Se o vires, diz-lhe que o tempo dele não passou;
que me sento na cama, distraída, a dobrar demoras
e, sem querer, talvez embarace as linhas entre nós.
Mas que, mesmo perdendo o fio da meada por
causa dos outros laços que não desfaço, sei que o
amor dá sempre o novelo melhor da sua mão. Se
o encontrares, diz-lhe que o tempo dele não passou;
que só me atraso outra vez, e ele sabe que me atraso
sempre, mas não demais; e que os invernos que ele
não gosta de contar, mas assim mesmo conta que nos
separam, escondem a minha nuca na gola do casaco,
mas só para guardar os beijos que me deu. Se o vires,
diz-lhe que o tempo dele não passa, fica sempre.
EM - POESIA REUNIDA - MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA - QUETZAL
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sexta-feira, 12 de setembro de 2014
sexta-feira, 30 de agosto de 2013
É no momento... - MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA
É no momento que encerra a beleza de um gesto
que se prolonga a vida -
Na carne afeiçoada à mão apagam-se os sinais
de antigas fogueiras: o dilúvio do amor
veio lavar as cicatrizes deste mundo; e as pregas
de um rochedo que desafia o génio das marés
não lembram mais do que uma colcha amarrotada.
Agora, pode pintar-se o retrato do vento
no esquadro da janela. O tempo não se mexe.
A vida, por um instante, é enorme.
EM - POESIA REUNIDA - MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA - QUETZAL
que se prolonga a vida -
Na carne afeiçoada à mão apagam-se os sinais
de antigas fogueiras: o dilúvio do amor
veio lavar as cicatrizes deste mundo; e as pregas
de um rochedo que desafia o génio das marés
não lembram mais do que uma colcha amarrotada.
Agora, pode pintar-se o retrato do vento
no esquadro da janela. O tempo não se mexe.
A vida, por um instante, é enorme.
EM - POESIA REUNIDA - MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA - QUETZAL
segunda-feira, 15 de julho de 2013
Amávamos ambos... - MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA
Amávamos ambos as falésias, o recorte das escarpas,
o desenho irregular dos promontórios; todos os lugares
que, como as ilhas, são agastados pelo mar e pelos ventos.
Não havia neblina nessa noite. Apenas a luz opaca
de um farol atormentando as estrelas. Disseste
quase nada para não ferires um atordoado silêncio
interior. E tocaste-me rimeira vez os seios
como se disso, para sempre, fosses ter medo.
Abandonaste a praia logo que chegou o primeiro pescador:
a primeira lanterna,
a primeira rede.
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o desenho irregular dos promontórios; todos os lugares
que, como as ilhas, são agastados pelo mar e pelos ventos.
Não havia neblina nessa noite. Apenas a luz opaca
de um farol atormentando as estrelas. Disseste
quase nada para não ferires um atordoado silêncio
interior. E tocaste-me rimeira vez os seios
como se disso, para sempre, fosses ter medo.
Abandonaste a praia logo que chegou o primeiro pescador:
a primeira lanterna,
a primeira rede.
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sexta-feira, 17 de maio de 2013
De tarde... - MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA
De tarde viera alguém com flores - lírios,
jacintos, narcisos, despedidas - e a porta ficara
aberta desde então. Agora as traças ciciavam
lá fora numa alegria turva em redor de uma
lâmpada; e, sobre o banco do alpendre, jazia um
livro aberto na mesma página fazia quase um dia.
Batia-me nos pulsos uma vida vencida; e, mesmo
que a terra apenas aguardasse o fulgor da manhã
para chamar pelo teu corpo, tive a certeza de que
era sobre o meu que a noite eternamente se abatia.
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jacintos, narcisos, despedidas - e a porta ficara
aberta desde então. Agora as traças ciciavam
lá fora numa alegria turva em redor de uma
lâmpada; e, sobre o banco do alpendre, jazia um
livro aberto na mesma página fazia quase um dia.
Batia-me nos pulsos uma vida vencida; e, mesmo
que a terra apenas aguardasse o fulgor da manhã
para chamar pelo teu corpo, tive a certeza de que
era sobre o meu que a noite eternamente se abatia.
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quarta-feira, 6 de março de 2013
Outra voz - MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA
Ela não pediu esse silênncio. Mas também nada fez
para defender-se dele ou dominá-lo. Quando entrou,
a casa tinha-se calado de repente, as coisas dele
tinham mudado de lugar, desaparecido, e não importava
que tivesse sido ela própria a escondê-las, de véspera
na arca das lãs que só voltaria a abrir no inverno.
Ela não quis conhecer esse silêncio. Soube apenas
que não voltaria a ouvir a voz dele
no espelho do seu quarto - a outra voz.
Sentou-se no chão e abriu um pequeno livro de capa azul.
Naquele fim de tarde, só mesmo os livros podiam dizer
algo mais do que o silêncio - essa outra voz.
EM - POESIA REUNIDA - MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA - QUETZAL
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