sábado, 31 de agosto de 2013

Abraço - HELENA ISABEL

No reflexo do olhar
Na inocência da alma
Encontro a paz que...
Alegremente percorre o rio até à foz,
Detém-se nas ondas do mar,
Para a saborear lentamente.
Encontro a paz...
Na magia de um abraço que me faz acreditar
Que é no teu olhar, o meu lugar!

EM - MAR QUE ME ESCREVE - HELENA ISABEL - CHIADO EDITORA

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

É no momento... - MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA

É no momento que encerra a beleza de um gesto
que se prolonga a vida -

Na carne afeiçoada à mão apagam-se os sinais
de antigas fogueiras: o dilúvio do amor
veio lavar as cicatrizes deste mundo; e as pregas
de um rochedo que desafia o génio das marés
não lembram mais do que uma colcha amarrotada.

Agora, pode pintar-se o retrato do vento
no esquadro da janela. O tempo não se mexe.
A vida, por um instante, é enorme.

EM - POESIA REUNIDA - MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA - QUETZAL

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Quarto interior - FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO

Na cómoda algumas gavetas
com os caprichosos guinchos da madeira
não só entoavam sons como aspergiam
o ar de antiquíssima alfazema.
Moviam-se devagar para o regaço,
aceitavam escassamente a luz,
gemiam até estacarem abertas
e exalarem
por fim a plena
onda de aroma.

EM - ÂMAGO - FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO - ASSÍRIO & ALVIM

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Ciúmes - VERA SOUSA SILVA

Impiedosamente lanças o grito
e destróis-me com a vaidade
do teu ego desmedido,
lançando olhares e gentilezas,
palavras e graças
que m'atraiçoam.

Enquanto ardo na fogueira
que ateei com despeito,
rogo para que as chamas
te queimem o orgulho
e que os desvios dos caminhos
te tragam tão somente a mim.

A cegueira que m'atinge
levanta o punhal
e crava-to no peito!

EM - BIPOLARIDADES - VERA SOUSA SILVA - LUA DE MARFIM

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Canção entregue ao nada - NATÁLIA CORREIA

Hoje venho oferecer esta tristeza às coisas
No gesto esquivo de não as desejar.
Pôs em minha alma como o sol nas frias lousas
A vida o gosto de esplandecer em recusar.

São-me alheias estas margens onde corre
O destino que aos dados aos deuses eu lancei.
O que me dói é ver que tudo morre
Noutras mãos em gestos que tracei.

EM - POESIA COMPLETA - NATÁLIA CORREIA - DOM QUIXOTE

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

A rapariga e a praia - SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

Uma rapariga vai como uma espiga
São cor de areia suas pernas finas
Seu íris é azul verde e cinzento

Uma rapariga vai como uma espiga
Carnal e cereal intacta cerrada
Mas nela enterra sua faca o vento

E tudo espalha com suas mãos o vento

EM - MAR - SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN - CAMINHO

domingo, 25 de agosto de 2013

Colaboradores - NATÉRCIA FREIRE

Gosto de ler as cartas dos poetas.
Algumas dizem pouco. Quase nada...

Um lívido circuito nas roseiras
das letras... Às vezes sol
Fugindo entre águias pretas
A Dor que se adivinha sob
As unhas rosadas
Que influem no papel e nas canetas.

EM - ANTOLOGIA POÉTICA - NATÉRCIA FREIRE - ASSÍRIO & ALVIM 

sábado, 24 de agosto de 2013

Esperança - MIGUEL TORGA

Quero que sejas
A última palavra
Da minha boca.
A mortalha de sol
Que me cubra e resuma.
Mas como à despedida só há bruma
No entendimento,
E o próprio alento
Atraiçoa a vontade,
Grito agora o teu nome aos quatro ventos.
Juro-te, enquanto posso, lealdade
Por toda a vida e em todos os momentos.

EM - POESIA COMPLETA VOL.II - MIGUEL TORGA - DOM QUIXOTE

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Bolor - CARLOS DE OLIVEIRA

Os versos
que te digam
a pobreza que somos,
o bolor
nas paredes
deste quarto deserto,
o orvalho da amargura
na flor
de cada sonho
e o leito desmanchado
o peito aberto
a que chamaste
amor.

EM - POEMAS DE AMOR - ANTOLOGIA - DOM QUIXOTE

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Viagem - EUGÉNIO DE ANDRADE

Iremos juntos separados,
as palavras mordidas uma a uma,
taciturnas, cintilantes
- ó meu amor, constelação de bruma,
ombro dos meus braços hesitantes.
Esquecidos, lembrados, repetidos
na boca dos amantes que se beijam
no alto dos navios;
desfeitos ambos, ambos inteiros,
no rasto dos peixes luminosos,
afogados na voz dos marinheiros.

EM - AS PALAVRAS INTERDITAS/ATÉ AMANHÃ - EUGÉNIO DE ANDRADE - ASSÍRIO & ALVIM

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

E depois isto - PEDRO MEXIA

Um delirium tremens, o sublime estático
e visível, o espaço cada vez maior
entre as paredes, a escrita do mundo,
o sólido ar crescendo, o diferente azul
da noite, um pulso iluminado, uma quarta-feira
iridescente, a porta por onde se torna
a passar, uma venda onde os olhos
transbordam, um veleiro imprevisto,
a contagem decrescente do fôlego, a proximidade
em saltos sucessivos, um fino crepúsculo,
a neve que no corpo principia,

e depois isto, o contrário de tudo.

