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sexta-feira, 6 de maio de 2022

Vento no roçado - PETRUCIA CAMELO

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
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O vento quente sopra, junta, espalha
varrendo o terreiro coalhado de folhas mortas
que correm dispersas no ímpeto do vento forte
que cavalga como se cavalo fosse em disparada.
O trabalhador da roça chega do tratar da terra
suado, cansado, vindo lá das bandas do riachão
de onde vinga alvissareiro o verde das plantações.

O vento sopra sussurrando sobre as plantações,
como se estivesse a perguntar, quem vingará?
E os dias e as noites chuvosas abastecem os brotos
fortalecendo os caules, pra não morrerem de inanição.
E lá vem a colheita enchendo peneiras, sacos e caixotes
Frutos, legumes e leguminosas... caiem nas mãos,
e o homem da roça fica feliz, então, adeus precisão!

E o chapéu de palha, escuro de suor do trabalhador
é retirado e sacudido pelas mãos fortes calejadas
do homem plantando a terra, no meio da caboclada
e no fim da tarde fecha a porteira, encosta a enxada
senta no terreiro, acende o cigarro de fumo de corda
e nem ver a fumaça, pois os olhos caçam as feridas
acometidas nas topadas das pedras das estradas.

EM - ECOS DO NORDESTE - COLECTÂNEA - IN-FINITA

quinta-feira, 5 de maio de 2022

Céu limpo - PETRUCIA CAMELO

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Lá em cima, as nuvens branquinhas como algodão
se estendem longe espraiando-se, mostrando-se
como se fosse um lençol azul, pintado da cor do céu,
forrado sobre a cama, onde deito num fofo colchão.
Não, nem sinal de chuva, não, não vem não, não vem!
Nem para molhar os cabelos secos sob o pino do sol, 
somente o pano sobre a cabeça molha, mas é de suor.

Lá vão os gentios em fila indiana, sobre as cabeças a lata,
o pote, vão longe no açude buscar água da cor do lodo,
da lama, e a volta, então, descem encostas, sobem encostas
há de chegarem em casa, nem que seja com a metade da 
lata d’água na cabeça e botar pra ferver e fazer a refeição.
E o gado, o que dizer então, olhar as costelas sob o couro
e vê-lo enterrar as pontas no chão duro de barro e morrer.

Chega a noite o pão de milho sobre a mesa faz a refeição
quando tem bode comes, quando tem leite a nata molha.
E as histórias contadas sentados no oitão, em meio
a fumaça, do cachimbo, do cigarro, do fogo aceso no terreiro.
E na manhã seguinte o sol a pino, tudo recomeça, seco, 
verde, florido, se trabalhar e Deus ajudar, vive-se no torrão

EM - ECOS DO NORDESTE - COLECTÂNEA - IN-FINITA

sexta-feira, 12 de novembro de 2021

Negatividade - PETRUCIA CAMELO

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
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Vidas perdidas, amores banidos,
visões amarelecidas pelo tempo,
que não ama, só apronta e só promete,
é só miséria, roto espantalho, só espanto,
a pronunciar palavras toscas, ocas.

Finge que os dias nascem bem,
mas não sabe que a noite vem,
nem estrelas brilham, nem a lua aparece
se o dia nasce e o sol se põe
continua na promessa de tudo avessas.

Violas de sonho não tocam,
réstia de luzes não ilumina,
no telhado do escuro quarto,
vozes não mais ressoam,
não trocam juras de amor eternos.

Passeios na praia sem luz da lua,
na luz de estrelas pálidas, cálidas
cantos de sereias nas areias,
sem ritmos, cantos desafinados,
solfejam na luz das fantasias.

EM - MULHERES A UMA SÓ VOZ - COLECTÂNEA - IN-FINITA

terça-feira, 5 de outubro de 2021

Dia de aniversário - PETRUCIA CAMELO

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Quando a vida diz que sim,
rompe todas as barreiras,
sem deixar espaços vazios,
irrompe sobre águas, paus e pedras...
E o tempo olha a vida com o olhar de
orvalho, bruma, prata e ouro,
que se faz derramar como se fossem águas
do rio no continuo ondear da vida.

Mas a força da vida faz nascer tantos rios,
que dançam com o tempo como bailarinos,
fazendo como as borboletas voando,
embalsando as transparências dos vitrais.
Quando a vida paira sobre nós, recobra as forças
ao deparar com o que mostra a sua criatividade.
E sente e diz, como é doce a vida!
A vida é doce como água fresca de um rio.

