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sexta-feira, 31 de janeiro de 2025

Música - Graça Pires

Convoco o rumor das teclas de um piano
em sonata de beethoven.
E ouço o grito intenso do silêncio
o vento enlouquecido
um inaudível lamento
uma luz no secreto rosto de deus.

É o coração seduzido
pela sublimidade da música.
Como se fora água pura
em diálogo com a terra fecundada.
Como se fora prece
a implorar o valimento da vida.

EM - O IMPROVISO DE VIVER - GRAÇA PIRES - POÉTICA EDIÇÕES

sexta-feira, 24 de janeiro de 2025

Todos falavam disso - Graça Pires

Houve quem dissesse que voava
sobre a casa onde nasceu para ver o mar.

Causava estranheza o intenso brilho 
a demorar-se-lhe no olhar
no instante poente dos fins de tarde.

Todos falavam disso.

Nem uma palavra foi dita sobre o bando de aves
que sobrevoava a casa em voo brando
com cristais-de-rocha no esquisso das penas.

EM - O IMPROVISO DE VIVER - GRAÇA PIRES - POÉTICA EDIÇÕES

terça-feira, 14 de janeiro de 2025

Reencontro - Graça Pires

Pertence-te a última sombra da laranjeira
plantada no caminho do vento
no lado mais próximo do rio.

O aroma espalhado é um sopro
intenso no ar que respiras.

Passeias com prazer.
Cada passo é um convite
a urgentes demandas.

Em qualquer percurso existem
paragens ao acaso onde te reencontras
tão breve que foi a adolescência.

EM - O IMPROVISO DE VIVER - GRAÇA PIRES - POÉTICA EDIÇÕES

sábado, 4 de janeiro de 2025

Sensações de um dia claro - Graça Pires

Amanheceu.
A janela do quarto inclina-se
sobre o milagre da paisagem.
Acordei festiva
sem recear a singularidade
efémera da existência.

Detenho no alcance das mãos
a precisão abstracta de cada recomeço.

Semelhante à força de águas imensas
na confluência de rios
hoje serei a corrente e a foz.
Qualquer barco me devolverá a infância.

EM - O IMPROVISO DE VIVER - GRAÇA PIRES - POÉTICA EDIÇÕES

domingo, 29 de dezembro de 2024

O mundo inteiro falava - Graça Pires

O mundo inteiro falava
de Portugal onde se fazia
uma revolução com cravos.
Parecia uma ideia inventada.
Houve quem viesse ver se era verdade.
E deixaram-se maravilhar
com o pulsar colectivo da alegria-
Que enigmático espaço de aventura
desafiando interdições e costumes,
exclamavam admirados.

EM - ERA MADRUGADA EM LISBOA - GRAÇA PIRES - POÉTICA EDIÇÕES

quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

Suava-lhe na mão a granada - Graça Pires

Suava-lhe na mão a granada
que apertava com destemor.
Sentia colado na farda
o peso de um país
em esperança, em deriva.
No seu olhar era tão nítida a coragem
que as armas de fogo
prontas a disparar se renderam.
Houve quem abraçasse o capitão.
E todos o respeitaram.
E muitos lhe chamaram companheiro.

EM - ERA MADRUGADA EM LISBOA - GRAÇA PIRES - POÉTICA EDIÇÕES

segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

Pareciam mais brancas as gaivotas - Graça Pires

Pareciam mais brancas as gaivotas
que adejavam o cais das colunas,
à procura da geometria dos passos
daqueles homens que vieram
agitar os ventos e as marés.
Havia réstias de luz a inundar
as colinas de lisboa
e a suspender o tempo irrepetível
de um aceno que a madrugada
transformou num tumulto de gente.

EM - ERA MADRUGADA EM LISBOA - GRAÇA PIRES - POÉTICA EDIÇÕES

sexta-feira, 29 de novembro de 2024

Um menino... - Graça Pires

Um menino tomado pela surpresa,
contagiado pela luz daquela manhã,
anteviu o futuro por cumprir.
E como quem sobe ao topo dos sonhos
pegou num cravo e, com mãos firmes
colocou-o no cano de uma metralhadora.
A simplicidade impregnada em seus dedos!
A imagem correu mundo.
E o menino?

EM - ERA MADRUGADA EM LISBOA - GRAÇA PIRES - POÉTICA EDIÇÕES

terça-feira, 19 de novembro de 2024

Eram militares - Graça Pires

Eram militares.
Eram jovens.
Carregavam no peito
o peso da arma e do receio.
Quantos rezaram?
Quantos choraram?
Quantos vacilaram?
O retrato dos filhos perto do coração.
A imagem da mulher a cercar-lhes o corpo.
As mãos das mães cheias de bênçãos.
E todos tão cheios de coragem!

EM - ERA MADRUGADA EM LISBOA - GRAÇA PIRES - POÉTICA EDIÇÕES

sábado, 9 de novembro de 2024

Todos sabiam... - Graça Pires

Todos sabiam de cor uma canção.
Todos tinham um poema na memória,
ou lembravam uma prece antiga.
Todos tinham no peito um rio
sem margens a alagar o sonho.
Em cada esquina um amigo, cantara o Zeca.
Verdade irrefutável, premonição,
senha indicada à boca da vertigem,
um ímpeto no espanto há muito pressentido.

