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sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Soneto da mulher inútil - VINICIUS DE MORAES

De tanta graça e de leveza tanta
Que quando sobre mim, como a teu jeito
Eu tão de leve sinto-te no peito
Que o meu próprio suspiro te levanta.

Tu, contra quem me esbato liquefeito
Rocha branca! brancura que me espanta
Brancos seios azuis, nívea garganta
Branco pássaro fiel com que me deito.

Mulher inútil, quando nas nocturnas
Celebrações, náufrago em teus delírios
Tenho-te toda, branca, envolta em brumas.

São teus seios tão tristes como urnas
São teus braços tão finos como lírios
É teu corpo tão leve como plumas.

EM - ANTOLOGIA POÉTICA - VINICIUS DE MORAES - DOM QUIXOTE

domingo, 24 de maio de 2015

Soneto da rosa - VINICIUS DE MORAES

Mais um ano na estrada percorrida
Vem, como o astro matinal, que a adora
Molhar de puras lágrimas de aurora
A morna rosa escura e apetecida.

E da fragrante tepidez sonora
No recesso, como ávida ferida
Guardar o plasma múltiplo da vida
Que a faz materna e plácida, agora.

Rosa geral de sonho e plenitude
Transforma em novas rosas de beleza
Em novas rosas de carnal virtude
Para que o sonho viva da certeza
Para que o tempo da paixão não mude
Para que se una o verbo à natureza.

EM - ANTOLOGIA POÉTICA - VINICIUS DE MORAES - DOM QUIXOTE

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Soneto da véspera - VINICIUS DE MORAES

Quando chegares e eu te vir chorando
De tanto te esperar, que te direi?
E da angústia de amar-te, te esperando
Reencontrada, como te amarei?

Que beijo teu de lágrima terei
Para esquecer o que vivi lembrando
E que farei da antiga mágoa quando
Não puder te dizer por que chorei?

Como ocultar a sombra em mim suspensa
Pelo martírio da memória imensa
Que a distância criou - fria de vida

Imagem tua que eu compus serena
Atenta ao meu apelo e à minha pena
E que quisera nunca mais perdida...

EM - ANTOLOGIA POÉTICA - VINICIUS DE MORAES - DOM QUIXOTE

segunda-feira, 5 de maio de 2014

A rosa de Horoshima - VINICIUS DE MORAES

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa sem cirrose
A anti-rosa atómica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada

EM - ANTOLOGIA POÉTICA - VINICIUS DE MORAES - DOM QUIXOTE

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

O rio - VINICIUS DE MORAES

Uma gota de chuva
A mais, e o ventre grávido
Estremeceu, da terra.
Através de antigos
Sedimentos, rochas
Ignoradas, ouro
Carvão, ferro e mármore
Um frio cristalino
Distantes milénios
Partiu fragilmente
Sequioso de espaço
Em busca de luz.

Um rio nasceu.

EM - ANTOLOGIA POÉTICA - VINICIUS DE MORAES - DOM QUIXOTE

quinta-feira, 21 de março de 2013

A morte - VINICIUS DE MORAES

A morte vem de longe
Do fundo dos céus
Vem para os meus olhos
Virá para os teus
Desce das estrelas
Das brancas estrelas
As loucas Estrelas
Trânsfugas de Deus
Chega impressentida
Nunca inesperada
Ela que é na vida
A grande esperada!
A desesperada
Do amor fraticida
Dos homens, ai! dos homens
Que matam a morte
por medo da vida.

EM - ANTOLOGIA POÉTICA - VINICIUS DE MORAES - DOM QUIXOTE

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Soneto de Londres - VINICIUS DE MORAES


Que angústia estar sozinho na tristeza
E na prece! que angústia estar sozinho
Imensamente, na inocência! acesa
A noite, em brancas trevas o caminho

Da vida, e a solidão do burburinho
Unindo as almas frias à beleza
Da neve vã; oh, tristemente assim
O sonho, neve pela natureza!

