quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Não limpo as lágrimas - Susana Veiga Branco

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Não limpo as lágrimas
Deixo a pele absorver este sal
Como uma tatuagem
Como uma sentença positiva

Memorizando cada sentido

Elegendo aprender com o acontecimento
Ampliando-me com ele
Impondo-me a não predominância de limites

Criando sobre o preto
Sobre o branco
Sobre qualquer matéria
Sobre o invisível
Sobre a vida

Éloigne-toi de moi...*

* Afasta-te de mim

EM - ATREVESTE-TE A ABRIR? - SUSANA VEIGA BRANCO - IN-FINITA

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Hora - José Saramago

Vou no caminho esparso, à luz difusa
Do longo amanhecer: o sol não falta
Ao encontro marcado no silêncio
Da noite que se afasta.
A certeza do sol, a madrugada,
O meu corpo de terra, descoberto
Nesta rosa doirada que da morte
Traz a vida tão perto.

EM - POESIA COMPLETA - JOSÉ SARAMAGO - IN-FINITA

domingo, 30 de agosto de 2026

Vozes no vento - Fernando Silva

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Escuto a voz do vento que me chama!
Lá longe onde o frio é mais intenso
Não passa por mim a tua chama
Inóspita solidão, frio imenso!

É noite e a madrugada é tão fria...
Gela meu corpo inerte neste espaço
O vento entoa o frio da agonia
Ouço ao longe o meu “cansaço.”

Rasgo a solidão que há no meu peito
Devasto as sombras do teu corpo
É noite os fantasmas a teu respeito
Deambulam pelas estradas de conforto.

Há sinais que levam à loucura
Gemidos aflitos de quem se ama
Nas ruas do amor, quem me procura?
Eu sinto ao longe a tua chama…

Ao longe é a tua voz que se acende
Na noite das sombras mais sombrias
Nas trevas do teu corpo que se prende
Assiduamente nas minhas fantasias!

EM - PÁSSARO FERIDO - FERNANDO SILVA - IN-FINITA

sábado, 29 de agosto de 2026

Quinta da Boa Água – Nelson Bento

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Famosa é essa Quinta do Conde,
Terra jovem e fértil de gentes,
Mas que terra é essa sem a sua água,
Sem a sua Boa Água.

Não se sabe muito desta metade da povoação,
Contudo, é certo que é no alto do Cabeço do Melão,
Que jorram as fontes que saciam a sede do quintacondense,
As fontes de uma Boa Água, certamente.

E a igreja dessa quinta como é grande e formosa,
Nossa Senhora da Boa Água pode não ser famosa,
Porém, é certamente a mais bela padroeira que já vi,
Por entre as centenas de terras que percorri.

EM - ENTRE PALAVRAS (AO ENCONTRO DA POESIA) - COLETÂNEA - IN-FINITA

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Cravos - Vera Di Bomfim

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Lá onde o tempo, lugar nenhum tornou,
Em mim hoje é uma espécie de croqui
Desenho de canteiro de dálias e colibris
Estaleiro pleno dos cravos que um dia a tudo perfumou.

Mesmo assim, “lá” ainda é um quase aqui,
Aqui onde em mim, minha criança brinca,
Repousa, dança, canta arias,
Mistura tempo, odor e cor, numa só trinca.

De lá, onde um dia foi o meu quintal,
Eu ainda carrego dálias e cravos
Colorindo o branco dos versos que alinhavo,
Versos que da alma me são portal.

EM - HÁ FLORES EM VOCÊ - COLETÂNEA - IN-FINITA

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Assinatura cúmplice de um breve sentir - Susana Veiga Branco

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Imersa em luz
Imersa em trevas

Imersa em pensamentos
Imersa em estradas paralelas de emoções

A chuva em ti, nela
Lavando a tinta vermelha
Escorrendo o sentido de algo esquecido

Gira a roda da sorte
E cai na casa indesejada

Recordando Dickens
Esquecendo Dickens

O pássaro apareceu morto
A cumplicidade posta agora em causa

Franqueza
Sobreaviso

Assinatura cúmplice de um breve sentir
Porta entreaberta
Caminho agora ininterrupto...

EM - ATREVESTE-TE A ABRIR? - SUSANA VEIGA BRANCO - IN-FINITA

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Minha água lustral - José Saramago

Minha água lustral, meu claro rio,
Minha barca de sonhos e verdades,
Minha pedra de céu e rocha-mãe,
Meu regaço de azul no fim da tarde.

EM - POESIA COMPLETA - JOSÉ SARAMAGO - IN-FINITA

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Rossio - Fernando Silva

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Quando o Rossio marca a saudade
Há um lugar vazio na minha idealidade
Transporta a chama, dum calor ardente
Alguém que te ama, de forma diferente.

O tempo passa, nesta enorme agonia
Um corpo te abraça, és minha fantasia
As ruas são veias, dispostas ao vento
O amor que semeias é puro sentimento.

Todos os caminhos me levam a teus braços
Teus pergaminhos falam desses abraços
Meu lugar de infância, momentos de ouro
E aquela criança, teu elevado tesouro.

Já nasceu a aurora, neste lindo jardim
Tão encantadora és flor sem fim
És vida e cor, no alto da madrugada
És Vila Flor, minha terra amada...

