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sexta-feira, 13 de novembro de 2015

V - VIEIRA CALADO

Ah, a nossa sapiência
de ir reinventando um país utópico,
uma urbe imaginária de ametistas
açucenas e rosas de resplendores

mesmo quando sobre o leito da terra amarelenta
já se exibem as cores do eterno esquecimento
pertença do reino absoluto da luz.

Mas onde recolheremos
para meditar sobre o fogo que arde a floresta
com labaredas de pólen arrebatado
voador?

Onde recolheremos para habitar o idílio
um último grão de trigo
a clamar uma gota de água para trazer de novo
a Primavera?

EM - VIAGEM ATRAVÉS DA LUZ - VIEIRA CALADO - PAPIRO EDITORA

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

XXIV - VIEIRA CALADO

Aquecemos à chama do Sol

     a nossa condição é a de ir arrefecendo
     dilatando a chama do sol

até à redenção final
num grande amplexo irresolúvel

     fim
        do princípio

núcleos de hélio fino desbotado
o corpo do hidrogénio
ou a massa comprimida tanto
e de tão quente
que rebenta em cântaros de fumo sobre o muro
a frescura das palavras e do sémen.

EM - VIAGEM ATRAVÉS DA LUZ - VIEIRA CALADO - PAPIRO EDITORA

domingo, 17 de março de 2013

X - VIEIRA CALADO

Ah, mas nos perturba o silêncio que se ouve
no rosário dos sedimentos geológicos
onde se inscrevem séculos dum plano austero
na busca das formas acabadas de eterno e oculto fim
para o ofício da flor e da semente.

Não nos perturba o murmúrio repetido
do incansável riacho
onde os pássaros despertos bebem a frescura
a profusão das formas abstractas
da nossa sede sempre instante
a maquinação alucinada dos olhos pelas noites
ou o desassossego dos relâmpagos estridentes
que ferem os dias claros.

Mantemos ainda
a crença numa dália renascida
a deslumbrar.

EM - VIAGEM ATRAVÉS DA LUZ - VIEIRA CALADO - PAPIRO

domingo, 30 de dezembro de 2012

XX - VIEIRA CALADO


A luz também tem o seu repouso:

nas coisas que passam e se transformam
nos tons que dão à luz que permanece
e se transmutando abrem outras formas luminosas
em tons vigorosos da mesma configuração da luz.

E que dá alento à luz que permanece
seja no branco das neves persistentes de reflexos
seja nas clareiras tranquilas da floresta
ou no cinzento amargurado
da irremediável despedida.

E não se retrai a luz
perante a fogueira acesa dos excessos
para que se leia ou que se apague
   em suas cinzas
o testemunho da tranquilidade do tempo.

E é a tranquilidade do tempo o desvario
de nunca saber como olhar as coisas
com nossos olhos imprecisos
presos à luz que nos transforma
e transformando nos transporta.

EM - VIAGEM ATRAVÉS DA LUZ - VIEIRA CALADO - PAPIRO EDITORA

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

IV - VIEIRA CALADO

Vamos o presente desbravando (e o ocaso?)
das afinidades atómicas
e das forças fronteira entre o ser e o corpo
anteriores ao corpo
íntimas de ardência e cinzas
onde se lê a árvore venerável o orvalho breve
das folhas prostradas na noite das estrelas
e o gume dum coração indeciso

restituídos de ecos petrificados
eco de ecos inextinguíveis
em abstracções de corpos já extintos
que se espalham pelo espaço cercado
trepidante de paixões e medos
na infinda busca pelo jade em verde clorofila
esculpido nuns olhos da cor das ondas
no apogeu do ciclo, despojando-se em cristais
de branco azul, sobre as areias duma praia.

EM - VIAGEM ATRAVÉS DA LUZ - VIEIRA CALADO - PAPIRO EDITORA

sábado, 15 de maio de 2010

I - VIEIRA CALADO


Transitamos através da luz
somos a pura contemplação da luz
a linguagem o cinzel dum barco
em perpétuas lúdicas viagens
ao interior dum mapa

e os nossos olhos acendem as manhãs
ébrios pela plenitude das manhãs
na linguagem alada dos sentidos e das seivas,
o desígnio que se lê pelo seio dos rios
as ervas que ecoam pelos caminhos duros.

São a nossa mais delicada ansiedade
mas também a nossa paixão as suas divagações
a fantasia e o delírio descrito nas viagens
ao fim dum mundo imaginário
perpétuo de idas e regressos
no oculto obscurecido dos olhos
que ignoram o modo sereno da luz e do pó.

in... Viagem através da luz - VIEIRA CALADO - Papiro Editora

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terça-feira, 12 de janeiro de 2010

VI - VIEIRA CALADO




Somos um trovão de luz
num plano aberto de rectas vigorosas apertadas
que se estiram por sobre os nossos próprios ombros
como colunas incessantes perpetuando o claustro
esculpidas para resistir ao cerco
e restituir o cerco

o lume cíclico dos grãos da cinza
sideral

raros átomos encarnando a solidão do tempo
vagueando pelas trevas
que hão-de revigorar a luz dum alvoroço

à fracção apocalíptica do microcosmos
na vertigem subtílima do pó mais ínfimo
desfeito em átomos de pó
refeito em redis de pó
só perceptíveis pala luz.

in... Viagem através da luz - VIEIRA CALADO - Papiro editora

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