quinta-feira, 16 de abril de 2026

Quirinal I - João Rasteiro

Fecho os olhos sob os círculos
e avistarei a fantasia do silêncio.
Órbitas vazias cheias de tempo!

EM - OFÍCIO - JOÃO RASTEIRO - PORTO EDITORA

quarta-feira, 15 de abril de 2026

Astromania - Sebastião da Gama

Contei os Astros a dedo...

Agora, que estou no fim,
tenho medo
de ter errado na conta.

... De enganar-me em 1, por ter
contado também a mim.

EM - O INQUIETO VERBO DO MAR - SEBASTIÃO DA GAMA - ASSÍRIO & ALVIM

terça-feira, 14 de abril de 2026

O corpo sabe... - Eugénio de Andrade

O corpo sabe: do chão
ao azul o seu trabalho é arder.
Corpo com sede ainda: branco
pano de sangue. No topo do silêncio.
Como se nem lábios houvera
nem ouvidos para escutá-lo.

EM - POESIA - EUGÉNIO DE ANDRADE - ASSÍRIO & ALVIM

segunda-feira, 13 de abril de 2026

5 (Canto dois) - Júlio Pomar

Era uma rima assassina
A liquidar o soneto
Carraça em lana caprina
Com as crenças não me meto

Indulgência peregrina
Entre a aranha e o insecto
Que na teia desatina
E vê o destino preto

Na cozinha aprimorada
De regional qualidade
Da Senhora Felicidade

Que vinda para a cidade
Aí ficou desgraçada
E no final para nada

EM - PRIMA CONTRADIÇÃO - JÚLIO POMAR - ASSÍRIO & ALVIM

domingo, 12 de abril de 2026

Águia Agonizante - Frassino Machado

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Conheçam a In-Finita neste link

No estádio da Luz um mar estava
De cabeças ansiosas procurando
Para as águias que estavam contemplando
Um novo laurel que jamais faltava.

Por um conjunto forte se anelava
Mas eis surgem os “beatles” atacando,
Que, num ápice, as jogadas vão ganhando,
E então lá se foi o que se esperava...

Desvaneceu-se a esperança da vitória
E do troféu naquela gente humana
Que suspirava ter mais e mais glória.

Ó geração da velha Lusitana
De que valeu, se agora nem memória
Se encontra de tal febre assim tirana?!

 EM - NAS SENDAS DE ORFEU & OPÚSCULOS - FRASSINO MACHADO - IN-FINITA

sábado, 11 de abril de 2026

Palatino I - João Rasteiro

Depois do dilúvio a labareda,
nada já há a dizer em tua graça,
pois as vozes ardem em silêncio.

EM - OFÍCIO - JOÃO RASTEIRO - PORTO EDITORA
 

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Romântico - Sebastião da Gama

Olha,
quando vieres, Morte!,
não venhas sorrateira.
Quero sentir-te bem;
levar bem nítido, nos lábios,
o travo do teu beijo...

Chorem os outros, Morte!, a dolorida
minha hora final.
Pra mim, que bom saber até ao fim
a que é que sabe a Vida!...

EM - O INQUIETO VERBO DO MAR - SEBASTIÃO DA GAMA - ASSÍRIO & ALVIM

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Chego à janela... - Eugénio de Andrade

Chego à janela para olhar os cedros
pela última vez nesse verão;
tu dormes ainda; amanhece
no rumor distante das esquilas;
estão mais próximas as veredas
lentas do outono,
os lenços de névoa,
o céu turvo rente às colinas.

