segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

Ser Cabo-Verdiano - ARLINDO ANDRADE

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Ser cabo-verdiano
é carregar o mundo
no seu sangue...
falar uma língua
feita de pedaços
de várias outras línguas...
Ser cabo-verdiano
é conviver com o oceano,
encontrar inspiração
no silêncio da natureza,
é ter orgulho da sua terra,
por ela ser capaz de dar a vida,
é ser embaixador da cultura,
preservar a tradição
e, na relação com toda a gente,
cultivar a “morabeza”.

EM - FIRME E HIRTO COMO O POILÃO - ARLINDO ANDRADE - IN-FINITA

Deambulações - TITA TAVARES

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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No deambular das sensações
Multiplicam-se mundos
Animados de audácia e de euforia;
Subtraem-se universos de sonhos
Crivados de desilusões.

Tudo falta e tudo sobra
Na multiplicação da subtracção
Da fantasia.

Faltam vulcões de sonhos flamejantes...
Sobram ilusões engolidas
Na voracidade de tufões.

Renovam-se as emoções
No vaguear constante
Do querer incessante
Da imaginação.

EM - O AMOR NÃO TEM SUJEITO - TITA TAVARES - IN-FINITA

Lamento - CELÊNE IVO JUNQUEIRA BACELAR

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Ouve-se um som
Um som de um forte
lamento.
Um lamento
Sufocado
Contido
Sofrido.

Um lamento
uníssono
De apelo ao criador
Em forma de prece
Com muito fervor.
Um lamento
ardente
Pelo fim desse
Tormento
Que ainda não
terminou.

Um lamento de
alerta
Às pessoas que fingem
não saber
Do perigo iminente
Da contaminação
Vivendo sem se
preocupar
Com o inimigo
em ação.

Prezem suas vidas
e as de seus irmãos
Sejam de sangue
ou não.
É um momento
delicado
Período de muito
esforço
Sacrifício
e oração.

O mundo está em
Retalhos
É necessário ser
reconstruído.
Mas sem a contribuição
de parte da negligente
População
Difícil será a
extirpação
Desse temido inimigo
E do mundo a
Reconstrução.

EM - PANDEMIA DE PALAVRAS - COLECTÂNEA - IN-FINITA

domingo, 20 de dezembro de 2020

Companheiro indomável - FRASSINO MACHADO

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“Elegia a Anacleto Pinto”

De antes quebrar que torcer
Com sol ardente ou com frio
Poucos te lograram vencer
Fosse qual fosse o desafio.

Ver-te correr era um regalo
Respeitando o adversário
E de ninguém eras vassalo
Mas por vezes temerário.

Corta-mato, estrada ou pista,
P´ ra ti não havia obstáculo
Mas nesta prova imprevista
Não venceste o triste oráculo.

Privei contigo bem cedo
Demos as mãos com afecto
Lembras-te? Nunca tivemos medo
Ou não fosses o Anacleto...

Treinavas com coração,
Mas de uma forma discreta,
Lutavas como um leão
Pra ser´ s o primeiro na meta.

Tu, companheiro indomável,
Recebe o troféu-liberdade
No pódio olímpico imutável
Desta corrida de saudade!

EM - A MUSA DOS ESTÁDIOS - FRASSINO MACHADO - IN-FINITA

Fronteira Invisível - CECÍLIA ROGERS

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Invisível
A fronteira
À beira
Do caminho
Que me separa
De ti
A quem
Me vejo
Por inteira
Refletida
No espelho
Colocado
Em tênue linha
Divisória
Demarcatória
De nosso território
De espaços sem fim.
Os mesmos traços
Ancestrais
Os mesmos deuses
Divinais
O que procuro em ti
Que não encontro em mim?
Atravesso
A frágil linha
E ainda sou
Quem tu és.
Invisível
A verdade
Que me separa
De ti
Partes fluidas e unidas
De uma mesma
Identidade.

