segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Quisera o destino - Fernando Silva

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Que lá longe, os meus olhos brilhem
Diamantes das noites de ansiedade
Quisera o destino que partilhem
O adocicar na mais pura claridade.

Visto de longe, meu farol de pranto
Inundado de quimeras, vanguardistas,
Levo-te no horizonte, meu manto
Com que tapo memórias, saudosistas.

Trepam lá longe os guardiões da noite
Distinguem minhas mágoas ressequidas
Traz ao meu olhar novo horizonte
De rosas, sequiosas, em nossas vidas.

Amar este penhasco longínquo mas doce
Que a madrugada refresca num beijo
Aí mãe querida, quem dera que fosse
O sublime olhar no teu mais lindo desejo.

Abrem-se as portas ao sol dourado
Tingem lampejos de estrela guia
Enquanto do céu brilhante adornado
Caem gotas límpidas de doce poesia.

EM - PÁSSARO FERIDO - FERNANDO SILVA - IN-FINITA

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Árdua como uma escarpa - Susana Veiga Branco

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Este cansaço constante que me quer
Este temor que por vezes me assalta
A apreensão

Surveillance cruelle*

Mas depois a inquietação que se junta
A lufada de ar que os meus pulmões acariciam
Deixando entrar
Entrar o foco
A determinação

Agrupando possibilidade
Investindo nelas

Sabendo que a tarefa é difícil
Mas possível
Sempre possível...

*Vigilância cruel

EM - ATREVESTE-TE A ABRIR? - SUSANA VEIGA BRANCO - IN-FINITA

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Tanto tempo sem te ver... - Fernando Silva

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Trago minha terra num sorriso
Trago suas ruas no meu peito
Tantas saudades, que preciso
Para te amar deste meu jeito.

Tenho tanta gente à minha espera
Canteiros de rosas a céu aberto
Tenho as flores na primavera
Abraço enorme sempre por perto.

Quero amar-te na madrugada
Sentir o teu cheiro, meu amor
Sentir-te a mulher mais amada
Nesse jardim de tanta flor.

Abraçar o mundo desta maneira
Que os poetas descrevem na perfeição
Quero amar-te para a vida inteira
E fazer gritar meu meigo coração.

Tanta espera, tanto tempo sem te ver
Quem me dera ter sempre essa mulher
Amar o mundo de luz e de paixão
E partilhar contigo esta emoção...

EM - PÁSSARO FERIDO - FERNANDO SILVA - IN-FINITA

terça-feira, 29 de setembro de 2026

No trilho da saudade – Tita Tavares

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Ardentes são os beijos que te dei,
saídos com furor da minha boca.
Mais ardentes são os que te não dei
presos em mim, deixando-me tão louca.

Regados com o amor que me juraste,
cresceram e ainda vivem castos.
O tempo foi... mas tu jamais passaste,
na loucura dos trilhos, flores e rastos.
 
Não quero reviver esses momentos,
mas sim, selá-los como sacramentos,
numa saudade intensa... inapagável.

O Amor e Saudade em urdidura,
vão-se suturando em bordadura,
até à eternidade… não palpável!

EM - ENTRE PALAVRAS (AO ENCONTRO DA POESIA) - COLETÂNEA - IN-FINITA

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Ilha - Corsino Fortes

Sol & semente: raiz & relâmpago
Tambor de som
                             Que floresce
A cabeça calca de Deus

EM - A CABEÇA CALVA DE DEUS... - CORSINO FORTES - DOM QUIXOTE

domingo, 27 de setembro de 2026

A espera e a transição - Susana Veiga Branco

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Aguardava
E parecia-lhe uma eternidade
Mas não o era
A efemeridade vivia ali
Tudo passando como o vento
E ela não o sabia
No momento não o conseguia ver
Ainda
Até que conseguiu...

EM - ATREVESTE-TE A ABRIR? - SUSANA VEIGA BRANCO - IN-FINITA

sábado, 26 de setembro de 2026

Soneto de meditação II - Vinicius de Moraes

Uma mulher me ama. Se eu me fosse
Talvez ela sentisse o desalento
Da árvore jovem que não ouve o vento
Inconstante e fiel, tardio e doce

Na sua tarde em flor. Uma mulher
Me ama como a chama ama o silêncio
E o seu amor vitorioso vence
O desejo da morte que me quer.

