domingo, 29 de março de 2026

Trovoada - Rosalina Vaqueiro

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O dia acinzentou
O céu vestiu-se de viúva
A serra escureceu
E até o mar anoiteceu
Toda a natureza entristeceu
Da minha janela fechada
Carrego nos ombros vergados
O peso desta mágoa da natureza
Numa melancolia que inverna
Com saudades do astro rei
Assim me encontro
Nesta dolorida contemplação
Quando as portas do céu
Se fendem em luminosos golpes
E os deuses discutem
Em acaloradas quezílias
As nuvens se agridem
Em densas sombras
E faiscantes ensurdecedores
Mas quando, após demorada discussão
Decidem dar aso à sua tristeza
As bátegas fortes descarregam
Numa violenta abundância
Que o vento faz ondular
Limpando a poeira das ruas
E varrendo o cinzento do dia
Numa purificação divina

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS X - COLETÂNEA - IN-FINITA

3 Haikus - Elizabete Nascimento

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ela resistiu
mas a lâmina cortou
sangue na calçada
彼女は抵抗した
しかし刃が切れた
歩道の血
no espelho o rastro
de uma vida marcada
olhos sem brilho
鏡の中の痕跡
顕著な人生の
鈍い目
vozes apagadas
ecos de dor na noite
clamam por justiça
消えた声
夜の痛みの反響
正義のために叫ぶ

EM - PÉTALAS DE AÇO - ELIZABETE NASCIMENTO - IN-FINITA

sábado, 28 de março de 2026

Empoeirado - Regina Marinho

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Nem brilho, nem luz
Sem risco, sou só
A dor me conduz
Num breu e sem dó

Um som quase mudo
De toda beleza
Distância de tudo
Encobre a certeza

Dá um sopro de ar
E tira esse nó
Não deixa afogar
Esse eu que sou pó

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS X - COLETÂNEA - IN-FINITA

sexta-feira, 27 de março de 2026

Tantas mensagens - Pedro Caldeira Santos

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Tenho em mente
Todas as mensagens que me chegam ao ouvido
Todos os ensinamentos retidos
As regras das aparências ditadas com calma e aos gritos
Perante a desobediência às mais recentes leis
Sem qualquer consistência
As inúmeras obrigações
E tantos conselhos rezados em surdina

As piadas com e sem graça torturam o cérebro
E o assédio que nos embaraça confunde-se
com as palavras ditas por amor

A dor das desilusões
Os sonhos sussurrados
As utopias descaradas
O desejo não consumado
E tantos objetivos frustrados ainda presentes

Tenho em mente
Tanta coisa que me foi dita

Porque as escritas, essas
Já não me cabem nos bolsos.

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS X - COLETÂNEA - IN-FINITA

Ansiando - Frassino Machado

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Estas águas se movem brandamente,
Enlaçadas pelas margens verdejantes,
Pedindo uma carícia aos caminhantes
E aos doces salgueirais um beijo ardente...

Durante o claro dia o sol pendente,
Em seu leito de pérolas e diamantes,
Deposita com raios cintilantes
A sua luz de ouro transparente.

Risonho passarinho a chilrear
Veio ao meu coração arrebatar
Melodiosa canção celestial...

Ó águas cristalinas, sol dourado,
Fazei-me como vós apaixonado,
Tornai meu coração angelical!

 EM - NAS SENDAS DE ORFEU & OPÚSCULOS - FRASSINO MACHADO - IN-FINITA

quinta-feira, 26 de março de 2026

Mágoa - Maria Antonieta Oliveira

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Já não tenho alegria, nem esperança
Nada ou algo que valha a pena
Vou sair desta vida infeliz
Vou renascer noutro local
Tentar ter outra família com amor
Que me dê carinho, beijos e ternura
Que sejam a minha salvação
Quero ter uma família.
Se errei, digam-me onde errei
E pedirei perdão
Explicarei porque o fiz
E decerto me compreenderão

Quanta mágoa vai neste coração
Quantas lágrimas derramadas em vão.

EM - MEMÓRIAS DE UMA LOUCURA - MARIA ANTONIETA OLIVEIRA - IN-FINITA

Correr atrás da Primeira vez… - Paula Fuso

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Ser criança é ser aventureira, feliz
andar a correr atrás da primeira vez
ganhar asas, ser um eterno aprendiz.
É ter liberdade para sonhar, sentir
é acreditar em magia e contos de fadas
explorar o mundo em que vive a sorrir.
Para tudo, há sempre uma primeira vez
quando ao nascer chora e grita com altivez
bebe o leite ou a água no biberão
come a primeira sopa ou papa
gatinha, anda, corre com rapidez
balbucia e logo fala, canta, dança
anda de balancé, triciclo, bicicleta
viaja de carro, comboio, navio, avião
vai para a creche, para a escola,
vai ao campo, vai á praia
salta à corda, joga à bola, os joelhos esfola
brinca fascinado sem que nada o distraia.
Ser criança é gostar de aprender, se surpreender
acreditar que tudo é possível e imperdível.
É desejar tudo que vê e fazer birras
mas logo esquecer tristezas e brigas
e ter o dia mais feliz todos os dias.
É entender em cada passo que se der
que a vida se deve viver com intensidade
igual à do primeiro grito, que se dá ao nascer
para dizer… Estou aqui!