EM - POESIA - EUGÉNIO DE ANDRADE - ASSÍRIO & ALVIM

quarta-feira, 8 de abril de 2026

1 (Canto dois) - Júlio Pomar

Não vou mais depressa tarda-me o gás
Nem tenho condição de entrar em provas
Bastar ou não haver tanto me faz
E se sobram jazigos faltam covas

A não ser querida que demovas
O anjo da morte de me receber
Dentro das normas que é costume ser
Com criaturas que não sendo novas

Podem prescindir das formalidades
E o simples ser discreto é que dá classe
Deixaram de existir casas de passe

No caso do reverso das cidades
E uma vez por todas fique assente
Que o difícil do mundo está na gente

EM - PRIMA CONTRADIÇÃO - JÚLIO POMAR - ASSÍRIO & ALVIM

terça-feira, 7 de abril de 2026

Seguindo o mestre - Frassino Machado

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Neste formoso lar os moradores
Não se prezam de ter, mais que ciência,
Amor pelo pequeno, pura essência
Do outro Amor que sempre faz amores.

Racionar procurando os contendores,
Por mais que se me abra a inteligência,
Não vejo de sua parte diligência
De serem de si próprios vencedores...

Ao ver aqueles rostos matutinos
O Mestre disse à multidão humana:
Deixai correr a mim os pequeninos!

Ó, solidão mortal de luta insana,
Haverá mor beleza soberana
Do que tais corações diamantinos?

 EM - NAS SENDAS DE ORFEU & OPÚSCULOS - FRASSINO MACHADO - IN-FINITA

segunda-feira, 6 de abril de 2026

A mulher que sou - Teresa Lino Vicente

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Eu sou a mulher que dança no tempo
Sou rio que corre sem medo do mar
Sou chama que brilha e aquece por dentro
Sou força que existe de tanto lutar

Nos olhos carrego auroras e sonhos
Nas mãos cicatrizes de quem já venceu
Na alma um mundo de risos e prantos
No peito um amor que nunca morreu

Eu sou o princípio, sou meio, sou tudo
Sou história escrita com luta e cor
Sou vida que pulsa, e voz que ecoa
Sou feita de garra, sou feita de amor

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS X - COLETÂNEA - IN-FINITA

domingo, 5 de abril de 2026

O Poder da Liberdade - Teresa Carrapato Moleiro

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Liberdade, porque é que sofrem as crianças...?
Liberdade, porque é que sofrem os injustiçados...?
Liberdade, porque é que...?
Liberdade és a força do bem!
Liberdade, só o bem vence o bem...!
Liberdade, deverias ser omnipotente, omnisciente...,
mas serias na mesma Liberdade...?!
Se o Poder é tantas vozes contra a Liberdade,
Se o Poder enfraquece os direitos conquistados,
Se o Poder é arma dos poderosos...
Sim, Liberdade!
Vem para a rua...
Atua...
Revolta-te...
Grita a plenos pulmões até ao último suspiro...

Esperamos por ti!!

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS X - COLETÂNEA - IN-FINITA

sábado, 4 de abril de 2026

Menina de algodão - Suzana D’Eça

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Menina de algodão
Leve e formosa, genuína
Sagaz poesia no coração
Alma bondosa e franzina

Que beleza este teu ser
Em brisa de ninhos
Solta-se o querer
Em pássaros de origami

Nas asas do teu ser de bem
Quero-te bem:
Quero-te Bem

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS X - COLETÂNEA - IN-FINITA

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Picando o ponto da vida - Susana Veiga Branco

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Queria que a minha alma entrasse no mar
Que os dias não acelerassem à minha frente

E eu a avistar tal trajeto
Agindo como o lobo que espia
Como a águia que sobrevoa

Escondida na distância
Vem uma cólera
Um vendaval
Talvez
Marcando uma presença ilusória
Seca
Dura

Pico o ponto da vida
Pico a vida em pontos
Tal sulcos escuros esbatidos

E mascaro o sentir
O desejar
O precisar...

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS X - COLETÂNEA - IN-FINITA

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Pirâmide - Sara Timóteo

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Lembro-me de ser um corpo a vogar
Conforme a ondulação refratária do sal
Expresso direto para o renascimento dos arcos
Das costas
A tesoura ronda as arestas deste corpo
Preso ao fogo da ardósia
Dirijo uma sebenta de luz com as pernas
Erguidas sobre cada segundo
O nexo fica calafetado pela sequência
Da pertença

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS X - COLETÂNEA - IN-FINITA

Cruel saudade - Frassino Machado

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Ao entreabrir as portas do horizonte,
Que além voltadas são para nascente,
O astro-rei dourado e florescente
Gravava no meu ser a sua fronte.