EM - PANDEMIA DE PALAVRAS - COLECTÂNEA - IN-FINITA

sábado, 19 de dezembro de 2020

Essência - FILIPA CARNEIRO

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Materializo...
Idealizo...
Conceptualizo...
Pos-conceptualizo
Abstraio...
Encontro-me na tua ausência
Desencontro-me no teu encontro...
Lascivamente essencializo no toque tangível do teu
âmago que me captura...
Deslizo...
Dissolvo em emoções desassossegadas...
Da silhueta da minha essência frivolamente
delineada
Teimosamente marcada
Na macula do pensamento...
Dissipa-se no vento...
Permanece o Eu...
A essência...
O momento...

EM - INDELÉVEL - FILIPA CARNEIRO - IN-FINITA

A tempestade Pandémica I - CECÍLIA PESTANA

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E nesta vida por si já tão retalhada
Devastada por tanta maldade,
Pelos ódios, guerras, escravidão,
Pela destruição da Mãe Natureza,
Surge agora de mansinho
A tempestade pandémica
Invisível, mortífera e calada.

A tormenta abateu mundo inteiro
Trazendo à Humanidade
Mais morte, miséria, fome,
Infinitas dores maltratadas
Que nunca mais serão saradas.

Avassalados por tanta agonia
O ser Humano está agora curvado,
Prostrado de joelhos, implora,
Está a pagar por seus pecados.

A tormenta agiganta-se...
Em casa ficámos confinados,
Despimo-nos por momentos
De vaidades, de fedorentos preconceitos,
E nesta vida desastrada e bolorenta
Ficámos mudos, tristes, espantados!

EM - PANDEMIA DE PALAVRAS - COLECTÂNEA - IN-FINITA

sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

Mudo - FREDERICO DANTAS VIEIRA

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Há silêncio nas ruas do mundo.
Sim há um mundo silenciado pelo medo.
A incerteza das horas nesse vazio profundo
desse dia que já não amanhece tão cedo.

Há por aí, olhares perdidos de si.
De tão escondidos, hoje estranhos, causam temor
do interior dos mundos internos, os muros
teimam em ruir
e faz cada um enfrentar o que no tempo ignorou.

Hoje o tempo não voa.
Há minutos ociosos clamando atenção.
Hoje não há tempo certo nem em contramão.
O tempo é esse espaço que na mente ecoa.

E um silêncio nas ruas de nós.
Sim há um mundo aqui
amedrontado que não vai desistir.
Um florir em sombras não romantizadas de tantos
anos e nós.

EM - PALAVRAS NÔMADES - FREDERICO DANTAS VIEIRA - IN-FINITA

Contraste - ROBERTA WADNER

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Contraste
Uma pedra, um baseado
Uma música no fundo
Para a alma ser tocada
“Rock” ou “clássica”
Vai depender do seu estado.

Uns viajam mesmo parado
Outros riem mesmo chorando
Olhares parados, porém, distantes.

Alguns felizes saltitantes
Outros choram compulsastes
Todas as emoções no mesmo instante.

Vivendo uma liberdade
Escrava de um vício constante.

EM - ALMA DESCORTINADA - QUANDO A POESIA GERA CURA - ROBERTA WADNER - IN-FINITA

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Novidade - MARLI DIAS RIBEIRO

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O que de novo pode acontecer em uma noite
iluminada de fogos ou estrelas...
Sonho novo, novo tempo de gente solidária,
de paz, de comida no prato, de casa para todos,
educação.
Novo ar de democracia com sorrisos escancarados
e abraços acolhedores.
Voz e vez de liberdade.
Numa felicidade renovada, construída pela ousadia
de abrir-se ao desconhecido, sem medo de acolher
o nascimento do desconhecido de cada dia
Cada segundo é novo ciclo sem fim,
que dá sentindo a vida, novidade de servir ao outro
Para que o seu novo, novidade, nunca deixe
de existir

EM - PARDAS POESIAS: SOBRE SER, FAZER E SENTIR - MARLI DIAS RIBEIRO - IN-FINITA

Anjos - CARMEN LÚCIA DE QUEIROZ PIRES

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Os Anjos existem?
Sim! Foi a resposta que ouvi...
Como serão esses Anjos?

