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quinta-feira, 21 de abril de 2016

Peso incerto - NUNO JÚDICE

A terra tem o peso de uma nuvem quando
cai sobre o corpo que lhe adormece nos braços;
e empurra-o para o seu fundo, onde se irá
transformar na raiz desta filosofia: deita-te
na terra sem dormir, ouvindo a sua respiração,
e levanta-te quando a nuvem passar sobre
ti, furando-a com um espinho de rosa
para que se desfaça em água. Então, em vez
de seres envolvido por lama e pedra,
mergulharás num oceano de névoa. E se
um dia te perguntarem a diferença entre
a terra e o céu, responde com a nuvem.

EM - GUIA DE CONCEITOS BÁSICOS - NUNO JÚDICE - DOM QUIXOTE

sábado, 5 de março de 2016

Analogias - NUNO JÚDICE

No dia de sol em que as árvores parecem
saídas de um postal turístico, fecho os olhos
para sonhar que é um dia de chuva. Como resultado,
a água que escorre das folhas transforma-se
num verso que se estende
até ao chão, onde se formam charcos
que reflectem as folhas presas
aos ramos. Cada uma delas é uma pequena
metáfora. Aquilo que representam tem a ver
com uma vida natural que se prolonga no inverno,
e este pensamento transporta-me de novo
para o dia de sol. Estas árvores, sem chuva,
não me dizem nada; mas quando me aproximo
da sua sombra, vejo a luz do sol escorrer por entre
as folhas, como se fosse água, e cair sobre
a sombra, formando charcos de luz. E ponho
o poema do verão ao lado do poema
do inverno, como se fossem ramos, as metáforas
que atiro para o chão do poema
como se fossem folhas.

EM - GUIA DE CONCEITOS BÁSICOS - NUNO JÚDICE - DOM QUIXOTE

terça-feira, 27 de maio de 2014

Salada russa com maionese - NUNO JÚDICE

Cortadas em pedaços, batatas e cenouras
acrescentam-se a ervilhas e feijão-verde. Depois
de pôr o atum em posta, pode temperar-se
com azeite ou juntar maionese. A natureza
que separou cada pedaço desta salada, não
faz parte da ementa, e o resultado
leva-nos a pensar que não é um acaso
a forma como os sabores se juntam,
embora o creme da maionese possa
fazer com que se abstraia das cores
do conjunto. Uma galáxia de sensações
enrola-nos neste espaço; e o frasco
da maionese roda como a cabeça
de um cometa, enquanto, num intervalo
filosófico, comemos a salada.

EM - GUIA DE CONCEITOS BÁSICOS - NUNO JÚDICE - DOM QUIXOTE

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Antes do big-bang - NUNO JÚDICE

No talho, entre as iscas e as galinhas
mortas, os pés e as línguas de vaca, o borrego
e o pato, o homem afiava a lâmina
para cortar a carne. Um som frio atravessou
o ar, e para me distrair peguei num ovo
do campo e pu-lo contra o sol. Um
planeta? Um simples asteróide bem
calibrado? Mas o som parou; e fiquei
com o ovo na mão, pensando que a esfera
do universo é frágil quando o silêncio
a envolve, e a génese depende do instante
em que deixo cair o ovo.

EM - GUIA DE CONCEITOS BÁSICOS - NUNO JÚDICE - DOM QUIXOTE

segunda-feira, 18 de março de 2013

A poesia clássica - NUNO JÚDICE

Esvazio uma colheita de estrelas na eira
do infinito, onde as velhas deusas do oriente
as limpam do seu fogo. No fim do trabalho,
ficam a secar, à espera que o moleiro
venha, com o seusaco de vento,
e as leve para o moinho. As mós do sonho
reduzem-nas a este farelo de luz que os poetas
põem no alguidar das palavras, para
que as musas preparem a massa
da inspiração. E enquanto espero que
o forno aqueça, olho para o céu
vazio de estrelas, onde um cometa,
com o rasto único da madrugada,
escreve o princípio do poema.

