quinta-feira, 30 de julho de 2026
Fantásticas bodas - Natália Correia
Senhora do Lago assim te apareço.
Teu beijo carnal o meu corpo esfuma:
Fantásticas bodas do homem de gesso
Com a mulher de bruma.
EM -
POESIA COMPLETA - NATÁLIA CORREIA - DOM QUIXOTE
quarta-feira, 29 de julho de 2026
O meu fado – Joaquina Raimundo
LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR
IN-FINITA
Conheçam a In-Finita neste
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Pudesse eu em tom grandioso cantar
O meu amor por ti, ancestral, deveras
E a plenitude do teu amor alcançar,
Infindável, atravessando eras!
Pudesse eu o nosso amor versejar
Poemas com muita mestria e coerência,
Mágicos, feéricos na sua essência,
Cânticos do meu amor por ti a entoar!
Pudesse eu a finitude de ti alcançar
Poetizando a verdade que sinto,
Vaticínio da minha vida a pelejar!
Pudesse eu num supremo cântico
Cativar-te, amor, para o amor infinito
E não mais, no meu fado, haveria pranto!
EM -
ENTRE PALAVRAS (AO ENCONTRO DA POESIA) - COLETÂNEA - IN-FINITA
terça-feira, 28 de julho de 2026
Flor de hibisco - Joselita Boaventura
LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR
IN-FINITA
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Uma semente lançada ao vento.
Aterrisa num coração sedento.
No qual não há amor, não há alento.
O desejo fora arrancado a mão.
E despedaçado ao chão.
Seria esta a solução?
Óvulo fecundado com todo material nutritivo procura abrigo.
Revira-se nos átrios! Eclode!
É a vida que se anuncia!
Regas, podas Renovações todos os dias.
Brotos, flores, cores sem simetria!
Como é bom estar em sua companhia!
EM -
HÁ FLORES EM VOCÊ - COLETÂNEA - IN-FINITA
segunda-feira, 27 de julho de 2026
A caminho das dunas - Eugénio de Andrade
Há um barco,
há um homem nas areias.
Obscuramente aprende
a morrer onde as águas são mais duras.
Sei que é verão pelo hálito da loucura,
o brilho em declínio das giestas
a caminho das dunas.
O homem adormecido
e o mar eram de vidro.
EM -
POESIA - EUGÉNIO DE ANDRADE - ASSÍRIO & ALVIM
domingo, 26 de julho de 2026
As imagens - Sophia de Mello Breyner Andresen
As imagens transbordam fugitivas
E estamos nus em frente às coisas vivas.
Que presença jamais pode cumprir
O impulso que há em nós, interminável,
De tudo ser e em cada flor florir?
EM -
OBRA POÉTICA - SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN - ASSÍRIO & ALVIM
sábado, 25 de julho de 2026
A um corvo - Sebastião da Gama
Tens o poder das asas mutilado...
Tens a tristeza nobre dos proscritos...
Tens, no aspecto, a calma nostalgia
dos teus reinos de aquém e de além ar...
Mas não gritam tragédias nos teus olhos
nem lembranças violentas de outros dias
denunciam a fonte do teu sangue...
Somente o Poeta sabe do segredo
que os teus passos burgueses espezinham...
EM -
O INQUIETO VERBO DO MAR - SEBASTIÃO DA GAMA - ASSÍRIO & ALVIM
sexta-feira, 24 de julho de 2026
Caminhos – Debora Pio
LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR
IN-FINITA
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Eu tenho dores
Que a ninguém interessam
Tenho amores
Que já partiram
Para outros destinos
Ou mesmo morreram
Um mar enorme
Sal a arder os olhos
Um coração defeituoso
Não gera lágrimas
Só dor.
A lua, imensa, reina absoluta
Silêncio
Silêncio
Somente o ruído de mansas ondas
A desfazer a lua na areia
EM -
ENTRE PALAVRAS (AO ENCONTRO DA POESIA) - COLETÂNEA - IN-FINITA
quinta-feira, 23 de julho de 2026
Solanum - Jocelia Peixoto
LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR
IN-FINITA
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Fé que instiga
Racionalidade amorosa
Alegria que reúne
Notável interesse pela humanidade
Caridade concreta
Igreja além paredes e muros
Sociabilidade que inclui diversidades
Coração misericordioso, construindo pontes
Orador que se comunica desde o olhar de afeto e humor,
dialogando com o mundo.
EM -
HÁ FLORES EM VOCÊ - COLETÂNEA - IN-FINITA
quarta-feira, 22 de julho de 2026
Passos perdidos - Pedro Homem de Mello
Em tudo o que dizemos há visões:
- Visões só para nós,
Porque as palavras simples que soltamos
São para os outros as paredes nuas
Onde a visão que passa nunca é vista
Senão por nossos olhos...
EM -
POEMAS 1934-1961 - PEDRO HOMEM DE MELLO - ASSÍRIO & ALVIM
terça-feira, 21 de julho de 2026
Orgulho de D. João no Inferno - José Saramago
Bem sei que para sempre: onde caí
Não há perdão ou letra de resgate.
Mas fui, quando vivi, o sal da terra,
A flor azul, o cetro de escarlate.
Aqui, se condenado, não esqueci,
Nem morto estou sequer: torno a ser eu
No sangue da mulher que, acesa, pede
Aquele modo de amar que foi o meu.
EM -
POESIA COMPLETA - JOSÉ SARAMAGO - IN-FINITA
segunda-feira, 20 de julho de 2026
O abutre - Natália Correia
Acima de tudo o excita
da vida o fátuo jasmim
impaciente da sua cinza
para a tocar como clarim.
