Neste miradouro
Cego-me de esperas
Da tua mão
Que corre longe
Do teu sorrir que esfumou
Do teu gracejo hoje sentença
Apenas sei de cor os teus desafios
E na nudez da minha seara
Já não lhes pertenço.
EM - MAR DE SENTIDOS - JOSÉ LUÍS OUTONO - EDIÇÕES VIEIRA DA SILVA
terça-feira, 8 de janeiro de 2013
segunda-feira, 7 de janeiro de 2013
Rostos de nuvens - CARLOS TEIXEIRA LUIS
rostos de nuvens
abraçam os tentáculos
do tempo
penso que os conheço
sonho com esses rostos
já por anos
iluminam
o meu quintal das estrelas
banhadas em sangue espanhol,
ah, rostos de nuvens
dançam
lacrimejantes.
EM - HISTÓRIAS DO DESERTO - CARLOS TEIXEIRA LUIS - ATELIER
domingo, 6 de janeiro de 2013
Extremos - LUIS DA MOTA FILIPE
Às vezes sou teu, outras vezes do vento
Às vezes sou tudo, outras vezes não sou nada
Às vezes escondo-me por detrás das portas abertas
Outras, teimo em brilhar na imensidão do escuro
Às vezes sou o amor que não passa de moda,
Outras, a indiferença castigadora que fere como punhais
Às vezes sou um sopro de vida... um porto de abrigo
Outras, sou páginas de desalento... um livro à deriva
EM - SENTIMENTO MAIOR - LUIS DA MOTA FILIPE - CHIADO EDITORA
sábado, 5 de janeiro de 2013
Estrada Real - RICARDO BRAGANÇA SILVEIRA
A via que nos serve no presente
Outrora chamada de estrada real
Foi sempre um orgulho que se sente
Por todo o nosso Portugal
Hoje em dia muitos passam
Nesta estrada Nacional
E pelo forte assim passam
Pelos caminhos de Portugal
À sua beira já houve
Campos de oliveiras e trigais
Os antepassados louvaram
Actos tão bons que tais
Dantes os cavalos e as charretes
Eram os veículos que aqui passavam
Agora com os carros te metes
Mesmo quando poucos a usavam
Estrada Real do nosso orgulho
Do passado glorioso
Sem os montes de entulho
Num futuro auspicioso
Quando por ti passo
Fazes-me lembrar a glória
Mesmo que pelo amasso
Ou pela continuidade da nossa história
EM - ACORDAR VIVO - RICARDO BRAGANÇA SILVEIRA - TEMAS ORIGINAIS
sexta-feira, 4 de janeiro de 2013
Somos peças de xadrez - BELMIRO BARBOSA
Se o vento me deixa ser eu outra vez,
Por uns instantes, o mundo é melhor.
Mundo em que somos peças de xadrez,
Que alguém nos muda sem ver em redor.
São bons em tudo que se concretize?
Eu não consigo fugir ao dever,
Há quem consiga, há quem desvalorize.
Ser cumpridor é sinal de poder?
Vamos ser mais peões, de mãos atadas,
Vamos só falar antes que nos calem.
Inclinar o tabuleiro, há razões!
Somos peças de xadrez mal jogadas,
Umas valem mais que outras.Ai se valem!
A maioria peões, só peões?
EM - SÓ CEM SONETOS - BELMIRO BARBOSA - CHIADO EDITORA
quinta-feira, 3 de janeiro de 2013
Usurpa-me... e guarda-me - FRANCISCO VALVERDE ARSÉNIO
Usurpa-me as palavras
com os teus lábios,
suga-me as vogais
que guardo esquecidas num recanto
e as consoantes
presas nas sombras da minha alma.
Usurpa-me o suor
que se desprende do meu corpo
e se entranha no teu,
usurpa-me o lençol
que afasta a tua pele da minha.
Usurpa-me as marés infinitas
com o balançar
descompassado das tuas ancas
e o beijo prolongado
dado no prefácio
deste livro que escrevemos.
Usurpa-me os dedos andarilhos
e guarda-os no cofre
dos segredos,
e usurpa-me a noite
para que sejas sempre madrugada.
Usurpa-me o sol
quando fazemos amor
à luz ténue da lua...
Usurpa-me...
Usurpa-me o corpo...
Mas guarda-me em ti.
EM - 1ª ANTOLOGIA UNIVERSUS - VÁRIOS - UNIVERSUS
quarta-feira, 2 de janeiro de 2013
Cronofobia - MAFALDA FERREIRA
Tempo fugitivo
Tempo demorado,
Indeciso entre correrias
És aqui o que não és ali
E toda a gente te anseia.