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS VI - COLECTÂNEA - IN-FINITA

sábado, 28 de agosto de 2021

O sentido hora - PETRUCIA CAMELO

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Ao meu esposo, dedico

Badaladas sonoras, imortais dão sentido a hora,
eternas, mostram a cor dos céus e dos mares
impassivos ponteiros, andam em sentido hora
não temos como saber o que está por vir, agora
dúvidas e até promessas de felicidade afloram
espera-se receber diante de carrilhões, a hora.

Passa fugidia ou altiva, ninguém apreende, a hora,
às vezes, se arrasta em ásperas esperas, dolorosas,
a hora é virtuosa não faz volteios e se fizer, ignora,
refletidas nas águas, lua e hora, sorriem, escandalosas
brincando, até se deitam, se escondem atrás de morros,
contemplai-nos, fatigai-nos de prazer, ó hora!

Punhado de palavras lavradas ou cunhadas
no discurso, são lavores promovidos pela hora
Da lavra a emoção da mensagem escrita, afaga
Explicita tantas vezes deixa a alma iluminada.
A palavra cria asas e voa deixando memórias,
não há hora vazia, a palavra sempre estar reunida.

EM - TOCA A ESCREVER 2021 - COLECTÂNEA - IN-FINITA

sexta-feira, 27 de agosto de 2021

Arte e costumes - PETRUCIA CAMELO

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À mestra Renira Lisboa, dedico

Não se vê jardins aquáticos
de Monet, nem girassóis
de Van Gogh, relógios disformes
de Salvador Dali, naturezas-mortas
de Paul Cézanne, Di Cavalcanti...
autorretratos de Frida Kahlo...
A arte não faz cópia, a arte cria!

No campanário, sinos não badalam,
não mais tocam na hora da missa,
sinetas sonoras não chamam a atenção.
Flores não se colhem em jardins floridos,
não há ximbras no terreiro da meninada,
nem quintais de encanto onde o galo canta.
Nem pássaros voam, exaltando a paisagem.

Mas arte e costumes perenizados renascem
no olhar das gerações seguintes, talentosas,
desejosas de darem novos tons à criatividade,
mas, como reflexo de luz no ouro envelhecido,
eis à mostra no alvorecer, tons do eternizado!
E o aspecto velho em desbote da morte, salva!
No olhar o desamparo da lágrima a tocar a arte.

EM - TOCA A ESCREVER 2021 - COLECTÂNEA - IN-FINITA

quinta-feira, 19 de agosto de 2021

Coração de pedra - PETRUCIA CAMELO

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Mar de águas, águas de mar,
batem forte sobre rocha inquebrantável,
umedecendo as entranhas impenetráveis.
Ó, rochedos, quem os trouxe aqui, senão
águas, ventos e chuvas?

Quem o trouxe aqui,
ó rochedo milenar,
a embelezar o meu olhar,
a tocar minhas mãos,
a fazer o meu coração parar?

Pulsa, coração de rocha,
Faze outros se conscientizarem
de que somente a pedra não muda
apesar do poder de quebrantar-se,
mas nunca de adulterar-se!

Bate forte, coração de pedra,
Junto com as batidas das águas do mar,
sois rochedo silencioso a inspirar:
sou pedra e como pedra
sempre hei de amar!

EM - MULHERIO DAS LETRAS NA LUA - COLECTÂNEA - IN-FINITA

domingo, 8 de novembro de 2020

Gotas oceânicas - PETRUCIA CAMELO

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O ondear das ondas corre galopante
Levando o mar a bater sobre pedras
Esparrando-se em espumas brancas
A força d’águas de arrastão

Mas eu sou queria uma gota d’água oceânica
Tão salgada como lágrimas
De sal e areias
Resquícios molhados do olhar de Deus

Mas a gota parece que se encanta
Se retrai, some, desprende-se
Desaparece, não se despede
Nem lava o rosto meu

Não deve ter memória a deusa gota
Que de mim foge ao modo do camaleão
Mudando a cor conforme a cor do céu
Não vê, não sabe quanta beleza tem.

