Está, então, completo
o instante de serenidade
e de silêncio da
estátua?
Completas as miríades de palavras
sem o corpo
que agora, delas, se demite?
E acaso não se terá demitido sempre
expulsando o espectro
das palavras suaves que não afirmam
nem negam
nem se desacreditam?
Das palavras exaustas
e definitivas?
Repara no que lhes anula
o ímpeto: o vigor da entrega da criança
sozinha e suicida; e diz-me
por que a privaste, paixão perversa,
de cortar a própria língua?
EM - NÃO ME MORRAS - EDUARDA CHIOTE - &ETC
domingo, 20 de fevereiro de 2011
sábado, 19 de fevereiro de 2011
Postal alentejano - JOSÉ ANTÓNIO ALMEIDA
A planura pode ser a montanha
da grande solidão de ervas amargas
- figo doce, castanha, vinho novo.
Anta, cromeleque, fogo de freira
sem cavaleiro, brasa prisioneira
ardendo sem se ver nem deitar fumo.
Infância, adolescência - e velhice:
o que depois e antes mesmo já
tresanda pela boca da macaca.
EM - OBSESSÃO - JOSÉ ANTÓNIO ALMEIDA - &ETC
da grande solidão de ervas amargas
- figo doce, castanha, vinho novo.
Anta, cromeleque, fogo de freira
sem cavaleiro, brasa prisioneira
ardendo sem se ver nem deitar fumo.
Infância, adolescência - e velhice:
o que depois e antes mesmo já
tresanda pela boca da macaca.
EM - OBSESSÃO - JOSÉ ANTÓNIO ALMEIDA - &ETC
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
Pudesse o meu corpo... - VERA L. T. SANTOS
Pudesse o meu corpo cantar o mundo
ou as janelas dos teus seios
entreabertos para a rua.
Pudesse o meu corpo cantar o mundo
e, talvez,
dentro de mim se desprendessem as aves
tão vivas
como flores que se abrigam no teu rosto.
EM - CARDIO.GRAFIA - VERA L. T. SANTOS - TEMAS ORIGINAIS
quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011
Na linha de Céline - DINIS H. G. NUNES
atravessei-me nas travessias da noite e não estou arrependido
porque vim ao mundo para me perder e aos meus sentidos
deste mundo surdo cego mudo frio e cru
simulo a morte para que um dia não a estranhe
e a receba em minha casa
porque quem fez da vida repartição pública
e nunca desejou ter alma de convento
passou por cá mas não soube
o terreno sacro que estava a pisar, inadvertidamente.
EM - AVRYL - DINIS H. G. NUNES - POPSUL
porque vim ao mundo para me perder e aos meus sentidos
deste mundo surdo cego mudo frio e cru
simulo a morte para que um dia não a estranhe
e a receba em minha casa
porque quem fez da vida repartição pública
e nunca desejou ter alma de convento
passou por cá mas não soube
o terreno sacro que estava a pisar, inadvertidamente.
EM - AVRYL - DINIS H. G. NUNES - POPSUL
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
Sala provisória - INÊS LOURENÇO
Nunca se sabe
quando estamos num lugar
peça última vez. Numa casa
que vai ser demolida, numa sala
provisória que vai encerrar, num velho
café que mudará de ramo, como
página virada jamais reaberta, como
canção demasiado gasta, como
abraço tornado irrepetível, numa
porta a que não voltaremos.
EM - COISAS QUE NUNCA - INÊS LOURENÇO - &ETC
quando estamos num lugar
peça última vez. Numa casa
que vai ser demolida, numa sala
provisória que vai encerrar, num velho
café que mudará de ramo, como
página virada jamais reaberta, como
canção demasiado gasta, como
abraço tornado irrepetível, numa
porta a que não voltaremos.
EM - COISAS QUE NUNCA - INÊS LOURENÇO - &ETC
terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
E os anos passam... - ANTÓNIO BOAVIDA PINHEIRO
Aos dez anos és um garoto,
Ainda em casa dos pais,
Mas aos quinze, seu maroto,
Já pensas em coisas tais...
Quando aos vinte mais afoito
Pensas saber para onde vais,
Aos trinta; trinta e oito,
Aos cinquenta muito mais.
Aos sessenta te reformas,
E aos setenta já não tornas
A fazer grandes planos,
E se aos oitenta chegares,
Já com poucos dos teus pares,
Tu serás um veterano...
