quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Por entre beijos corados - Fernando Silva

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Desceu a rua do monte
Para ir beber na fonte
No dia da ascensão
Era ainda bem petiz
No Arco de D. Dinis
Rezou sua oração.

Pedaços de lindas eras
Lembravam as primaveras
Passadas à tua beira,
Lindos canteiros de flores
Onde passeiam amores
E se ouve a cantadeira,

Que traz rios no peito
E esse amor-perfeito
Ilumina seus passos
Por entre beijos corados
Os momentos desejados
Dormem em seus abraços.

EM - PÁSSARO FERIDO - FERNANDO SILVA - IN-FINITA

terça-feira, 4 de agosto de 2026

Por favor, mostra-me – Lígia Oliveira

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Lua que brilhas lá no céu,
Que beijas o mar com o teu luar,
Por favor, mostra-me o que é meu,
Quem será digno de me amar!
Sol brilhante que me alumias,
Que com teus raios me acaricias,
Por favor, mostra-me o que é meu,
Quem ficará comigo até ao fim dos meus dias!
Mar azul, majestoso e possante,
Que com o teu bailar me enfeitiças,
Por favor, mostra-me o que é meu,
Porque tu todos os dias me atiças!
Céu que a todo o mundo abraças,
Seja noite ou seja dia,
Por favor, mostra-me o que é meu,
Pára com esta fantasia!!
Lua, minha guardiã na vida,
Acaba com esta saudade,
Por favor, mostra-me o que é meu,
Mostra-me quem me ama de verdade!!

EM - ENTRE PALAVRAS (AO ENCONTRO DA POESIA) - COLETÂNEA - IN-FINITA

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Pouso na Dalma - Luís Cláudio de Oliveira

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O amor bateu
suas asas cintilantes
e pousou na memória
do meu coração,
que o recebeu
de sentimentos abertos,
ofertando-lhe as flores
da convivência.

EM - HÁ FLORES EM VOCÊ - COLETÂNEA - IN-FINITA

domingo, 2 de agosto de 2026

Caixa-segredo - Susana Veiga Branco

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Sinto o latejar
Sentes também?

Respiro fundo
Costumas respirar fundo também?

Falta
Foge
O quê?
Quem?

É segredo
Ainda é segredo
Não posso contar

Entendeu?
Também te acontece?

E só lá
É numa caixa
É uma caixa
Uma caixa-segredo...

EM - ATREVESTE-TE A ABRIR? - SUSANA VEIGA BRANCO - IN-FINITA

sábado, 1 de agosto de 2026

Que a terra lhe seja leve 3 - Júlio Pomar

A tua palavra vale
O cocozinho dum cão
É tudo pela nação
Agora já cheira mal

A tua palavra vale
E mais vale isso que nada
Sem sorte passa-se mal
E a conta sai furada

O cocozinho dum cão
Mesmo no passeio a meio
Pode ser uma aflição
E nunca sinal de asseio

E tudo pela nação
Foi um chão que já deu uvas
E a época das chuvas
Vem a calhar no verão

Agora já cheira mal
Ao repetir o já dito
Toma nota Portugal
Chegou a vez do manguito

EM - PRIMA CONTRADIÇÃO - JÚLIO POMAR - ASSÍRIO & ALVIM

sexta-feira, 31 de julho de 2026

Não há mais horizonte - José Saramago

Não há mais horizonte. Outro passo que desse,
Se o limite não fosse esta rutura,
Era em falso que o dava:
Numa baça cortina indivisível
De espaço e duração.
Aqui se juntarão as paralelas,
E as parábolas em retas se rebatem.
Não há mais horizonte. O silêncio responde.
É Deus que se enganou e o confessa.

EM - POESIA COMPLETA - JOSÉ SARAMAGO - IN-FINITA

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Fantásticas bodas - Natália Correia

Senhora do Lago assim te apareço.
Teu beijo carnal o meu corpo esfuma:
Fantásticas bodas do homem de gesso
Com a mulher de bruma.