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS V - COLECTÂNEA - IN-FINITA

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Mar de espumas - PETRUCIA CAMELO

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Quebra sobre a orla restos de mar espumantes
Debruça sobre areias praieiras segredos oceânicos
Espumas peroladas aterrissam qual nave ancorada
rufam aos meus pés em oferendas de sonhos titânicos

Ó gente de bordo, brava gente! Que de cartas e de máquinas
belonaves flutuam, passam ao largo, bandeiras arvorando-se
longe bem longe, fronteiras de espumas levantam-se
embates de sangue borbulham, que de glória faz o infante.

Espumas-de-mar, espúmeas taças de orgias netunianas!
Por entre vagas, o gemer das ondas, avante, galeras remando!
Salvas festivas, sonhos desatam-se, Américo Vespúcio canta!

Ó espumas circundantes, à hora é dalva, nave ao mar!
Navega por onde sopra o vento, leva os meus pensamentos.
Ó timoneiro, conduz esse veleiro, que do meu porto zarpa!

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS II - ANTOLOGIA - IN-FINITA

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Mar de andorinhas - PETRUCIA CAMELO

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Ó andorinha, voas assuntando os mares!
Revoas ondeando o ondear das ondas.
Há no silêncio das vagas um corpo vencido,
pelos acordes das marés acontecidas.

Voas andorinha, andorinhão-das-tormentas!
Os céus desabam, os oceanos exasperam-se,
sonhos e desejos vagueiam sobre ondas
ondeiam sôfregos de lamentos e esperas.

Ó andorinha-da-serra, voas em volteios,
na terra e no mar!
Nas águas gloriosas e de lágrimas cor de algas
arrebatas esse corpo transido de mágoas.

Ó andorinha-da-praia, quisera, à beira - mar quisera!
Que encontres esse corpo entre espumas e areias
naufragado de sonhos nas solidões marinhas.

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS II - ANTOLOGIA - IN-FINITA

sexta-feira, 6 de julho de 2018

Mar de encantamentos - PETRUCIA CAMELO

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Na imensidão do mar a sonoridade das ondas que se espraiam nas areias
Nas águas impávidas, colossal colóquio de amor de mar e céu inquietante
e no debruço do abraço a vaga esconde o traçado azul celeste que vagueia
Em guirlandas vermelhas derrama-se em fogachos de manto que incendeia.
À tarde, o mar cavalga a galope de corcel selvagem ao encontro das areias
A dizer no ondear das ondas, no derramar das águas, do seu amor constante
Ò mar! Olhas o céu que enternece e não ti abandonas! E fazes vê o encanto
Em nuvens que delineiam, silhuetas de noivas, buquês e véus esvoaçantes
E sobre o espelho d'água, o céu a se olhar, a esparramar a sua luz estelar
E o mar, lua e sol a acompanhar, aos confins, a guardar os seus segredos.
Nave de sonhos, a definir horizontes, porto de mar e céu em terra distante
E brandamente mar e céu se enlaçam no anil fortuito de esperanças mil
E no ardoroso amor que os uniu, nos pólos gélidos, o mar o azul ascendeu
E na quimera de sonhos, corre n'água fulgidia, estrelas, sargaços e areias.

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS - ANTOLOGIA - IN-FINITA

quinta-feira, 5 de julho de 2018

À mestra - PETRUCIA CAMELO

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O vento escapa, por onde passa, entremeando os verdes ramos,
e paira como se ficasse a espiar atrás de um arvoredo em flores
vendo a mestra colher e sorver traçadas linhas de néctar do saber
a prover em culto, a sacralizar, a consagrar parte de si a outrem.
E com gesto silencioso em função do aprender cai a flor no jardim
e ligeiro o vento sopra as pétalas para debaixo da soleira da porta.
Indiferente vira-se páginas, então, a mestra busca o ideal do saber.
E assim, a vocação instaura o seu posto na ideologia do aprender.
Ser mestra, qual a gueixa submissa é prender a atenção ao prazer
de ser escolhida de ser possuída dos significados centrados no Eu.
No front deixa-se olhar, ouvir, escrever, a despe o olhar indagativo.
Esgarçada a folhagem pela contagem do vento, a árvore testemunha
à palavra em perpétuo esforço para continuação do que se desvanece.
Em discurso, a mestra pensa em se dizer, sem pensar em realizar-se.
E como serpente emplumada se arrasta por entre bancas, em espanto.


EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS - ANTOLOGIA - IN-FINITA