Em - CEM POEMAS... DIVERSOS - ANTÓNIO BOAVIDA PINHEIRO - TEMAS ORIGINAIS
Ainda em casa dos pais,
Mas aos quinze, seu maroto,
Já pensas em coisas tais...
Quando aos vinte mais afoito
Pensas saber para onde vais,
Aos trinta; trinta e oito,
Aos cinquenta muito mais.
Aos sessenta te reformas,
E aos setenta já não tornas
A fazer grandes planos,
E se aos oitenta chegares,
Já com poucos dos teus pares,
Tu serás um veterano...
Em - CEM POEMAS... DIVERSOS - ANTÓNIO BOAVIDA PINHEIRO - TEMAS ORIGINAIS
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
A respiração das pedras - EDUARDO ALEIXO
Há o momento
Do rasgão aberto
Na saia do tempo
Em que disponíveis
Sem o sabermos
Sentimos a respiração das pedras
E as carícias do vento...
São as musas?!
Eu diria:
- Não sei o que aconteceu!
Só sei que as velhas palavras
Cantam de um modo diferente
Como se dissessem
Coisas novas!...
EM - AS PALAVRAS SÃO DE ÁGUA - EDUARDO ALEIXO - CHIADO EDITORA
Do rasgão aberto
Na saia do tempo
Em que disponíveis
Sem o sabermos
Sentimos a respiração das pedras
E as carícias do vento...
São as musas?!
Eu diria:
- Não sei o que aconteceu!
Só sei que as velhas palavras
Cantam de um modo diferente
Como se dissessem
Coisas novas!...
EM - AS PALAVRAS SÃO DE ÁGUA - EDUARDO ALEIXO - CHIADO EDITORA
domingo, 13 de fevereiro de 2011
5 - GLEIDSTON CÉSAR
No indelével da vida nada mais podemos fazer
Seguir é o provável. Perdoar será sagrado
Para viver liberto de todos os caminhos falhados
Na falha, no insucesso e perdas, o que
Vale é que amanhã tudo pode ser
Vitoria se errar é poder acertar
Que amanhã eu seja o sucesso
Das minhas filhas.
EM - OS SENTIMENTOS POR DETRÁS DAS PALAVRAS - GLEIDSTON CÉSAR - TEMAS ORIGINAIS
Seguir é o provável. Perdoar será sagrado
Para viver liberto de todos os caminhos falhados
Na falha, no insucesso e perdas, o que
Vale é que amanhã tudo pode ser
Vitoria se errar é poder acertar
Que amanhã eu seja o sucesso
Das minhas filhas.
EM - OS SENTIMENTOS POR DETRÁS DAS PALAVRAS - GLEIDSTON CÉSAR - TEMAS ORIGINAIS
sábado, 12 de fevereiro de 2011
nem sempre resiste a chama ao vento - GONÇALO B. DE SOUSA
nem sempre resiste a chama ao vento
e, de súbito, apaga-se,
deixando-nos os sentidos mergulhados
na treva primordial, terrível,
nesse intervalo em que a dor é tão grande,
que nem a luz a suporta.
EM - CANÇÃO DO EXÍLIO - GONÇALO B. DE SOUSA - TEMAS ORIGINAIS
e, de súbito, apaga-se,
deixando-nos os sentidos mergulhados
na treva primordial, terrível,
nesse intervalo em que a dor é tão grande,
que nem a luz a suporta.
EM - CANÇÃO DO EXÍLIO - GONÇALO B. DE SOUSA - TEMAS ORIGINAIS
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
Agreste eclosão...* - ANTÓNIO RAMOS ROSA
Agreste eclosão entre os órgãos de argila
e os navios brancos de inércia deambulante
à luz da pedra vêem-se os rumores
e o ouro e o verde da serena fluidez
Sem pálpebras é o alvo na longínqua paisagem
A palavra segue a sombra cintilante
da serva das serpentes. O insignificante
é o repouso insular nas toalhas do vento
EM - DELTA/PELA PRIMEIRA VEZ - ANTÓNIO RAMOS ROSA - QUETZAL
e os navios brancos de inércia deambulante
à luz da pedra vêem-se os rumores
e o ouro e o verde da serena fluidez
Sem pálpebras é o alvo na longínqua paisagem
A palavra segue a sombra cintilante
da serva das serpentes. O insignificante
é o repouso insular nas toalhas do vento
EM - DELTA/PELA PRIMEIRA VEZ - ANTÓNIO RAMOS ROSA - QUETZAL
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
O máximo detalhe acerca de... - EDUARDA CHIOTE
Dar-te-ei detalhes minuciosos
do que, e violento, na palavra
a ambos distancia - tu crias, através dela,
a ilusão de que os desacordos são,
meu sabedor de véus e doces lábios,
o que em verdade, ao invés de separar,
nos une.
