sábado, 20 de setembro de 2014

Viva - ANA CASANOVA

Não sentir a mágoa
a revolta, a dor
Quem chega a esse estágio
atinge um plano superior
"Sou o que quero Ser"
Percorrendo caminhos
de becos, encruzilhadas
estradas tortuosas
onde bocas maldosas nos espreitam
corações duros, fechados
mentes empedernidas...
Percorrendo caminhos
sentindo as pancadas maldosas
mas Viva!
Enquanto os algozes
apodrecem sentados
vendo a vida passar.

EM - PINTURAS POÉTICAS - ANA CASANOVA - TEMAS ORIGINAIS

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Fundação de Roma - RUY BELO

Grande te chamo cidade. Ainda há
o espaço em ti de um domingo
para as folhas caírem
Talvez até
com o gládio do espírito eu possa
rasgar à tua volta um areal de silêncio
onde o sol ilumine os cristais dos meus dias

jerusalém é o teu nome cidade

EM - TODOS OS POEMAS I - RUY BELO - ASSÍRIO & ALVIM

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Dormes - MIA COUTO

Dormes.
Não há no mundo senão teu rosto.

O céu sob o tecto
espera comigo que despertes.

O meu único relógio
é a sombra imóvel no chão do quarto.

A curva da terra
em tua pálpebra desenhada:
no teu sono me embalas.

Dormes-me.

EM - TRADUTOR DE CHUVAS - MIA COUTO - CAMINHO

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Mas dia a dia* - RICARDO REIS

Mas dia a dia
Com lapso gradual vai hora a hora
A vida vã tornando-se mais fria,
Vai descorando a face,
E a alma, acompanhando

Ah, saibamos mostrar
À vida a força de a aceitar,
Indiferentes tanto
Ao riso como ao pranto,
E, spectadores de nós próprios, nada
Na nossa consciência elucidada.

EM - POESIA - RICARDO REIS - ASSÍRIO & ALVIM

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Adagietto - DAVIS MOURÃO-FERREIRA

Fujo de mim   Atinjo-me adiante
nesta sombra enlaçada com a tua
nesta garra de fumo que se expande
mas que vai colocar-te na cintura

um cilício de cílios todo em sangue
uma teia de esperma toda espuma

Fujo de mim   Ou só do que me atinge
nesta sombra que nunca te abandona
neste banho de incandescente cinza
onde à noite mergulha a tua roupa

E é uma festa dos fins dos anos Vinte
E serve-se em redor leite de loba

EM - MATURA IDADE - DAVID MOURÃO-FERREIRA - ARCÁDIA

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Inquietude - CECÍLIA VILAS BOAS

Ouço-te silêncio.
Diz-me o que sinto
O que anseio
O que me sufoca!

Esta inquietude permanente
Sem razão aparente de ser
O vazio profundo
Do querer e não querer.

Estou aqui
Vou, não sei onde
De onde venho, não recordo!

Nas horas do desencontro
Fecho as pálpebras da vida
Perfumo de tomilho a alma
E parto, nas pétalas dos lírios brancos.

EM - O ECO DO SILÊNCIO - CECÍLIA VILAS BOAS - ESFERA DO CAOS

domingo, 14 de setembro de 2014

Olhos - SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

É fácil desenhar olhos que divagam
Pelo quadro todo
Mas só até ao instante em que se tornam
Os que vão à proa do barco

Olho do piloto fito
No real
Atento
À rota nunca recta

EM - ANTOLOGIA MAR - SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN - CAMINHO

sábado, 13 de setembro de 2014

Se... - ROSAMAR

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA AUTORA

Se existem lágrimas
seriam
para matar a sede
da boca...

Se existissem rosas
beijariam,
incansavelmente,
os pés...

Se existisse tempo
seria para acelerar
o fim
do sofrimento...

Se houvesse Deus
abrir-lhe-ia
os
olhos...

Adormeceu...