Irremediável, muito irremediável
Tanto como essa torre medieval
Cruel, pura, insensível, inefável

Torre; que angústia estar sozinho! ó alma
Que ideal perfume, que fatal
Torpor te despetala a flor do céu?

EM - ANTOLOGIA POÉTICA - VINICIUS DE MORAES - DOM QUIXOTE

sábado, 10 de novembro de 2012

Soneto do amor total - VINICIUS DE MORAES

Amo-te tanto, meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.

EM - ANTOLOGIA POÉTICA - VINICIUS DE MORAES - DOM QUIXOTE

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Paisagem - VINICIUS DE MORAES

Subi a alta colina
Para encontrar a tarde
Entre os rios cativos
A sombra sepultava o silêncio.

Assim entrei no pensamento
Da morte minha amiga
Ao pé de grande montanha
Do outro lado do poente.

Como tudo nesse momento
Me pareceu plácido e sem memória
Foi quando de repente uma menina
De vermelho surgiu no vale correndo, correndo...

EM - ANTOLOGIA POÉTICA - VINICIUS DE MORAES - DOM QUIXOTE

sábado, 20 de outubro de 2012

Marinha - VINICIUS DE MORAES

Na praia de coisas brancas
Abrem-se às ondas cativas
Conchas brancas, coxas brancas
          Águas-vivas.

Ao mergulhares do bando
Afloram perspectivas
Redondas, se aglutinando
          Volitivas.

E as ondas de pontas roxas
Vão e vêm, verdes e esquivas
Vagabundas, como frouxas
          Entre vivas!

EM -  ANTOLOGIA POÉTICA - VINICIUS DE MORAES - DOM QUIXOTE

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Soneto da fidelidade - VINICIUS DE MORAES

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
O seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

EM - ANTOLOGIA POÉTICA - VINICIUS DE MORAES - DOM QUIXOTE

domingo, 30 de setembro de 2012

Soneto de devoção - VINICIUS DE MORAES

Essa mulher que se arremessa, fria
E lúbrica aos meus braços, e nos seios
Me arrebata e me beija e balbucia
Versos, votos de amor e nomes feios.

Essa mulher, flor de melancolia
Que se ri dos meus pálidos receios
A única entre todas a quem dei
Os carinhos que nunca a outra daria.

Essa mulher que a cada amor proclama
A miséria e a grandeza de quem ama
E guarda a marca dos meus dentes nela.

Essa mulher é um mundo! - uma cadela
Talvez... - mas na moldura de uma cama
Nunca mulher nenhuma foi tão bela!

EM - ANTOLOGIA POÉTICA - VINICIUS DE MORAES - DOM QUIXOTE

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Soneto de contrição - VINICIUS DE MORAES

Eu te amo, Maria, te amo tanto
Que o meu peito me dói como em doença
E quanto mais me seja a dor intensa
Mais cresce na minha alma teu encanto.

Como a criança que vagueia o canto
Ante o mistério da amplidão suspensa
Meu coração é um vago de acalanto
Berçando versos de saudade imensa.

Não é maior o coração que a alma
Nem melhor a presença que a saudade
Só te amar é divino, e sentir calma...

E é uma calma tão feita de humildade
Que tão mais te soubesse pertencida
Menos seria eterno em tua vida.

EM - ANTOLOGIA POÉTICA - VINICIUS DE MORAES - DOM QUIXOTE

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Soneto à lua - VINICIUS DE MORAES

Por que tens, por que tens olhos escuros
E mãos lânguidas, loucas e sem fim
Quem és, que és tu, não eu, e estás em mim
Impuro, como o bem que está nos puros?

Que paixão fez-te os lábios tão maduros
Num rosto como o teu criança assim
Quem te criou tão boa para o ruim
E tão fatal para os meus versos duros?

Fugaz, com que direito tens-me presa
A alma que por ti soluça nua
E não és Tatiana e nem Teresa:

E és tão pouco a mulher que anda na rua
Vagabunda, patética, indefesa
Ó minha branca e pequenina lua!