Dizes amor de cada vez que amor
em pura arte e empenho assim
o enuncias
e sem acreditá-lo e sem mentir o finges.
E sem te aperceberes de como a desmesura
da morte
lhe reduz a chama
até à inerte vibração
das cinzas.
EM - NÃO ME MORRAS - EDUARDA CHIOTE - &ETC
do que, e violento, na palavra
a ambos distancia - tu crias, através dela,
a ilusão de que os desacordos são,
meu sabedor de véus e doces lábios,
o que em verdade, ao invés de separar,
nos une.
Dizes amor de cada vez que amor
em pura arte e empenho assim
o enuncias
e sem acreditá-lo e sem mentir o finges.
E sem te aperceberes de como a desmesura
da morte
lhe reduz a chama
até à inerte vibração
das cinzas.
EM - NÃO ME MORRAS - EDUARDA CHIOTE - &ETC
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011
A palavra - JOSÉ ANTÓNIO ALMEIDA
Mastiga a palavra da vergonha:
faz do fel compota de morango.
O segredo branco e vermelho,
grita nu por cima do telhado.
Das vogais e consoantes faz
o fio de prumo da tua vida.
EM - OBSESSÃO - JOSÉ ANTÓNIO ALMEIDA - &ETC
faz do fel compota de morango.
O segredo branco e vermelho,
grita nu por cima do telhado.
Das vogais e consoantes faz
o fio de prumo da tua vida.
EM - OBSESSÃO - JOSÉ ANTÓNIO ALMEIDA - &ETC
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
Quando tu partires - VERA L. T. SANTOS
Quando tu partires
devolve-me,
sem pressa,
o meu regresso
o cheiro a menta fresca das manhãs
a dor de todas as coisas
secretamente vivas.
EM - CARDIO.GRAFIA - VERA L. T. SANTOS - TEMAS ORIGINAIS
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
Improvável poeta - DINIS H. G. NUNES
não tenho sono mas insónia de morte
não quero ser apanhado à toa
sem b.i., salvo-conduto ou passaporte
e depois, como faço a última viagem indocumentado?
quero passar-te uma procuração irrevogável para a vida
com reserva de usufruto para a eternidade:
creio ser poeta por desventura, importas-te?
EM - AVRYL - DINIS H. G. NUNES - POPSUL
não quero ser apanhado à toa
sem b.i., salvo-conduto ou passaporte
e depois, como faço a última viagem indocumentado?
quero passar-te uma procuração irrevogável para a vida
com reserva de usufruto para a eternidade:
creio ser poeta por desventura, importas-te?
EM - AVRYL - DINIS H. G. NUNES - POPSUL
domingo, 6 de fevereiro de 2011
Arte de não ser - INÊS LOURENÇO
A extinta arte de ser rosa,
a inútil arte de ser cardo, ou
numa espécie de dúbia liberdade, a
difícil arte de não-ser, nem
umas coisas nem outras.
EM - COISAS QUE NUNCA - INÊS LOURENÇO - &ETC
a inútil arte de ser cardo, ou
numa espécie de dúbia liberdade, a
difícil arte de não-ser, nem
umas coisas nem outras.
EM - COISAS QUE NUNCA - INÊS LOURENÇO - &ETC
sábado, 5 de fevereiro de 2011
Desilusão... - ANTÓNIO BOAVIDA PINHEIRO
Não... não me queixo da vida,
Pudera eu voltar atrás,
Para à mesma dar guarida
De forma mais eficaz.
certas coisas, à partida
Que importância já não dás.
Coisas e causas perdidas,
Foram feitas, já não faz...
É qu'em certas circunstâncias
Certas coisas de importância,
Da importância que já tive...
Vem depois desilusão...
Com razão ou sem razão,
Por ter sido tão "naíve"...
Em - CEM POEMAS... DIVERSOS - ANTÓNIO BOAVIDA PINHEIRO - TEMAS ORIGINAIS
Pudera eu voltar atrás,
Para à mesma dar guarida
De forma mais eficaz.
certas coisas, à partida
Que importância já não dás.