EM - POESIA COMPLETA - NATÁLIA CORREIA - DOM QUIXOTE

quarta-feira, 29 de julho de 2026

O meu fado – Joaquina Raimundo

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Pudesse eu em tom grandioso cantar
O meu amor por ti, ancestral, deveras
E a plenitude do teu amor alcançar,
Infindável, atravessando eras!

Pudesse eu o nosso amor versejar
Poemas com muita mestria e coerência,
Mágicos, feéricos na sua essência,
Cânticos do meu amor por ti a entoar!

Pudesse eu a finitude de ti alcançar
Poetizando a verdade que sinto,
Vaticínio da minha vida a pelejar!

Pudesse eu num supremo cântico
Cativar-te, amor, para o amor infinito
E não mais, no meu fado, haveria pranto! 

 EM - ENTRE PALAVRAS (AO ENCONTRO DA POESIA) - COLETÂNEA - IN-FINITA

terça-feira, 28 de julho de 2026

Flor de hibisco - Joselita Boaventura

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Uma semente lançada ao vento.
Aterrisa num coração sedento.
No qual não há amor, não há alento.
O desejo fora arrancado a mão.
E despedaçado ao chão.
Seria esta a solução?
Óvulo fecundado com todo material nutritivo procura abrigo.
Revira-se nos átrios! Eclode!
É a vida que se anuncia!
Regas, podas Renovações todos os dias.
Brotos, flores, cores sem simetria!
Como é bom estar em sua companhia!

EM - HÁ FLORES EM VOCÊ - COLETÂNEA - IN-FINITA

segunda-feira, 27 de julho de 2026

A caminho das dunas - Eugénio de Andrade

Há um barco,
há um homem nas areias.
Obscuramente aprende
a morrer onde as águas são mais duras.
Sei que é verão pelo hálito da loucura,
o brilho em declínio das giestas
a caminho das dunas.
O homem adormecido
e o mar eram de vidro.

EM - POESIA - EUGÉNIO DE ANDRADE - ASSÍRIO & ALVIM

domingo, 26 de julho de 2026

As imagens - Sophia de Mello Breyner Andresen

As imagens transbordam fugitivas
E estamos nus em frente às coisas vivas.
Que presença jamais pode cumprir
O impulso que há em nós, interminável,
De tudo ser e em cada flor florir?

EM - OBRA POÉTICA - SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN - ASSÍRIO & ALVIM

sábado, 25 de julho de 2026

A um corvo - Sebastião da Gama

Tens o poder das asas mutilado...
Tens a tristeza nobre dos proscritos...
Tens, no aspecto, a calma nostalgia
dos teus reinos de aquém e de além ar...
Mas não gritam tragédias nos teus olhos
nem lembranças violentas de outros dias
denunciam a fonte do teu sangue...
Somente o Poeta sabe do segredo
que os teus passos burgueses espezinham...

EM - O INQUIETO VERBO DO MAR - SEBASTIÃO DA GAMA - ASSÍRIO & ALVIM

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Caminhos – Debora Pio

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Eu tenho dores
Que a ninguém interessam
Tenho amores
Que já partiram
Para outros destinos 
Ou mesmo morreram
Um mar enorme
Sal a arder os olhos
Um coração defeituoso
Não gera lágrimas 
Só dor.
A lua, imensa, reina absoluta
Silêncio 
Silêncio 
Somente o ruído de mansas ondas
A desfazer a lua na areia 

 EM - ENTRE PALAVRAS (AO ENCONTRO DA POESIA) - COLETÂNEA - IN-FINITA

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Solanum - Jocelia Peixoto

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Fé que instiga
Racionalidade amorosa
Alegria que reúne
Notável interesse pela humanidade
Caridade concreta
Igreja além paredes e muros
Sociabilidade que inclui diversidades
Coração misericordioso, construindo pontes
Orador que se comunica desde o olhar de afeto e humor,
dialogando com o mundo.

