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domingo, 17 de julho de 2016

Choves - JOSÉ ILÍDIO TORRES

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELO AUTOR

finalmente choves

sem dó nem piedade
entranhas-me na pele
choves-me de verdade
sou apenas feito de papel

finalmente choves

não há para onde fugir
um verbo para me abrigar
choves-me no que há-de vir
não tenho mãos para me tapar

finalmente choves

alegra-me e mata-me isso
desconhecido amante ou ópio
uma espécie de amor ou viço
coração visto ao estetoscópio

finalmente choves

e eu quase não dei por ela
mulher maior que a chuva
estreito sentir de uma viela
num calor frenético de vulva

finalmente choves
e eu choro

EM - DISSERTAÇÃO ESCUSADA SOBRE A SOLIDÃO DAS ÁRVORES - JOSÉ ILÍDIO TORRES - LUA DE MARFIM

terça-feira, 28 de junho de 2016

Memória de um dia sem poesia - JOSÉ ILÍDIO TORRES

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELO AUTOR

encalharam sem razão os barcos
os aviões pararam em pleno ar
uma gaivota ficou negra de crude

não havia correio nos marcos
não havia razão para reclamar
o afecto mais terno tornou-se rude

falharam o alvo dos amantes as setas
as crianças de colo deixaram o peito
uma cidade inteira ruiu nessa dor

não havia beijos, abraços ou metas
não havia mais que cadáveres no leito
o ódio sobrepôs-se sem dó ao amor

procuraram razões eternos ditadores
discursaram políticos a sua febre
culparam os poetas da ruína sem fundo

mas estes, indiferentes aos roedores
gritaram bem alto a razão da greve
gizando novos poemas para o mundo

EM - DISSERTAÇÃO ESCUSADA SOBRE A SOLIDÃO DAS ÁRVORES - JOSÉ ILÍDIO TORRES - LUA DE MARFIM

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Havia o que não a via - JOSÉ ILÍDIO TORRES

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELO AUTOR

havia o que não a via
e vestia
de vermelho lua

sapatos afiados na carne
saltos altos de luz

e trazia
na boca um halo de cometa
no ventre um quase poema

e despia
pelo céu da boca o beijo
a noite puta

e cobrava sonhos de menina
e vendia baloiços
e sortes macacas

em cada um que a via

EM - DISSERTAÇÃO ESCUSADA SOBRE A SOLIDÃO DAS ÁRVORES - JOSÉ ILÍDIO TORRES - LUA DE MARFIM

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Lua morena - JOSÉ ILÍDIO TORRES

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELO AUTOR

havia um quarto crescente
que a tristeza dos olhos mentia
e lençóis nos lábios de cetim

lua incandescente e quase nua

havia do amor um lado crente
que o outro lado também sentia
desejo de abraços sem ter fim

lua incandescente e quase nua

viagens de naves-caravelas
em todas as viagens singelas
vaga-lume aceso no teu sorriso

lua incandescente e quase nua

tempo do teu tempo preciso
quarto de luz despido nas janelas
lua morena ao fundo da minha rua

EM - DISSERTAÇÃO ESCUSADA SOBRE A SOLIDÃO DAS ÁRVORES - JOSÉ ILÍDIO TORRES - LUA DE MARFIM

quarta-feira, 8 de junho de 2016

De mãos atadas - JOSÉ ILÍDIO TORRES

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELO AUTOR

de que te servem essas mãos atadas
horizontes fechados como janelas
criadas para te servirem anafadas
se não sabes a que cheiram as vielas

de que te servem as heranças, os dotes
os títulos, os diplomas ou as comendas
mais as orgias e outros que tais fartotes
se até nos teus amigos colocas vendas

respondo por ti se não te importas:
- Não te sobra dessa vil aliança
restos de carne e outras coisas mortas

entra por isso de peito aberto na dança
escreve direito por linhas tortas
semeia em cada homem, uma criança