EM - PÁSSARO FERIDO - FERNANDO SILVA - IN-FINITA

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Gotas na madrugada - Marli Voigt

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Rufam os tambores no céu
Numa noite de verão
Raios e trovões na bateria
Relâmpagos no show do clarão
Pedras numa grande batucada
Vão pipocando pela terra
Estrelas escondidas na sacada
E a lua na nuvem impera
Por uma cortina entreaberta
Um vivente olha pela janela
Esse festival da natureza
Nas gotas que batem no telhado
Assustou... mas, a noite é tão bela

EM - ENTRE PALAVRAS (AO ENCONTRO DA POESIA) - COLETÂNEA - IN-FINITA

domingo, 23 de agosto de 2026

Frésia - Renata Lima

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Ela é a flor da amizade
e perfuma qualquer jardim.
Seu aroma invade os pulmões
e deixa um doce sentir.
Sua beleza vibrante,
se espalha pelo mundo e
entre cheiros e cores,
pinta a simbologia
da delicadeza e da vivacidade.
Da raiz até as pétalas,
a Frésia faz seu caminho.
Flor africana!
Cheiro do sul!
Vou de ti fazer um incenso
para que ninguém fique sozinho.

EM - HÁ FLORES EM VOCÊ - COLETÂNEA - IN-FINITA

sábado, 22 de agosto de 2026

Carvão em brasa (excerto) - Susana Veiga Branco

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Queimo a tela com carvão em brasa
Não sei se neste trabalho acredite
Ainda

Senti que o tinha de fazer
Olho agora para ele e abro mais os meus olhos
Paro a minha respiração
Ciente ou não ciente do que fiz

Cheira a queimado
O fumo sobre a tinta forma pequenas nuvens

Outrora rasguei outras telas
Deixando espaço para nelas algo entrar

O porquê sei-o bem
É preciso espaço
É preciso a ausência
É preciso do nada construir

A tela que queimei é agora capa de revista
Olho para ela neste momento e sorrio
O efeito
O resultado
Ser escolhida pela editora

Porque não?
Porque não fazer o que sentimos ser certo?
Sem sombras de uma qualquer dúvida...

EM - ATREVESTE-TE A ABRIR? - SUSANA VEIGA BRANCO - IN-FINITA

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

A luz do chão - Eugénio de Andrade

Sem nenhuma razão a voz rompia,
a rasteirinha voz tão rente à vida
que se confunde com a luz do chão,
a luz de março rastejando ainda.

EM - POESIA - EUGÉNIO DE ANDRADE - ASSÍRIO & ALVIM

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Caminho de amendoeiras - Fernando Silva

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Caminho de amendoeiras
Tão lindas, prazenteiras
Na terra por Deus criada
Da aurora ao sol pôr
És tão linda Vila Flor
A minha terra amada.

Daqui recordo “aqueles”
O grande amor por eles
Vai até ao infinito
Na flor da amendoeira
Da água na ribeira
Canto o nome num só grito.

É nestes campos floridos
Por entre beijos pedidos
Nas amendoeiras em flor
Que ranchos de raparigas
Cantam lindas cantigas
Nas ruas de Vila Flor

Que fazem da tradição
A mais linda canção
Dedicada ao amor
Produtos que a natureza
Nesta terra de beleza
De seu nome Vila Flor.

EM - PÁSSARO FERIDO - FERNANDO SILVA - IN-FINITA

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

O poeta – Maria José Correia

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Cavalgando nas estrelas
Voando sobre elas
Vive o poeta
Nas horas mortas
E, na hora certa,
Por estradas tortas
Bebeu de toda a flor
Viveu a seiva do amor
Morreu
Com a dor do pecado
A seu lado
Nas letras perdidas
Nas verdades escondidas
Nas ilusões despidas
Na cama de flores
Com sabor a amores 

 EM - ENTRE PALAVRAS (AO ENCONTRO DA POESIA) - COLETÂNEA - IN-FINITA

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Inka - Maria Bauer

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Me dê a música!
Me dê as flores!
Então eu quero cantar uma linda canção para você.
Canções de esperança, músicas cheias de flores.
Para que não sejas esquecido nos dias tranquilos.
Mas soa alto em meus ouvidos.
E sua melodia soa quente em mim.
Você balança comigo de um braço para o outro!

EM - HÁ FLORES EM VOCÊ - COLETÂNEA - IN-FINITA

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Destruindo a edificação do impossível (excerto) - Susana Veiga Branco

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Ela pintou a tela
A base
Mas não estava certo
Não
Não estava
Nada extravasava
Não gritava

E ela precisava de gritar
Desesperadamente
Desenfreadamente

De se deixar cair
Apertando-se envolvida pelo próprio abraço
Soluçar mesmo que em silêncio
Ou apenas verter toda a água das suas lágrimas
para depois se erguer renovada

Então pegou no vidro
Pegou no martelo
E quebrou

Quebrou com toda a força dos seus músculos
Quebrou com toda a força do seu ser interior 
...

EM - ATREVESTE-TE A ABRIR? - SUSANA VEIGA BRANCO - IN-FINITA

domingo, 16 de agosto de 2026

O sorriso - Eugénio de Andrade

Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.

EM - POESIA - EUGÉNIO DE ANDRADE - ASSÍRIO & ALVIM

sábado, 15 de agosto de 2026

Gaivota criança - Fernando Silva

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Chega de longe, dócil gaivota,
Traz alegria, risos à solta
E vai ao mar ver a tempestade
Aproveita a onda, para a liberdade.

Onde vais tu com tanta pressa?
Voar para longe pouco interessa
Voa baixinho neste degredo
Vem de mansinho, não tenhas medo!

Enquanto o vento sopra nas vagas
Respiras profundo, horas amargas
Neste mar de sublimes encantos
Na aproximação à beleza dos recantos.

Numa hora tardia, onde sopra o vento
Gaivota “sombria”, filha deste tempo
Que o tempo levou, para lá do tempo
Gaivota sem rumo, na fúria do vento

Mostra-se à vida, num lençol de pranto
Na proa, na subida, lugar de encanto
Um barco atracado, no cais de esperança
Gaivota brincando parece uma criança.

EM - PÁSSARO FERIDO - FERNANDO SILVA - IN-FINITA