Eu não sabia, não fazia idéia
Até que eles começaram
A aparecer para mim

Chegaram através dos amigos
Das pessoas conhecidas
Das desconhecidas

Tinham o aspecto manso
Generoso, ouvinte, amoroso
Nada de revide ou destrato

Não traziam na sua bagagem
Qualquer cobrança ou ameaça
Chegaram e me sopraram luz

Um sopro de luz, de amor
Através de uma idéia,
De um olhar, de um afeto

Depois voltaram de onde vieram
Sem aviso ou reparo
Como se nada tivessem feito

Foram assim os Anjos
Que entraram no meu caminho
Mudaram a minha rota

Abasteceram-me de luz
Dando novo sentido a minha vida
Repaginando o meu viver!

EM - PANDEMIA DE PALAVRAS - COLECTÂNEA - IN-FINITA

Ousadia - ANA LANDEIRO

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Gosto de ter ousadia
A vida é magia
Fugir da tirania
Usufruir o dia

Gosto de sentir a serenidade
Existe muita maldade
Cantar a esperança perdida
Na noite adormecida

Gosto de saltar muros
Passar etapas
Ultrapassar os apuros
Apagar as beatas

Gosto de sentir o pulsar
Caminhar docemente
Sem me abandonar
Abraçar completamente

Gosto de liberdade
Cansei de cativeiro
Aprecio a sanidade
A vista do cruzeiro

EM - PEDAÇOS DE MIM - ANA LANDEIRO - IN-FINITA

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

Gastronomia - ARLINDO ANDRADE

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A gastronomia da minha ilha
não é, como se julga,
apenas a cachupa.
É a cachupa, já se vê,
o prato nacional de Cabo Verde,
a cachupa pobre
e a cachupa rica,
a cachupa de carne ou de peixe...
Mas no cardápio
constam também
o caldo de peixe
com banana verde,
a feijoada com toucinho,
a camoca com gemada,
xerém com coco,
papa e tenterem com leite
e massa com “galinha de terra”.
Enfim...
Muitos sabores,
variadíssimos pratos
que fazem de nós
um povo saudável
e resistente!

EM - FIRME E HIRTO COMO O POILÃO - ARLINDO ANDRADE - IN-FINITA

Correm torrentes de vidas da nascente até à foz - TITA TAVARES

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A montante e a jusante,
Suores suados de corpos dolentes
Engrossam com águas escorrentes,
Leitos de fábricas poluentes,
Em constante movimento
Paradas de vida, sem tempo.

Emparedados soluçam
E sucumbem de icterícia,
Entre margens convergentes
De paisagens divergentes,
Papéis e outros documentos
Em ambientes gritantes, asfixiantes.
E morrem de esgotamentos
Muitas rams e roms,
Nos muitos offs e ons.

Sem conta os braços e pernas
Que divididos, partidos
Por inúmeros afluentes,
Bradam às margens, em vão,
Não cedentes,
Suas enormes carências
Que não param de aumentar
O caudal
Do vil metal
Sugado em confluências
A corpos em vidas decadentes.

ESCORREM VIDAS
ENTRE CORRENTES
DA NASCENTE ATÉ À FOZ

EM - O AMOR NÃO TEM SUJEITO - TITA TAVARES - IN-FINITA

terça-feira, 15 de dezembro de 2020

A velha pista - FRASSINO MACHADO

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“Em memória da extinta pista da Luz”

Quem é que não se lembra desta velha pista,
O berço do excelso Clube sonhador?
Talvez quem nunca lá verteu gotas de suor
E nunca à sua estória ousou fazer revista.

Ali, no nobre palco de horizonte à vista,
Dia a dia, hora a hora, com sublime ardor
Afluíam marés de jovens com valor
Sentindo em si uma energia de conquista.

Ali cresceu um alfobre indómito de atletas,
Ali os mestres treinadores cumpriram metas
Por objectivos fortes, longos e mais altos...

A velha pista desapareceu, e sua história
Deixou um indelével sulco de memória
Numa brava odisseia sempre em sobressaltos.

Noutras pistas meu estro nunca esmoreceu
Mas quero aqui deixar, p´ la musa da vitória,
“Um repto a quem ali chegou, viu e venceu”!

