terça-feira, 28 de abril de 2026

Celio I - João Rasteiro

As aves já ressequiram.
Não haverá como fugir
aos olhos nus do Outono!

EM - OFÍCIO - JOÃO RASTEIRO - PORTO EDITORA

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Eterno enigma - Frassino Machado

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Conheçam a In-Finita neste link

Dor que dói mui duramente
Nos duros caminhos
Duráveis da vida.
Um sorriso que nasce
E logo fenece;
Uma alma que brota
E logo acaba;
Em tristeza faz-se
E ninguém a conhece;
Pois tão sentida
Infinita e digna
Quando amanhece
Se mostra... mas
Pra logo acabar se fina...
Recomeçando, porém, com ardor
Vai culminar fundida no infinito:
Dor infinita!... Infinita vida!...

EM - NAS SENDAS DE ORFEU & OPÚSCULOS - FRASSINO MACHADO - IN-FINITA

domingo, 26 de abril de 2026

Esquilino 3 - João Rasteiro

Uma boca deixo ao dilúvio.
Direi um segredo de bronze,
a nocturna borboleta chega.

EM - OFÍCIO - JOÃO RASTEIRO - PORTO EDITORA

sábado, 25 de abril de 2026

Inquietação - Sebastião da Gama

Porque será que eu ando ainda,
que eu ando sempre à procura
de aquela Estrela
que já tão bem alcancei
que a trago diluída no meu sangue?...

EM - O INQUIETO VERBO DO MAR - SEBASTIÃO DA GAMA - ASSÍRIO & ALVIM

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Como esse olhar... - Eugénio de Andrade

Como esse olhar que prolonga a mão
as coisas que fazem a nossa alegria
brilham
ao sol ainda de cintura fresca.

EM - POESIA - EUGÉNIO DE ANDRADE - ASSÍRIO & ALVIM

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Esquilino - João Rasteiro

Os poemas virão inclusos
quando afluir o orvalho,
chegarão antes do orvalho.

EM - OFÍCIO - JOÃO RASTEIRO - PORTO EDITORA

quarta-feira, 22 de abril de 2026

À andorinha - Frassino Machado

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Conheçam a In-Finita neste link

Ó Alma da minha alma que te vais
Por esse mundo além com grã saudade
Em busca da mais terna claridade
E dos mais aquecidos campanais.

Longas horas passámos semanais
Em íntimo noivado de ansiedade:
Tu como eu em busca da verdade
Eu como tu em busca dos beirais...

Paladina do sol e da alegria,
Que anuncias ao mundo a primavera
Qual do teu doce canto a singeleza,

Apaga do meu ser esta quimera
Para cantar ao vento em cada dia
Que te amo em Deus e à bela natureza!

 EM - NAS SENDAS DE ORFEU & OPÚSCULOS - FRASSINO MACHADO - IN-FINITA

terça-feira, 21 de abril de 2026

Viminal 3 - João Rasteiro

Redijo o poema, imprimo o mundo!
Atearam a pira, apuseram o ventre.
Túnica de linho sob a língua do fogo.

EM - OFÍCIO - JOÃO RASTEIRO - PORTO EDITORA
 

segunda-feira, 20 de abril de 2026

Remoinho - Sebastião da Gama

Enrodilhei-me no Vento...
Vou e venho,
vou e venho,
e o Vento sempre a rolar-me,
e agora quero agarrar-me,
lanço a mão a procurar-me
e é só o Vento que apanho...

EM - O INQUIETO VERBO DO MAR - SEBASTIÃO DA GAMA - ASSÍRIO & ALVIM

domingo, 19 de abril de 2026

Como saber... - Eugénio de Andrade

Como saber de que matéria
é feito o olhar?
Acaba aqui
a luz gémea da tua boca
mas assim
vê-se melhor a espuma do crepúsculo.

EM - POESIA - EUGÉNIO DE ANDRADE - ASSÍRIO & ALVIM

sábado, 18 de abril de 2026

Quirinal II - João Rasteiro

Negro e níveo o ser carnívoro.
Quem tem a moléstia da paixão,
afluirá em proscritos seixos...