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS X - COLETÂNEA - IN-FINITA

Se eu morrer - Fátima Bravo

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Se um destes dias, eu morrer
À beira do teu carinho
Faz tudo para eu viver
Não me deixes noutro caminho

Eu sei que não ando a teu lado
De mão na mão a caminhar
Sei que não tens para mim olhado
Segredo, sinto, estou-te a amar

Se nós na vida nos cruzámos
Será que não há algum porquê?!
Nosso destino não marcámos
Mas, foste meu lindo sonho, crê.

EM - A MAGIA DO PENSAMENTO - FÁTIMA BRAVO - IN-FINITA

quarta-feira, 25 de março de 2026

A dor da ausência - MJ Abreu

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É na ausência que se conhece a falta,
no vazio deixado, o coração exalta,
a saudade pinta um quadro sem cor,
revelando o valor do ausente amor.

Quando a presença se faz silêncio,
e a distância molda o sentimento,
percebemos o quanto era essencial,
o calor, o toque, o olhar.. tão real.

A ausência ensina com sua mão fria,
a importância de quem, um dia,
esteve ao nosso lado constantemente,
e na falta, o amor se torna gigante.

Nos espaços vazios da alma carente,
ecoa a lembrança, doce e presente,
pois é na ausência que se faz sentir,
a verdade do amor, que nunca há-de partir.

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS X - COLETÂNEA - IN-FINITA

Pau de Bambu - Ivo Álvares Furtado

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Quando for grande
e recordar o passado,
quero lembrar-me
do facto de ter brincado,
com o pau de bambu.
Era eu então um petiz,
que como os demais,
em Saurimo, construía
carrinhos com arame
e paus de bambu.
Com poucos recursos,
faziam-se brinquedos,
que tornavam
uma criança, feliz.
E assim em frente de casa,
na década de 50 do século passado,
havia um canavial,
onde do ofício artesanal,
era aprendiz;
e o bambu servia de esqueleto
para a construção do papagaio de papel,
espadas, arcos e flechas
flautas e outros instrumentos musicais
e ainda para fazer ponteiros escolares.
A versatilidade do bambu,
preencheu o nosso universo,
da infância em que brincamos,
Eu e tu!

EM - SENTIR ANGOLA - IVO ÁLVARES FURTADO - IN-FINITA

terça-feira, 24 de março de 2026

Borboletas - Maria do Céu Dâmaso

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Acordei num verde prado em que deitada na relva, mal os olhos conseguia abrir, Pois o calor não o permitia.
Aos poucos os fui abrindo e o sol refletia-se em mim! Continuando deitada.
Olhei em meu redor. Árvores muito verdes, flores que desabrochavam.
A minha respiração era calma e leve.
Senti pousadas em mim, pequenas e coloridas borboletas.
Esvoaçam à minha volta e em mim pousavam! E em mim tudo era cor e brilho.
Eram tão coloridas que não conseguia identificar as suas cores. Giravam à minha volta, tocavam-me nos braços, na minha face, criando em mim.
Aqueles, eram os momentos de paz, que sempre procuro.
Não conseguia levantar-me! E também não queria...
por ali fiquei até ao entardecer.
De repente adormeci. Nem sei se fiquei por ali!

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3 Haikus - Elizabete Nascimento

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queria ser astro
não deixar nenhum rastro
apenas o vento
スターになりたかった
痕跡を残さない
ただの風
no chão árido
semente de serpente
rompe a sequidão
不毛の地で
ヘビの種
干ばつを打破する
a invenção faz
gente de carne e osso
tingir perfeição
発明はそうなります
血と肉の人々
完璧な染料

EM - PÉTALAS DE AÇO - ELIZABETE NASCIMENTO - IN-FINITA

segunda-feira, 23 de março de 2026

O perdão - Maria Cabana

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Traz a palavra na boca
Pedindo só com o olhar
Sua boca fica rouca
Rouca… só de o tentar
É difícil de pedir…
Será muita a ingratidão
Mas, para em frente seguir…
Devemos estender a mão…
Há quem o reconheça
Se errou a dado tempo!
Outro tempo recomeça
Façamos dele instrumento…
Todos nós o queremos
Por qualquer mal-entendido…
Ou por algo que fizemos…
E ficou mal resolvido…
Há até, quem alguém prejudique
Então, pedi-lo é virtude
Para que tudo bem fique
Há que pedi-lo amiúde!

