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quarta-feira, 23 de abril de 2025

Renovar-se - Zezé Matos

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Manhãs exibem orgulhosas
O brilho orvalhado do que se sonhou.
E a vida cheia de alegria se fez canção e cantarolou:
Amanhecer
Tecer afetos, brincar de viver.
Amanhecer.
Derramar-se em palavras.
Que derretam corações concretos.
Em ruas largas de bem querer
Brincar de viver.
Amanhecer.
Viajar em balões esperança como em Istambul
Rodopiar no céu azul ascender.
Amanhecer.
Dançar dias de bonança.
Cirandar com amigos, ser canção criança.
Afagar em abraços, saltitar de alegria
Escrever poesia.
Amanhecer.
E você?
Amanheceu?

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segunda-feira, 21 de abril de 2025

FRA-G.ME/n/TOS - Vanessa Pagy

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investigo
os fragmentos
que me compõem

o chocolate
em fusão

entorpece
o insuportável sentir

mecanismo introjetado
de controle pela boca

interromper
pra suportar

acumular
e não entregar

a dor

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domingo, 20 de abril de 2025

Sou aquela - Tita Leal

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Eu sou aquela
Que viaja por dentro
Morre e renasce
A cada dia, instante
E a todo o momento

Sou aquela
Esculpida a rigor
Entrego-me na amizade
Deleito-me no amor

Eu sou aquela
Que não finge silêncios
Nem costura sonhos agitados
Sou aquela que se agarra à esperança
E ombros na esquina da sorte encostados

Eu sou aquela
Que a vida condena
Por não ser outra
Nesta viagem demasiado pequena

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sábado, 19 de abril de 2025

Gota de água - Tiló Henriques

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Aquele teu olhar foi a gota de água
explodiu algo dentro de mim
como se fosse o sol a me beijar
como se fosse uma noite de estrelas
e me quisesse esconder no luar
para não veres a minha face a ruborizar

E a gota de água
foi nascente de algo inconsciente
água e fogo se confundem
entre as margens das flores silvestres
mordemos os morangos selvagens
no orvalho nos banhámos
confundindo os sentidos
descemos o rio seguindo unidos

Caminhámos e atingimos
o mar do amar
subimos montanhas floridas
descemos ao vale das margaridas
e nossas almas permanecem unidas…

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quinta-feira, 17 de abril de 2025

Poetizar - Teresa Carrapato Moleiro

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Todo o Poeta é luz!
Não quer dizer que seja o génio da lâmpada…
Nem tão pouco deve ser altivo, soberbo
Simplesmente SER um humilde trovador
Cantando em verso
A beleza do mundo, do sol, da terra,
De todo o universo!

Versejar, igualmente,
A amargura, a desesperança
Dos dias sombra,
Em que nasce um braço de mar
Nos olhos,
Faz sulcos na face…
Com imensa dor
O diadema é derrubado!
Ficamos tão somente sós
No espaço sideral
Numa espera infindável
Dos que não chegam a ascender
E a beber na taça de água salobra.

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terça-feira, 15 de abril de 2025

A Flecha - Sílvia Silva

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Ainda sonho contigo.
Lindas histórias, se durassem para sempre...

Como nós duas...
Inocentes trocas de desenhos, até apartarmos.

Mas quis o destino, trazer-me a outra alma doce
E mel... com ele tinha fel, cortou-se o laço...

Voltar a confiar, com a doença a consumir?

Como? Se onde vive a partilha, tem caos?

Não sei o teu nome nem as letras que te compõem
Mas um dia te escolherei a ti
Como tu só me escolherás a mim

Até lá... só me posso preparar
P'lo momento em que as setas se cruzarão
E depois... em frente se lancem
Acima de irmandade...
O melhor sabor, de Amizade.

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segunda-feira, 14 de abril de 2025

Gestos imperfeitos - Sara Timóteo

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Todos os gestos imperfeitos
nasceram da sombra de Sócrates
a passear pelos escombros de um
veredito para a transparência dos dias:

a ausência
fez ninho no interior
do horizonte sob medida que nos venderam
e emudeceu o nosso murmúrio coletivo
sobre a terra que nos cobre ou consome.

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domingo, 13 de abril de 2025

Eu - Sandra Pereira

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Chamam-me solidão…
Eu, chama
Eu, gelo
Saio para a noite
De negro me visto…
Sou assim
Pedra…
Vulcão, rio de lava
Enfeito-me
De cristais de gelo
Sou eu…
Eu, rosa
Eu, espinho
Perfume, sou eu
Eu… solidão!

