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domingo, 11 de outubro de 2015

A nudez do canto - FRANCISCO VALVERDE ARSÉNIO

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA EDITORA

Não me peças poemas quando tenho canções presas na garganta. Canções que adormecem como as estrelas, ou como os pássaros que deglutem os frutos maduros. Se me cansares, partirei, como cheguei, como uma asa, sem códigos etéreos, sem sombras libertadas pelas colinas do planisfério. Nunca estás quando o vento muda de quadrante, quando o destino é outro, quando a minha alma gela de frio. Sim, esta é uma introspecção cantada nas horas vadias, sem encantamentos, sem rios, sem as horas percorridas por juras. Deixa-me cantar estes pequenos pedaços. Sim, pedaços de poemas incompletos.

EM - CIDADE EMPRESTADA - FRANCISCO VALVERDE ARSÉNIO - UNIVERSUS

sábado, 4 de julho de 2015

Poema clandestino - FRANCISCO VALVERDE ARSÉNIO

Tenho pressa em libertar este poema clandestino, sinto-o agitado neste silêncio profundo, neste hiato vazio, neste espaço sem som. Se os versos são reflexos de uma chama perene, as horas que se esvaem asfixiam-me a garganta e delimitam o alcance da minha voz. Sinto-me aprisionado neste limbo, sinto-me um corpo post mortem em que as sombras são lilases, em que o verbo subsiste na quietude. Este embuce silábico, é uma onda que não chega à praia, é uma faca que rasga as vestes, que despe o corpo e o cobre de palavras nuas, é como se a água deixasse de correr nos afluentes que alimentam o rio. Ausento-me... Ausento-me e permaneço neste êxtase estonteante, e as cores das letras perdem-se em vendavais dispersos na calada de um olhar. Tenho pressa em libertar este poema clandestino que trago fechado na palma das mãos.

EM - MARGINÁLIA - ANTOLOGIA - EDITA-ME

sexta-feira, 17 de abril de 2015

LXXIX - FRANCISCO VALVERDE ARSÉNIO

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA EDITORA

Só eu sei como a voz dos teus olhos tem mais timbre que o som das gotas de orvalho desta madrugada ao cair no chão, vindas do cimo de todas as flores.

EM - CIDADE EMPRESTADA - FRANCISCO VALVERDE ARSÉNIO - UNIVERSUS

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

L - FRANCISCO VALVERDE ARSÉNIO

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA EDITORA

Sabem-me a ti os beijos de lábios abertos dados em mim... e nos dedos que desbravam as folhas dum livro primeiro, o calor que emerge das palavras desprendidas na passagem dos olhos tempera cada batimento do coração. Estendo-te a mão... falta-me a tua mão.

EM - CIDADE EMPRESTADA - FRANCISCO VALVERDE ARSÉNIO - UNIVERSUS

domingo, 21 de dezembro de 2014

XCI - FRANCISCO VALVERDE ARSÉNIO

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA EDITORA

Não olhes nos meus olhos, não me digas nada. Tão-pouco quero que perguntes pelo que se passa, não é assim tão importante saber se acordei no lado errado da cama. Quero apagar todas as palavras e rasgar as folhas do caderno. Não olhes nos meus olhos... abraça-me apenas e eterniza o momento.

EM - CIDADE EMPRESTADA - FRANCISCO VALVERDE ARSÉNIO - UNIVERSUS

domingo, 23 de novembro de 2014

Obra finita - FRANCISCO VALVERDE ARSÉNIO

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA EDITORA

O amor não tem letras, tem alma. Não é um esboço esculpido com um lápis de carvão, não é um projecto. É uma obra finita e de forma esférica, tem um eixo e bissectrizes. O amor não é um brinde embrulhado em papel amarrotado. É imaginação, incógnita, é o amanhecer no fim da tarde. O amor é... o que quisermos que ele seja.

EM - CIDADE EMPRESTADA - FRANCISCO VALVERDE ARSÉNIO - UNIVERSUS

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Ler um poema - FRANCISCO VALVERDE ARSÉNIO

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA EDITORA

Leio um poema em voz alta virado para o mar. Sim! É verdade, o ar que me sai da boca trina como uma guitarra portuguesa... porque será que as gaivotas estão pousadas? Nunca tinha lido um poema assim em que os versos são palpáveis como a textura da tua pele, como a inquietude do vento na areia. Leio um poema que trouxe nas mãos onde tu deixaste o caminho dos teus dedos. Leio um poema sobre o azul dolente das águas.

