Desce enfim sobre o meu coração
O olvido. Irrevocável. Absoluto.
Envolve-o grave como um véu de luto.
podes, corpo, ir dormir no teu caixão.
A fronte já sem rugas, distendidas
As feições, na imortal serenidade,
Dorme enfim sem desejo e sem saudade
Das coisas não logradas ou perdidas.
O barro que em quimera modelaste
Quebrou-se-te nas mãos. Viça uma flor,
Pões-lhe o dedo, ei-la murcha sobre a haste...
Ias andar, sempre fugia o chão,
Até que desvairavas, do terror.
Corria-te um suor, de inquietação...
EM - CLEPSYDRA - CAMILO PESSANHA - RELÓGIO D'ÁGUA
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quarta-feira, 3 de setembro de 2014
segunda-feira, 16 de setembro de 2013
Tatuagens... - CAMILO PESSANHA
Tatuagens opulentas do meu peito!
Tropheus, emblemas, dois leões alados...
Mais, entre corações engrinaldados,
Um enorme, soberbo amor-perfeito.
E o meu brazão. Tem de oiro, n'um quartel
Vermelho, um liz; e no outro uma donzella,
Em campo azul, de prata o corpo, - aquella
Que é no meu braço como um broquel.
Timbre: rompente, a megalomania.
Divisa: um ai, que insiste noite e dia
Lembrando ruínas, sepulturas rasas,
Entre castellos, serpes batalhantes
E aguías de negro desfraldando as azas,
Sobre que realça o oiro dos besantes.
EM - CLEPSYDRA - CAMILO PESSANHA - RELÓGIO D'ÁGUA
Tropheus, emblemas, dois leões alados...
Mais, entre corações engrinaldados,
Um enorme, soberbo amor-perfeito.
E o meu brazão. Tem de oiro, n'um quartel
Vermelho, um liz; e no outro uma donzella,
Em campo azul, de prata o corpo, - aquella
Que é no meu braço como um broquel.
Timbre: rompente, a megalomania.
Divisa: um ai, que insiste noite e dia
Lembrando ruínas, sepulturas rasas,
Entre castellos, serpes batalhantes
E aguías de negro desfraldando as azas,
Sobre que realça o oiro dos besantes.
EM - CLEPSYDRA - CAMILO PESSANHA - RELÓGIO D'ÁGUA
segunda-feira, 1 de julho de 2013
Em um retrato - CAMILO PESSANHA
De sob o cómodo quadrangular
Da terra fresca que me há-de inhumar,
E depois de já muito ter chovido,
Quando a herva alastrar com o olvido,
Ainda, amigo, o mesmo meu olhar
Há-de ir humilde, atravessando o mar,
Envolver-te de preito enternecido,
Como o de um pobre cão agradecido.
EM - CLEPSYDRA - CAMILO PESSANHA - RELÓGIO D'ÁGUA
Da terra fresca que me há-de inhumar,
E depois de já muito ter chovido,
Quando a herva alastrar com o olvido,
Ainda, amigo, o mesmo meu olhar
Há-de ir humilde, atravessando o mar,
Envolver-te de preito enternecido,
Como o de um pobre cão agradecido.
EM - CLEPSYDRA - CAMILO PESSANHA - RELÓGIO D'ÁGUA
quinta-feira, 27 de setembro de 2012
Floriram por engano...* - CAMILO PESSANHA
Floriram por engano as rosas bravas
No Inverno: veio o vento desfolhá-las...
Em que cismas, meu bem? Porque me calas
As vozes com que há pouco me enganavas?
Castelos doidos! Tão cedo caístes!...
Onde vamos, alheio o pensamento,
De mãos dadas? teus olhos, que num momento
Perscrutaram nos meus, como vão tristes!
E sobre nós cai nupcial a neve,
Surda, em triunfo, pétalas, de leve
Juncando o chão, na acrópole de gelos...
Em redor do teu vulto é como um véu!
Quem as esparze - quanto flor! - do céu,
Sobre nós dois, sobre os nossos cabelos?
EM - POEMAS DE AMOR - ANTOLOGIA - DOM QUIXOTE
No Inverno: veio o vento desfolhá-las...
Em que cismas, meu bem? Porque me calas
As vozes com que há pouco me enganavas?
Castelos doidos! Tão cedo caístes!...
Onde vamos, alheio o pensamento,
De mãos dadas? teus olhos, que num momento
Perscrutaram nos meus, como vão tristes!
E sobre nós cai nupcial a neve,
Surda, em triunfo, pétalas, de leve
Juncando o chão, na acrópole de gelos...
Em redor do teu vulto é como um véu!
Quem as esparze - quanto flor! - do céu,
Sobre nós dois, sobre os nossos cabelos?
EM - POEMAS DE AMOR - ANTOLOGIA - DOM QUIXOTE
domingo, 27 de maio de 2012
Queda - CAMILO PESSANHA
O meu coração desce,
um balão apagado.
Melhor fôra que ardesse
nas trevas incendiado.
Na bruma fastidienta...
como á cova um caixão.
Porque antes não rebenta
rubro, n'uma explosão?
Que apego inda o sustem?
atono, miserando.
Que o esmagasse o trem
de um comboio arquejando.
O inane, vil despojo.
Ó alma egoísta e fraca...
Trouxesse-o o mar de rojo.
Levasse-o na ressaca.
EM - CLEPSYDRA - CAMILO PESSANHA - RELÓGIO D'ÁGUA
quarta-feira, 28 de abril de 2010
Estátua - CAMILO PESSANHA
Cansei-me de tentar o teu segredo:
No teu olhar sem côr, - frio escalpello, -
O meu olhar quebrei, a debatel-o,
Como a onda na crista d'um rochedo.
Segredo d'essa alma, e meu degredo
E minha obcessão! Para bebel-o,
Fui teu labio oscular, n'um pesadelo,
Por noites de pavor, cheio de medo.
E o meu osculo ardente, hallucinado,
Esfriou sobre o marmore correcto
D'esse entreaberto labio gelado...
D'esse labio de marmore, discreto,
Severo como um tumulo fechado,
Sereno como um pelago quieto.
in... Clepsydra - CAMILO PESSANHA - Relógio D'Água
Site da editora aqui
O poema respeita a grafia da época.
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