LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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O poema rasga a noite, grão a grão
Como se brotasse no útero
De cabeça para baixo, caindo no mundo;
O poema nasce devagar, em silêncio
E molhado pelo sangue, de olhos fechados
Até ao momento em que alguém o pegue
E o obrigue a chorar;
As lágrimas despontam
No rosto das letras
E berram perante a dor da vida
O choro anuncia a chegada;
Até os poemas que nascem violentos são desejados
E tornam-se doces, hipocritamente doces
Quando o embalam
Perante o cantarolar de melodias;
Letra a letra, grão a grão
O poema assemelha-se ao retrato do pai que parte
Deixando a mãe ao abandono;
O poema está só
Sente-se só entre tantos poemas
Aguarda que a poesia aconteça sem saber como viver
E o que fazer da vida se a poesia acontecer.
EM - ENTRE PALAVRAS (AO ENCONTRO DA POESIA) - COLETÂNEA - IN-FINITA