terça-feira, 30 de outubro de 2012

Paisagem - VINICIUS DE MORAES

Subi a alta colina
Para encontrar a tarde
Entre os rios cativos
A sombra sepultava o silêncio.

Assim entrei no pensamento
Da morte minha amiga
Ao pé de grande montanha
Do outro lado do poente.

Como tudo nesse momento
Me pareceu plácido e sem memória
Foi quando de repente uma menina
De vermelho surgiu no vale correndo, correndo...

EM - ANTOLOGIA POÉTICA - VINICIUS DE MORAES - DOM QUIXOTE

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

no meio do caminho - CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

EM - ANTOLOGIA POÉTICA - CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - RELÓGIO D'ÁGUA

domingo, 28 de outubro de 2012

Leveza - CECÍLIA MEIRELES

Leve é o pássaro:
e a sua sombra voante,
mais leve.

E a cascata aérea
de sua garganta,
mais leve.

E o que lembra, ouvindo-se
deslizar seu canto,
mais leve.

E o desejo rápido
desse antigo instante,
mais leve.

E a fuga invisível
do amargo passante
mais leve.

EM - ANTOLOGIA POÉTICA - CECÍLIA MEIRELES - RELÓGIO D'ÁGUA

sábado, 27 de outubro de 2012

Dá-me a tua mão * - JOSÉ GOMES FERREIRA

Dá-me a tua mão.

Deixa que a minha solidão
prolongue mais a tua
- para aqui os dois de mãos dadas
nas noites estreladas,
a ver os fantasmas a dançar na lua.

Dá-me a tua mão, companheira,
até ao Abismo da Ternura Derradeira.

EM - POEMAS DE AMOR - ANTOLOGIA - DOM QUIXOTE

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Salvo erro - PEDRO MEXIA

Uma evocação pontuada por um
«salvo erro»,
função correctiva da linguagem,
desculpabilizadora,

mas tudo o que lembramos
é «salvo erro»
porque recordar já é quase
um erro uma vez

que nada, nem em filme,
acontece de novo
e só sabendo isso dos erros
nos podem salvar.

EM - MENOS POR MENOS - PEDRO MEXIA - DOM QUIXOTE

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Noite - MARIA TERESA HORTA

De noite só quero vestido
e tecido dos teus dedos
e sobre os ombros a franja
do final dos cabelos

Sobre os seios quero a marca
do sinal dos teus dentes
e a vergasta dos teus lábios
a doer-me sobre o ventre

Nas pernas e no pescoço
quero a pressão mais ardente
e da saliva o chicote
da tua língua dormente

EM - AS PALAVRAS DO CORPO - MARIA TERESA HORTA - DOM QUIXOTE

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Breve sonata em sol[um] (menor, claro) - RUY BELO

A solidão da árvore sozinha
no campo do verão alentejano
é só mais solitária do que a minha
e teima ali na terra todo o ano
quando nem a chuva ou vento já lhe fazem companhia
e o calor é tão triste como o é somente a alegria
Eu passo e passo muito mais que o próprio dia

EM - TODOS OS POEMAS II - RUY BELO - ASSÍRIO & ALVIM

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Última estrela...* - ALBERTO CAEIRO

Última estrela a desaparecer antes do dia,
Pouso no teu trémulo azular branco os meus olhos calmos,
E vejo-te independentemente de mim,
Alegre pela vitória que tenho em poder ver-te
Sem «estado de alma» nenhum, salvo ver-te.
A tua beleza para mim está em existires.
A tua grandeza está em existires inteiramente fora de mim.

EM - POESIA - ALBERTO CAEIRO - ASSÍRIO & ALVIM

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Torpor - MIGUEL TORGA

Voga,
À tona do mar,
A tarde calma.
Sem alma,
Um corpo
Alonga-se na areia...
O sol, cadente, enleia
A luz cansada
À placidez das ondas...
Musa, se eu te chamar,
Deixa o som perpassar,
Não me respondas!

EM - POESIA COMPLETA VOL. II - MIGUEL TORGA - DOM QUIXOTE

domingo, 21 de outubro de 2012

Toante - MANUEL BANDEIRA

Molha em teu pranto de aurora as minhas mãos pálidas.
Molha-as. Assim eu as quero à boca,
Em espírito de humildade, como um cálice
De penitência em que a minhalma se faz boa...

Foi assim que Teresa de Jesus amou...
Molha em teu pranto de aurora as minhas mãos pálidas.
O espasmo é como um êxtase religioso...
E o teu amor tem o sabor das tuas lágrimas...

EM - ANTOLOGIA - MANUEL BANDEIRA - RELÓGIO D'ÁGUA

sábado, 20 de outubro de 2012

Marinha - VINICIUS DE MORAES

Na praia de coisas brancas
Abrem-se às ondas cativas
Conchas brancas, coxas brancas
          Águas-vivas.

Ao mergulhares do bando
Afloram perspectivas
Redondas, se aglutinando
          Volitivas.

E as ondas de pontas roxas
Vão e vêm, verdes e esquivas
Vagabundas, como frouxas
          Entre vivas!