EM - MENOS POR MENOS - PEDRO MEXIA - DOM QUIXOTE

terça-feira, 20 de agosto de 2013

inferno - AL BERTO

na suave asa do grito reflecte-se o lume
comestível do tempo - a mão transformada
em polvo sacode a erva seca no sangue
da manhã

eis o mundo feérico das feridas incuráveis
o inferno
mesmo quando dormes gemes abandonado
ao estertor da chuva na vidraça e ao vento
que dança na persiana

não saberás nunca da rua metamorfose
em pantera aérea - vou proibir que te passeies
por cima dos sentimentos e dos móveis

e que te vingues
do hábil sedutor das feras

EM - HORTO DE INCÊNDIOS - AL BERTO - ASSÍRIO & ALVIM 

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

A vida - FLORBELA ESPANCA

É vão o amor, o ódio, ou o desdém;
Inútil o desejo e o sentimento...
Lançar um grande amor aos pés de alguém
O mesmo é que lançar flores ao vento!

Todos somos no mundo «Pedro Sem»,
Uma alegria é feita dum tormento,
Um riso é sempre o eco dum lamento,
Sabe-se lá um beijo de onde vem!

A mais nobre ilusão morre... desfaz-se...
Uma saudade morta em nós renasce
Que no mesmo momento é já perdida...

Amar-te a vida inteira eu não podia.
A gente esquece sempre o bem de um dia.
Que queres, meu amor, se é isto a vida!...

EM - SONETOS - FLORBELA ESPANCA - BERTRAND

domingo, 18 de agosto de 2013

Quem a tem... - JORGE DE SENA

Não hei-de morrer sem saber
qual a cor da liberdade.

Eu não posso senão ser
desta terra em que nasci.
Embora ao mundo pertença
e sempre a verdade vença,
qual será ser livre aqui,
não hei-de morrer sem saber.

Trocaram tudo em maldade,
é quase um crime viver.
Mas, embora escondam tudo
e me queiram cego e mudo,
não hei-de morrer sem saber
qual a cor da liberdade.

EM - ANTOLOGIA POÉTICA - JORGE DE SENA - GUIMARÃES

sábado, 17 de agosto de 2013

Violetas - DOMINGOS MONTEIRO



Violeta! penso eu
Que não há outra mais bela;
Tens a graça da donzela,
Da donzela, que morreu...

Virgem tombada do céu,
As tuas folhas escuras,
São rosários d'amarguras
São a noite que desceu...

Nossa Senhora das Dores
Quando lhe cingem com flores
Suas vestes de brocado,

Com seu olhar que adormece,
O seu vestido parece,
De violetas talhado.

EM - POESIA - DOMINGOS MONTEIRO - INCM

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Recordações de uma ingrata - MANUEL MARIA BARBOSA DU BOCAGE

Inda em meu frágil coração fumega
A cinza desse fogo em que ele ardia;
A memória da tua aleivosia
Meu sossego inda aqui desassossega:

A vil traição, que as almas nos despega,
Não tem cabal poder na simpatia;
Gasta o mar importuno a rocha fria,
Melhor que o desengano a paixão cega:

Bem como o flavo sol, que a terra abraça,
Por mais que o veja densamente oposto,
Atraído vapor fere, e repassa:

Tal, para misturar gosto e desgosto,
Na sombra de teus crimes brilha a graça,
Com que o pródigo céu criou teu rosto.

EM - ANTOLOGIA POÉTICA - BOCAGE - VERBO

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Espectros - ANTERO DE QUENTAL

Espectros que velais, enquanto a custo
Adormeço um momento, e que inclinados
Sobre os meus sonos curtos e cansados
Me encheis as noites de agonia e susto!...

De que me vale a mim ser puro e justo,
E entre combates sempre renovados
Disputar dia a dia à mão dos Fados
Uma parcela do saber augusto.

Se a minh'alma há-de ver, sobre si fitos,
Sempre esses olhos trágicos, malditos!
Se até dormindo, com angústia imensa,

Bem os sinto verter sobre o meu leito,
Uma a uma verter sobre o meu peito
As lágrimas geladas da descrença!

EM - SONETOS - ANTERO DE QUENTAL - ULMEIRO

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Se meu desejo... - ANTÓNIO FERREIRA

Se meu desejo só é sempre ver-vos,
Que causará, senhora, que em vos vendo
Assi me encolho logo, e arrependo,
Que folgaria então poder esquecer-vos?

Se minha glória só é sempre ter-vos
No pensamento meu, porque em querendo
Cuidar em vós, se vai entristecendo?
Nem ousa meu espírito em si deter-vos?

Se por vós só a vida estimo, e quero,
Como por vós a morte só desejo?
Quem achará em tais contrários meio?

Não sei entender o que em mim mesmo vejo.
Mas que tudo é amor, entendo, e creio.
E no que entendo, e creio, nisso espero.

EM - CASTRO E POEMAS LUSITANOS - ANTÓNIO FERREIRA - VERBO

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Cinzas - JAIME CORTESÃO

Como um largo perfume rescendente
Que exala oculta flor, o seio abrindo,
Assim nasce de vós e vai subindo
O puro aroma, o hálito crescente...

Certa branda virtude se pressente
Na figura, no olhar, no gesto lindo,
E ainda mais na voz... murmúrio infindo,
Piedoso, suavíssimo, dormente.

Mas traz-me esse perfume, quando a sós,
O sonho doutro tempo; eu desvario,
Gelado e peito no desejo atroz: -

Morrer a pouco e pouco desse frio,
Enquanto lentamente a tua voz
Derivasse num fino e breve fio...

EM - POESIA - JAIME CORTESÃO - INCM

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Inspiro a manhã - EDUARDO ALEIXO

Quando era mais novo deitava-me tarde
E respirava o ar dengoso da noite.
Agora, levanto-me cedo,
Inspiro a frescura da manhã,
E rejubilo com o cantarolar dos pássaros.

EM - OS CAMINHOS DO SILÊNCIO- EDUARDO ALEIXO - CHIADO EDITORA