EM - A MUSA DOS ESTÁDIOS - FRASSINO MACHADO - IN-FINITA

Diz-me - CARLA PIMENTA

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Diz-me que nada foi em vão...
Que as palavras proferidas foram sentidas
Os gestos foram reais
E os olhares falaram verdade...

Diz-me que os silêncios são de saudade
Que as memórias são válidas
O meu abraço ainda procuras
Que o meu perfume te adoça os dias...

Diz-me que ainda me sonhas...
Que na noite fria o meu calor procuras
Que nos teus sonhos eu sou protagonista
E a minha voz te adormece suavemente...

Diz-me que entre os dias que passam
Me procuras nos rostos dos transeuntes
Que nas inquietas ondas do mar que navegas
Me fazes nadar sob a alva espuma do mar...

Diz-me que nada é vão...
Que a chuva que cai sob o meu rosto
Nada mais é que uma carícia tua
Um toque suave de um até já...

EM - PANDEMIA DE PALAVRAS - COLECTÂNEA - IN-FINITA

segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

Sageza - FILIPA CARNEIRO

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Renascer no intrínseco natural
Insistido sentir inquieto
Construção nativa amoral
Caminho para a estrela dançante
Numa sustentável leveza andante...
Virgens mentes sages
Desensombradas...
Descavernadas...
Num real desassossego real
Em torno do sol de si
Superando se na superação renascendo na ilusão
Da vivência fugaz
Na sua sageza sagaz...
Encontro me no teu desencontro
Permaneço na quietude feliz...

EM - INDELÉVEL - FILIPA CARNEIRO - IN-FINITA

Amanhã - CARLA FÉLIX

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Não sei a cor do amanhã.
Não sei o perfume da madrugada.
Não sei quando iremos caminhar.
Não sei se quando acordar, as pedras do caminho ainda
existirão...
Não sei se as crianças ainda irão acreditar.
Não sei se irei reencontrar um abrigo.
Não sei se as ruas irão falar.
Não sei se o que já estava perdido se reencontrará...
Não sei se terei mente sã.
Não sei se escreverei na multidão.
Não sei se acredito já no futuro.
Não sei...
Tenho apenas palpitações, desejos e sonhos
Embriagados em fé...

EM - PANDEMIA DE PALAVRAS - COLECTÂNEA - IN-FINITA

Eu vi, eu ouvi, eu senti - ELÍGIO DE AZEVEDO

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I
Vi em teus olhos o brilho do amor
Ouvi teus lábios murmurar desejo
Senti teu corpo me pedir calor
Calei-te a boca rubra com meu beijo!

II
Senti teu corpo vibrar colado ao meu
Vi mil estrelas brilhando na amplidão
Brilho do amor que ainda não morreu
E te espera amor em meu coração!

III
Mas não demores vê o tempo voa
Deixando o rastro triste da saudade
Qual canção que a alma agora entoa
Eu vi, eu quero a felicidade!

IV
Não quero noites frias de garoa
Mas te amar por toda a eternidade
O amor querida não é coisa atoa
Pois nascido de nossa amizade!

EM - ESCOLA DE POESIAS - ELÍGIO DE AZEVEDO - CHIADO BOOKS
 

domingo, 13 de dezembro de 2020

Doce Cloroquina - FREDERICO DANTAS VIEIRA

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O mundo quer viver e se previne,
muitos isolados sentindo a novidade.
Cada um agora sua companhia define
e nos vemos diante de novas coletividades.

Há quem insista que é mentira, conspiração.
Determinados a seguir ignorando a realidade
faz fantasia virar verdade
e de olhos vendados, segue em desumana
contramão.

Até o senhor da guerra se acovarda
em sua conhecida megalomania
enquanto os mortos se amontoam.
Do lado de cá, seu discípulo é a favor
da Cloroquina.
Eternos e conhecidos fascistas, que cantos
de genocídio entoam.

O mundo à mercê do amanhã.
Desigualdade social da vida marcada
pelos privilegiados dessa distopia irmã,
descaminhos de uma trajetória desgovernada.

EM - PALAVRAS NÔMADES - FREDERICO DANTAS VIEIRA - IN-FINITA