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terça-feira, 31 de março de 2026

Diz-lhes que os amas - Runa

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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não esqueças o lugar onde nasceste
numa noite em que os astros se conjugaram
para te doar a este relicário sombrio

lembra-te do dia do teu nascimento
de quem gemeu para te poder amparar
de quem lutou para que pudesses crescer

agradece a quem te vestiu e alimentou
quem deu sua vida para seres quem és
fala com eles e diz-lhes que os amas

mesmo que já não te consigam escutar

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS X - COLETÂNEA - IN-FINITA

sexta-feira, 16 de agosto de 2024

Canção da liberdade perdida - Runa

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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dizem que a liberdade partiu
levada por ciganos errantes
que por aqui passaram
nas suas carruagens rústicas

há quem afirme o contrário
que foram os ciganos quem partiu
por não poder viver sem ela
e que agora correm o mundo
na esperança de a recuperar

a verdade é que já não a temos
nem sabemos onde se oculta
toda a gente chora a sua falta
acreditando que não mais voltará

dizem que é agora um falcão
voando sempre para longe
onde nem mesmo os ciganos
com suas carruagens sempre a rolar
a poderão alguma vez encontrar

EM - LIBERDADE - COLETÂNEA - IN-FINITA

sábado, 31 de dezembro de 2022

Viagem no tempo - RUNA

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
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naqueles dias em que a nostalgia
se infiltra por dentro do peito
e um nó gigante vem cercar o coração
levanto-me e vou buscar à estante
um antigo álbum de fotografias
escolho uma de quando era criança
e fico a admirá-la algum tempo
até que lentamente o nó se dissolva

quando isso não resulta
escolho um álbum ainda mais antigo
e dele retiro uma foto de minha mãe
a sorrir para mim de braços estendidos
que coloco ao lado da minha de criança
para que me sinta mais protegido
e fico a admirar as fotos lado a lado
até que alguma luz se acenda no peito
dissolvendo todos os nós da solidão

quando também isso não resulta
volto ao álbum muito antigo
e procuro uma foto do meu pai
com o seu ar imponente e protetor
que coloco ao lado da minha de criança
e a da minha mãe de braços estendidos
ainda a sorrir para mim
à espera que essa súbita reunião
imponha um fim à dor que sinto

quando nem mesmo isso resulta
procuro numa velha caixa de cartão
guardada num recanto do sótão
uma foto da casa onde nasci
coloco-a encostada à parede
e à minha frente muito bem alinhadas
a foto do meu pai imponente e protetor
a foto da minha mãe a sorrir para mim
de braços abertos e estendidos
e a minha própria foto de criança
e fico a admirar esse estranho quadro
durante horas e horas sem fim
à espera que as sombras se afastem
ou o tempo crescendo muito lentamente
nos volte a apartar de novo

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS VII - COLECTÂNEA - IN-FINITA

sexta-feira, 28 de outubro de 2022

Teias entre os dedos - Runa

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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com a água fria da torneira
desfaço-me de velhas teias
que me cresceram entre os dedos
limpo o suor do rosto
e escovo demoradamente os dentes
mas recuso-me a vestir a túnica chinesa
daqueles que seguem em fila
até à linha onde se abre o mar

já não acredito em milagres
nem em manobras de diversão
capazes de separar as águas
e fazer com que os barcos
se afundem num alçapão mágico
enquanto nas margens a multidão
aplaude as habilidades bizarras
de deuses em segunda mão

não me interessa o que nos espera
do lado de lá do rio
e viro costas ao fogo-de-artifício
voltando para o meu quarto
onde desenho um potro cinzento
que corre à volta das paredes
enquanto espero que de novo
me cresçam teias entre os dedos

EM - TOCA A ESCREVER 2022 - COLECTÂNEA - IN-FINITA

quinta-feira, 27 de outubro de 2022

Estátuas vivas - Runa

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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mandaram retirar todas as estátuas
só ficaram os pedestais
despidos e sem serventia alguma
era melhor assim
apregoavam os entendidos

mas nem toda a gente concordava
havia umas mentes rebeldes
que não se conformavam com a decisão
o mundo tinha-se tornado para elas
um lugar saturado de proibições

então começaram a vir à noite
enquanto todos dormiam
para os jardins e praças públicas
trajando fardas de gala
e velhos uniformes de combate

e sem temer o ridículo
foram ocupando todos os pedestais
hirtas e imponentes
toda a noite em sentido
como estátuas vivas de um mundo vazio

EM - TOCA A ESCREVER 2022 - COLECTÂNEA - IN-FINITA

quarta-feira, 26 de outubro de 2022

Entre os álamos - Runa

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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nos álamos o vento
pronuncia o nome de Deus
tateando com as unhas gastas
num movimento circular
que se repete indefinidamente

arranca tufos de terra
para mais à frente erguer
num esforço inglório
pequenos montículos
que se assemelham a altares

mas Deus nunca vem
esconde-se numa transparência volátil
e zomba do esforço que o vento faz
quando pronuncia o seu nome
perdido entre os álamos