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS X - COLETÂNEA - IN-FINITA

domingo, 22 de março de 2026

A noite - Maria Antonieta Oliveira

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A noite é a escuridão iluminada pela lua
É o encontro dos amantes
E o adormecer dos vagueantes
Divagando pelas ruas negras e sujas da cidade
O cheiro nauseabundo faz-nos desistir
Mas o amor é maior e ficamos
Queremos continuar a amar ao luar
A sentir o calor dos nossos beijos
Sem que alguém nos condene
Só a lua, o céu e as nuvens nos veem
Testemunhas do nosso amor vadio
No lago a água espreita curiosa
Os peixes saltitam salpicando o banco
Onde nos encontramos amando
Enroscados e escondidos passamos despercebidos
E amamo-nos e beijamo-nos como se não houvesse amanhã
A lua começa a dar lugar ao sol
Temos que partir antes que eles nos encontrem

A noite termina
Mas o amor continua.

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Árvore caída - Frassino Machado

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Aquela árvore caída
Sem vida!
Aquele abalado solo
E o rasgado colo
Da terra...
Aquelas raízes torcidas
Secas e a beber pó
Que o ar encerra...
Aquele tronco só
No matagal selvagem
A largar seiva
E a respirar ciúme...
Aquela doce folhagem,
Caída na leiva,
Servindo estrume...
E o pica-pau e a pêga
Troçando,
Em orgulhosa achega...
Árvore lacrimando,
Prostrada, caída,
Sem vida,
Esperando!...

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sábado, 21 de março de 2026

Loucura - Maria Antonieta Oliveira

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A loucura
É uma pasta vazia
É uma pauta sem clave de sol
Uma praia sem areia
E um mar sem água
A loucura
É uma cabeça oca
Um pensamento sem nexo
Um som agudo
Ou grave tanto faz
A loucura
É louca
Inventa e cria ilusões
Acredita em mentiras e desilusões
É louca
A loucura
Porque é abstrata e pura.

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M.A.R. dentro de mim… - Manuel A. Rodrigues

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Na praia, deslumbrei-me a ver as ondas rebentar,
O deslumbrar, levou-me a meditar,
Senti uma magia, vinda dentro do mar,
O sorriso de uma criança, a escrita me fez inspirar.

Tenho dentro de mim o M.A.R.!
Onde não existe água,
Nem barco para navegar,
Apenas navega em mim, o sorriso e a mágoa.

Sou o M.A.R.! de carne e osso!
Navegar dentro de mim, só eu posso!
Não tenho barco, nem caravela,
Pinto o meu navegar, numa imaginária tela.

Sendo eu o M.A.R.!
Dentro de mim, há ondas a se revoltar,
Meu pensamento vive sentado nelas,
Pelo sopro, viajo, fustigado para idílicas terras.

O meu M.A.R.! é de todos diferente!
É imaginária criação minha!
As águas, são a minha mente!
A criação de Deus, em mim, o M.A.R, domina…

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Retrato de almas gémeas - Fátima Bravo

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Destino
Encontro
Hora
Momento

Olhar
Amar
Oásis

Duas almas
Um coração
Amor no ar

O eterno destino
Sempre
Sempre
Amar.

EM - A MAGIA DO PENSAMENTO - FÁTIMA BRAVO - IN-FINITA

sexta-feira, 20 de março de 2026

Estranhamente - Laurinda Rodrigues

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Às vezes, estranhamente, o mal é belo,
é bela a insegurança e a inquietação…
Por que razão não quero e me rebelo
contra aquilo que parece ser em vão?

Afinal, se olhares bem, tudo está certo;
ninguém te prometeu algo diferente:
um outro que de ti estivesse perto
ou te envolvesse num abraço quente.

És sempre tu que, ao pensar, temeste
(até com medo de pareceres normal)
com tanta, tanta coisa, que prendeste
ao teu imaginário teatral.

Mas, se puderes olhar aquilo que passa
com a distância que vai da lua ao sol,
será apenas céu o que embaraça
o teu lindo cabelo… em caracol.

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O “mata-bicho” - Ivo Álvares Furtado

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“Vamos matabichar”,
é um termo vulgar
usado em Angola,
para matar a fome,
num pequeno almoço,
diário e salutar.
Correu várias gerações
e raras foram as interrogações,
sobre a origem e as razões,
de tal denominação.
O pão embebido em vinho,
teria sido a milagrosa solução,
para matar o bicho,
responsável pela morte,
no século XVI,
de madame de la Varnade,
perfurando-lhe o coração45.
O remédio do pão milagroso,
foi partilhado pela história,
que foi retida e replicada pela memória,
ficando perpetuada,
também em Angola
e contada desta forma poética,
a sua verdadeira história!

EM - SENTIR ANGOLA - IVO ÁLVARES FURTADO - IN-FINITA