos
um olhar
agora que uma estrela
rompeu os céus
no céu de Praga
e as minhas mãos já não cantam
nos teus lábios
para sempre rendidos
ao rasto da estrela
e à luz nocturna
do cristal.
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quarta-feira, 4 de maio de 2011
Glosas - ANTÓNIO MEGA FERREIRA
Traz-me um colar de jasmim
pra pôr à volta da alma,
flor imensa, imóvel e atenta,
que recolhe dos teus dedos
a gota de água
lenta.
Traz-me um colar de jasmim
pra enfeitar o coração,
água clara, rio clamor
que traz nos seus braços
prisioneiro
o teu rubor.
Dou-te um colar de jasmim
para te velar o olhar,
luz exausta, dor coberta,
que revela nos teus braços
a alma (inteira)
aberta.
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pra pôr à volta da alma,
flor imensa, imóvel e atenta,
que recolhe dos teus dedos
a gota de água
lenta.
Traz-me um colar de jasmim
pra enfeitar o coração,
água clara, rio clamor
que traz nos seus braços
prisioneiro
o teu rubor.
Dou-te um colar de jasmim
para te velar o olhar,
luz exausta, dor coberta,
que revela nos teus braços
a alma (inteira)
aberta.
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domingo, 24 de abril de 2011
A batalha de Okinawa - ANTÓNIO MEGA FERREIRA
Entre os corais
mansos
vogam peixes.
às vezes, dilata-se o olhar,
cintila no fundo
a sombra de outro
peixe,
uma moeda,
um rasto, um brilho
de metal.
Movem-se num ápice,
sem outro destino
que a luz e a água.
Esse golpe de luz
é um estilhaço.
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mansos
vogam peixes.
às vezes, dilata-se o olhar,
cintila no fundo
a sombra de outro
peixe,
uma moeda,
um rasto, um brilho
de metal.
Movem-se num ápice,
sem outro destino
que a luz e a água.
Esse golpe de luz
é um estilhaço.
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quinta-feira, 14 de abril de 2011
Ele (Anna Akhmatova) - ANTÓNIO MEGA FERREIRA
Tanto deviam doer as noites,
e o frio nos nós
dos dedos -
o estilhaçar do vento nas vidraças
a arder de gelo -
que da noite fizeste a luz
de toda a noite:
Ele, o que veio de sempre
para ser o antes e o depois
da tua história,
o olhar que te viu
num retrato de Modigliani,
o ouvido atento
que te serviu de manto
e encobriu a tua tão frágil
nudez.
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e o frio nos nós
dos dedos -
o estilhaçar do vento nas vidraças
a arder de gelo -
que da noite fizeste a luz
de toda a noite:
Ele, o que veio de sempre
para ser o antes e o depois
da tua história,
o olhar que te viu
num retrato de Modigliani,
o ouvido atento
que te serviu de manto
e encobriu a tua tão frágil
nudez.
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segunda-feira, 4 de abril de 2011
Niemandsrose - ANTÓNIO MEGA FERREIRA
Gás-de pensar ter encontrado
a rosa, hás-de gritar
esta é a rosa;
à tua volta todos
ouvirão, suspensos,
e, na rosa,
hão-de ver apenas o rumor
da tua boca
incendiada pelo verão.
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a rosa, hás-de gritar
esta é a rosa;
à tua volta todos
ouvirão, suspensos,
e, na rosa,
hão-de ver apenas o rumor
da tua boca
incendiada pelo verão.
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segunda-feira, 10 de maio de 2010
Poema - ANTÓNIO MEGA FERREIRA
Uma nota só, de desordem persistente,
a vibrar no abismo das coisas,
no mapa dos delitos;
acarinhando o pequeno remorso precioso
dos fins por atingir;
dobrando o tempo numa curvatura baixa
que cinge os tornozelos
da fugidia esfinge;
uma nota só, de correcção insidiosa,
na dádiva natural do tempo já vivido,
de dor aflitiva pela palidez das coisas
e o seu nome por dizer.
Falando sempre, sempre lamentando
o que ficou por decidir.
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