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segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

Geringonça - Beth Brait Alvim

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Minhas auréolas cor de ouro rosa
madrugam atrás de faróis e becos ígneas
feito um por-do-sol
quando a sirene dos manicômios
nos ensurdecem
elas tremulam no asfalto arrepiadas
e rabiscam os lagos com linhas de prata
para sempre
dividindo dia e noite
para sempre
céu e terra
mar e túnel

Minhas auréolas consomem todos os watts de uma
geringonça pré-industrial
como eu

que sou movida
à manivela

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terça-feira, 14 de junho de 2022

Ciclone - BETH BRAIT ALVIM

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.. e o vento
arrebentou minhas
sete peles.
Sem elas,
navego leve.

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quinta-feira, 2 de setembro de 2021

Soneto do pássaro tonto - BETH BRAIT ALVIM

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Sou este coração cheio de lascas,
um peito que encrespa sob uns pés tortos,
navio sem mar, à deriva, sem porto,
um cão bravio preso na mordaça.

Minha alma afunda como uma carcaça
por vezes boia como um peixe morto,
é fino fio que emenda um pano roto,
das bestas famintas, ela é a caça.

No bico trago a lua dos desertos
e pairo no céu qual pássaro tonto,
desenhando o sol, remendando cortes.

Mas hoje não existe o salto certo.
Só pousar em covas que nem mais conto:
voo raso e vazio rumo à morte.

EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL (POESIA) - COLECTÃNEA - IN-FINITA

domingo, 15 de agosto de 2021

Espera - BETH BRAIT ALVIM

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alfinetes nas extremidades
o olho direito escoa pelo ralo
enquanto
o vício do por enquanto
estupra o sonho

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS VI - COLECTÂNEA - IN-FINITA

segunda-feira, 14 de junho de 2021

Círculo polar - BETH BRAIT ALVIM

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aos 45 graus
de um salto
arranco lascas do meu couro derretido em ácido
e com os pés em carne viva chuto o lixo das esquinas de São Paulo
bem alto
até cobrir a torre da catedral e de longe
saco uma foto do topo da bela dama que tem o ar de uma senhora
medieval
com seu chapéu
de longe
à la coco chanel
o lixo de são paulo
mas são apenas restos sujeira excreção
apenas o cocô em zoom
os respingos da cultura ocidental
pintarolando as bordas dos pratos brancos dos que sentam à mesa
e arrebitam o charme de buñuel na ponta dos seus narizes
pontiagudos de cristais de neve ácida
e mal escondem seu esgar de cera diante de tudo que não brilha
e não é branco
como a lua
então rio e choro rio e choro rio e choro
e grunho minha solidão nos buracos das bocas de lobo ardendo
em febre
e toco gasolina e umas faíscas de um cano de prata até
meu coração arder no fogo do inferno
em praça pública
e cavo sete palmos debruçada no cimento coberto de merda
e rachaduras de um conserto mal feito de onde saltam pontas
de estrelas feito pulgas famintas um estandarte de tangerina
uma dançarina de cabaré antigo um ombro direito pisoteado
pela madame cleci um espadachim seminu que sempre desce
a rua da consolação o terceirizado nem aí com o serviço largado
coçando o saco bem na cara do corre do centro o pipoqueiro
do teatro que morreu de corona e os sem teto sem buraco
sem cobertor sem prato sem papel higiênico sem água sem dois
metros de distância sem vacina sem nada e corro corro corro
e me afundo na areia revirada da represa imunda e deliro
atrás de ciscos e lascas de conchas de mil anos e me afogo
até esquecer esquecer esquecer
então esfrego com sal grosso minhas retinas nas pontas
dos meus seios
e rasgo com os dentes embora moles meu útero seco
para que a dor de doer sem pele sem mente sem sangue
sem memória sem herdeiros
seja apenas o converter-me em ossos apaziguados
como baba de leite que jaz numa esquina qualquer
até explodir a lua cheia
e perder os sentidos de uma vez no seu
círculo polar

EM - MULHERIO DAS LETRAS NA LUA - COLECTÂNEA - IN-FINITA

segunda-feira, 6 de julho de 2020

Irmão - BETH BRAIT ALVIM

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Navegas no meu quase sonho
ruídos textura leve temperatura
e lá repetes histórias.
E eu a demolir a pétrea surdez dos doutores,
praguejar a agulha rompida,
a escorregar atrás de outro chumaço de algodão,
e chorar a sonda entupida, os engulhos, a vergonha.
Não sinto cansaço, só premência.
Bem perto do meu peito uma cabeça encolhida,
e no meu colo uma perna que balança os pêlos como
tranças de palha.
Vivo e natural esse estado de vigília,
onde os mortos ocupam tranquilos nossos vazios
e nos fazem executar tarefas para eles sem
interrupção.
Elas não são pesadas as madrugadas, nem as tarefas.
E não se trata da costumeira insônia.
São sinas que nos foram destinadas
desde tempos remotos.
É só uma noite povoada de proximidades.

EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL (POESIA) - COLECTÂNEA - IN-FINITA