EM - ERA MADRUGADA EM LISBOA - GRAÇA PIRES - POÉTICA EDIÇÕES

quinta-feira, 31 de agosto de 2023

Tinha chagado o tempo * - Graça Pires


Tinha chegado o tempo
em que era possível ser livre.
Souberam-no as palavras. E os pássaros.
O voo das gaivotas motivou o rumo dos veleiros.
Reconciliaram-se as manhãs.
Tu e eu de mãos adolescentes incendiando o trigo.

EM - POEMAS ESCOLHIDOS 1990 - 2011 - GRAÇA PIRES - ED. AUTOR

quarta-feira, 30 de agosto de 2023

Perfil - Graça Pires


De passagem,
como a véspera imprecisa
do poema,
principia em mim
a planície agreste
da solidão dos outros.
E a não ser
o silêncio poente
dos meus olhos,
tudo o resto me diz
que sou um pássaro
a voar, inconsequentemente,
no sentido das palavras.

EM - POEMAS ESCOLHIDOS 1990-2011 - GRAÇA PIRES - ED. AUTOR

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Conta-se por aí - GRAÇA PIRES

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA AUTORA

Conta-se por aí
que ele amava tanto as árvores
que tinha no coração
todas as tonalidades de verde.
O círculo das águas submersas
debandava o longe das nascentes
para adubar sementes e raízes.
Um inesperado cio,
bafo da terra em júbilo,
alojou-se-lhe no sangue.
Cinge, agora, nas mãos a luz de março
aguardando que o sobressalto
verde das folhas o sacie.

EM - A SOLIDÃO É COMO O VENTO - GRAÇA PIRES - POÉTICA EDIÇÕES

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

Secaram as roseiras bravas -GRAÇA PIRES

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA AUTORA

Secaram as roseiras bravas
cultivadas no atalho da paisagem.
Uma mulher canta roucamente
e o seu canto é um brado
em desavença com a mudez
enraizada na garganta.
Vagarosamente, enrodilha na anca
as vestes de pano cerzido
e afaga seu corpo com as mãos ásperas
como as roseiras bravas.
Tão precário, o perfume das rosas!

EM - A SOLIDÃO É COMO O VENTO - GRAÇA PIRES - POÉTICA EDIÇÕES

terça-feira, 11 de agosto de 2020

Aparecia depois das febres -GRAÇA PIRES

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA AUTORA

Aparecia depois das febres
no fim dos caminhos
dos longos roseirais, situados
a poente da cidade sobrelotada.
Abria a cancela do pátio
como quem diz, em voz baixa, uma oração.
Despia-se e deitava-se na erva
com as mãos sobre o ventre.
E, deslembrada de tudo,
ficava a ouvir o coração comovido e inquieto.

EM - A SOLIDÃO É COMO O VENTO - GRAÇA PIRES - POÉTICA EDIÇÕES

sexta-feira, 31 de julho de 2020

Tempos houve em que pintava - GRAÇA PIRES

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA AUTORA

Tempos houve em que pintava,
com obsessão, paisagens amarelas.
Folheando a sua revista favorita
leu que uma estranha doença
atingira todos os girassóis.
Sentiu-se culpado.
Quando voltou a pintar
escolheu a cor negra.
Um esbatimento de luz
anunciou a interdição do brilho
em seu olhar, para sempre incerto.

EM - A SOLIDÃO É COMO O VENTO - GRAÇA PIRES - POÉTICA EDIÇÕES

sábado, 11 de julho de 2020

Rasgou o retrato em pedaços - GRAÇA PIRES

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA AUTORA

Rasgou o retrato em pedaços.
Enviara-lho uma amiga
do grupo do ginásio: ela ao lado dele.
Não gostou.
Ainda tinha no sangue
a vertigem solar
do corpo que amara.
Ainda embalava com suas mãos
a privação desse corpo.
e o odor a ervas aromáticas, tão intenso
quando recordava o seu rosto!

EM - A SOLIDÃO É COMO O VENTO - GRAÇA PIRES - POÉTICA EDIÇÕES

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Pediu um café - GRAÇA PIRES

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA AUTORA

Pediu um café
com a voz rugosa
de quem contornou a noite
pelo lado da insónia.
Tremem-lhe as mãos.
Sente-se marginal.
O seu perfil, deslizando sozinho
através da chuva,
parece querer purificar-se.
Da janela do quarto
pode ver o mar.
A porta entreaberta enche
de ausência as pedras do cais.
Tão cruel, a solidão de um náufrago!

EM - A SOLIDÃO É COMO O VENTO - GRAÇA PIRES - POÉTICA EDIÇÕES

segunda-feira, 22 de junho de 2020

Levemente inclinado sobre os trevos - GRAÇA PIRES

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA AUTORA

Levemente inclinado sobre os trevos
erguia a foice para avisar a seara,
o celeiro e o pão sobre a mesa.
Diante das árvores sem folhas
curvava os ombros
enquanto um súbito recolhimento
lhe gretava o chão.
Uma tarde o corpo dele fez-se sombra.
E um arado o lavrou como se fosse terra.

EM - A SOLIDÃO É COMO O VENTO - GRAÇA PIRES - POÉTICA EDIÇÕES

sexta-feira, 12 de junho de 2020

Grávida da noite - GRAÇA PIRES

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA AUTORA

Grávida da noite
soube, desde logo,
que o filho não iria pertencer-lhe.
Adoptaram-no.
Antes de o entregar
ela lavou-o, demoradamente,
com as próprias lágrimas.

EM - A SOLIDÃO É COMO O VENTO - GRAÇA PIRES - POÉTICA EDIÇÕES