terça-feira, 4 de agosto de 2026

Por favor, mostra-me – Lígia Oliveira

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Lua que brilhas lá no céu,
Que beijas o mar com o teu luar,
Por favor, mostra-me o que é meu,
Quem será digno de me amar!
Sol brilhante que me alumias,
Que com teus raios me acaricias,
Por favor, mostra-me o que é meu,
Quem ficará comigo até ao fim dos meus dias!
Mar azul, majestoso e possante,
Que com o teu bailar me enfeitiças,
Por favor, mostra-me o que é meu,
Porque tu todos os dias me atiças!
Céu que a todo o mundo abraças,
Seja noite ou seja dia,
Por favor, mostra-me o que é meu,
Pára com esta fantasia!!
Lua, minha guardiã na vida,
Acaba com esta saudade,
Por favor, mostra-me o que é meu,
Mostra-me quem me ama de verdade!!

EM - ENTRE PALAVRAS (AO ENCONTRO DA POESIA) - COLETÂNEA - IN-FINITA

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Pouso na Dalma - Luís Cláudio de Oliveira

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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O amor bateu
suas asas cintilantes
e pousou na memória
do meu coração,
que o recebeu
de sentimentos abertos,
ofertando-lhe as flores
da convivência.

EM - HÁ FLORES EM VOCÊ - COLETÂNEA - IN-FINITA

domingo, 2 de agosto de 2026

Caixa-segredo - Susana Veiga Branco

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Sinto o latejar
Sentes também?

Respiro fundo
Costumas respirar fundo também?

Falta
Foge
O quê?
Quem?

É segredo
Ainda é segredo
Não posso contar

Entendeu?
Também te acontece?

E só lá
É numa caixa
É uma caixa
Uma caixa-segredo...

EM - ATREVESTE-TE A ABRIR? - SUSANA VEIGA BRANCO - IN-FINITA

sábado, 1 de agosto de 2026

Que a terra lhe seja leve 3 - Júlio Pomar

A tua palavra vale
O cocozinho dum cão
É tudo pela nação
Agora já cheira mal

A tua palavra vale
E mais vale isso que nada
Sem sorte passa-se mal
E a conta sai furada

O cocozinho dum cão
Mesmo no passeio a meio
Pode ser uma aflição
E nunca sinal de asseio

E tudo pela nação
Foi um chão que já deu uvas
E a época das chuvas
Vem a calhar no verão

Agora já cheira mal
Ao repetir o já dito
Toma nota Portugal
Chegou a vez do manguito

EM - PRIMA CONTRADIÇÃO - JÚLIO POMAR - ASSÍRIO & ALVIM

sexta-feira, 31 de julho de 2026

Não há mais horizonte - José Saramago

Não há mais horizonte. Outro passo que desse,
Se o limite não fosse esta rutura,
Era em falso que o dava:
Numa baça cortina indivisível
De espaço e duração.
Aqui se juntarão as paralelas,
E as parábolas em retas se rebatem.
Não há mais horizonte. O silêncio responde.
É Deus que se enganou e o confessa.

EM - POESIA COMPLETA - JOSÉ SARAMAGO - IN-FINITA

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Fantásticas bodas - Natália Correia

Senhora do Lago assim te apareço.
Teu beijo carnal o meu corpo esfuma:
Fantásticas bodas do homem de gesso
Com a mulher de bruma.

EM - POESIA COMPLETA - NATÁLIA CORREIA - DOM QUIXOTE

quarta-feira, 29 de julho de 2026

O meu fado – Joaquina Raimundo

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Pudesse eu em tom grandioso cantar
O meu amor por ti, ancestral, deveras
E a plenitude do teu amor alcançar,
Infindável, atravessando eras!

Pudesse eu o nosso amor versejar
Poemas com muita mestria e coerência,
Mágicos, feéricos na sua essência,
Cânticos do meu amor por ti a entoar!

Pudesse eu a finitude de ti alcançar
Poetizando a verdade que sinto,
Vaticínio da minha vida a pelejar!

Pudesse eu num supremo cântico
Cativar-te, amor, para o amor infinito
E não mais, no meu fado, haveria pranto! 

 EM - ENTRE PALAVRAS (AO ENCONTRO DA POESIA) - COLETÂNEA - IN-FINITA

terça-feira, 28 de julho de 2026

Flor de hibisco - Joselita Boaventura

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Uma semente lançada ao vento.
Aterrisa num coração sedento.
No qual não há amor, não há alento.
O desejo fora arrancado a mão.
E despedaçado ao chão.
Seria esta a solução?
Óvulo fecundado com todo material nutritivo procura abrigo.
Revira-se nos átrios! Eclode!
É a vida que se anuncia!
Regas, podas Renovações todos os dias.
Brotos, flores, cores sem simetria!
Como é bom estar em sua companhia!

EM - HÁ FLORES EM VOCÊ - COLETÂNEA - IN-FINITA

segunda-feira, 27 de julho de 2026

A caminho das dunas - Eugénio de Andrade

Há um barco,
há um homem nas areias.
Obscuramente aprende
a morrer onde as águas são mais duras.
Sei que é verão pelo hálito da loucura,
o brilho em declínio das giestas
a caminho das dunas.
O homem adormecido
e o mar eram de vidro.

EM - POESIA - EUGÉNIO DE ANDRADE - ASSÍRIO & ALVIM

domingo, 26 de julho de 2026

As imagens - Sophia de Mello Breyner Andresen

As imagens transbordam fugitivas
E estamos nus em frente às coisas vivas.
Que presença jamais pode cumprir
O impulso que há em nós, interminável,
De tudo ser e em cada flor florir?