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sábado, 12 de abril de 2025

Justiça maquiada - Saíle Bárbara Barreto

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Que perigo ela trazia: um batom! quem diria?
Poderia destruir o mundo, até que um dia...

Foi presa e desarmada,
Já está há quase dois anos enjaulada!

"Que apodreça na cadeia", uns gritam!
Cabeleireira e mãe de dois, outros ponderam...

Os pobres sempre arcam com o estrago,
Mesmo quando o crime é passar batom no largo.

Ah, que bela artimanha!
Deixaram uma mulher servir de boi de piranha.

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sexta-feira, 11 de abril de 2025

Hormônio do Amor - Rose Pereira

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O amor — antes um poema,
Doce verso das paixões,
Inserido nas canções
Eternizado no cinema
Proposição e teorema
Saudade…quase uma dor.
Manso, voraz e tentador,
Juras dos enamorados,
De solteiros e dos casados,
Infinitamente acolhedor.

Ah! antes um poema,
Brandura, oásis e calor,
Escritos em pétala de flor
Vozes da alma em fonema,
Íntimo e de pujante tema
Feitos em glória e temor.
Adorado em sigilo clamor
De pureza e tão profundo
Desejado por todo mundo
Assim fostes tu — o amor.

Incondicional! Quem diria
O teu nome agora é passado
Obsoleto, aprisionado,
Dos sentidos, inútil teoria
És agora acervo de galeria
Triste rima do alucinado,
Já no futuro, ignorado
E em tempos de escuridão
Pouco conhece o coração
Do amor, e de ser amado.

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quinta-feira, 10 de abril de 2025

Sem grades - Rosário Pereira

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Inteligência de morte e pecado
Sonhos aprisionados numa mente livre
Erros partilhados com momentos perdidos
Liberdade depositada numa caixa com cadeado.

Horas sem temas nem azos
Só ordens deleitadas em leis
Habitam os minutos em folhas brancas
E as meias horas em letras soltas num livro qualquer.

Os olhares prendem-se em grades de ferro frio
Cada uma com a sua história dispersada pela ferrugem do tempo
Preso numa mão de unhas sujas.

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quarta-feira, 9 de abril de 2025

A deusa - Rosário Pedroso

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brilha na noite misteriosa a malabarista de Lagos
em ímpetos de felicidade parece um sol grego
encanta a praça sulista junto à Cândido dos Reis
excessiva e rubescente
entusiasma-me o meneio do fogo
uma destreza feminina
perante o olhar atento de Héstia
distrai as famílias do mercado dos escravos
dos drones por toda a parte
dos diques que rebentam todos os dias
das mulheres migrantes e desaparecidas
uma mistura de luz e sombras
borda a euforia da jovem mulher
perante os aplausos e a sua envoltura com os tempos
e a noite continua

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sábado, 5 de abril de 2025

Ciclos do feminino - Raiza Figuerêdo

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as roupas nos armários
podem passar anos
sem você lembrar delas
esquecidas em gavetas
um vestido tubinho
te faz voltar aos vinte anos
as saias longas, leves
e as recordações da faculdade
a calça leg e o all star que você usava
marcas do adolescer
e o vestido do batizado com as manchas
escrevendo o tempo e a história no tecido
da época em que você
dava os primeiros passos
antes de se transformar
em menina
moça
e mulher
que faz das palavras
companhia
alento
       ofício

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quinta-feira, 3 de abril de 2025

Ergam-se mulheres - Nonô (Mª. Leonor Costa)

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Ergam-se mulheres
Façam ouvir as vossas vozes
Milénios de história
Tem sido para nós atrozes.

Já não precisamos ser submissas
Nem ficar em segundo lugar
Saiam das costas dos homens
Permitam-se brilhar.

As tarefas de casa são para dividir
Não se deixem sobrecarregar
Também precisamos de tempo
Para de nós podermos cuidar.

Acreditem mais em vocês
Descubram o vosso valor
Permitam-se ser criativas e femininas
Deixem-se vibrar em amor.

Vivam a vossa sexualidade em pleno
A vossa felicidade é prioritária
Vamos todas nos erguer
Por uma sociedade igualitária.

