Mostrar mensagens com a etiqueta Pedro Mexia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Pedro Mexia. Mostrar todas as mensagens

domingo, 1 de maio de 2016

Um actor - PEDRO MEXIA

Um actor, do Teatro Nacional,
que algumas vezes vi
dizer textos moderníssimos
com vocabulário arcaico,
que, em cenas de fúria,
tinha uma voz funda, salivava
demais e saía, indignado,
pela esquerda baixa,
levando nas mãos o chapéu
com plumas, esse actor
que nos palcos era o próprio
teatro, entra agora no café
onde estou, com a mulher
demasiado feia, e volta a sair,
sem fúria nem frases
bem pronunciadas porque a esta
hora já só há doces
e apetece-lhe comer salgados.

EM - MENOS POR MENOS - PEDRO MEXIA - DOM QUIXOTE

quarta-feira, 2 de março de 2016

Uma pequena luz - PEDRO MEXIA

Bruxuleante, como a luz do Sena,
a esperança é uma vela de emergência,
coto colorido, quando a electricidade
falha. Lembrar a vela, procurá-la,
depois os fósforos, o trabalho patético
de a acender, reacender, firmar a base
e depois cinco segundos bruxuleantes,
a esperança, e a luz (eléctrica) voltou.

EM - MENOS POR MENOS - PEDRO MEXIA - DOM QUIXOTE

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Espingardas - PEDRO MEXIA

Havia espingardas: a do avô, caçador,
uma de brinquedo, hoje sem coronha,
a pressão de ar, apontada ao céu.
Espingardas. Todas elas mataram.

EM - MENOS POR MENOS - PEDRO MEXIA - DOM QUIXOTE

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

E depois isto - PEDRO MEXIA

Um delirium tremens, o sublime estático
e visível, o espaço cada vez maior
entre as paredes, a escrita do mundo,
o sólido ar crescendo, o diferente azul
da noite, um pulso iluminado, uma quarta-feira
iridescente, a porta por onde se torna
a passar, uma venda onde os olhos
transbordam, um veleiro imprevisto,
a contagem decrescente do fôlego, a proximidade
em saltos sucessivos, um fino crepúsculo,
a neve que no corpo principia,

e depois isto, o contrário de tudo.

EM - MENOS POR MENOS - PEDRO MEXIA - DOM QUIXOTE

domingo, 30 de junho de 2013

Ferro-velho - PEDRO MEXIA

Terraços inúteis, varandas
das traseiras, arrecadações,
escadas de caracol, marquises
desbotadas, antigas estufas,
barracas, vasos partidos,
paredes abertas, telhas,
ferro-velho, andares vazios,
degraus sem uso, o fosso
do elevador, fechaduras
de portões, gatos, cadeiras,
um sol sem préstimo,
ervas daninhas, um triciclo,
humidade, silêncio, azulejos,
sábado à tarde e o meu corpo.

EM - MENOS POR MENOS - PEDRO MEXIA - DOM QUIXOTE

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Mergulhadores - PEDRO MEXIA

Doze, catorze segundos, demoram
a boca na boca, mergulhadores
de águas em si mesmas não muito
profundas, mas atravessadas de fundura

em ideia e situação, artistas
da respiração e de com ela saberem
reter outros desejos
que ao mesmo tempo dissipam.

Despedem-se ou saúdam-se à porta
do centro comercial, tão novos
que era mais normal
que se detestassem. O mundo,

seus acidentes, sem dúvida noções
precoces para quem num abraço
se mete pelos blusões adentro
respirando depois onde também respiro.

EM - ELIOT E OUTRAS OBSERVAÇÕES - PEDRO MEXIA - GÓTICA

domingo, 7 de abril de 2013

Bicicleta azul - PEDRO MEXIA

Não sabia manter o equilíbrio enquanto
pedalava, precisava de duas rodas mais pequenas
como um triciclo, sempre um pouco
mais novo do que era,
o mundo incerto, a gravidade fortíssima.

Na bicicleta azul de uma prima
dava voltas ao pátio ou seguia
pela pequena estrada campestre como se
fosse dominar a vontade adolescente,
os joelhos esfolados, buster keaton
que em breve ía cair numa vala, a bicicleta
cairia depois e depois o mundo.

EM - EM MEMÓRIA - PEDRO MEXIA - GÓTICA

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Bicho da terra - PEDRO MEXIA

Bicho da terra, mas basta
uma pazada brutal
ou umas quantas para fertilizar
o mundo que tanto fiz promessas.
Terra, que designas solo e planeta,
inimai os nossos pecados,
os remorsos de cadáver, a pequena
condição do vaso. Vaso oco,
vaso putrefacto, honorífico,
digno de coisa alguma, coisa
ele mesmo. Mas se assim
me sei e me aceito como
foi que num entardecer confiada-
mente te entreguei a órbita
e a minha órbita para sempre?

EM - MENOS POR MENOS - PEDRO MEXIA - DOM QUIXOTE

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Salvo erro - PEDRO MEXIA

Uma evocação pontuada por um
«salvo erro»,
função correctiva da linguagem,
desculpabilizadora,

mas tudo o que lembramos
é «salvo erro»
porque recordar já é quase
um erro uma vez

que nada, nem em filme,
acontece de novo
e só sabendo isso dos erros
nos podem salvar.

