quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Tanto tempo sem te ver... - Fernando Silva

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Trago minha terra num sorriso
Trago suas ruas no meu peito
Tantas saudades, que preciso
Para te amar deste meu jeito.

Tenho tanta gente à minha espera
Canteiros de rosas a céu aberto
Tenho as flores na primavera
Abraço enorme sempre por perto.

Quero amar-te na madrugada
Sentir o teu cheiro, meu amor
Sentir-te a mulher mais amada
Nesse jardim de tanta flor.

Abraçar o mundo desta maneira
Que os poetas descrevem na perfeição
Quero amar-te para a vida inteira
E fazer gritar meu meigo coração.

Tanta espera, tanto tempo sem te ver
Quem me dera ter sempre essa mulher
Amar o mundo de luz e de paixão
E partilhar contigo esta emoção...

EM - PÁSSARO FERIDO - FERNANDO SILVA - IN-FINITA

terça-feira, 29 de setembro de 2026

No trilho da saudade – Tita Tavares

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Conheçam a In-Finita neste link
 
Ardentes são os beijos que te dei,
saídos com furor da minha boca.
Mais ardentes são os que te não dei
presos em mim, deixando-me tão louca.

Regados com o amor que me juraste,
cresceram e ainda vivem castos.
O tempo foi... mas tu jamais passaste,
na loucura dos trilhos, flores e rastos.
 
Não quero reviver esses momentos,
mas sim, selá-los como sacramentos,
numa saudade intensa... inapagável.

O Amor e Saudade em urdidura,
vão-se suturando em bordadura,
até à eternidade… não palpável!

EM - ENTRE PALAVRAS (AO ENCONTRO DA POESIA) - COLETÂNEA - IN-FINITA

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Ilha - Corsino Fortes

Sol & semente: raiz & relâmpago
Tambor de som
                             Que floresce
A cabeça calca de Deus

EM - A CABEÇA CALVA DE DEUS... - CORSINO FORTES - DOM QUIXOTE

domingo, 27 de setembro de 2026

A espera e a transição - Susana Veiga Branco

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Aguardava
E parecia-lhe uma eternidade
Mas não o era
A efemeridade vivia ali
Tudo passando como o vento
E ela não o sabia
No momento não o conseguia ver
Ainda
Até que conseguiu...

EM - ATREVESTE-TE A ABRIR? - SUSANA VEIGA BRANCO - IN-FINITA

sábado, 26 de setembro de 2026

Soneto de meditação II - Vinicius de Moraes

Uma mulher me ama. Se eu me fosse
Talvez ela sentisse o desalento
Da árvore jovem que não ouve o vento
Inconstante e fiel, tardio e doce

Na sua tarde em flor. Uma mulher
Me ama como a chama ama o silêncio
E o seu amor vitorioso vence
O desejo da morte que me quer.

Uma mulher me ama. Quando o escuro
Do crepúsculo mórbido e maduro
Me leva a face ao génio dos espelhos

E eu, moço, busco em vão meus olhos velhos
Vindos de ver a morte em mim divina:
Uma mulher me ama e me ilumina.

EM - ANTOLOGIA POÉTICA - VINICIUS DE MORAES - DOM QUIXOTE

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Andei na noite perdido - Fernando Silva

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Andei na noite perdido
À procura desse abrigo
Pelas ruas do passado
Não encontrei quem queria
Procurei de noite e dia
Histórias, desse meu fado.

Vestido de antigamente
Procurei a tanta gente
Se tinham visto o fado
Indicaram a taverna
Ouvi a voz da Severa
Regressei ao meu passado.

A cantar o Mouraria
Linda guitarra gemia
Suas veias eram ouro
E neste lindo trinado
Pelas ruas do passado
O fado era tesouro.

EM - PÁSSARO FERIDO - FERNANDO SILVA - IN-FINITA

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Ai tempo, tempo – Tiló Henriques

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Porque não multam o tempo por excesso de velocidade?
Deve ser o único que gosta de ser velho…
Não sei qual é de facto a sua provecta idade…
Quem sabe deve ser genial para dar um bom conselho!…

Não sei de facto quanto tempo o tempo tem
tem passado tem presente tem futuro
e talvez se advinha muito, muito mais além
sempre velho sempre novo e prematuro…

Ai! tempo, tempo que passas, pára um pouco
assim a correr dessa forma ainda ficas louco
cuidado! vê lá se não vais tropeçar e catrapum!...

