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quarta-feira, 27 de março de 2024

Monhos - Vítor Cintra


Mistérios se agitam
Na terra dos sonhos.
São tantos os monhos,
Que as mentes levitam.

São peixes que voam
E aves que nadam,
São homens que fadam,
Silêncios que soam.

Por força das mentes
Despertam sentidos.
Há mundos sorvidos
Por corpos frementes.

EM - PEDAÇOS DO MEU SENTIR - VÍTOR CINTRA - TEMAS ORIGINAIS

sexta-feira, 22 de março de 2024

Indecisões - Vítor Cintra


Quando o amor te convida
Finges mistérios,
Segredos
E medos;
Se te conquista em seguida,
Sonhas impérios,
E ledos
Enredos;
Mas, na paixão conseguida,
Vês adultérios,
Bruxedos,
Degredos.

EM - PEDAÇOS DO MEU SENTIR - VÍTOR CINTRA - TEMAS ORIGINAIS
 

domingo, 17 de março de 2024

Pescador - Vítor Cintra


Olhando o oceano, o pescador
Mergulha na distância o olhar triste,
Alheia-se do mundo ao seu redor
E vive da lembrança, que persiste.

É velho!... Já não pode agora tanto!...
O tempo, que o esgotou pelo cansaço,
Aumenta-lhe na alma a dor do pranto,
Que o rosto não chorou, por embaraço.

Aos netos, com saber outrora feito,
Contando vai lições, que tem da vida,
Sem nunca confessar que foi sofrida.

Cansado, o coração mantém, no peito,
Cadência de batida, Ainda assim,
Ao som do marulhar do mar sem fim.

EM - PEDAÇOS DO MEU SENTIR - VÍTOR CINTRA - TEMAS ORIGINAIS
 

terça-feira, 12 de março de 2024

Em ti... - Vítor Cintra


Em ti se engrandece a vida!
Em ti se repete o mundo
E, num confronto fecundo,
Em ti começa a subida.

Em ti se resume a esp'rança!
Em ti se vive o futuro
E, num impulso seguro,
Em ti se faz a mudança.

Em ti a paz acontece,
Com grande sagacidade
E toda a tranquilidade.

Em ti a luz aparece,
Em cada olhar, cada gesto,
Por mais que seja modesto.

EM - PEDAÇOS DO MEU SENTIR - VÍTOR CINTRA - TEMAS ORIGINAIS

quinta-feira, 7 de março de 2024

Fúria - Vítor Cintra

Do céu, enquanto raios de desgraça
Lampejam, com furor, na noite escura,
As nuvens, que nasceram ameaça,
Derramam-se em torrentes de água pura.

Ressoa, com fragor, por toda a parte,
A voz tonitruante de Vulcano,
Mais forte que a irada voz de Marte,
Capaz de intimidar qualquer humano.

O vento, que fustiga em desespero
As copas dos coqueiros desgrenhados,
Mergulha de rochedos escarpados;

Num silvo, que enfurece o mar severo,
Encontra, no rugir da profundeza,
Mais eco do que tem na natureza.

EM - PEDAÇOS DO MEU SENTIR - VÍTOR CINTRA - TEMAS ORIGINAIS

sábado, 2 de março de 2024

Duendes - Vítor Cintra


Andam duendes à solta
Nalguns caminhos 'scondidos
Só quem apura os sentidos
Pode senti-los à volta.

Ouvem, alguns, gargalhadas,
Outros só ouvem gemidos,
Nesses atalhos seguidos
Em noites mais estreladas.

É nesse mundo risonho,
Sem um temor desmedido,
Que cause dor ou revolta,

Que, quem viveu um tal sonho,
Se mostra mais convencido
Que andam duendes à solta

EM - PEDAÇOS DO MEU SENTIR - VÍTOR CINTRA - TEMAS ORIGINAIS

terça-feira, 12 de abril de 2016

Mafra - VÍTOR CINTRA

Primeiro um povoado neolítico,
Que os homens do passado edificaram.
Seguiu-se, em outro tempo bem mais crítico,
Um pouso onde os romanos se instalaram.

Depois os visigodos, que ficaram,
Até à invasão dos muçulmanos.
Os mouros um castelo levantaram
E a terra dominaram largos anos.

Mas quando Afonso Henriques, à chegada,
O viu, lá bem no topo da colina,
Impondo-se aos ribeiros e à ravina,

Lançou-se na conquista desejada,
Chamando Santo André como patrono
Da praça, que ruiu por abandono.

