segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Soneto de Londres - VINICIUS DE MORAES


Que angústia estar sozinho na tristeza
E na prece! que angústia estar sozinho
Imensamente, na inocência! acesa
A noite, em brancas trevas o caminho

Da vida, e a solidão do burburinho
Unindo as almas frias à beleza
Da neve vã; oh, tristemente assim
O sonho, neve pela natureza!

Irremediável, muito irremediável
Tanto como essa torre medieval
Cruel, pura, insensível, inefável

Torre; que angústia estar sozinho! ó alma
Que ideal perfume, que fatal
Torpor te despetala a flor do céu?

EM - ANTOLOGIA POÉTICA - VINICIUS DE MORAES - DOM QUIXOTE

domingo, 27 de janeiro de 2013

Saltos altos - VERA SOUSA SILVA


Ela chegou de vermelho.

Vermelho nos lábios,
vermelho na seda do vestido.

Ele beijou-a
e suavemente acariciou
o corpo macio.

Despiu-a
e era vermelho
o tom interior
daquela lingerie rendada.

Os sapatos,
de saltos altos,
vermelhos,
fizeram parte do momento
que cinicamente ele comprou.

Ela chegou de vermelho,
e saiu vermelha
de nojo e de raiva.

EM - BIPOLARIDADES - VERA SOUSA SILVA - LUA DE MARFIM

sábado, 26 de janeiro de 2013

IV - EGÉRIA


O Beijo que te queria dar
Poderia ser só um,
Ficaria feliz, pois passaria a ser só meu.
Desejo-te tanto que acaricio a minha mente ao pensar em ti,
O meu corpo deixa de ser meu, e passa a ser teu,
Consigo sentir que te toco em demasia,
É excêntrico o meu tocar.
O teu corpo é um esconderijo,
Com várias portas d'oiro que ao abrirem emanam
Perfumes e silêncios idílicos,
Que me deixam em êxtase profundo...
Ai como te adoro!

EM - A ESPIRAL DO AMOR - EGÉRIA - TEMAS ORIGINAIS

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

As rosas - JOÃO MANUEL BRETES


Afasta de ti esse silêncio,
afasta-o com as mãos
com que enterraste as rosas,
as duas bem juntas,
nos campos de Acra;

Nos extremos da noite
as pétalas já não têm brilho,
um cordão de cinza
atravessou a sua luz.

EM - POEIRA - JOÃO MANUEL BRETES - CAMINHO

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Jorge de Montemor - XAVIER ZARCO


Nasce o poema,
a palavra,
a sementeira do verbo,
da música.

Lo deseo,
eres la palabra
susurrada
de todos los rios.

Tal vez
la palabra amor.

Talvez
a palavra dor.

Talvez.

EM - MONTE MAIOR SOBRE O MONDEGO - XAVIER ZARCO - TEMAS ORIGINAIS

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Cair da noite - RUI KNOPFLI


Ao cair da noite, no declive que leva
a Estrada do Zixaxa ao Largo do Xipamanine,
o ar empregna-se do cheiro enjoativo
ao o'canhe que fermenta nas latas, sem que
a teimosia do cachimbo friorento o dissipe.

Virão as bebedeiras, cantigas, imprecações,
a ocasional briga, sem consequências que o sono
não cure. A humidade empresta um brilho
ao asfalto precário, onde as estrelas
do sul insistem cintilar. Cumpridor,

Ernesto acabou o jantar dos patrões
(sopa de legumes, peixe-serra frito
com arroz de tomate) e desce a escada
rumo ao seu refúgio, Aí irá fumar
a seruma do esquecimento. Ao cair da noite.

EM - O MONHÉ DAS COBRAS - RUI KNOPFLI - CAMINHO

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Oficina irritada - CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Eu quero compor um soneto duro
como poeta algum ousara escrever.
Eu quero pintar um soneto escuro,
seco, abafado, difícil de ler.

Quero que meu soneto, no futuro,
não desperte em ninguém nenhum prazer.
E que, no seu maligno ar imaturo,
ao mesmo tempo saiba ser, não ser.

Esse meu verbo antipático e impuro
há de pungir, há de fazer sofrer,
tendão de Vénus sob o pedicuro.

Ninguém o lembrará: tiro no muro,
cão mijando no caos, enquanto Arcturo,
claro enigma, se deixa surpreender.