EM - A MATÉRIA DO POEMA - NUNO JÚDICE - DOM QUIXOTE

sábado, 14 de julho de 2012

Vénus aérea - NUNO JÚDICE


É um mistério esta claridade
que nasce de um corpo sem passado,
onde a leio numa língua sem idade,
adivinhando o seu futuro neste fado.

Caem pálpebras num cair de pano,
abrem-se dedos num florir de mão,
no seu jardim a primavera não é engano,
no seu rosal o amor está em botão.

Uma boca de pérola envolve-a de segredo,
e dela tiro um brilho de estrela.
Respiro o seu perfume sem ter medo,

acendo nos seus olhos a última vela.
Levo-a como deusa ao templo do mar,
e vejo-a despir-se como se fosse flutuar.

EM - GUIA DE CONCEITOS BÁSICOS - NUNO JÚDICE - DOM QUIXOTE

terça-feira, 12 de junho de 2012

Zoologia: o porco - NUNO JÚDICE


O porco vive como os homens
na caverna de Platão: o seu mundo
é o mundo das sombras.

Quando olha para o chão,
vê o paraíso; quando olha para o céu, está
com a faca na garganta.

Mas o porco também sonha que
tem asas como um anjo, e que a sua pocilga
fica nas nuvens.

Nos seus sonhos, deus guincha
como um porco, e a árvore do paraíso
está cheia de bolotas.

Por isso o porco não tira o focinho
da terra, em busca de uma abertura
para o céu.

EM - A MATÉRIA DO POEMA - NUNO JÚDICE - DOM QUIXOTE

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Fruta de verão - NUNO JÚDICE

No pequeno campo, de laranjas maduras
caídas por terra, os que preferem os insectos
afastam as folhas, por entre as ervas,
e procuram o mais pequeno dos movimentos.

No entanto, é na matéria podre, por dentro
do fruto, que as lavras se agitam, num trabalho
incessante que não convém interromper,
sobretudo quando a tarde começa a cair.

E se ouvimos, à noite, um eco de gestos
no interior da memória, talvez possamos pensar
que a cabeça pousada no travesseiro se
confunde, por instantes, com a laranja caída.

EM - A MATÉRIA DO POEMA - NUNO JÚDICE - DOM QUIXOTE

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Colheita - NUNO JÚDICE

Juntei laranjas e limões no mesmo saco,
e o amarelo e o laranja juntaram-se sobre
o verde da erva. A primavera chega com
estas cores, diz o pássaro que se cruzou
com a pedra que a criança atirou para
acertar no céu; e a infância cai do outro
lado da estrada, onde começam as casa,
para dizer ao pássaro que o seu lugar
é onde fica a primavera, e não onde
falta o campo verde que as laranjas
e os limões pintam de amarelo e laranja.

EM - A MATÉRIA DO POEMA - NUNO JÚDICE - DOM QUIXOTE

terça-feira, 3 de maio de 2011

Enigma ornitológico - NUNO JÚDICE

Um pássaro entrou numa nuvem.
Uma nuvem entrou num pássaro.
«Qual a verdade?», perguntou
o homem. «Está no pássaro? ou
está na nuvem?» E enquanto
o homem procurava a resposta,
o pássaro saiu da nuvem, fazendo
com que a verdade saísse do homem.

EM - A MATÉRIA DO POEMA - NUNO JÚDICE - DOM QUIXOTE

sábado, 23 de abril de 2011

Gramática: o verbo - NUNO JÚDICE

Principal ou auxiliar, é o verbo que faz mover
o discurso, dando à existência a sua qualidade
activa, e transformando-a no ser idêntico
que reúne em cada um sujeito e estado, sem
distinguir uma ideia de outra. Porém, a
conjugação dos tempos e modos multiplica
o que dizemos por nós, por vós e por eles,
desde o passado ao futuro; e no presente
em que o enunciamos, o verbo é ser o que
é, sem ter sido o que será, na definição
conjugada das pessoas que agem, sem
que o saibam, e das que sabem, sem agir.

