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quarta-feira, 22 de julho de 2026

Passos perdidos - Pedro Homem de Mello

Em tudo o que dizemos há visões:
- Visões só para nós,
Porque as palavras simples que soltamos
São para os outros as paredes nuas
Onde a visão que passa nunca é vista
Senão por nossos olhos...

EM - POEMAS 1934-1961 - PEDRO HOMEM DE MELLO - ASSÍRIO & ALVIM

domingo, 12 de julho de 2026

Fatalismo - Pedro Homem de Mello

O artista quando fala, radioso,
Convida-nos a ver
As frases belas, fundas, misteriosas
Que a mão do seu destino lhe escreveu.
Mas essas letras, quedam-se, vazias
- Ninguém as sabe ler!

Nas águas e no ar o manso artista
Continua a escrever...

EM - POEMAS 1934-1961 - PEDRO HOMEM DE MELLO - ASSÍRIO & ALVIM

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Incerteza - Pedro Homem de Mello

Tão frágil como um vaso
O mundo treme em vão!
E a única razão
De todo esse tormento
Enevoado e lento
Talvez seja o acaso...

EM - POEMAS 1934-1961 - PEDRO HOMEM DE MELLO - ASSÍRIO & ALVIM

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Realismo - Pedro Homem de Mello

Ó doce viuvinha em cujos olhos
A cor é rima ao céu e ao próprio mar,
À minha beira passas devagar
Sem reparar, absorta, nos escolhos...

Logo sob a escumilha, sob os folhos
Do vestuário negro, vou buscar
As linhas desse corpo de luar,
Envolto em crepes duros como abrolhos.

E eis senão quando, a minha fantasia
Em ti descobre a velha que algum dia
Há-de rogar má sorte às raparigas,

E aquela amante adormecida apenas
Que acorda e sente as suas formas plenas
E ensaia os ritmos das paixões antigas.

EM - POEMAS 1934-1961 - PEDRO HOMEM DE MELLO - ASSÍRIO & ALVIM

domingo, 24 de maio de 2026

As sombras - Pedro Homem de Mello

Ó voz da escuridão! - murmúrio quieto
Do negro contra a luz dura, cortante
- Linguagem do Mistério, nesse instante
Em que arde o nosso olhar como um insecto.

Frescura de quem busca o céu dum tecto
Ao fim de ter andado ao sol flamante;
Doçura de quem nunca teve amante
E se deslumbra ao sopro dum afecto!

Escuridão que traz os sonhos ledos,
Que fecha os nossos olhos com seus dedos
E lhes desfaz a névoa, o fumo baço...

Ó mãos de lenhador, ó mãos funestas,
A abrir chagas no corpo das florestas,
Deixai ao lar das sombras mais espaço!

EM - POEMAS 1934-1961 - PEDRO HOMEM DE MELLO - ASSÍRIO & ALVIM
 

terça-feira, 19 de maio de 2026

Eco - Pedro Homem de Mello

Cada alma continua outra, infinita,
Cada instante, outro instante que se evade,
Cada palavra, a antiga claridade
Doutra palavra morta que foi dita.

E, quando um pensamento nos agita,
É que a semente dele noutra idade
Lançada fora já. Que voz não há-de
Achar eco onde alastre e se repita?

Não muda a Vida, é tudo sempre igual,
Há sempre o bem que dorme e há sempre o mal,
Hoje, ontem, amanhã - horas pequenas!

E não tem fundo o mar das fantasias...
As mais longas e doces melodias
São sete notas duma escala apenas!

EM - POEMAS 1934-1961 - PEDRO HOMEM DE MELLO - ASSÍRIO & ALVIM

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Aviso - Pedro Homem de Mello

Antes de amares, loiro adolescente,
Admira a Terra, o Sol, o Mar, a Lua,
A alegria do canto da ave e a tua,
Os mistérios da música dolente;

A beleza do eterno Sol-poente,
A pureza da Aurora, virgem nua...
Abre a janela, espreita sobre a rua
A multidão que passa - lomgamente!

Porque amanhã, meu filho, deixarás
De ver o que ficou disperso, atrás
Dos véus do teu amor - da Fantasia...

E tudo será pouco - o teu olhar,
Teus lábios, tuas mãos - para alcançar
A taça do prazer quase vazia!...

EM - POEMAS 1934-1961 - PEDRO HOMEM DE MELLO - ASSÍRIO & ALVIM

sábado, 9 de maio de 2026

Treva - Pedro Homem de Mello

Amor de irmã, de noiva, amor de pais,
Já tive a dar-me enlevo, a dar-me encanto;
Mãos de mulher para enxugar meu pranto,
Lábios piedosos a abafar meus ais.

Abriu-me a lira os mágicos portais,
Vestiu-me a fantasia com seu manto,
E foi minha alma a Deus, solta no canto,
Ao sopro de asas leves, ideais.

Quando porém lhe falam de ventura
Dói-se o meu coração - logo procura
O estranho bem, as longes alegrias...

Dedos febris, a fronte húmida e triste,
Fui sempre o cego pálido que insiste
Em ver os seus anéis de pedrarias!

EM - POEMAS 1934-1961 - PEDRO HOMEM DE MELLO - ASSÍRIO & ALVIM
 

segunda-feira, 4 de maio de 2026

Caravela ao mar - Pedro Homem de Mello

Mar alto. A brisa leva docemente
A minha caravela. Há nevoeiro...
Falo às ondas, noviço marinheiro,
Num canto adormecido que lhes mente!

Atrás só vejo o mar e vejo em frente
O grande mar também: vogo ligeiro...
Tomo das águas movimento e cheiro,
Sou vaga entre as mais vagas na corrente,

E logo acima encontro o céu distante.
O firmamento une-se ao mar gigante
- Espelho onde se mira a Eternidade...

Sinto-me só, minúsculo momento;
Tenho por mim não sei que sentimento:
Misto de amor, de orgulho, de piedade...

EM - POEMAS 1934-1961 - PEDRO HOMEM DE MELLO - ASSÍRIO & ALVIM