Uma mulher me ama. Quando o escuro
Do crepúsculo mórbido e maduro
Me leva a face ao génio dos espelhos

E eu, moço, busco em vão meus olhos velhos
Vindos de ver a morte em mim divina:
Uma mulher me ama e me ilumina.

EM - ANTOLOGIA POÉTICA - VINICIUS DE MORAES - DOM QUIXOTE

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Andei na noite perdido - Fernando Silva

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Andei na noite perdido
À procura desse abrigo
Pelas ruas do passado
Não encontrei quem queria
Procurei de noite e dia
Histórias, desse meu fado.

Vestido de antigamente
Procurei a tanta gente
Se tinham visto o fado
Indicaram a taverna
Ouvi a voz da Severa
Regressei ao meu passado.

A cantar o Mouraria
Linda guitarra gemia
Suas veias eram ouro
E neste lindo trinado
Pelas ruas do passado
O fado era tesouro.

EM - PÁSSARO FERIDO - FERNANDO SILVA - IN-FINITA

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Ai tempo, tempo – Tiló Henriques

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Porque não multam o tempo por excesso de velocidade?
Deve ser o único que gosta de ser velho…
Não sei qual é de facto a sua provecta idade…
Quem sabe deve ser genial para dar um bom conselho!…

Não sei de facto quanto tempo o tempo tem
tem passado tem presente tem futuro
e talvez se advinha muito, muito mais além
sempre velho sempre novo e prematuro…

Ai! tempo, tempo que passas, pára um pouco
assim a correr dessa forma ainda ficas louco
cuidado! vê lá se não vais tropeçar e catrapum!...

Devagar devagarinho observa o caminho
goza o teu ser que és tempo de amor e de carinho
prolonga teu orgasmo neste tempo de sermos um…

EM - ENTRE PALAVRAS (AO ENCONTRO DA POESIA) - COLETÂNEA - IN-FINITA

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Amanhecer branco - Nuno Júdice

Adivinho esta construção: uma cúpula
que abriga o mundo. E o mundo roda sobre
si próprio, fechando o círculo dos instantes
no centro da eternidade.

Ponho esta cúpula no cume
de um monte. O dia nasce, derramando na esfera
de vidro o líquido luminosos da madrugada,
com o brilho puro de um seio.

E bebo esta luz, num desejo ébrio
de nascente, ouvindo os primeiros pássaros
soltarem-se da noite com o canto côncavo
com que acordam o dia.

EM - A MATÉRIA DO POEMA - NUNO JÚDICE - DOM QUIXOTE

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Faca de papel sobre rosas - Susana Veiga Branco

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Lanço a tinta no papel
Sobre ela lanço água
Lanço vinho
Lanço energia

Falta algo
Pego na faca de papel
Com ela rasgo a tela
Rapidamente
Energicamente
Reação do músculo
Reação do cérebro

A tela ganha agora novas asas
Planando a superfície do mundo
Planando o segredo da vida

Não são farpas, meu amor
São pétalas do meu roseiral...

EM - ATREVESTE-TE A ABRIR? - SUSANA VEIGA BRANCO - IN-FINITA

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

4 (canto sete) - Júlio Pomar

Um tudo-nada não chega
Pra separar ser e estar
Nem que se veja a jogar
O jogo da cabra-cega

Nisto de ver pra descrer
Coma-se o que se estraga
No que não chegou a haver
Se não pega não se paga

Das cinzas do meu pavio
Uma chama se levanta
E não lhe dá pra baixar

Que o mundo não se espanta
De ver comer e calar
O que aqui sempre se viu

EM - PRIMA CONTRADIÇÃO - JÚLIO POMAR - ASSÍRIO & ALVIM

domingo, 20 de setembro de 2026

Lugar vazio - Fernando Silva

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Por entre os limos da desgraça
Águas cristalinas se agitam
Há tantos pássaros que gritam
Enquanto a corrente passa.

A água, pura, descendo
Do nascente da montanha
Esperança, vida, correndo
Nesta abundância tamanha.

Corpulento e sem descanso
O rio desliza na corrente
Leva a sujidade na frente
Parece um ribeiro manso.

Leva fantasmas despidos
Das margens sujas do rio
Que corre nos dois sentidos
E fica um lugar vazio.

Segregam folhas despidas
Nos contornos da desgraça
Enquanto o rio passa
Nas escarpas mais sentidas.