A sede
a fome,
matam
os filhos
do céu

EM - POVO DE NOVO - ROSAMAR - EDIÇÃO DE AUTOR

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Se o vires... - MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA

Se o vires, diz-lhe que o tempo dele não passou;
que me sento na cama, distraída, a dobrar demoras
e, sem querer, talvez embarace as linhas entre nós.
Mas que, mesmo perdendo o fio da meada por
causa dos outros laços que não desfaço, sei que o
amor dá sempre o novelo melhor da sua mão. Se

o encontrares, diz-lhe que o tempo dele não passou;
que só me atraso outra vez, e ele sabe que me atraso
sempre, mas não demais; e que os invernos que ele
não gosta de contar, mas assim mesmo conta que nos
separam, escondem a minha nuca na gola do casaco,
mas só para guardar os beijos que me deu. Se o vires,

diz-lhe que o tempo dele não passa, fica sempre.

EM - POESIA REUNIDA - MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA - QUETZAL

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Perseguição - RUY CINATTI

Caio de bruços e no alto uivam
os cães do céu e uma nívea nuvem.
O que oiço, lento, desfaz-se em soluços
e um rio corre e um homem discorre
absorto no seu denso pensamento.
Longe, na terra, outros cães perseguem
no vento a alma e o homem treme e morre,
de frente sorrindo ao mistério da vida!...

EM - 56 POEMAS - RUY CINATTI - RELÓGIO D'ÁGUA

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Na fronteira do sono... - ANTÓNIO GIL

Na fronteira do sono, às vezes uma ou outra palavra, um ou outro verso, saltavam do escuro como faúlha imprevista ou rasto de estrela cadente: a sua luz intensa, fazia-me cair para o lado da vigília...

... e logo depois todo o processo se reiniciava: lento mergulhar, súbita emersão...

o corpo roçando o caule espinhoso, jurava desfolhar a rosa da insónia até desfazer a última pétala de trevas...

EM - OBRA AO RUBRO - ANTÓNIO GIL - LUA DE MARFIM

terça-feira, 9 de setembro de 2014

A escolha das palavras - ANTÓNIO MR MARTINS

Andam palavras à solta
pelo trem do pensamento,
expressando sua revolta
em salpicos soltos ao vento.

Desfilam no seu percurso
por entre cada estação,
esperando pelo seu uso
mesmo sendo à condição.

Se as palavras têm alma
respiram se as escrevem
no verso que as acolhe.

Uma ríspida, outra calma
são as certas se merecem
enlevo de quem as recolhe.

EM - MARGEM DO SER - ANTÓNIO MR MARTINS - TEMAS ORIGINAIS

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Acordar tarde - AL BERTO

tocas as flores murchas que alguém te ofereceu
quando o rio parou de correr e a noite
foi tão luminosa quanto a mota que falhou
a curva - e o serviço postal não funcionou
no dia seguinte

procuras ávido aquilo que o mar não devorou
e passas a língua na cola dos selos lambidos
por assassinos - e a tua mão segurando a faca
cujo gume possui a fatalidade do sangue contaminado
dos amantes ocasionais - nada a fazer

irás sozinho vida dentro
os braços estendidos como se entrasses na água
o corpo num arco de pedra tenso simulando
a casa
onde me abrigo do mortal brilho do meio-dia

EM - HORTO DE INCÊNDIO - AL BERTO - ASSÍRIO & ALVIM 

domingo, 7 de setembro de 2014

Esta noite - JORGE GOMES MIRANDA

Não me fales como se eu estivesse só,
envolto em celofane,
qual uma angústia ou um riso.
Não me fales como se pelas ruas
da tua cidade de província
passasse uma companhia de circo itenerante
e eu fosse aquele que arruma os adereços
entre cada actuação.

Fala-me como se eu fosse um muro
no recreio da escola
e chegasses tu, spray na mão,
e o cobrisses de sinais, traços, nomes
obscenos.
Fala-me como se diante dos teus olhos
solares e teatrais
esta noite eu fosse o acrobata ou o domador de leões.