EM - RUÍNAS DA HISTÓRIA - VÍTOR CINTRA - LUA DE MARFIM

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Freixo de Espada à Cinta - VÍTOR CINTRA

Se foi "Feijão", ou não, quem te fundou,
Te fez ser povoado, desde antanho,
Jamais o saberemos, mas restou
A lenda, património do nortenho.

Se Dom Afonso Henriques te outorgou
Foral e te mandou erguer muralhas,
Foi porque o rei vizinho cobiçou
As leiras e lameiros, que trabalhas.

Ainda assim Afonso de Leão
Tomou de assalto a nova construção
E sujeitou também o povoado.

Mas, reagindo, o reino português
Reconquistou a praça e, desta vez,
Tornou mais forte o troço amuralhado.

EM - RUÍNAS DA HISTÓRIA - VÍTOR CINTRA - LUA DE MARFIM

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Alenquer - VÍTOR CINTRA

Por gregos e fenícios visitado
O castro de Alenquer, há muitos anos,
Seria por Cartago conquistado
Bem antes de chegarem os romanos.

Depois, p'las legiões romanizado,
Até que o conquistaram os alanos,
Iria ser, p'los godos, ocupado
até à invasão dos muçulmanos.

Embora fosse, então, acastelado
Ao ser pelos cristãos reconquistado
Sofreu, nesses ataques, muitos danos.

Ao ver todo o conjunto em mau estado
O rei mandou que fosse reforçado
Erguendo, nas muralhas, novos panos.

EM - RUÍNAS DA HISTÓRIA - VÍTOR CINTRA - LUA DE MARFIM

sábado, 16 de janeiro de 2016

Alcantarilha - VÍTOR CINTRA

A ti chegaram gregos e fenícios,
Também cartagineses, lusitanos,
Mas são muito mais fortes os indícios
Que falam da presença dos romanos.

Em ti se aquartelaram legiões,
Mais tarde derrotadas p'los alanos
Caídos, logo após as invasões,
Lançadas p'los califas muçulmanos.

À beira dessa estrada que corria
De Silves até Faro, as capitais,
Ergueram-te muralhas de vigia.

Mas quando a reconquista aí chegou,
Com cercos e combates radicais,
Também Dom Paio Peres te tomou.

EM - RUÍNAS DA HISTÓRIA - VÍTOR CINTRA - LUA DE MARFIM

domingo, 10 de janeiro de 2016

Barcas - VÍTOR CINTRA

Cruzam-se as portas dos desconhecidos,
Barcas afrontam ventos e marés;
Homens em busca de mundos perdidos,
Olhos atentos em cada convés.

Mandam os mestres. "Roda agora o leme
Rumo ao poente", p'ra alcançar o sul.
Levam nas barcas gente que não teme
Monstros que habitem nesse mar azul.

"Dá pano à gávea!... Olha a bujarrona!"
Gritam as vozes, no fim da bonança,
Sopram os ventos, já a barca dança.

Crescem as ondas, as fúrias à tona,
Soltam fantasmas, que estão na lembrança,
Crescem gigantes, mas a barca avança.

EM - ROMEIROS DOS OCEANOS - VÍTOR CINTRA - LUA DE MARFIM

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Despedida - VÍTOR CINTRA

Com nobreza me ensinaste
O que é ser homem de bem
Em terra que, por contraste,
Não dá valor a ninguém.

Nos teus olhos um sorriso,
Meu amigo, bom velhinho,
Mostra mais do que preciso
P'ra saber do teu carinho.

Na hora da despedida,
Venho agradecer-te a vida
E o teu amor paternal.

E dizer-te que é subida
A honra de ter vestida
a farda de Portugal.

EM - AO ACASO - VÍTOR CINTRA - LUA DE MARFIM

domingo, 20 de dezembro de 2015

Horta - VÍTOR CINTRA

Nascestes ao redor da Santa Cruz,
Ermida que, por fé, um nobre ergueu,
Mas dito foi ao Duque de Viseu,
Que irias ter o centro em Bom Jesus.

Atrás, no teu passado, há morte, dor,
Piratas, roubos, vãs profanações,
Barbárie sem sentido, execuções,
Soldados chacinados, o terror.

Viveu a tua gente o desconforto.
P'ra quem o mar navega fez um porto,
Abrigo na tormenta e na maré;

Local onde encontrar navegadores,
Marina ornamentada dos Açores;
Correio a dizer: «Peter's Café».

EM - MEMÓRIA DAS CIDADES - VÍTOR CINTRA - TEMAS ORIGINAIS

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

É tempo de magia* - VÍTOR CINTRA

É tempo de magia!

