quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Reino - SARA TIMÓTEO

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA EDITORA

No meu reino secreto
subsiste apenas a voz sugestiva
do que é breve
e insuportavelmente belo
na essência
do ser aninhado em espelhos
de complacência

não há espaço de quatro paredes,
apenas vegetação
e surpresas estranhas
que se revelam sem mácula à razão

EM - ELIXIR VITAE - SARA TIMÓTEO - LUA DE MARFIM

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Consoantes consonânticas - RITA PAIS

O receio do reencontro ressoa no rugir do rio.
Revolta-se, rebela-se, refugia-se em recantos remotos.
Remete-se depois a um rumor resignado e remissivo.
Reage, regurgita, enquanto repudia a raiva
e reclama o remanso de recônditos regressos.
Tudo é tão terrivelmente tentador...

Aguardo ansiosa a angústia do amanhecer.
Desejo o desejo do beijo dormente,
dolente, descompassado, devorante e devorador.
Preciso da palavra de precioso veludo
pronunciada num passado ainda presente.
Faltas-me no tu que já fui eu.
Volatilizo vazios que vagabundeiam
nos vagos vagares que vivem nas vielas da verdade,
e em vão vou sonambulando o teu nome silenciado...

EM - MARGINÁLIA - ANTOLOGIA - EDITA-ME

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Lembrando: Aquilino Ribeiro - VÍTOR CINTRA

Nasceu em Sernacelhe - Carregal.
Lamego e em Viseu, ali estudou.
Não tendo vocação sacerdotal,
Também o seminário frequentou.

Não fora ser um tanto desordeiro
E sendo um romancista de valor,
Tivesse dado à escrita o tempo inteiro
Seria a sua obra bem maior.

Foi preso e evadiu-se duas vezes,
Em ambas por revoltas abraçadas.
E sempre o mesmo exílio nas jornadas.

Casou também na terra dos franceses.
Sabendo misturar trigo com joio
Na vida toda sempre teve apoio.

EM - NAS MARGENS DO ESQUECIMENTO - VÍTOR CINTRA - LUA DE MARFIM

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Do lado mais calado do tempo* - GRAÇA PIRES

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA AUTORA

Do lado mais calado do tempo
podemos falar das mãos das mães,
tão frágeis, quando trazem nas costas
a febre dos filhos.
Podemos sentir o rosto perturbado
das crianças que nos mostram a boca
mordida pela fome.
Podemos querer de volta o fascínio
dos papagaios de papel e do tempo
em que não faltava ninguém
nas fotografias da família.

EM - POEMAS ESCOLHIDOS 1990-2011 - GRAÇA PIRES - EDIÇÃO DE AUTOR

domingo, 16 de agosto de 2015

A nostalgia do sol - ALVARO GIESTA

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELO AUTOR

A nostalgia do sol
é uma prece
que fica a irradiar

na primordial penumbra
da noite

Entra-se nessa luz...

profana-se o oculto
despojando do seu ventre
o susto
e o silêncio

No fundo da paisagem
o silêncio
que corta as veias dos pulsos,

verte
o sangue
da algema que já não sela
a voz
para todo o sempre

EM - UM ARBUSTO NO OLHAR - ALVARO GIESTA - CALÇADA DAS LETRAS

sábado, 15 de agosto de 2015

Ródão - VÍTOR CINTRA

Elevas-te no topo duma escarpa,
Olhando, lá do alto, o rio Tejo.
Memória doutro tempo em que o desejo
Da honra acicatava como farpa.

Das lutas, que travou contra a mourama,
Em ti o grande Wamba descansou.
E, sempre que o califa o atacou,
Maior foi, entre o povo, a sua fama.

Mais tarde, ao suceder a reconquista,
Por ter valor 'stratégico essa crista
Impôs-se refazer a construção.

Mas séculos passados, nem a vista
Tão bela, que nos enche de emoção,
Impede um abandono, sem perdão.