EM - ANTOLOGIA POÉTICA - CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - RELÓGIO D'ÁGUA

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Sankarah - ONDJAKI


se olhando o céu
na cortina cinzenta de cada árvore
eu te pudesse alcançar,
cada sonho meu chamar-se-ia dia
e eu de noite não mais
cerraria os olhos
nem saberia pedir a pálpebra alguma
que se deitasse noutra.
se num sopro astral - ou pequeno -
eu um salto desse,
tomaria por espada um destes galhos
e pediria à morte para matar o tempo
ao contrário.

e na bruma cinzenta de cada àrvore
tu poderias - sorriso manso -
voltar a acontecer.

EM - DENTRO DE MIM FAZ SUL/ACTO SANGUÍNEO - ONDJAKI - CAMINHO

domingo, 20 de janeiro de 2013

Canção - CECÍLIA MEIRELES


Não te fies do tempo nem da eternidade,
que as nuvens me puxam pelos vestidos,
que os ventos me arrastam contra o meu desejo!
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te vejo!

Não demores tão longe, em lugar tão secreto,
nácar de silêncio que o mar comprime,
ó lábio, limite do instante absoluto!
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te escuto!

Aparece-me agora, que ainda reconheço
a anémona aberta na tua face
e em redor dos muros o vento inimigo...
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã eu morro e não te digo...

EM - ANTOLOGIA POÉTICA - CECÍLIA MEIRELES - RELÓGIO D'ÁGUA

sábado, 19 de janeiro de 2013

Ipanema, 1977 - ANTÓNIO BORGES COELHO


O peito avança e os braços mas são
as pernas e os pés
em golpes de tesoura
sobre o pedal
que cortam o ar cálido

As ciclistas pedalam
entre coqueiros e o mar
na mancha gárrula
da multidão movente

A faca cai do alto
corta líquida
o fruto verde
a boca suga
a água descoberta

O mar é mole

Cidade de água
no céu
na terra
nos corpos

Morro nos morros

EM - AO RÉS DA TERRA - ANTÓNIO BORGES COELHO - CAMINHO

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

O silêncio - MANUEL BANDEIRA


Na sombra cúmplice do quarto,
Ao contacto das minhas mãos lentas,
A substância da tua carne
Era a mesma que a do silêncio.

Do silêncio musical, cheio
De sentido místico e grave,
Ferindo a alma de um enleio
Mortalmente agudo e suave.

Ah, tão suave e tão agudo!
Parecia que a morte vinha...
Era o silêncio que diz tudo
O que a intuição mal adivinha.

É o silêncio da tua carne.
Da tua carne de âmbar, nua,
Quase a espiritualizar-se
Na aspiração de mais ternura.

EM - ANTOLOGIA - MANUEL BANDEIRA - RELÓGIO D'ÁGUA

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Erro poético - MIA COUTO

Sou o açucar
procurando a formiga.

Meu carreiro
não tem linha.
É um ponto, um planetário grão.

A minha natureza
é uma inacabada caligrafia:
apenas os erros me defendem.

O amor apenas
me rasura a alma.

Com a formiga
partilho alucinogénios:
migas de paixão, migalhas de doçura.

EM - TRADUTOR DE CHUVAS - MIA COUTO - CAMINHO

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

XXVIII - EUGÉNIO DE ANDRADE

Hoje deitei-me ao lado da minha solidão.
O seu corpo perfeito, linha a linha,
derramava-se no meu, e eu sentia
nele o pulsar do próprio coração.

Moreno, era a forma das pedras e das luas.
Dentro de mim alguma coisa ardia:
a brancura das palavras maduras
ou o medo de perder quem me perdia.

Hoje deitei-me ao lado da minha solidão
e longamente bebi os horizontes.
E longamente fiquei até sentir
o meu sangue jorrar nas próprias fontes.

EM - PRIMEIROS POEMAS/AS MÃOS E OS FRUTOS/OS AMANTES SEM DINHEIRO - EUGÉNIO DE ANDRADE - ASSÍRIO & ALVIM

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

5 Haiku - CASIMIRO DE BRITO

 
1
Não separes a água
da sua espuma -
a vida é só uma
 
 
4
Em tudo há velhice
e nascimento - um pé repousa,
outro caminha
 
 
10
Um filho nasce.
Núpcia da suprema dor
com a maior alegria
 
41
Pesa-me nos ombros
o pó dos caminhos
que não percorri
 
70
Poeta audacioso -
ousa decifrar as sombras
da luz original
 
EM - A BOCA NA FONTE - CASIMIRO DE BRITO - LUA DE MARFIM
 
 


segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Zé Pecado e o dueto preto e branco - DELMAR MAIA GONÇALVES