EM - A MATÉRIA DO POEMA - NUNO JÚDICE - DOM QUIXOTE

quarta-feira, 13 de abril de 2011

O silêncio - NUNO JÚDICE

Pego num pedaço de silêncio. Parto-o ao meio,
e vejo saírem de dentro dele as palavras que
ficaram por dizer. Umas, meto-as num frasco
com o álcool da memória, para que se
transformem num licor de remorso; outras,
guardo-as na cabeça para as dizer, um dia,
a quem me perguntar o que significam.
Mas o silêncio de onde as palavras saíram
volta a espalhar-se sobre elas. Bebo o licor
do remorso; e tiro da cabeça as outras palavras
que lá ficaram, até o ruído desaparecer, e só
o silêncio ficar, inteiro, sem nada por dentro.

EM - A MATÉRIA DO POEMA - NUNO JÚDICE - DOM QUIXOTE

domingo, 3 de abril de 2011

Poema - NUNO JÚDICE

Se o sol se atravessa no caminho de um homem,
a luz pode empurrá-lo para o sonho. Então, fecha
os olhos; espera que as imagens se apaguem
do seu horizonte; e entra no vazio que a treva
lhe oferece. O sol, porém, continua
a brilhar. E ele insiste em manter os olhos
fechados. Anda, com passos hesitantes, num
caminho de luz; as mãos procuram um apoio
na sombra que não encontra. E quando volta
a abrir os olhos, os sonhos continuam à sua
frente, como se fizessem parte do seu destino.

EM - A MATÉRIA DO POEMA - NUNO JÚDICE - DOM QUIXOTE

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Chuva inglesa - NUNO JÚDICE


Quando vou a Inglaterra, não sei
o que fazer quando chove gatos e cães. Se
os apanho com o guarda-chuva, os gatos
assanham-se contra os cães, e os cães
mordem os gatos; se não o abro,
caem-me gatos na cabeça e cães ao colo,
e não os posso atirar ao chão
para não ficar arranhado nem
mordido.

Em Inglaterra, quando chove, preciso
de andar com casotas para os cães e com
cestos para os gatos. Mas se não chove, e
me virem na rua com as casotas e os cestos,
olham para mim como se eu não soubesse
ler o boletim meteorológico, onde
anunciavam que não ia chover gatos
nem cães, e só as bruxas se iriam
pentear.

Se o soubesse, teria levado vassouras
para dar às bruxas, e se as bruxas não se
penteassem poderia usá-las para varrer
da cabeça todos os gatos e cães
que chovessem, para me livrar
das casotas e dos cestos.

in... Guia de conceitos básicos - NUNO JÚDICE - Dom Quixote

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sexta-feira, 11 de junho de 2010

Obituário - NUNO JÚDICE


Um pinochet de lápis-lazúli
um estaline de âmbar,
um franco de sevilhana,
um hitler de bola de berlim,
um mussolini de esparguete,
um sortido de ceausescu,
e um salazar de santa comba;

são os santos deste altar
onde já ninguém quer rezar.

in... A matéria o poema - NUNO JÚDICE - Dom Quixote

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sábado, 5 de junho de 2010

Dicção - NUNO JÚDICE


Vou falar em português,
com cada vogal no seu lugar, dita
com toda a clareza,
uma de cada vez. Assim,
não comendo os és nem os is,
e pondo cada ó, aberto
ou fechado, dentro da sílaba
que lhe cabe, o português
fica com os pontos nos is,
para que o ouvido perceba
o que é dele,
e quem o escreva saiba
que a letra escrita
não vai ser letra morta
na boca
de quem lhe abra a porta.

in... A matéria do poema - NUNO JÚDICE - Dom Quixote

Site da editora aqui