EM - TOCA A ESCREVER 2022 - COLECTÂNEA - IN-FINITA

quarta-feira, 7 de setembro de 2022

Duas metades - RUNA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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o coração foi aberto ao meio
dividido em duas partes
metade sombra metade luz

alguém olhou para ele
e afirmou com pesar:
agora de nada serve

duas metades de uma coisa
nunca serão uma coisa
enquanto houver separação

sobre uma metade chove
sobre a outra brilha o sol
não consigo dizer mais nada

EM - TOCA A ESCREVER 2022 - COLECTÂNEA - IN-FINITA

quarta-feira, 17 de agosto de 2022

Diz quem sabe - RUNA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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diz quem sabe
que os anos pesam mais nos ossos
do que nas empenas do coração

mas é na transparência do olhar
que o fascínio se quebra
e mais cresce o abandono

a foz estreita de um rio
com a água inquinada dos lábios
aberta ao abraço da erosão

diz quem sabe
que nos lugares vagos do amor
o coração escurece sempre mais cedo

EM - TOCA A ESCREVER 2022 - COLECTÂNEA - IN-FINITA

terça-feira, 1 de março de 2022

Apoteose – RUNA

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se um homem estivesse acordado
no dia do seu próprio funeral
talvez esse acontecimento
pudesse ser uma festa
ou um momento para mais tarde recordar
 
com os amigos todos a acenar
à passagem do cortejo
e a gritar bem alto o seu nome
enquanto pombas brancas
se elevavam num imenso azul
 
músicos contratados
seguiriam ao lado do caixão
através das ruas decoradas
tocando música festiva
e varrendo a tristeza dos corações
 
viria gente de muito longe
apenas para aplaudir
ver com os próprios olhos
a derradeira encenação de um ator
a regressar de novo ao anonimato
 
o dia parecer-se-ia
com um qualquer domingo de verão
em que as pessoas saem à rua
para ver o sol brilhar
e celebrar o fascínio da vida
 
 
quando tudo estivesse terminado
regressariam todos a casa
cantando e dançando
sem arrastar o peso da saudade
ou qualquer outra consternação
 
o funeral de um homem
não tem que ser um episódio nefasto
pode muito bem ser a apoteose
de alguém que sai de cena
e emocionado se despede do mundo

EM - VERSO & PROSA - COLECTÃNEA - IN-FINITA

sábado, 11 de setembro de 2021

Para lá dos túneis - RUNA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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encosto a cabeça
num carril de fumo
à espera de um som
que não nasceu ainda

tenho um plano
para chegar mais longe
mas não sou ainda
um continente em fuga

o futuro cheira a carvão
e onde quero ir
fica para lá dos túneis
do outro lado de mim

pensar agora
num comboio de alta velocidade
não me fará
chegar mais depressa

EM - TOCA A ESCREVER 2021 - COLECTÂNEA - IN-FINITA

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

Dualidade - RUNA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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nem branco nem negro
nem noite nem dia
tudo aquilo que nos rodeia
está cercado de contradições

procuro o meio-termo
enquanto nos ombros carrego
o fardo desta dualidade
que constantemente agita
os pratos indecisos da balança

a paz e a guerra
são o verso e o reverso
da mesma medalha
de um lado a luz
do outro a sombra

ou a morte e a vida
duas máscaras siamesas
separadas no pulsar do sangue
pelo ato frágil de respirar

e se nesta dança de opostos
é tão fácil perder o pé
e resvalar para um dos lados
como saber depois distinguir
o choro do riso forçado?

ou quanto amor é preciso
para equilibrar um minuto de ódio?

EM - TOCA A ESCREVER 2021 - COLECTÂNEA - IN-FINITA

domingo, 22 de novembro de 2020

Casa ampla - RUNA

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não se procura o vento
ele é que nos encontra
quando viaja para longe
no seu cavalo branco
preso pela cauda
ao movimento das roldanas
que puxam a noite
para perto do fogo
não se sabe onde começa
nem onde termina
a névoa que cobre os telhados
e queima os laranjais
ainda assim
é pelo cascalho que vamos
a pé e desamparados
com o coração à arreata
longe e inacessível
a felicidade é uma casa ampla
do outro lado do rio

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS V - COLECTÂNEA - IN-FINITA

sábado, 11 de julho de 2020

Uma palavra nunca dita - RUNA


LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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imagino uma palavra
que nunca antes tenha sido escrita
um gesto capaz de te mostrar
o eu que se esconde
por detrás de um corpo
e um nome que é só silêncio
transparência e medo

penso em barco
sonho e metáfora
penso em coração
flor e fogo-de-artifício
procuro as sílabas mágicas
capazes de te prender

até que te cansas de esperar
e partes
para o outro lado do rio
imaginando que aí vais encontrar
o homem capaz de te sussurrar
uma palavra que nunca tenha sido dita

EM - TOCA A ESCREVER - COLECTÂNEA - IN-FINITA

sexta-feira, 10 de julho de 2020

Se existir - RUNA


LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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já procurámos
por todo o lado
e não achámos

dentro do armário
só roupa suja
e cheiro a naftalina

debaixo da cama
sapatos velhos
e uma camada de pó

dentro das gavetas
também não está
nem nunca esteve

mas não vamos desistir
se for preciso
revolvemos tudo

o amor
se existir
vai ter que aparecer

EM - TOCA A ESCREVER - COLECTÂNEA - IN-FINITA