EM - MENOS POR MENOS - PEDRO MEXIA - DOM QUIXOTE

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Save - PEDRO MEXIA

Nada fica, a própria memória
é uma mitologia, tenho-me
como testemunha mas nada
garante que um dia não negue
tudo, então haverá este processo
verbal, museu portátil que com
um gesto, dizem, está salvo.

EM - MENOS POR MENOS - PEDRO MEXIA - DOM QUIXOTE

sábado, 6 de outubro de 2012

Marco - PEDRO MEXIA

Na rua escondida
o marco do correio
há muitos anos recebe
as escassas cartas
que mudam a vida.
Há muito que está
fora de serviço
mas a companhia
não informou ninguém.

EM - MENOS POR MENOS - PEDRO MEXIA - DOM QUIXOTE

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Os dez mil - PEDRO MEXIA

Os dez mil de Xenofonte,
em retirada, procuravam
o mar. Mas, na retirada,
existe mar? Talvez um batedor,
um porta-estandarte, grite que o vê,
azul e inequívoco, ao fundo.
Talvez depois de uma derrota
dez mil homens presos entre
canções tristes e poemas épicos
regressem a casa, e digam
que é o mar. mas não é o mar.

EM - MENOS POR MENOS - PEDRO MEXIA - DOM QUIXOTE

domingo, 16 de setembro de 2012

Não é preciso - PEDRO MEXIA

Não é preciso que a realidade exista
para acreditarmos nela. Na verdade,
se não existir tudo é mais luminoso.
Mundo, evidência submissa e soberana.

EM - MENOS POR MENOS - PEDRO MEXIA - DOM QUIXOTE

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

origem - PEDRO MEXIA

Por detrás do teatro de sombras
há um corpo, dentro dos fantoches
existem mãos, o falcão regressa
ao falcoeiro, os bonecreiros seguram
bonecos de madeira, as paredes brancas
alguém as caiou, as nuvens preexistem
ao desenho das nuvens, mas não podemos
retroceder tanto, basta-nos a história
em si mesma e não a sua origem.

EM - MENOS POR MENOS - PEDRO MEXIA - DOM QUIXOTE

domingo, 26 de agosto de 2012

Na água - PEDRO MEXIA

O reflexo da árvore.
Ninguém toca na sua margem.
Permanece. Realidade inteira.
Enquanto a árvore,
ardil dos sentidos,
se desfaz
quando alguém agita
a sua imagem.

EM - MENOS POR MENOS - PEDRO MEXIA - DOM QUIXOTE

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Uma árvore - PEDRO MEXIA

Uma árvore é uma ideia.
Se olhares para uma árvore
ela desaparece.
A casa por entre os ramos
que na infância não construíste
surge como um fantasma menor.
Não saber o nome das árvores
deixou-te estranho e alheado,
mas elas também não sabem
o teu nome.
Uma árvore não te dará sombra
ou madeira:
É um vocábulo e um símbolo
mas não sabes o seu sentido.

EM - MENOS POR MENOS - PEDRO MEXIA - DOM QUIXOTE

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Número 5 - PEDRO MEXIA

Dei um passo atrás
e vi pela primeira vez
o número da minha porta.
No passeio, olhando
o metal gasto do algarismo
que há vinte e seis anos
sei que existe,
pensei em recuar um pouco mais
para ver todas as coisas que habito
e não compreendo.
Mas três passos depois
do passeio
o trânsito automóvel
impedia a perspectiva
e a sabedoria.

EM - MENOS POR MENOS - PEDRO MEXIA - DOM QUIXOTE

quinta-feira, 26 de julho de 2012

As gavetas - PEDRO MEXIA

Não deves abrir as gavetas
fechadas: por alguma razão as trancaram,
e teres descoberto agora
a chave é um acaso que podes ignorar.
Dentro das gavetas sabes o que encontras:
mentiras. Muitas mentiras de papel,
fotografias, objectos.
Dentro das gavetas está a imperfeição
do mundo, a inalterável imperfeição,
a mágoa com que repetidamente te desiludes.
As gavetas foram sendo preenchidas
por gente tão fraca como tu
e foram fechadas por alguém mais sábio que tu.
Há um mês ou um século, não importa.

EM - MENOS POR MENOS - PEDRO MEXIA - DOM QUIXOTE

sábado, 18 de setembro de 2010

Bicicleta azul - PEDRO MEXIA


Não sabia manter o equilíbrio enquanto
pedalava, precisava de duas rodas mais pequenas
como um triciclo, sempre um pouco
mais novo do que era,
o mundo incerto, a gravidade fortíssima.

Na bicicleta azul de uma prima
dava voltas ao pátio ou seguia
pela pequena estrada campestre como se
fosse dominar a vontade adolescente,
os joelhos esfolados, buster keaton
que em breve ia cair numa vala, a bicicleta
cairia depois e depois o mundo.

in... Em memória - PEDRO MEXIA - Gótica

Site da editora aqui

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Alunos do liceu - PEDRO MEXIA




Alunos do liceu que me passais pela retina
porque não vos fixais? Encostados ao vento
descem a rua, bando feliz, alguns isolados
em pequenas tristezas. Os rapazes, na sua rudeza

artificial, trazem raquetes, usam neologismos,
enquanto as raparigas, que ontem mesmo
despontaram, segredam cenários entre sorrisos.

Todos rua abaixo, mesmo a tempo
da aula das oito, e trazendo nas mochilas
insuspeitados tesouros.

in... Eliot e outras observações - PEDRO MEXIA - Gótica

Site da editora aqui.