EM -  ANTOLOGIA POÉTICA - VINICIUS DE MORAES - DOM QUIXOTE

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Conclusão - CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Os impactos de amor não são poesia
(tentaram ser: aspiração nocturna).
A memória infantil e o outono pobre
vazam no verso da nossa urna diurna.

Que é poesia, o belo? Não é poesia,
e o que não é poesia não tem fala.
Nem o mistério em si nem velhos nomes
poesia são: coxa, furta, cabala.

Então, desanimamos. Adeus, tudo!
A mala pronta, o corpo desprendido,
resta a alegria de estar só, e mudo.

De que se formam nossos poemas? Onde?
Que sonho envenenado lhes responde,
se o poeta é um ressentido, e o mais são nuvens?

EM - ANTOLOGIA POÉTICA - CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - RELÓGIO D'ÁGUA

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Explicação - CECÍLIA MEIRELES

O pensamento é triste; o amor, insuficiente;
e eu quero sempre mais do que vem nos milagres.
Deixo que a terra me sustente:
guardo o resto para mais tarde.

Deus não fala comigo - e eu sei que me conhece.
A antigos ventos dei as lágrimas que tinha.
A estrela sobe, a estrela desce...
- espero a minha própria vinda.

(Navego pela memória
sem margens.

Alguém conta a minha história
e alguém mata os personagens.)

EM - ANTOLOGIA POÉTICA - CECÍLIA MEIRELES - RELÓGIO D'ÁGUA

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Na rua - MANUEL LARANJEIRA

Ninguém por certo adivinha
como essa Desconhecida,
entre estes braços prendida,
jurava ser toda minha...

Minha sempre! - E em voz baixinha:
- «Tua ainda além da vida!...»
Hoje fita-me, esquecida
do grande amor que me tinha.

Juramos ser imortal
esse amor estranho e louco...
E o grande amor, afinal,

(Com que desprezo me lembro!)
foi morrendo pouco a pouco,
- como uma tarde de Setembro...

EM - POEMAS DE AMOR - ANTOLOGIA - DOM QUIXOTE

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Save - PEDRO MEXIA

Nada fica, a própria memória
é uma mitologia, tenho-me
como testemunha mas nada
garante que um dia não negue
tudo, então haverá este processo
verbal, museu portátil que com
um gesto, dizem, está salvo.

EM - MENOS POR MENOS - PEDRO MEXIA - DOM QUIXOTE

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Memória - MARIA TERESA HORTA

Retenho com os meus
dentes
a tua boca entreaberta

e as palmas das mãos
dormentes
resvalam brandas e certas

as tuas mãos no meu peito
a ao longo
das minhas pernas

EM - AS PALAVRAS DO CORPO - MARIA TERESA HORTA - DOM QUIXOTE

domingo, 14 de outubro de 2012

Das coisas que competem aos poetas - RUY BELO

Nas terras onde os sinos andam pelas ruas
há horas surdas sós e sem cuidados
há mar condicionado ao possível verão
e vendem-se manhãs e mães por três ideias
Nas terras onde a música é o fogo de artifício
a camioneta curva a carga sob os plátanos
e à sombra dos lacrimejantes carros
o gato dorme a trepadeira sobe
o soba grita nunca ninguém sabe
a erva cresce e as crianças morrem
O mar aceita chão a mão do sol
Que plural deplorável o da magna agência mogno
E nas tílias há riscos dos vestidos do retintas raparigas
e o dente resistente número quarenta cheira a pepsodent

EM -  TODOS OS POEMAS II - RUY BELO - ASSÍRIO & ALVIM

sábado, 13 de outubro de 2012

Sempre que penso...* - ALBERTO CAEIRO

Sempre que penso uma cousa, traio-a.
Só tendo-a diante de mim devo pensar nela,
Não pensando, mas vendo,
Não com o pensamento, mas com os olhos.
Uma cousa que é visível existe para se ver,
E o que existe para os olhos não tem que existir para o pensamento;
Só existe directamente para os olhos e não para o pensamento.

Olho, e as cousas existem.
Penso e existo só eu.

EM - POESIA - ALBERTO CAEIRO - ASSÍRIO & ALVIM

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Écloga - MIGUEL TORGA

Acaricio a relva
Dos teus cabelos...
É o bucolismo
Que me apetece:
Pousar a mão
Numa loira cabeça de criança,
E fruir esta tenra sensação
De bem-aventurança.

Paz sem remorsos, num vergel humano.
A verdura
E a frescura
Da inocência
Colhidas como os frutos, por um gesto.
E adiados, mudos de ternura,
Os versos de amargura
E de protesto.

EM - POESIA COMPLETA VOL. II - MIGUEL TORGA - DOM QUIXOTE

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Hiato - MANUEL BANDEIRA

És  na minha vida como um luminoso
Poema que se lê comovidamente
Entre sorrisos e lágrimas de gozo...

A cada imagem, outra alma, outro ente
Parece entrar em nós e manso enlaçar
A velha alma arruinada e doente...

- Um poema luminoso como o mar,
Aberto em sorrisos de espuma, onde as velas
Fogem como garças longínquas no ar...

EM - ANTOLOGIA - MANUEL BANDEIRA - RELÓGIO D'ÁGUA