Zé Pecado
foi para o lado dos negros
e levou um empurrão
com um clamor de vozes:
- Sai daqui seu misto sem bandeira,
sai daqui seu misto sem bandeira!
Com lágrimas vertendo
foi para o lado dos brancos onde ouviu um eco de vozes
clamando: - Sai daqui seu preto, sai daqui seu preto!
Perante tal situação,
Zé Pecado arregaçou as mangas
e desesperado gritou:
- Somos irmãos
negros e brancos
somos irmãos!
Reina desde então
um silêncio suspeito.

EM - SOB EPÍGRAFE - TRIBUTO A JOSÉ CRAVEIRINHA - TEMAS ORIGINAIS

domingo, 13 de janeiro de 2013

Vida - MIGUEL TIAGO


quero-te debruçada em mim,
e sentir-te, um beijo, um ensejo,
a pele encostada ao meu núcleo mais profundo,
onde moram os meus significados e segredos.

quero-te, como se pudesses mergulhar-te,
aprender-te ao sabor do vento,
soprar-te, puxar-te a mim,
foras a vida que se me foge,
spiritu, espírito nu.

EM - LETRAS ÍGNEAS - MIGUEL TIAGO - LUA DE MARFIM

sábado, 12 de janeiro de 2013

Apenas mulher - ANGELINA ANDRADE

Não preciso de uma bússula que me guia
Nem de um teto, nem do tacto das palavras
Mas da tua boca devorando a minha boca
E de tuas mãos no meu corpo desvairadas
E são de Abril, as palavras que dizemos
E são rubros os cravos que mordemos
E eu sou o fogo, a forja incendiada
E tu o aço, onde talhas tua espada

EM - NAS ASAS DE SIMORGH - ANGELINA ANDRADE - TEMAS ORIGINAIS

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Manipulação de imagens - JORGE NUNO

Oh onírico e subtil modo de ver
O meu estranho e duplicado mundo!
Se com ferramentas comuns da consciência
Umas vezes manipulo imagens
E noutras sou manipulado por elas...
Como gostaria de lhes dar uso
Através do órgão especial da consciência,
Transportá-las para projecções futuras
E, sem tocar o meu despertador interno,
Partir do sonho para o estado de vigília
E modificar a realidade desperta.

EM - PALAVRAS NOSSAS II - ANTOLOGIA - ESFERA DO CAOS

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Folhas de outono - ANA ALMEIDA

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA EDITORA

Dissipadas sob os passos rastejantes,
Em mil tons de castanho matizadas,
São o tapete, o soalho das calçadas,
Que se pisam sob o frio massacrante...

Das alturas docemente vão tombando
Sob a brisa que, ao de leve, deambula.
Mariposas que, p'lo espaço, vão voando,
São a diva dos artistas da pintura!...

Mutiladas pelo tempo inconstante,
Suas páginas, dentadas com subtileza,
São o livro, cujo texto atraente...
Contém os 4 elementos da Natureza...

O fogo num sol aceso...
A água do orvalho que escorre...
O ar de um vento denso...
A terra na essência que deu forma!!...

EM - DE-LÍRIOS - ANA ALMEIDA - CHIADO EDITORA

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Teatro e cultura com vera san payo de lemos - MARIA TERESA DIAS FURTADO


Voz e mãos abrem o mundo do teatro,
o puro acontecer. Fazem-nos ver
o fundo da alma, a luz da vida,
suas sombras e sinais, seus paradoxos
em movimentos no texto nos textos
na sequência do apaixonado trabalho
que aponta caminhos livres de possível saída.
Do impacto da surpresa nasce o texto do espectador
que acorda, concorda, discorda, repensa as emoções
que a ele o devolvem
ora levando-o a refazer memórias,
ora espaços, a casa dos afectos, dos labirintos,
o campo aberto de desenhos habitados
de histórias que contando nos contam
e canções que nos tocam e embalam
ao fio do acontecer extremo e íntimo
visível e invisível no mistério de cada
homem, mulher, jovem, velho.
Tantas luzes nos desenham a vida
tantas palavras nos prendem ao ar.
Tudo pode começar e recomeçar:
Na reinvenção do mundo em cena
para todos há lugar.

EM - O ARCO DO TEMPO - MARIA TERESA DIAS FURTADO - LUA DE MARFIM