Tão cobiçado,
Trais em silêncio
Trazes contigo memórias entorpecidas
E por aqui permaneces.
Como se o passado regressasse
E convergisse com o futuro.
Sabes de ti tão pouco
Que chegas a dividir-te em mil almas,
És tempo de partida
És tempo de chegada,
E, no entanto, não és nada.
Mera fobia ilusória
Assombras a alma frágil
Percorres um corpo de forma desumana
E mudas uma vida.
EM - OS MEUS SONHOS NAS TUAS MÃOS - MAFALDA FERREIRA - WAF
terça-feira, 1 de janeiro de 2013
Eis a mulher com que o poeta sonha* - AMADEU BAPTISTA
Eis a mulher com que o poeta sonha.
São crinas a sua cabeleira leonina
e os seus olhos um manancial
de lâmpadas de incenso em que ardem
os anais do tempo e do desejo.
Às vezes o seu rosto é o universo.
E, outras vezes, uma ascensão animal
em que há silêncios de íris incendiárias
e tarmagueiras em flor,
soltando acordes de cristal e jaspe
sobre a lua. A mulher canta
e o poeta acaricia-lhe os seios
nus, em busca da luz
absoluta.
EM - ATLAS DAS CIRCUNSTÂNCIAS - AMADEU BAPTISTA - LUA DE MARFIM
segunda-feira, 31 de dezembro de 2012
incêndio - AL BERTO
se conseguires entrar em casa e
alguém estiver em fogo na tua cama
e a sombra duma cidade surgir na cera do soalho
e do tecto cair uma chuva brilhante
contínua e miudinha - não te assustes
são os teus antepassados que por um momento
se levantaram da inércia dos séculos e vêm
visitar-te
diz-lhes que vives junto ao mar onde
zarpam navios carregados com medos
do fim do mundo - diz-lhes que se consumiu
a morada de uma vida inteira e pede-lhes
para murmurarem uma última canção para os olhos
e adormece sem lágrimas - com eles no chão
EM - HORTO DE INCÊNDIO - AL BERTO - ASSÍRIO & ALVIM
domingo, 30 de dezembro de 2012
XX - VIEIRA CALADO
A luz também tem o seu repouso:
nas coisas que passam e se transformam
nos tons que dão à luz que permanece
e se transmutando abrem outras formas luminosas
em tons vigorosos da mesma configuração da luz.
E que dá alento à luz que permanece
seja no branco das neves persistentes de reflexos
seja nas clareiras tranquilas da floresta
ou no cinzento amargurado
da irremediável despedida.
E não se retrai a luz
perante a fogueira acesa dos excessos
para que se leia ou que se apague
em suas cinzas
o testemunho da tranquilidade do tempo.
E é a tranquilidade do tempo o desvario
de nunca saber como olhar as coisas
com nossos olhos imprecisos
presos à luz que nos transforma
e transformando nos transporta.
EM - VIAGEM ATRAVÉS DA LUZ - VIEIRA CALADO - PAPIRO EDITORA
sábado, 29 de dezembro de 2012
Sem as musas de outrora - MIGUEL ALMEIDA
Sem as musas de outrora,
Aos poetas de agora,
Só lhes resta ter fé
E saber acreditar,
Na capacidade,
Que têm,
Ou não,
Para fugir.
Poder cerrar
Fileiras,
Saltar barreiras,
Violar fronteiras,
Para onde vão,
Para onde podem ir,
Atrás dos próprios sonhos.
EM - O LUGAR DAS COISAS - MIGUEL ALMEIDA - ESFERA DO CAOS
sexta-feira, 28 de dezembro de 2012
Foi por ti - ANA COELHO
Foi por ti
Que enchi rios
em afluentes de sal,
caminhei por margens rústicas
com as mãos descalças
e os pés suados de esperança...
Foi por ti
que da lua agarrei o sol,
pelo horizonte infinito
desci por fios de luz
para colorir em aromas
uma única existência...
Foi por ti!
Que parei... tudo deixei.
Agora aqui sentada
espero o som da tua mão...
EM - TECTO DAS PALAVRAS - ANA COELHO - EDITAME
quinta-feira, 27 de dezembro de 2012
Canção - EUGÉNIO DE ANDRADE
Tu eras neve.
Branca neve acariciada.
Lágrima e jasmim
no limiar da madrugada.
Tu eras água.
Água do mar se te beijava.
Alta torre, alma, navio,
adeus que não começa nem acaba.
Eras o fruto
nos meus dedos a tremer.
Podíamos cantar
ou voar, podíamos morrer.
Mas do nome
que maio decorou,
nem a cor
nem o gosto me ficou.