Lá do alto,
as estrelas acendem o sorriso
que habita o teu rosto
e derramam-no,
em doses de ternura,
na alma, carente mas embevecida.

Magicamente!

EM - NAS BRUMAS DA MEMÓRIA - VÍTOR CINTRA - TEMAS ORIGINAIS

domingo, 6 de dezembro de 2015

Joanina - VÍTOR CINTRA

Enquanto na Ibéria se temia
Castela, por ser reino poderoso,
Por cá toda a nobreza discutia
Quem ia suceder ao rei «Formoso».

Findando a dinastia, sem varão
Herdeiro deste trono, enfraquecido,
Surgiu de Beatriz a pretenção
De impor-nos, como rei, o seu marido.

Mas logo se levantam, na nação,
As vozes, que defendem ser traição
Das cores, ter visão tão pequenina;

E o povo vai impor, na sucessão,
João, Mestre d'Avis, que funda, então,
A nobre dinastia Joanina.

EM - DINASTIAS - VÍTOR CINTRA - TEMAS ORIGINAIS

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

As manchas - VÍTOR CINTRA

As manchas, no mar, são sombras,
Que as nuvens deixam cair.
Sereias fazem as ondas,
Tentando delas fugir.
E nesse cavar de lombas,
Que descem mas vão subir,
A espuma torna-se em pombas,
Que voam, mas sem partir.

EM - ENTRE O LONGE E O DISTANTE - VÍTOR CINTRA - TEMAS ORIGINAIS

domingo, 22 de novembro de 2015

Belver - VÍTOR CINTRA

Ergueu-te Afonso Pais, Hospitalário,
Que assim mandou Dom Sancho, seu senhor,
Impondo a construção ao donatário,
No seu enorme afã povoador.

Defendes dos ataques da mourama,
Do alto desse monte, de granito,
O Tejo e toda a frente, que se chama
A linha de fronteira do conflito.

Dom Nuno, o Condestável português,
Sabendo o teu valor de posição,
Mandou fazer reforço à construção.

Mas o que qualquer guerra jamais fez
Causou o terramoto e, desses danos,
Seguiu-se o abandono tantos anos.

EM - NO CREPÚSCULO DAS AMEIAS - VÍTOR CINTRA - LUA DE MARFIM

terça-feira, 17 de novembro de 2015

São Paulo - VÍTOR CINTRA

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELO AUTOR

Cidade grande, um mundo de cimento,
Que chega aonde a vista nem alcança.
Qual é a explicação dum crescimento,
Que te levou, no sul, à liderança?

Amálgama de raças e culturas,
Metrópole de crenças e saber,
Brasília tem políticos, mesuras,
Mas tu tens o dinheiro e o poder.

O parque da cidade é um encanto,
Tal como a Catedral e o Mercado
E o largo onde nasceste, no passado.

Mas a Pinacoteca é o recanto
Onde nos deixas ver, emoldurado,
Imenso do que em tela foi pintado.

EM - POR TERRAS DE VERA CRUZ - VÍTOR CINTRA - LUA DE MARFIM

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Lembrando: João de Deus - VÍTOR CINTRA

Se, as muitas gerações que a folhearam,
Dissessem que a «Cartilha Maternal»
Não foi o melhor livro em que estudaram,
Seria analfabeto Portugal.

poeta, de lirismo incomparável,
Dos muitos que Coimbra sempre ouviu,
Boémio, companheiro sempre afável,
Até mesmo a estudar se distinguiu.

Talvez, por ser de origem muito pobre,
Aonde não se via mais saída
Senão ser serviçal por toda a vida,

Tornou-se o seu trabalho 'inda mais nobre,
Ao dar, numa atitude coerente,
um modo de aprender, a toda a gente.

EM - NAS MARGENS DO ESQUECIMENTO - VÍTOR CINTRA - LUA DE MARFIM

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Horizontes - VÍTOR CINTRA

Horizontes,
Raios de luz na distância,
Quando o amor, na infância,
Nos deu ternura e saber;

Horizontes,
Olhos sonhando um futuro,
Que se crê certo e seguro,
Sem que haja mal a temer.

Horizontes,
Crer que, num novo amanhã,
Bem mais feliz e mais sã
A vida se há-de viver;

Horizontes,
Vida a ganhar importância,
Sem que se tema arrogância
De quem não sabe perder.

EM - PEDAÇOS DO MEU SENTIR - VÍTOR CINTRA - TEMAS ORIGINAIS