EM - CIDADE EMPRESTADA - FRANCISCO VALVERDE ARSÉNIO - UNIVERSUS

sábado, 14 de junho de 2014

Versos sem palavras - FRANCISCO VALVERDE ARSÉNIO

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA EDITORA

Caiu a noite e nem sequer sabia onde estava, abri o caderno nas páginas que escrevi e rasurei: «Sei que no céu há um sítio que também é mar», não faziam sentido, era como se os meus versos não tivessem palavras dentro, um abraço fosse ao encontro do nada ou a voz me saísse dos dedos. Caiu a noite e naufraguei nas rochas da baía do teu colo.

EM - CIDADE EMPRESTADA - FRANCISCO VALVERDE ARSÉNIO - UNIVERSUS

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Espera - FRANCISCO VALVERDE ARSÉNIO

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA EDITORA

Nem todos os lugares por onde passámos são certezas e nem sempre que me calo a minha boca se arrepende de cada palavra que ficou por dizer.
Na pressa, deixaste o teu perfume espalhado pelos retratos sem cor que ainda habitam o meu quarto.
Ainda te espero, vem sentar-te e deixar que as palavras voem por entre as nuvens escondidas.

EM - CIDADE EMPRESTADA - FRANCISCO VALVERDE ARSÉNIO - UNIVERSUS

domingo, 16 de março de 2014

A página - FRANCISCO VALVERDE ARSÉNIO

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA EDITORA

Tive um sonho irrequieto. A página dum livro... ardia, as imagens bombardeavam-me a mente e tu sorrias. Era um sorriso ausente tal como as letras que não mais moravam na página que se consumia com lentidão. As letras caíam uma a uma como pingos duma vela derretendo-se. E tu sorrias... a manhã acordou-me e não soube a razão do teu sorriso.

EM - CIDADE EMPRESTADA - FRANCISCO VALVERDE ARSÉNIO - UNIVERSUS

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Sempre que não estás - FRANCISCO VALVERDE ARSÉNIO


LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA EDITORA

Sem ti o vento não passa dum eco que pulsa na inquietude da colina e as palavras não são mais que vocábulos rasgados no meio de falsos versos. Em cada instante o meu sono plácido redesenha ruas onde me perco nas demoras, onde a voraz estrela da tarde se desvanece na aguarela da íris dos meus olhos. Sem ti não há quadro pintado com exclamações nem sonhos indizíveis, não há significados nem significantes nem o hipnótico encanto do teu corpo. Sem ti... o mundo é um pequeno infinito.

EM - CIDADE EMPRESTADA - FRANCISCO VALVERDE ARSÉNIO - UNIVERSUS

domingo, 29 de dezembro de 2013

Caminho errante - FRANCISCO VALVERDE ARSÉNIO

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA EDITORA

Com o olhar comedido palmilho cada centímetro do teu corpo, cada poro, cada saliência e reentrância, cada curva... Percorro-te assim... sem saber que o tempo ficou ancorado nos meus olhos, sem saber porque há em mim um mapa com os trilhos do teu rosto. Ah! Se eu soubesse porque caminho errante tendo-te nas mãos, se soubesse porque me embriagas e incendeias. Ah! Ainda ontem me dizias para esperar por ti!

EM - CIDADE EMPRESTADA - FRANCISCO VALVERDE ARSÉNIO - UNIVERSUS

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Fragmento - FRANCISCO VALVERDE ARSÉNIO

O tempo é cíclico, move-se circularmente em segundos fora dos relógios, é voraz e (in)concreto, é um rasgo, é uma ilha com forma de quimera. O tempo é um fragmento do vazio que nos cabe preencher, é um grão de pó que não conseguimos guardar nas algibeiras. O tempo é o paradoxo da quietude.

EM - CIDADE EMPRESTADA - FRANCISCO VALVERDE ARSÉNIO - UNIVERSUS

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Usurpa-me... e guarda-me - FRANCISCO VALVERDE ARSÉNIO


Usurpa-me as palavras
com os teus lábios,
suga-me as vogais
que guardo esquecidas num recanto
e as consoantes
presas nas sombras da minha alma.

Usurpa-me o suor
que se desprende do meu corpo
e se entranha no teu,
usurpa-me o lençol
que afasta a tua pele da minha.

Usurpa-me as marés infinitas
com o balançar
descompassado das tuas ancas
e o beijo prolongado
dado no prefácio
deste livro que escrevemos.

Usurpa-me os dedos andarilhos
e guarda-os no cofre
dos segredos,
e usurpa-me a noite
para que sejas sempre madrugada.

Usurpa-me o sol
quando fazemos amor
à luz ténue da lua...

Usurpa-me...

Usurpa-me o corpo...

Mas guarda-me em ti.

EM - 1ª ANTOLOGIA UNIVERSUS - VÁRIOS - UNIVERSUS