EM - AS PALAVRAS INTERDITAS/ATÈ AMANHÃ - EUGÉNIO DE ANDRADE - ASSÍRIO & ALVIM
quarta-feira, 26 de dezembro de 2012
Contemplação - LUIS PIRES
Podia ficar a sonhar
Toda a noite contigo
Que quando estivesse a acordar
Ainda a saudade quereria matar
Podia ficar acordado
Só em contemplação
Só para te ver respirar
Podia ficar só ao teu lado
A sentir em mim o teu coração
Podia ficar assim, agarrado
A sentir tudo e a não
Perder nada
terça-feira, 25 de dezembro de 2012
Outro destino - AUSENDA HILÁRIO
Desnudam-se os pés
Das azáfamas luzentes.
Alas de fogo e de conforto
Que os aquecem,
Numa cor doce de mel e desvelo,
Mesmo que a neve lá fora
Dilacere as peugadas
de quem carrega a fome
nas pernas de farrapos indolentes
e horas cansadas
que, todos os dias, sonham alcançar
a porta de outro destino.
Outras tantas mãos cheias, rutilantes
de corrupios de risos
E diáfanas farturas
Alheias ao rigor das vidas,
Vão apagando dos dias
o brilho,
vincando a austera ausência
da partilha.
EM - LUGARES E PALAVRAS DE NATAL - ANTOLOGIA - LUGAR DA PALAVRA
segunda-feira, 24 de dezembro de 2012
Festejo na aldeia - RITA FARIAS
Sol seco
Céu húmido
Tudo é nublado
Mas muito iluminado.
Chegou o Inverno
Árvores despidas
Marés enraivecidas
Vento assustador
Por vezes demolidor
Frio devastador.
É dezembro,
Época natalícia
Tudo se torna um sonho
Tudo é uma delícia.
O fumegar da lareira
Que faz sombra
À expandida luz
Em forma de anjo
De maneira estrelada.
Assim se reduz
À minha infância
Jamais esquecida
Naquela tradicional aldeia.
Que todos cantam e dançam
À volta da fogueira
Com os sinos a badalar
Os animais a aconchegar
E a família a festejar.
EM - LUGARES E PALAVRAS DE NATAL - ANTOLOGIA - LUGAR DA PALAVRA EDITORA
domingo, 23 de dezembro de 2012
Viagem - MARIA TERESA HORTA
Desejo-te que mordas
o meu pulso
desejas-me ir tocar o cotovelo
Entreabres-me as pernas
tão de súbito
e devagar afagas-me o cabelo
Debruças-te sobre a boca que tão ávida
se abre no meu corpo
e ao descê-lo
Vais nadando de bruços
e na viagem
preferes morrer de amor do que perdê-lo
EM - AS PALAVRAS DO CORPO - MARIA TERESA HORTA - DOM QUIXOTE
sábado, 22 de dezembro de 2012
Nos teus olhos - LIDIA BORGES
Antes de todas as coisas
era a escuridão.
Era o frio que me doía nas mãos,
era a lenta passagem dos minutos, das horas
nos relógios de todos os invernos.
Depois tu vieste e eu descobri
que nos teus olhos
é que as primaveras se escondiam.
Acendeste as estrelas nas noites
e elas transformaram-se em dias.
Despertaste os chãos, os jardins
e todas as palavras
que se íam apagando de mim.
Dos meus dedos voaram borboletas
e a morte morreu nas cascatas de luz
das manhãs que tu inventaste.
EM - NO ESPANTO DAS MÃOS - LIDIA BORGES - LUA DE MARFIM
sexta-feira, 21 de dezembro de 2012
Por vezes - NUNO GUIMARÃES
por vezes eu também choro
dá-me na alma a revolta
de não estar sempre a teu lado
por vezes eu também tremo
sinto frio, dor e medo
de me encontrar no abismo
e só ser este o meu fado
no auge do sofrimento
transformo isto num sonho!
viaja célere no tempo
exorcizo o teu passado
ludibrio o teu presente
com futuro antecipado...
EM - RIO QUE CORRE INDIFERENTE - NUNO GUIMARÃES - TEMAS ORIGINAIS
quinta-feira, 20 de dezembro de 2012
Nosso amor - NATÁLIA CANAIS NUNO
No mais íntimo e resguardado
quando me abandono às tuas carícias
Fica meu corpo abrasado
Tuas mâos, fazem delícias.
Posso entrever enternecida
Teus olhos pousados nos meus
De olhar os teus fico esquecida
Até de agradecer a Deus!
Nosso amor é como um livro interrompido
Que se fecha com uma ponta de loucura
Na esperança de se ser surpreendido
Ao retornar a leitura.
EM - PESA-ME A ALMA - NATÁLIA CANAIS NUNO - LUA DE MARFIM
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