EM - ESTE MUNDO, SEM ABRIGO - JORGE GOMES MIRANDA - RELÓGIO D'ÁGUA

sábado, 6 de setembro de 2014

Tristão da Cunha - VITOR CINTRA

Fidalgo, explorador e cavaleiro,
Do rei Dom Manuel de Portugal,
Da Índia, vice-rei foste o primeiro,
Embora sem saúde para tal.

Mais tarde, quando já recuperado,
O rei te confiou a grande frota,
Ousaste entrar em mar inavegado,
Traçando, co'o teu feitio, nova rota.

E, dando ao arquipélago o teu nome,
Tomaste, então, o rumo do canal,
Aonde abastecer-se era normal.

Embora muita inveja dimensione,
O feito, de modesto para o mapa,
O rei fez-te enviado, seu, ao Papa.

EM - ROMEIROS DOS OCEANOS - VITOR CINTRA - LUA DE MARFIM

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

A letra escarlate - MARIA ANDRESEN

Usarei a Letra porque assim me fiz
no ar rarefeito, no sacudir do vento

o meu rosto será pacífico e sem pactos

não rogarei um lugar no coração do sítio
respiro como se eu própria criasse um ar

de acidez e frio

e um grande dia nasce
neste encorpar de Março

EM - LUGARES, 3 - MARIA ANDRESEN - RELÓGIO D'ÁGUA

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Litania - EUGÉNIO DE ANDRADE

O teu rosto inclinado pelo vento;
a feroz brancura dos teus dentes;
as mãos, de certo modo, irresponsáveis,
e contudo sombrias, e contudo transparentes;

o triunfo cruel das tuas pernas,
colunas em repouso se anoitece;
o peito raso, claro, feito de água;
a boca sossegada onde apetece

navegar ou cantar, ou simplesmente ser
a cor de um fruto, o peso de uma flor;
as palavras mordendo a solidão,
atravessadas de alegria e de terror;

são a grande razão, a única razão.

EM - AS PALAVRAS INTERDITAS/ATÉ AMANHÃ - EUGÉNIO DE ANDRADE - ASSÍRIO & ALVIM

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

45 - CAMILO PESSANHA

Desce enfim sobre o meu coração
O olvido. Irrevocável. Absoluto.
Envolve-o grave como um véu de luto.
podes, corpo, ir dormir no teu caixão.

A fronte já sem rugas, distendidas
As feições, na imortal serenidade,
Dorme enfim sem desejo e sem saudade
Das coisas não logradas ou perdidas.

O barro que em quimera modelaste
Quebrou-se-te nas mãos. Viça uma flor,
Pões-lhe o dedo, ei-la murcha sobre a haste...

Ias andar, sempre fugia o chão,
Até que desvairavas, do terror.
Corria-te um suor, de inquietação...

EM - CLEPSYDRA - CAMILO PESSANHA - RELÓGIO D'ÁGUA

terça-feira, 2 de setembro de 2014

III - JESÚS RECIO BLANCO

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELO AUTOR

Fita p'ra mim o relógio.
E nesse olhar desalmado,
dou por mim que não tem olhos,
que o tempo está a ser pensado.

E desse pensar calado
surgem sombras, todavia.
Parecem barcos alados,
são palavras fugidias.

As horas passam sem pressa,
o tempo não faz sentido.
Fico preso à minha mesa,
a esperar pelos navios.

EM - CADENZAS - JESÚS RECIO BLANCO - CHIADO EDITORA

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Renascimento - JAIME CORTESÃO

Nasci de novo. Eis-me liberto enfim!
Foi por um Céu, d'estrelas todo cheio,
Numa visão de Amor, que um Anjo veio
Descendo até poisar ao pé de mim.

O beijo que me deu não teve fim...
Apertou-me nos braços contra o seio,
Abriu os lábios, segredando... e a meio
Bateu as asas e levou-me assim.

Ai! como é doce o seio que me embala!
E como tudo é novo e mais profundo!...
Mas já nenhum de vós me entende a fala;

Noutro Mundo melhor eu vivo absorto,
E logo conheci que a esse Mundo
Que vai não volta, ou, quando volta, é morto!

EM - POESIA - JAIME CORTESÃO - INCM