Levado pelo murmúrio da corrente,
Que deslizava a medo lá do monte,
Fui meditar ali ao pé da fonte
A saudade de alguém que era ausente...

Sentado sobre a pedra, num momento,
Eu revivi a imagem sedutora
Que foi conforto em todo o meu tormento...

Ó minha mãe, bradei ao som do vento,
Se soubesses o quanto sofro agora
Virias abraçar-me como outrora!...

 EM - NAS SENDAS DE ORFEU & OPÚSCULOS - FRASSINO MACHADO - IN-FINITA
 

quarta-feira, 1 de abril de 2026

Doce de Laranja (Receita da Vó Jurema) - Sara Laham Sonetti

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Para tirar o amargor, molho.
Por 3 dias ou mais.
Casca escaldada e estará boa
Para adoçar o logo mais.
Para a espera, paciência.
De criar vontade e ponderá-la
Sabendo que o bom do doce é ser pouco.
E o bom do domingo é ser uma vez na semana.
Para escoar a água, peneira.
Que retém os albedos e deixa o que precisa, ir.
Pois as quartas-feiras, também são necessárias,
Mas não precisam passar para além do sábado.
Para a calda, fogo baixo e açúcar,
Para o Tempo continuar seu artesanato.
Deve-se mexer de vez em quando,
Mas o processo é todo Dele.
Quando enfim mostrar-se que é a hora
Juntar os bagaços com os cravos e apagar.
Deixar descansar...
Pois segunda será dia de apreciar.
E para não haver arrependimento...
Garantir na terça algum compartilhamento.

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS X - COLETÂNEA - IN-FINITA

terça-feira, 31 de março de 2026

Diz-lhes que os amas - Runa

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não esqueças o lugar onde nasceste
numa noite em que os astros se conjugaram
para te doar a este relicário sombrio

lembra-te do dia do teu nascimento
de quem gemeu para te poder amparar
de quem lutou para que pudesses crescer

agradece a quem te vestiu e alimentou
quem deu sua vida para seres quem és
fala com eles e diz-lhes que os amas

mesmo que já não te consigam escutar

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS X - COLETÂNEA - IN-FINITA

segunda-feira, 30 de março de 2026

Entre luas e marés (Prazeres de beira-mar) [excerto] - Rossana Miranda

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Turbulência lírica do sentir
Que faz surgir a tectónica linguagem do amor
Onde evaporaram-se segredos tão bem guardados
Neste oceano cósmico do teu olhar...

Assim, embarco na inevitável deriva continental do meu coração
Que incansável migra, mares afora, em tua busca
Para encontrar, surpreso, essa Mulher Colossal,
Que tem a força dinâmica das correntes oceânicas... 
Massas d’água que ressurgem das planícies abissais.

Me estendo, de tal forma, entre os fios dos teus cabelos
Que me envolvem por entre as espumas brancas dessas praias desertas
Tão amplas quanto teu ventre úmido e túrgido...
Desvendando profundezas para mim...

Por entre as sílicas que cintilam como estrelas
Nas areias que envolvem teu corpo nu
Rebrilham meus desejos de adentrar nas reentrâncias
Da tua pele salgada e úmida...
Tépida na brisa lenta que traz prazeres de beira-mar...

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS X - COLETÂNEA - IN-FINITA

“Muxima” - Ivo Álvares Furtado

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O coração que sente;
e a mente,
que no seu íntimo, secretamente,
nos remete à voz da consciência,
do muito que para cada qual, representa,
e o regaço que acalenta,
o âmago do colo materno;
o sonho de um dia voltar
… para abraçar.
Angola no nosso coração.
“Muxima”!

EM - SENTIR ANGOLA - IVO ÁLVARES FURTADO - IN-FINITA