EM - NA SENDA DOS TEMPLÁRIOS - VÍTOR CINTRA - LUA DE MARFIM

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Voos apelos - JOSÉ LUÍS OUTONO

O infindável sedar apelo dos teus lábios
dilatou-se na lucidez horizonte
do meu atear constante de vontades uníssonas.

Faltam poucas leituras geodésicas
para sombrear o teu corpo mar.

Até já, imperdível falésia guardadora dos meus traços.

EM - MARGINÁLIA - ANTOLOGIA - EDITA-ME

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Cadeiras vazias - SÉRGIO GODINHO

Cadeiras vazias são prova de vida.
ali se sentou ao piano a mãe
ali se decidiu em que noite.
Partir é um pré-balanço da vida: assim
fosse para sempre.
madeiras com três nós
Três nós na madeira no soalho,
assim vista a função
assim fosse.
Furam (mas seguram) o vasto e longo itinerário.

De lembranças só dá conta o filho da prevista
terra de ninguém.
Para alguns (mas agora não eu)
o inesperado é mesmo agora.

Mãe, hoje voltei
uma cadeira será fonte de alegrias.
De ano a ano nem o tempo passa
mas tu ainda sabes disso.

EM - O SANGUE POR UM FIO - SÉRGIO GODINHO - ASSÍRIO & ALVIM

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Aviltado - VÍTOR CINTRA

Se toda a minha mágoa vem da dor
De ver o meu país tão aviltado,
É esta canalhada, em bom rigor,
Que faz com que me sinta angustiado.

Se em cada candeeiro pendurassem
Um "chulo", que político se diz,
Faríamos que as vidas melhorassem,
Cortando todo o mal pela raiz.

Quem nada é, além de parasita,
É réu do "mau viver" e da desdita,
Que atingem todo o povo e Portugal.

Enforcar, duma vez, esta cambada
Era mostrar respeito à Pátria amada
E erradicar, de vez, todo este mal.

EM - AO ACASO - VÍTOR CINTRA - LUA DE MARFIM

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Poesia é a melodia do coração - MARIA ISABEL RODRIGUES

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA EDITORA

Canto todo dia esta canção
A cada passo que dou
Mais forte eu sou
E mais firme piso o chão
Canto todo dia a mesma melodia
Ao som de um violão vou cantando
Poesia é arte, é vida e é alegria
Isso me faz bem todo dia
A alegria da vida é ter alguém que nos entenda com amor
Com palavras que nos alivia a dor
Transmitindo a mensagem do bem
Pela manhã saudar o dia
Com um sorriso de satisfação
Por estarmos vivos e caminhando cada dia para a evolução...
E continuarei a cantar e a escrever Poesia...
A melodia do coração.

EM - AMANTES DA POESIA - ANTOLOGIA - UNIVERSUS

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Penedono - VÍTOR CINTRA

Chamaram-te "Castelo do Magriço"
Por Álvaro Coutinho ser a glória
Dos "Pares d'Inglaterra" e já, por isso,
Mais rica ter ficado a tua história.

Mas quando Dom Ramiro de Leão,
Após vir de Simancas co'a vitória,
Mandou ir Tedoniz p'ra região
Já eras bem antigo na memória.

Doente e sem herdeiros, te doou
Chamoa, à sua tia Mumadona,
Co'os muitos bens que tinha em toda a zona.

Mas, quando Portugal se transformou
Em reino português, ficas pertença
Do trono, com reforço da presença.

EM - NO CREPÚSCULO DAS AMEIAS - VÍTOR CINTRA - LUA DE MARFIM

domingo, 9 de agosto de 2015

A carta - JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA

O apelo à sinceridade
não resultou:
há muito que deixou
esta casa,
que um olhar
indiferente percorre;
escreveu uma carta,
três páginas
que lhe custaram
noites e sossego,
com as datas precisas
e os pormenores
sangrados,
para a esquecer
numa gaveta promíscua.

EM - NADA TÃO IMPORTANTE, QUE NÃO POSSA SER DITO - JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA - ASSÍRIO & ALVIM

sábado, 8 de agosto de 2015

Dois tempos - JOSÉ GABRIEL DUARTE

Ontem
noutro tempo
tudo se apressava
nem por nada
eu esperava.