EM - DISSERTAÇÃO ESCUSADA SOBRE A SOLIDÃO DAS ÁRVORES - JOSÉ ILÍDIO TORRES - LUA DE MARFIM

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Estrela decadente - JOSÉ ILÍDIO TORRES

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELO AUTOR

eu venho de todos os lugares da perda
semeando cadáveres pela planície
os bolsos cheios de armas e só merda
sou da fome o mais astuto artificie

eu venho de onde não tenho nome
garganta funda para dizer a liberdade
pau para toda a obra de quem tome
mentira como a mais pura verdade

eu venho dos bairros da fome como lata
cântico negro a roer-me de poesia os ossos
eu venho de matar o silêncio com esta faca

eu venho de todos os lugares tão vossos
já derrubei para um canto o que me mata
visto-me da bonomia cadente dos destroços

EM - DISSERTAÇÃO ESCUSADA SOBRE A SOLIDÃO DAS ÁRVORES - JOSÉ ILÍDIO TORRES - LUA DE MARFIM


segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Morro em todas as horas - JOSÉ ILÍDIO TORRES

Acordei morto e nada tinha mudado
Fazia-se a guerra a meus pés
Ninguém sabia quem me tinha matado

Ainda perguntei se não seria o caso
De ser eu mais um soldado desconhecido
Na árvore do destino um fruto do acaso

Mas ninguém me respondeu
Nem o homem que penso que sou
Nem aquele que em mim morreu

Por isso cultivo palavras como punhais
E trago o léxico todo esventrado
De histórias que me são letais

Morto vivo noutro alojado em mim
Amanhã não acordarei, já decidi
E um eu verdadeiro nascerá por fim

EM - OS POEMAS NÃO SE SERVEM FRIOS - JOSÉ ILÍDIO TORRES - TEMAS ORIGINAIS

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Balada de um amor triste - JOSÉ ILÍDIO TORRES

No peito não lhe cabia um coração
Que de poemas era todo ele feito
Mas nesse vazio tão cheio de solidão
O amor era de ilusão quase perfeito

Tela que pintava num afago só
Escultura graciosa que fazia incompleta
Texto sem dó que arquitectava
Sua procura não tinha partida
Nem a meta era a cura procurada

E havia em tudo o que nele não cabia
Uma espécie de peito cheio de poemas
E um vazio que por fora não se via
E era solidão de quem escrevia apenas

EM - OS POEMAS NÃO SE SERVEM FRIOS - JOSÉ ILÍDIO TORRES - TEMAS ORIGINAIS

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

A inspiração abandonou-me - JOSÉ ILÍDIO TORRES


A inspiração abandonou-me
Fugiu com um turco que vendia ventoinhas
Apesar de ser marroquino de outros fumos

Não que me tivesse traído, apenas desistiu
Tal qual um rebucador que nunca partiu de Ceuta
Arrastando Sebastiões no saltar intermitente dos golfinhos

Mas o pior de tudo, é que a maré como que se esvaiu
A cada golfada de dedos que não tocaram as anémonas
Receosos de envenenamento pela poesia dos cactos

Houvesse solução para as guelras
E em cada gargalo de tempo
Um pulmão ansiasse a felicidade como um cancro

EM - OS POEMAS NÃO SE SERVEM FRIOS - JOSÉ ILÍDIO TORRES - TEMAS ORIGINAIS

terça-feira, 19 de junho de 2012

Roubaram a palavra pela calada - JOSÉ ILÍDIO TORRES


Roubaram a palavra pela calada
Meteram-na num saco de juta
Venderam-na quase d'enfiada
A um qualquer filho da puta

Vestiram-se de pantomineiros
Havia gente de política disfarçada
Todos queriam trinta dinheiros
Pela liberdade que nos foi roubada

Os dias ficaram sem ela banais
Não podiam agora ser escritos
Os começos órfãos dos finais

Que por não poderem ser ditos
E lhes sobrerem dias iguais
Andavam os deuses quase aflitos

EM - OS POEMAS NÃO SE SERVEM FRIOS - JOSÉ ILÍDIO TORRES - TEMAS ORIGINAIS