O sazonado fruto sorvendo
de violar violáceas vulvas
com o direito de ter à mão
um público cacho de uvas.
O vento podre dos mortos
o embala tenebrosa onda.
É oficiante de limpar ossos.
Mas não inventou a bomba.
EM -
POESIA COMPLETA - NATÁLIA CORREIA - DOM QUIXOTE
domingo, 19 de julho de 2026
Chuva com sabor a menta – Daniel Braga
LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR
IN-FINITA
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Eis que a tarde se desfaz
Em fios de água a deslizar
Não é água apenas que corre
É cheiro a terra molhada a acordar
É perfume a resina que se liberta
Da casca da árvore
Que se expõe ferida e aberta
E no meio desse aroma que se solta
Uma nova frescura exala das nuvens
Será chuva que cai com sabor a menta?
É chuva que escorre da calçada
Que se solta forte e bate em alvoroço
Um eco de orvalho que bate no rosto
É uma folha esmagada no seu regato
É granizo que bate forte ao cair
E brisa que sopra e faz sonhar
Com a chuva que cai com sabor a menta
Beija os telhados com brilho de prata
Escorre pelas calhas e canta baixinho
É a alma aberta e leve que abraça
A chuva que tem sabor a menta
E quando cessa e o sol sorri ao tempo
O tempo escolhe o momento que passa
Para que a natureza sinta os seus odores
No sabor a menta que a chuva deixa
EM -
ENTRE PALAVRAS (AO ENCONTRO DA POESIA) - COLETÂNEA - IN-FINITA
sábado, 18 de julho de 2026
Olhar de Gérbera - Jeane Sánchez
LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR
IN-FINITA
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Meus olhos podem ver
A luz do movimento.
Meus olhos podem ver
A luz da temperatura.
Meus olhos podem ver
A luz que emana de você.
Meus olhos podem ver
O cheiro imanente.
Meus olhos podem ver
O vento balançar pétalas.
Ir circular e em linha reta.
Meus olhos nus na luz
Não dependem de outro brilho.
Refletem a alma que tenho
Nas formas de te tocar.
Meus olhos, tudo pode enxergar.
EM -
HÁ FLORES EM VOCÊ - COLETÂNEA - IN-FINITA
sexta-feira, 17 de julho de 2026
Mediterrâneo - Eugénio de Andrade
Como no poema de Whitman um rapazito
aproximou-se e perguntou-me: O que é a erva?
Entre o seu olhar e o meu o ar doía.
À sombra doutras tardes eu falava-lhe
das abelhas e dos cardos rente à terra.
EM -
POESIA - EUGÉNIO DE ANDRADE - ASSÍRIO & ALVIM
quinta-feira, 16 de julho de 2026
Evadir-me - Sophia de Mello Breyner Andresen
Evadir-me, esquecer-me, regressar
À frescura das coisas vegetais,
Ao verde flutuante dos pinhais
Percorridos de seivas virginais
E ao grande vento límpido do mar.
EM -
OBRA POÉTICA - SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN - ASSÍRIO & ALVIM
quarta-feira, 15 de julho de 2026
Nocturno - Sebastião da Gama
Era um murmúrio longo de ondas mansas...
Um cochichar de Estrelas curiosas...
Um concerto de grilos tresnoitados...
Mais presente que tudo, aquele enorme
silêncio religioso, imagem pura
dos ouvidos atentos do Poeta...
EM -
O INQUIETO VERBO DO MAR - SEBASTIÃO DA GAMA - ASSÍRIO & ALVIM
terça-feira, 14 de julho de 2026
Vai alegrando quem passa – Cristina Pinheiro Moita
LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR
IN-FINITA
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Muito magoada pela vida
Só quer que a deixem em paz,
Já lhe chega a vida sofrida
Que vai deixando para trás.
Sempre pronta para ajudar
Vai alegrando quem passa,
Dos sonhos vai a cantar
Iluminando, com graça.
No seu canto sossegada
Vai observando o mundo,
Nunca se mete em nada
Nem opina lá do fundo.
Não a queiras atormentar
Pois, não aborrece ninguém,
Se a pensares acossar
Foge… que ela pinta o diabo
E no fogo ardes também.
EM -
ENTRE PALAVRAS (AO ENCONTRO DA POESIA) - COLETÂNEA - IN-FINITA
segunda-feira, 13 de julho de 2026
Gloriosa - Glória Terra
LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR
IN-FINITA
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o susto caiu
no colo do grito
acordou o sono
que repousava
numa cama fofa
feita de algodão
doce
EM -
HÁ FLORES EM VOCÊ - COLETÂNEA - IN-FINITA
domingo, 12 de julho de 2026
Fatalismo - Pedro Homem de Mello
O artista quando fala, radioso,
Convida-nos a ver
As frases belas, fundas, misteriosas
Que a mão do seu destino lhe escreveu.
Mas essas letras, quedam-se, vazias
- Ninguém as sabe ler!
Nas águas e no ar o manso artista
Continua a escrever...
EM -
POEMAS 1934-1961 - PEDRO HOMEM DE MELLO - ASSÍRIO & ALVIM
sábado, 11 de julho de 2026
Compensação - José Saramago
Caminho de palavras vou abrindo,
Ao coração das coisas apontado.
Mas não me pesará o desencanto
Se, no ponto em que parar o meu arado,
Rombo na pedra que a morte houver lançado,
Já do coração das coisas afastado,
Mover um coração, se valho tanto.
EM -
POESIA COMPLETA - JOSÉ SARAMAGO - IN-FINITA
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