EM - PÁSSARO FERIDO - FERNANDO SILVA - IN-FINITA

sábado, 19 de setembro de 2026

o chão treme - Sara Timóteo

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Vivaldi desconhecia
os passos do medo
sobre o solo ressequido
pelo silêncio. O medo
arranca fundações dos prédios
(antes fosse à catanada)
e as mentiras executam
fantásticas acrobacias
entre janelas – nenhum olhar
escapa ao escrutínio
do gelo e o fogo em breve
devorará os filhos destas
páginas

EM - ENTRE PALAVRAS (AO ENCONTRO DA POESIA) - COLETÂNEA - IN-FINITA

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Secos os pulmões* - Corsino Fortes

Secos os pulmões
                   neles cresce-me
                              a lenha do mato
De sol a sol
                 os meus ossos são verdes
                 os teus ossos são plantas
Como a fruta-pão o tambor e o chão

De sol a sol
        gritei por Rimbaud ou Maiakovsky
                    deixem-me em paz

EM - A CABEÇA CALVA DE DEUS... - CORSINO FORTES - DOM QUIXOTE

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

O fragmento de pétala - Susana Veiga Branco

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Ela sabia
Sabia que vivia em turbilhão
Sabia que vivia em quietude

Sabia que a dualidade se revezava como as ondas
Indo e vindo
Nada permanecendo
Nada garantido

Sabia que nela habitavam dois seres
Um ser interior e um ser exterior

Que ora comandava
Ora era comandada

Sabia que o mundo não a conhecia
Apenas fragmentos
Em forma de estilhaços ou de sangue
Em forma de pétalas ou de aroma a primavera

Sabia que a dor e o riso se misturavam
Numa agitação sem palavras
Sem ritmo certo

Frases soltas
Universos paralelos

EM - ATREVESTE-TE A ABRIR? - SUSANA VEIGA BRANCO - IN-FINITA

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Soneto de meditação I - Vinicius de Moraes

Mas o instante passou. A carne nova
Sente a primeira fibra enrijecer
E o seu sonho infinito de morrer
Passa a caber no berço de uma cova.

Outra carne virá. A primavera
É carne, o amor é seiva eterna e forte
Quando o ser que viveu unir-se à morte
No mundo uma criança nascerá.

Importará jamais por quê? Adiante
O poema é translúcido, e distante
A palavra que vem do pensamento

Sem saudade. Não ter contentamento.
Ser simples como o grão de poesia
E íntimo como a melancolia. 

EM - ANTOLOGIA POÉTICA - VINICIUS DE MORAES - DOM QUIXOTE

terça-feira, 15 de setembro de 2026

A vida é um carrossel - Fernando Silva

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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A vida é um carrossel
Um avião de papel
Um barco a navegar
Pelas ondas do teu corpo
Encontro o meu conforto
Neste poema d'amar.

À noite luzem estrelas
No rio as caravelas
Navegam pro infinito
Levam consigo saudade
A eterna mocidade
Fica comigo num grito.

A noite ficou mais bela
Olhando desta janela
Vejo as luzes da cidade
Ouço o cantar da sereia
É noite de lua cheia
Pra minha felicidade.

EM - PÁSSARO FERIDO - FERNANDO SILVA - IN-FINITA

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Entre o ser e o estar – Rita Bentes

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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[...] é nos caminhos da ilusão que nos vemos ao longe
pela vida fora.
seguindo-nos a nós próprios como a ninguém mais,
olhando para um ontem que fora, 
um amanhã que será 
e um hoje que vai sendo a cada segundo
a cada olhar
a cada passo contigo e comigo.
sonhos são o que agora vemos...
o que vamos percorrendo dia a dia, 
para alcançar o sonho da vida que se aproxima [...]

EM - ENTRE PALAVRAS (AO ENCONTRO DA POESIA) - COLETÂNEA - IN-FINITA

domingo, 13 de setembro de 2026

Lanzarote - Nuno Júdice

Para José Saramago

Numa ponta da ilha, o infinito; na 
outra ponta da ilha, o infinito. De
uma ponta à outra, a ilha é
pequena. Mas cerca-a o infinito,
e quando vamos de uma ponta
à outra, a ilha é demasiado
pequena para o infinito que
a cerca, como se o infinito apenas
servisse para medirmos o tamanho
da ilha. Porém, se olharmos
para a ilha de dentro do infinito,
é o infinito que nos parece
pequeno, quando o medimos pelo
tamanho da ilha.

EM - A MATÉRIA DO POEMA - NUNO JÚDICE - DOM QUIXOTE