EM - OFÍCIO - JOÃO RASTEIRO - PORTO EDITORA

sexta-feira, 17 de abril de 2026

Prisões - Frassino Machado

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Conheçam a In-Finita neste link

Eu não sei o que é...
Porventura é delírio?...
Só sei que esta saudade,
Que sinto aqui no peito,
Me não deixa suster
Uma funda ansiedade...
Ah, que hei feito
Para assim desfalecer?
Ó meu Deus, por piedade,
Consola minha alma!
Concede-lhe fortaleza
Para lutar, sem fim...
E que a doce palma,
Na pureza do martírio,
Se apodere de mim!...

 EM - NAS SENDAS DE ORFEU & OPÚSCULOS - FRASSINO MACHADO - IN-FINITA

quinta-feira, 16 de abril de 2026

Quirinal I - João Rasteiro

Fecho os olhos sob os círculos
e avistarei a fantasia do silêncio.
Órbitas vazias cheias de tempo!

EM - OFÍCIO - JOÃO RASTEIRO - PORTO EDITORA

quarta-feira, 15 de abril de 2026

Astromania - Sebastião da Gama

Contei os Astros a dedo...

Agora, que estou no fim,
tenho medo
de ter errado na conta.

... De enganar-me em 1, por ter
contado também a mim.

EM - O INQUIETO VERBO DO MAR - SEBASTIÃO DA GAMA - ASSÍRIO & ALVIM

terça-feira, 14 de abril de 2026

O corpo sabe... - Eugénio de Andrade

O corpo sabe: do chão
ao azul o seu trabalho é arder.
Corpo com sede ainda: branco
pano de sangue. No topo do silêncio.
Como se nem lábios houvera
nem ouvidos para escutá-lo.

EM - POESIA - EUGÉNIO DE ANDRADE - ASSÍRIO & ALVIM

segunda-feira, 13 de abril de 2026

5 (Canto dois) - Júlio Pomar

Era uma rima assassina
A liquidar o soneto
Carraça em lana caprina
Com as crenças não me meto

Indulgência peregrina
Entre a aranha e o insecto
Que na teia desatina
E vê o destino preto

Na cozinha aprimorada
De regional qualidade
Da Senhora Felicidade

Que vinda para a cidade
Aí ficou desgraçada
E no final para nada

EM - PRIMA CONTRADIÇÃO - JÚLIO POMAR - ASSÍRIO & ALVIM

domingo, 12 de abril de 2026

Águia Agonizante - Frassino Machado

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Conheçam a In-Finita neste link

No estádio da Luz um mar estava
De cabeças ansiosas procurando
Para as águias que estavam contemplando
Um novo laurel que jamais faltava.

Por um conjunto forte se anelava
Mas eis surgem os “beatles” atacando,
Que, num ápice, as jogadas vão ganhando,
E então lá se foi o que se esperava...

Desvaneceu-se a esperança da vitória
E do troféu naquela gente humana
Que suspirava ter mais e mais glória.

Ó geração da velha Lusitana
De que valeu, se agora nem memória
Se encontra de tal febre assim tirana?!

 EM - NAS SENDAS DE ORFEU & OPÚSCULOS - FRASSINO MACHADO - IN-FINITA

sábado, 11 de abril de 2026

Palatino I - João Rasteiro

Depois do dilúvio a labareda,
nada já há a dizer em tua graça,
pois as vozes ardem em silêncio.

EM - OFÍCIO - JOÃO RASTEIRO - PORTO EDITORA
 

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Romântico - Sebastião da Gama

Olha,
quando vieres, Morte!,
não venhas sorrateira.
Quero sentir-te bem;
levar bem nítido, nos lábios,
o travo do teu beijo...

Chorem os outros, Morte!, a dolorida
minha hora final.
Pra mim, que bom saber até ao fim
a que é que sabe a Vida!...

EM - O INQUIETO VERBO DO MAR - SEBASTIÃO DA GAMA - ASSÍRIO & ALVIM

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Chego à janela... - Eugénio de Andrade

Chego à janela para olhar os cedros
pela última vez nesse verão;
tu dormes ainda; amanhece
no rumor distante das esquilas;
estão mais próximas as veredas
lentas do outono,
os lenços de névoa,
o céu turvo rente às colinas.

EM - POESIA - EUGÉNIO DE ANDRADE - ASSÍRIO & ALVIM