Hoje
sorvo as manhãs
alimento-me das tardes
saboreio as noites
enlaço-me no tempo.

Vou contando os dias
esquecendo os anos
marcando os instantes
saboreando as horas.

Enganando o tempo
no relógio das palavras...

EM - MARGINÁLIA - ANTOLOGIA - EDITA-ME

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

A voz - ANTÓNIO MEGA FERREIRA

Ah, louvar a voz
de Deus,
se Deus cantasse,
se a sua divina voz
existisse
antes de estar
no coração dos homens,
se Deus ousasse
ou tivesse estado
entre nós,
antes de nós,
entre um murmúrio
e a neve,
entre o sol e a voz.

EM - O TEMPO QUE NOS CABE - ANTÓNIO MEGA FERREIRA - ASSÍRIO & ALVIM

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Acordamos - ALVARO GIESTA

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELO AUTOR

Acordamos...

nesse lugar vazio
da noite
nascerá
o novo dia,

far-se-á renascer
de novo
ao acordarmos

Nesse lugar vazio da noite
um rio de silêncio apenas...

a manhã deixa o poema inacabado
como se a promessa fosse
para adormecer os sentidos

Nascerá o poema
ao gerar-se da sombra
a imagem
no desvendar da luz

EM - UM ARBUSTO NO OLHAR - ALVARO GIESTA - CALÇADA DAS LETRAS

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

A chave de casa - TERESA M.G. JARDIM

Ouves o mar enrolado
as pedras, as palavras
atiradas às paredes da casa
o poema que me resiste?

Quero enlouquecer
devagar, esquecer o meu nome
a forma regular
o bolso que ninguém encontra
a chave dentro.

EM - JOGOS RADICAIS - TERESA M.G. JARDIM - ASSÍRIO & ALVIM

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Manaus - VÍTOR CINTRA

Os homens da borracha te elegeram
Como a sua cidade, em tempos idos,
Mas hoje, muitos anos decorridos,
São outros interesses que prosperam.

O grande rio Negro, que te banha,
Tão largo, tão profundo, tão comprido,
Acaba por ser força a dar sentido
À vida, mesmo que ela seja estranha.

Já foste olhada em tempos, no passado,
Por quem na selva, quase desterrado,
Vivia, como a única cidade.

Mas hoje és capital dum mundo imenso,
Um mundo florestal, de um verde intenso,
Pulmão essencial da humanidade.

EM - POR TERRAS DE VERA CRUZ - VÍTOR CINTRA - LUA DE MARFIM

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Antecâmara - NATÉRCIA FREIRE

Anjo Branco. Infinita figura.
Companheiro impassível. Deserto
De qualquer criatura.

Tocador de instrumentos cinzentos.
Adejante penumbra nos ventos.
És de pedra. Infinita figura.

Se tens voz - a memória te escuta.
Se tens forma - a memória te oculta.
Tocador de instrumentos cinzentos.

Estás nos olhos, nos lábios de alguém
Que te espera e não sabe que tem
Os teus dedos nos seus movimentos.

EM - ANTOLOGIA POÉTICA - NATÉRCIA FREIRE - ASSÍRIO & ALVIM

domingo, 2 de agosto de 2015

Permaneces trancado* - LUIS FALCÃO

Permaneces trancado
No interior de um segredo
Implorando por dedos
Que silenciosa e docemente
Fossem abrindo
As corolas dos crisântemos

Uma criança olha-te de muito longe.

EM - PÉTALAS NEGRAS ARDEM NOS TEUS OLHOS - LUIS FALCÃO - ASSÍRIO & ALVIM

sábado, 1 de agosto de 2015

O infinito não tem memória - JOSÉ BRITES INÁCIO

O suor dos mares
são os rios
primeiro
e depois as nuvens
em percurso ao invés.

Atarantado
recolho pássaros e peixes
párias de vento
e sem marés.

À sétima virá a onda
e a ode
e a última carta que escrevi
devolvida
só asas
sem pés.

EM - MARGINÁLIA - ANTOLOGIA - EDITA-ME