EM - HÁ FLORES EM VOCÊ - COLETÂNEA - IN-FINITA

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Passos perdidos - Pedro Homem de Mello

Em tudo o que dizemos há visões:
- Visões só para nós,
Porque as palavras simples que soltamos
São para os outros as paredes nuas
Onde a visão que passa nunca é vista
Senão por nossos olhos...

EM - POEMAS 1934-1961 - PEDRO HOMEM DE MELLO - ASSÍRIO & ALVIM

terça-feira, 21 de julho de 2026

Orgulho de D. João no Inferno - José Saramago

Bem sei que para sempre: onde caí
Não há perdão ou letra de resgate.
Mas fui, quando vivi, o sal da terra,
A flor azul, o cetro de escarlate.
Aqui, se condenado, não esqueci,
Nem morto estou sequer: torno a ser eu
No sangue da mulher que, acesa, pede
Aquele modo de amar que foi o meu.

EM - POESIA COMPLETA - JOSÉ SARAMAGO - IN-FINITA

segunda-feira, 20 de julho de 2026

O abutre - Natália Correia

Acima de tudo o excita
da vida o fátuo jasmim
impaciente da sua cinza
para a tocar como clarim.

O sazonado fruto sorvendo
de violar violáceas vulvas
com o direito de ter à mão
um público cacho de uvas.

O vento podre dos mortos
o embala tenebrosa onda.
É oficiante de limpar ossos.
Mas não inventou a bomba.

EM - POESIA COMPLETA - NATÁLIA CORREIA - DOM QUIXOTE

domingo, 19 de julho de 2026

Chuva com sabor a menta – Daniel Braga

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Eis que a tarde se desfaz 
Em fios de água a deslizar 
Não é água apenas que corre
É cheiro a terra molhada a acordar
É perfume a resina que se liberta
Da casca da árvore
Que se expõe ferida e aberta
E no meio desse aroma que se solta
Uma nova frescura exala das nuvens 
Será chuva que cai com sabor a menta?
É chuva que escorre da calçada 
Que se solta forte e bate em alvoroço 
Um eco de orvalho que bate no rosto
É uma folha esmagada no seu regato
É granizo que bate forte ao cair
E brisa que sopra e faz sonhar 
Com a chuva que cai com sabor a menta
Beija os telhados com brilho de prata
Escorre pelas calhas e canta baixinho 
É a alma aberta e leve que abraça 
A chuva que tem sabor a menta 
E quando cessa e o sol sorri ao tempo
O tempo escolhe o momento que passa
Para que a natureza sinta os seus odores 
No sabor a menta que a chuva deixa

 EM - ENTRE PALAVRAS (AO ENCONTRO DA POESIA) - COLETÂNEA - IN-FINITA

sábado, 18 de julho de 2026

Olhar de Gérbera - Jeane Sánchez

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Meus olhos podem ver
A luz do movimento.

Meus olhos podem ver
A luz da temperatura.

Meus olhos podem ver
A luz que emana de você.

Meus olhos podem ver
O cheiro imanente.

Meus olhos podem ver
O vento balançar pétalas.

Ir circular e em linha reta.

Meus olhos nus na luz
Não dependem de outro brilho.

Refletem a alma que tenho
Nas formas de te tocar.

Meus olhos, tudo pode enxergar.

EM - HÁ FLORES EM VOCÊ - COLETÂNEA - IN-FINITA

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Mediterrâneo - Eugénio de Andrade

Como no poema de Whitman um rapazito
aproximou-se e perguntou-me: O que é a erva?
Entre o seu olhar e o meu o ar doía.
À sombra doutras tardes eu falava-lhe
das abelhas e dos cardos rente à terra.

EM - POESIA - EUGÉNIO DE ANDRADE - ASSÍRIO & ALVIM