EM - ANTOLOGIA POÉTICA - VINICIUS DE MORAES - DOM QUIXOTE

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Soneto de agosto - VINICIUS DE MORAES

Tu me levaste, eu fui... Na treva, ousados
Amamos, vagamente surpreendidos
Pelo ardor com que estávamos unidos
Nós que andávamos sempre separados.

Espantei-me, confesso-te, dos brados
Com que enchi teus patéticos ouvidos
E achei rude o calor dos teus gemidos
Eu que sempre os julgara desolados.

Só assim arrancara a linha inútil
Da tua eterna túnica inconsútil...
E para a glória do teu ser mais franco

Quisera que te vissem como eu via
Depois, à luz da lâmpada macia
O púbis negro sobre o corpo branco.

EM - ANTOLOGIA POÉTICA - VINICIUS DE MORAES - DOM QUIXOTE

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Ária para assovio - VINICIUS DE MORAES

Inelutavelmente tu
Rosa sobre o passeio
Branca! e a melancolia
Na tarde do seio.

As cássias escorrem
Seu ouro a teus pés
Conheço o soneto
Porém tu quem és?

O madrigal se escreve:
Se é do teu costume
Deixa que eu te leve.

(Sê... mínima e breve
A música do perfume
Não guarda ciúme.)

EM - ANTOLOGIA POÉTICA - VINICIUS DE MORAES - DOM QUIXOTE

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Soneto de intimidade - VINICIUS DE MORAES

Nas tarde da fazenda há muito azul demais.
Eu saio às vezes, sigo pelo pasto, agora
Mastigando um capim, o peito nu de fora
No pijama irreal de há três anos atrás.

Desço o rio no vau dos pequenos canais
Para ir beber na fonte a água fria e sonora
E se encontro no mato o rubro de uma amora
Vou cuspindo-lhe o sangue em torno dos currais.

Fico ali respirando o cheiro bom do estrume
Entre as vacas e os bois que me olham sem ciúme
E quando por acaso uma mijada ferve

Seguida de um olhar não sem malícia e verve
Nós todos, animais, sem comoção nenhuma
Mijamos em comum numa festa de espuma.

EM - ANTOLOGIA POÉTICA - VINICIUS DE MORAES - DOM QUIXOTE

segunda-feira, 30 de julho de 2012

A música das almas - VINICIUS DE MORAES

Na manhã infinita as nuvens surgiram como a loucura numa alma
E o vento como o instinto desceu os braços das árvores que estrangulam a terra...

Depois veio a claridade, o grande céu, a paz dos campos...
Mas nos caminhos todos choraram com os rostos levados para o alto
Porque a vida tinha misteriosamente passado na tormenta.

EM - ANTOLOGIA POÉTICA - VINICIUS DE MORAES - DOM QUIXOTE

terça-feira, 10 de abril de 2012

Agonia - VINICIUS DE MORAES

No teu grande corpo branco depois eu fiquei.
Tinhas os olhos lívidos e tive medo.
Já não havia sombra em ti - eras como um grande deserto de areia
Onde eu houvesse tombado após uma longa caminhada sem noites.
Na minha angústia eu buscava a paisagem calma
Que me havias dado tanto tempo
Mas tudo era estéril e monstruoso e sem vida
E teus seios eram dunas desfeitas pelo vendaval que passara.
Eu estremecia agonizando e procurava me erguer
Mas teu ventre era como areia movediça para os meus dedos.
Procurei ficar imóvel e orar, mas fui me afogando em ti mesma
Desaparecendo no teu ser disperso que se contraía como a voragem.

Depois foi o sono, o escuro, a morte.

Quando despertei era claro e eu tinha brotado novamente
Vinha cheio do pavor das tuas entranhas.

EM - ANTOLOGIA POÉTICA - VINICIUS DE MORAES - DOM QUIXOTE