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terça-feira, 28 de abril de 2026

Celio I - João Rasteiro

As aves já ressequiram.
Não haverá como fugir
aos olhos nus do Outono!

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domingo, 26 de abril de 2026

Esquilino 3 - João Rasteiro

Uma boca deixo ao dilúvio.
Direi um segredo de bronze,
a nocturna borboleta chega.

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quinta-feira, 23 de abril de 2026

Esquilino - João Rasteiro

Os poemas virão inclusos
quando afluir o orvalho,
chegarão antes do orvalho.

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terça-feira, 21 de abril de 2026

Viminal 3 - João Rasteiro

Redijo o poema, imprimo o mundo!
Atearam a pira, apuseram o ventre.
Túnica de linho sob a língua do fogo.

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sábado, 18 de abril de 2026

Quirinal II - João Rasteiro

Negro e níveo o ser carnívoro.
Quem tem a moléstia da paixão,
afluirá em proscritos seixos...

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quinta-feira, 16 de abril de 2026

Quirinal I - João Rasteiro

Fecho os olhos sob os círculos
e avistarei a fantasia do silêncio.
Órbitas vazias cheias de tempo!

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sábado, 11 de abril de 2026

Palatino I - João Rasteiro

Depois do dilúvio a labareda,
nada já há a dizer em tua graça,
pois as vozes ardem em silêncio.

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segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

Sobrevivência 3 - JOÃO RASTEIRO

O canto que se perde nas searas da língua,
a subtileza de desenhar promessas
rompendo os diques dos seus membros,
a luz que cega na dimensão dos dias
desafiando a teia que inunda a nudez da carne
nas horas inquietas da respiração suspensa,
e apenas um estertor por entre a orla do corpo.

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domingo, 23 de janeiro de 2022

Corpo suspenso - JOÃO RASTEIRO

O grito de todas as vértebras vazias,
as raízes brancas no caminho do eclipse
nada inocente e sagrado,
as folhas da acácia sobre o mármore florido
nos dias que antecedem a colheita,
e todavia o corpo permanece
sob o subterrâneo peso dos seus casulos
atento ao mínimo rumor ou gestos,
como se o sopro alçasse à superfície
o enigma do reino crepuscular que aguarda,
que o construa "igual a alguém que dança".

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quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

Onde o rumor se escreve - JOÃO RASTEIRO

Tudo se mantém obscuro no cutelo do poema:
regar o cobre luminoso da raiz dos pássaros
e soldar os passos incertos no enredo da busca,
encenar silenciosamente o destino das carícias
e depois sentir-me capaz de caminhar no incêndio
até desabar "nos mapas derradeiros das viagens"
enfeitado nas tranças oleosas da serpente.

Para seduzir o corpo no esplendor do ventre,
na combustão de mel dos seus próprios vestígios,
nas palavras que "olham os abismos das âncoras",
abro os dedos, solto as borboletas e fecundo a terra.

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terça-feira, 18 de janeiro de 2022

À Teresa Carvalho - JOÃO RASTEIRO

Depois do clarão um outro clarão subsiste,
um sopro rasgado em corte abertos
como se dentro dele a sombra do corpo

É preciso arriscar e sair velozmente,
como se um corpo lambendo os cílios maternos
cresça impune junto à respiração
sentindo o hálito de uma serpente branca,
a que só aguarda o ruído aceso da noite.

Algum acaso, alguma leva, impossível de intuir,
e de carícia em carícia o tronco original.

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segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

A rosa de alzheimer I - JOÃO RASTEIRO

Mãe, vá, vamos ainda viver um pouco?
- Filho, alguém me sussurrou na noite dorida
que tenho de partir com a minha solidão,
entregar o sopro que nos dias estendidos usei,
imagino, então, que irás entristecer como a morte
que não pernoita na indolência da colheita,
dissipar-me-ei no corpo e na luz, tenho de partir,
e como as mães que esmoem a tristeza dos filhos
desprenderei o júbilo dos buracos negros... e
partirei com a nómada alegria dos pássaros.

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sábado, 8 de janeiro de 2022

Bicarbonato de soda - JOÃO RASTEIRO


Um tal de Fernando António Nogueira Pessoa,
ocultava sempre as múltiplas e habituais cartas
que recebia de um certo Álvaro de Campos,
todos esses papéis pálidos hoje se deixaram
de jogar pelo puro prazer do impensável
"e as lágrimas de ametista caem no lago" oculto
em atroz explosão dentro de sua cabeça,
nos veios fundacionais do rito e da loucura,
até Pessoa a propósito de metafísica dizia às vezes:
"dêem-me de beber, que não tenho sede!"

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quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Génesis - JOÃO RASTEIRO

Depois das queimas as trovoadas, a luz atestada
da terra extasiada pelas áscuas hibernais das fêmeas
brotando a pedra, o toiro, o homem,
a voz corpórea de uma cidade lavrada em clarões
despidos de olvido, de fogo vivo e desejo.

E as palavras doridas em nervos e tendões abençoados
em casulos de oiro, puros fosseis em teias de amores
mortais que procriam a avidez das crias
pulsando uma sísmica e indomável geometria aberta.

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terça-feira, 4 de janeiro de 2022

Ao Casimiro de Brito - JOÃO RASTEIRO

O corpo flutua incendiado e dobrado
como os tendões duros da terra
em "seus contornos recortados contra a luz".

Eu sigo o eco da maturação perfeita
o círculo fechado no halo dos enigmas
que ignora a extensão de sua púrpura teia
"onde a cidade, o céu e os montes" explodem.

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