Devagar devagarinho observa o caminho
goza o teu ser que és tempo de amor e de carinho
prolonga teu orgasmo neste tempo de sermos um…

EM - ENTRE PALAVRAS (AO ENCONTRO DA POESIA) - COLETÂNEA - IN-FINITA

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Amanhecer branco - Nuno Júdice

Adivinho esta construção: uma cúpula
que abriga o mundo. E o mundo roda sobre
si próprio, fechando o círculo dos instantes
no centro da eternidade.

Ponho esta cúpula no cume
de um monte. O dia nasce, derramando na esfera
de vidro o líquido luminosos da madrugada,
com o brilho puro de um seio.

E bebo esta luz, num desejo ébrio
de nascente, ouvindo os primeiros pássaros
soltarem-se da noite com o canto côncavo
com que acordam o dia.

EM - A MATÉRIA DO POEMA - NUNO JÚDICE - DOM QUIXOTE

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Faca de papel sobre rosas - Susana Veiga Branco

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Lanço a tinta no papel
Sobre ela lanço água
Lanço vinho
Lanço energia

Falta algo
Pego na faca de papel
Com ela rasgo a tela
Rapidamente
Energicamente
Reação do músculo
Reação do cérebro

A tela ganha agora novas asas
Planando a superfície do mundo
Planando o segredo da vida

Não são farpas, meu amor
São pétalas do meu roseiral...

EM - ATREVESTE-TE A ABRIR? - SUSANA VEIGA BRANCO - IN-FINITA

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

4 (canto sete) - Júlio Pomar

Um tudo-nada não chega
Pra separar ser e estar
Nem que se veja a jogar
O jogo da cabra-cega

Nisto de ver pra descrer
Coma-se o que se estraga
No que não chegou a haver
Se não pega não se paga

Das cinzas do meu pavio
Uma chama se levanta
E não lhe dá pra baixar

Que o mundo não se espanta
De ver comer e calar
O que aqui sempre se viu

EM - PRIMA CONTRADIÇÃO - JÚLIO POMAR - ASSÍRIO & ALVIM

domingo, 20 de setembro de 2026

Lugar vazio - Fernando Silva

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Por entre os limos da desgraça
Águas cristalinas se agitam
Há tantos pássaros que gritam
Enquanto a corrente passa.

A água, pura, descendo
Do nascente da montanha
Esperança, vida, correndo
Nesta abundância tamanha.

Corpulento e sem descanso
O rio desliza na corrente
Leva a sujidade na frente
Parece um ribeiro manso.

Leva fantasmas despidos
Das margens sujas do rio
Que corre nos dois sentidos
E fica um lugar vazio.

Segregam folhas despidas
Nos contornos da desgraça
Enquanto o rio passa
Nas escarpas mais sentidas.

EM - PÁSSARO FERIDO - FERNANDO SILVA - IN-FINITA

sábado, 19 de setembro de 2026

o chão treme - Sara Timóteo

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Vivaldi desconhecia
os passos do medo
sobre o solo ressequido
pelo silêncio. O medo
arranca fundações dos prédios
(antes fosse à catanada)
e as mentiras executam
fantásticas acrobacias
entre janelas – nenhum olhar
escapa ao escrutínio
do gelo e o fogo em breve
devorará os filhos destas
páginas

EM - ENTRE PALAVRAS (AO ENCONTRO DA POESIA) - COLETÂNEA - IN-FINITA

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Secos os pulmões* - Corsino Fortes

Secos os pulmões
                   neles cresce-me
                              a lenha do mato
De sol a sol
                 os meus ossos são verdes
                 os teus ossos são plantas
Como a fruta-pão o tambor e o chão

De sol a sol
        gritei por Rimbaud ou Maiakovsky
                    deixem-me em paz

EM - A CABEÇA CALVA DE DEUS... - CORSINO FORTES - DOM QUIXOTE

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

O fragmento de pétala - Susana Veiga Branco

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Ela sabia
Sabia que vivia em turbilhão
Sabia que vivia em quietude

Sabia que a dualidade se revezava como as ondas
Indo e vindo
Nada permanecendo
Nada garantido

