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domingo, 20 de outubro de 2013

O apodrecimento suave - INÊS LOURENÇO

Já escrevi num poema o fascínio
dos limos que transluzem
numa água de aparência imóvel.

Má literatura apenas, pois nenhum
apodrecimento é suave. Todo ele
é decadência e mau cheiro e o pôr
do sol é kitsch obrigatório de namorados pífios,
antigos calendários de parede e caducos
postais de veraneio.

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sexta-feira, 6 de julho de 2012

Consoantes Átonas - INÊS LOURENÇO


Emudecer o afe[c]to português?
Amputar a consoante que anima
a vibração exa[c]ta
do abraço, a urgência

tá[c]til do beijo? Eu não nasci
nos Trópicos; preciso desta interna
consoante para iluminar a névoa
do meu dile[c]to norte.

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sábado, 26 de fevereiro de 2011

Reescrita - INÊS LOURENÇO

Fender os versos
com a lâmina implacável do
tempo. No umbigo do poema cravar
o sabre rente às vísceras dos verbos,
à linfa de adjectivos. Despedaçar
os músculos dos sentidos. Abrir
a rede viária do sangue. Romper
a velha epiderme.

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quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Sala provisória - INÊS LOURENÇO

Nunca se sabe
quando estamos num lugar
peça última vez. Numa casa
que vai ser demolida, numa sala
provisória que vai encerrar, num velho
café que mudará de ramo, como
página virada jamais reaberta, como
canção demasiado gasta, como
abraço tornado irrepetível, numa
porta a que não voltaremos.

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domingo, 6 de fevereiro de 2011

Arte de não ser - INÊS LOURENÇO

A extinta arte de ser rosa,
a inútil arte de ser cardo, ou
numa espécie de dúbia liberdade, a
difícil arte de não-ser, nem
umas coisas nem outras.

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quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

O meu melhor ângulo - INÊS LOURENÇO

Prefiro o agudo. Muito menos o recto
e nunca o obtuso. O raso adormenta
todas as audácias e o adjacente agrega-nos
em parede mútua e indissolúvel. Assim,
é no estreito e resguardado vértice
do agudo que apetece ficar, abrigada
do rotundo e celebrado círculo.

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domingo, 16 de janeiro de 2011

Parentesco - INÊS LOURENÇO

Além de à puta que [nos] pariu,
há quem nos mande
para a cona da [nossa] prima ou
para os cornos do [nosso] avô. Envio
arcaico do sangue e do ódio
dos homens e das mulheres,
herança de que nunca
somos deserdados.

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quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Hora marcada - INÊS LOURENÇO

À hora marcada
não estarei lá. Darei uma qualquer
desculpa: gripe, viagem, confusão de
datas. Nenhuma batuta espera
por mim no estrado da orquestra, nenhuma
criança aguarda no berço
pelo alimento urgente. Nem nenhum Brel
entoará: Ce soir j'attendait Madeleine,
Madeleine ne viendra pas.

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sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

A furtiva alegria - INÊS LOURENÇO

Acumulo
retratos desfocados
viagens dispersas danos
moratórias

Mas também a ciência animal
de lamber as feridas, a furtiva alegria
a caminho da noite para matar
a sede na corrente.

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terça-feira, 9 de novembro de 2010

Almas - INÊS LOURENÇO


Sempre admirei dos bichos
a magnífica destreza. Mesmo sem
alma, filosofia ou pátria,
defendem os limites
da pele e dos ameaçados territórios
onde se ocultam, no auge vital dos parcos anos.

Sempre admirei o desinteresse
soberano com que as fêmeas assistem
às competições masculinas e como
se mantêm independentes
e mestras na arte da caça
e sustento das crias, sem pensão
de alimentos ou outras demandas.

A sua maior tragédia
é serem tantas vezes criados
para serviço e digestão de bípedes
com alma. pátria e filosofia.

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domingo, 17 de outubro de 2010

Felinus - INÊS LOURENÇO


A Maria Tobias era preta
e branca. Na parte branca era
Tobias e era Maria na preta. Morou
connosco cinco anos. No sexto, numa
quinta-feira santa pôs-se a dormir
depois de um longo jejum. Ficaram-nos
nas mãos festas desabitadas e os poucos
haveres: uma malga, uma manta, um bebedouro,
que não lográmos enviar
para a nova morada.

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segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Crónicas - INÊS LOURENÇO


Mulheres de canastra à cabeça, que num recôncavo
de esquina, não calcetada, onde uma nesga
de terra desmentia o urbanismo
invasor, mijavam de pé
com rara pontaria dissimulando
entre as grossas saias, as
pernas afastadas. Não usavam cuecas
tal como uma modelo da Vogue,
cujo profundo decote dorsal,
prolongado abaixo da cintura,
as abolia.

Coincidências
da baixa plebe
e da alta-costura.

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