EM - OBRA POÉTICA - SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN - ASSÍRIO & ALVIM

sábado, 25 de julho de 2026

A um corvo - Sebastião da Gama

Tens o poder das asas mutilado...
Tens a tristeza nobre dos proscritos...
Tens, no aspecto, a calma nostalgia
dos teus reinos de aquém e de além ar...
Mas não gritam tragédias nos teus olhos
nem lembranças violentas de outros dias
denunciam a fonte do teu sangue...
Somente o Poeta sabe do segredo
que os teus passos burgueses espezinham...

EM - O INQUIETO VERBO DO MAR - SEBASTIÃO DA GAMA - ASSÍRIO & ALVIM

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Caminhos – Debora Pio

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Eu tenho dores
Que a ninguém interessam
Tenho amores
Que já partiram
Para outros destinos 
Ou mesmo morreram
Um mar enorme
Sal a arder os olhos
Um coração defeituoso
Não gera lágrimas 
Só dor.
A lua, imensa, reina absoluta
Silêncio 
Silêncio 
Somente o ruído de mansas ondas
A desfazer a lua na areia 

 EM - ENTRE PALAVRAS (AO ENCONTRO DA POESIA) - COLETÂNEA - IN-FINITA

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Solanum - Jocelia Peixoto

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Fé que instiga
Racionalidade amorosa
Alegria que reúne
Notável interesse pela humanidade
Caridade concreta
Igreja além paredes e muros
Sociabilidade que inclui diversidades
Coração misericordioso, construindo pontes
Orador que se comunica desde o olhar de afeto e humor,
dialogando com o mundo.

EM - HÁ FLORES EM VOCÊ - COLETÂNEA - IN-FINITA

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Passos perdidos - Pedro Homem de Mello

Em tudo o que dizemos há visões:
- Visões só para nós,
Porque as palavras simples que soltamos
São para os outros as paredes nuas
Onde a visão que passa nunca é vista
Senão por nossos olhos...

EM - POEMAS 1934-1961 - PEDRO HOMEM DE MELLO - ASSÍRIO & ALVIM

terça-feira, 21 de julho de 2026

Orgulho de D. João no Inferno - José Saramago

Bem sei que para sempre: onde caí
Não há perdão ou letra de resgate.
Mas fui, quando vivi, o sal da terra,
A flor azul, o cetro de escarlate.
Aqui, se condenado, não esqueci,
Nem morto estou sequer: torno a ser eu
No sangue da mulher que, acesa, pede
Aquele modo de amar que foi o meu.

EM - POESIA COMPLETA - JOSÉ SARAMAGO - IN-FINITA

segunda-feira, 20 de julho de 2026

O abutre - Natália Correia

Acima de tudo o excita
da vida o fátuo jasmim
impaciente da sua cinza
para a tocar como clarim.

O sazonado fruto sorvendo
de violar violáceas vulvas
com o direito de ter à mão
um público cacho de uvas.

O vento podre dos mortos
o embala tenebrosa onda.
É oficiante de limpar ossos.
Mas não inventou a bomba.

EM - POESIA COMPLETA - NATÁLIA CORREIA - DOM QUIXOTE

domingo, 19 de julho de 2026

Chuva com sabor a menta – Daniel Braga

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Eis que a tarde se desfaz 
Em fios de água a deslizar 
Não é água apenas que corre
É cheiro a terra molhada a acordar
É perfume a resina que se liberta
Da casca da árvore
Que se expõe ferida e aberta
E no meio desse aroma que se solta
Uma nova frescura exala das nuvens 
Será chuva que cai com sabor a menta?
É chuva que escorre da calçada 
Que se solta forte e bate em alvoroço 
Um eco de orvalho que bate no rosto
É uma folha esmagada no seu regato
É granizo que bate forte ao cair
E brisa que sopra e faz sonhar 
Com a chuva que cai com sabor a menta
Beija os telhados com brilho de prata
Escorre pelas calhas e canta baixinho 
É a alma aberta e leve que abraça 
A chuva que tem sabor a menta 
E quando cessa e o sol sorri ao tempo
O tempo escolhe o momento que passa
Para que a natureza sinta os seus odores 
No sabor a menta que a chuva deixa

 EM - ENTRE PALAVRAS (AO ENCONTRO DA POESIA) - COLETÂNEA - IN-FINITA

sábado, 18 de julho de 2026

Olhar de Gérbera - Jeane Sánchez

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Meus olhos podem ver
A luz do movimento.

Meus olhos podem ver
A luz da temperatura.

Meus olhos podem ver
A luz que emana de você.

Meus olhos podem ver
O cheiro imanente.

Meus olhos podem ver
O vento balançar pétalas.

Ir circular e em linha reta.

Meus olhos nus na luz
Não dependem de outro brilho.

Refletem a alma que tenho
Nas formas de te tocar.

Meus olhos, tudo pode enxergar.

EM - HÁ FLORES EM VOCÊ - COLETÂNEA - IN-FINITA

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Mediterrâneo - Eugénio de Andrade

Como no poema de Whitman um rapazito
aproximou-se e perguntou-me: O que é a erva?
Entre o seu olhar e o meu o ar doía.
À sombra doutras tardes eu falava-lhe
das abelhas e dos cardos rente à terra.

EM - POESIA - EUGÉNIO DE ANDRADE - ASSÍRIO & ALVIM
 

quinta-feira, 16 de julho de 2026

Evadir-me - Sophia de Mello Breyner Andresen

Evadir-me, esquecer-me, regressar
À frescura das coisas vegetais,
Ao verde flutuante dos pinhais
Percorridos de seivas virginais
E ao grande vento límpido do mar.

EM - OBRA POÉTICA - SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN - ASSÍRIO & ALVIM