Sabia que nela habitavam dois seres
Um ser interior e um ser exterior

Que ora comandava
Ora era comandada

Sabia que o mundo não a conhecia
Apenas fragmentos
Em forma de estilhaços ou de sangue
Em forma de pétalas ou de aroma a primavera

Sabia que a dor e o riso se misturavam
Numa agitação sem palavras
Sem ritmo certo

Frases soltas
Universos paralelos

EM - ATREVESTE-TE A ABRIR? - SUSANA VEIGA BRANCO - IN-FINITA

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Soneto de meditação I - Vinicius de Moraes

Mas o instante passou. A carne nova
Sente a primeira fibra enrijecer
E o seu sonho infinito de morrer
Passa a caber no berço de uma cova.

Outra carne virá. A primavera
É carne, o amor é seiva eterna e forte
Quando o ser que viveu unir-se à morte
No mundo uma criança nascerá.

Importará jamais por quê? Adiante
O poema é translúcido, e distante
A palavra que vem do pensamento

Sem saudade. Não ter contentamento.
Ser simples como o grão de poesia
E íntimo como a melancolia. 

EM - ANTOLOGIA POÉTICA - VINICIUS DE MORAES - DOM QUIXOTE

terça-feira, 15 de setembro de 2026

A vida é um carrossel - Fernando Silva

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A vida é um carrossel
Um avião de papel
Um barco a navegar
Pelas ondas do teu corpo
Encontro o meu conforto
Neste poema d'amar.

À noite luzem estrelas
No rio as caravelas
Navegam pro infinito
Levam consigo saudade
A eterna mocidade
Fica comigo num grito.

A noite ficou mais bela
Olhando desta janela
Vejo as luzes da cidade
Ouço o cantar da sereia
É noite de lua cheia
Pra minha felicidade.

EM - PÁSSARO FERIDO - FERNANDO SILVA - IN-FINITA

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Entre o ser e o estar – Rita Bentes

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Conheçam a In-Finita neste link
 
[...] é nos caminhos da ilusão que nos vemos ao longe
pela vida fora.
seguindo-nos a nós próprios como a ninguém mais,
olhando para um ontem que fora, 
um amanhã que será 
e um hoje que vai sendo a cada segundo
a cada olhar
a cada passo contigo e comigo.
sonhos são o que agora vemos...
o que vamos percorrendo dia a dia, 
para alcançar o sonho da vida que se aproxima [...]

EM - ENTRE PALAVRAS (AO ENCONTRO DA POESIA) - COLETÂNEA - IN-FINITA

domingo, 13 de setembro de 2026

Lanzarote - Nuno Júdice

Para José Saramago

Numa ponta da ilha, o infinito; na 
outra ponta da ilha, o infinito. De
uma ponta à outra, a ilha é
pequena. Mas cerca-a o infinito,
e quando vamos de uma ponta
à outra, a ilha é demasiado
pequena para o infinito que
a cerca, como se o infinito apenas
servisse para medirmos o tamanho
da ilha. Porém, se olharmos
para a ilha de dentro do infinito,
é o infinito que nos parece
pequeno, quando o medimos pelo
tamanho da ilha.

EM - A MATÉRIA DO POEMA - NUNO JÚDICE - DOM QUIXOTE

sábado, 12 de setembro de 2026

Aroma a morangos e hortelã (excerto) - Susana Veiga Branco

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Os piscos fizeram ninho no meu vaso de parede
Sem receio
Acreditando que a minha presença é possível
Ou até benéfica
Os piscos não sabem da destruição humana
Ou sabem?

Observo-os agora
Aos pequeninos que já querem voar
Batem as asas
Preparando-se para o que advém

A mãe chama-os
Persistente
Incentivando-os a deixar o ninho
O trabalho de uma boa mãe
De uma mãe feliz por o ser
Tantas que não o são
...

EM - ATREVESTE-TE A ABRIR? - SUSANA VEIGA BRANCO - IN-FINITA

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

6 (Canto seis) - Júlio Pomar

Há quem s'adestre
E chegue a mestre
Do nexo o uso
Não tolera abuso

O risco de susto
Nos jogos do sexo
Do recto ao verso
Agravado o custo

Depois das meças
A convicção
Da ilusão

Vista às avessas
Toda a razão
Perde as certezas

EM - PRIMA CONTRADIÇÃO - JÚLIO POMAR - ASSÍRIO & ALVIM