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quarta-feira, 2 de abril de 2025

Consagração - Meire Pedroso da Silva

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a mata pulsa em mim
pula de galho em galho
percorrendo veias ancestrais
os pássaros bicam as folhas em branco de minha memória
quebram as vidraças dos sentimentos
que escorrem dos porres e lombras
de algo que sangra nos encontros inusitados da madrugada
e tantas partilhas embriagadas de histórias
a mata vibra em mim
em cada fio dos cabelos brancos
amaciados pelas mãos de minhas netas
molhadas de gotas
que vertem sobre nós
lava o que entope as artérias
de culpa saudade e dor
e tudo se consagra nas águas de Nanã

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terça-feira, 1 de abril de 2025

Estado de sitio (excerto) - Maria João Neves

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Mexeu nas mortas da grande família africana,
teve coragem,
Mas,
na grande plateia o calafrio aguça a crença de que estou
perdida e que o passado não foi despido.
Tremo muito.
Já, e à beira rua,
um sorriso abraça-se ao poste,
sem alertas desassossegados e,
os laços ficam restabelecidos.
As lágrimas poderiam escorrer em todas as faces mas,
o medo do vazio,
racista,
como um material original em estado cru e, de sensações
súbitas hostis,
dança
Sim, dança mas,
a toda a hora.
Transeuntes chamam-me vagabunda mas,
Não aceitam o meu novo emprego
o de vagabunda.
Arrastada por preguiça levar-me-ão para a raiva e revolta mas,
não faz mal,
resultado de direitos humanos adquiridos.
No café do quiosque os guardanapos são recibos
comprovativos de supergentrificanismo.
Lisboa, menina, velha mas,
de bairros sociais interageracionais continuamente destruídos.

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segunda-feira, 31 de março de 2025

Expectativa - Maria João Abreu

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Crio cada um dos meus poemas,
como se fossem parte de mim,
no meio das balas de uma guerra sem fim,
onde as palavras são insuficientes.

Teimo em criar e acreditar no amor,
como se não houvesse amanhã,
cercada por barulho e poluição,
nuvem tóxica que desaparece em um sorriso.

Creio que em torno das minhas palavras,
apesar de saber que a morte é supersônica,
a esperança é constante e a paz avança vagarosa,
como letras riscadas no muro de uma prisão.

Crio cada um dos meus poemas,
com palavras de alma e coração,
como fossem manuscritos que ficam para a eternidade,
como a última carta antes da minha desaparição.

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domingo, 30 de março de 2025

O que sou? (excerto) - Maria Felisbela dos Reis

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Sou um ser humano igual a tantos
Ou não… igual a ninguém
Vim ao mundo sem pedir
Para sofrer, amar e morrer,

Na vida nunca se pode dizer
O que por vezes nós pensamos
Nunca maltratei ninguém
Será que sei o que sou afinal?
No meu conscientemente eu sei
Que por vezes não sou compreendida
Pois tanta maldade há nesta vida
Que se vive sempre em competição.

Mas quando se olharem para si próprios
Os outros, talvez se vejam como são
Ignorantes ou inocentes
Com os seus pensamentos em vão!

A muito tenho assistido
E é forte o meu pensar
Não sabendo eles o que dizem
Ah! Se as verdades eu quisesse falar…

A maior parte da minha vida
Foi passada rápidamente
Sabendo eu ao que me refiro
Noto que o amor se vai perdendo
E sem querer consentir
É isso que nos vai acontecendo.

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sábado, 29 de março de 2025

Pai (excerto) - Maria do Céu de Carvalho

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Como é difícil celebrar um aniversário
Quando dois dias depois se morre?
Optei por celebrar a vida!
Um dia em que mesmo na cama do hospital
Conseguiste ter junto de ti as tuas três filhas e netas.
Estavas feliz, por estarmos todos juntos!
Bateste palmas e cantaste a ti próprio
Os parabéns!
Via-se o brilho nos teus olhos
Mesmo em grande sofrimento!
Feliz aniversário Pai.
Pelo dia em que nasceste.
É este o dia que quero e vou guardar
Eternamente na minha memória!
Acredito que estejas onde estiveres
Estás bem!
Foste aquele que partiu
Deixando uma enorme tristeza na minha alma!
Deixaste em mim um legado enorme
O gosto pelos livros, pela paz, pela simplicidade e humildade.
Pelo amor!
A vida não nos abençoou com a felicidade
Existiu sempre uma espada negra entre nós
Não nos deixaram aproveitar a nossa união.
Tudo fiz para ser amada.
Eu por ti sei que fui e contigo aprendi
O significado do verdadeiro amor!

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sexta-feira, 28 de março de 2025

Coração puro - Maria Cristina de Sá Pereira

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Coração puro
No amor presente
Olhar além...
Libertar para ser liberto
Serenidade
Paz
Primeiro em mim
E expandir para o outro
Em mim contrai
No outro expande
E assim é o caminhar
Coração puro
Vida segue

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