Coisas e causas perdidas,
Foram feitas, já não faz...
É qu'em certas circunstâncias
Certas coisas de importância,
Da importância que já tive...
Vem depois desilusão...
Com razão ou sem razão,
Por ter sido tão "naíve"...
Em - CEM POEMAS... DIVERSOS - ANTÓNIO BOAVIDA PINHEIRO - TEMAS ORIGINAIS
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
Eternamente sábios - EDUARDO ALEIXO
Há homens e mulheres que bebem
A eternidade dos momentos.
Têm os olhos abertos
E atentos.
Vivem encantados,
Sorriem
E choram
Com a mesma facilidade.
Eternamente crianças,
São os únicos adultos sábios.
EM - AS PALAVRAS SÃO DE ÁGUA - EDUARDO ALEIXO - CHIADO EDITORA
A eternidade dos momentos.
Têm os olhos abertos
E atentos.
Vivem encantados,
Sorriem
E choram
Com a mesma facilidade.
Eternamente crianças,
São os únicos adultos sábios.
EM - AS PALAVRAS SÃO DE ÁGUA - EDUARDO ALEIXO - CHIADO EDITORA
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
4 - GLEIDSTON CÉSAR
Passos certeiros ainda perdidos
Vida vivida sem um vintém
Olhos inundados e infância perdida
Sou meu maior fracasso diante da maior
Perda de mim. Mesmo os caminhos que se
Cruzam a seguir são meus, teus, nossos e
Vossos
Na perda dos encontros, tudo que não se perde
É o que melhor se ganha, sem nenhuma pretensão
Ou todos os passos seriam sucesso.
EM - OS SENTIMENTOS POR DETRÁS DAS PALAVRAS - GLEIDSTON CÉSAR - TEMAS ORIGINAIS
Vida vivida sem um vintém
Olhos inundados e infância perdida
Sou meu maior fracasso diante da maior
Perda de mim. Mesmo os caminhos que se
Cruzam a seguir são meus, teus, nossos e
Vossos
Na perda dos encontros, tudo que não se perde
É o que melhor se ganha, sem nenhuma pretensão
Ou todos os passos seriam sucesso.
EM - OS SENTIMENTOS POR DETRÁS DAS PALAVRAS - GLEIDSTON CÉSAR - TEMAS ORIGINAIS
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
Despondency - ANTERO DE QUENTAL
Deixá-la ir, a ave a quem roubaram
Ninho e filhos e tudo, sem piedade...
Que a leve o ar sem fim da soledade
Onde as asas partidas a levaram...
Deixá-la ir a vela, que arrojaram
Os tufões pelo mar, na escuridade,
Quando a noite surgiu da imensidade,
Quando os ventos do Sul se levantaram...
Deixá-la ir, a alma lastimosa,
Que perdeu fé e paz e confiança,
À morte queda, à morte silenciosa...
Deixá-la ir, a nota desprendida
Dum canto extremo... e a última esperança...
E a vida... e o amor... deixá-la ir, a vida!
EM - SONETOS - ANTERO DE QUENTAL - ULMEIRO
Ninho e filhos e tudo, sem piedade...
Que a leve o ar sem fim da soledade
Onde as asas partidas a levaram...
Deixá-la ir a vela, que arrojaram
Os tufões pelo mar, na escuridade,
Quando a noite surgiu da imensidade,
Quando os ventos do Sul se levantaram...
Deixá-la ir, a alma lastimosa,
Que perdeu fé e paz e confiança,
À morte queda, à morte silenciosa...
Deixá-la ir, a nota desprendida
Dum canto extremo... e a última esperança...
E a vida... e o amor... deixá-la ir, a vida!
EM - SONETOS - ANTERO DE QUENTAL - ULMEIRO
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
da canção da terra - GONÇALO B. DE SOUSA
o perfume da flor suplanta a semente
- morta esta, mas não o sonho tecido de azul e ouro.
da clausura da terra ergue-se a esperança nova.
não cuides que caíste:
Deus prepara o teu maior triunfo,
e tu não sabes.
EM - CANÇÃO DO EXÍLIO - GONÇALO B. DE SOUSA - TEMAS ORIGINAIS
- morta esta, mas não o sonho tecido de azul e ouro.
da clausura da terra ergue-se a esperança nova.
não cuides que caíste:
Deus prepara o teu maior triunfo,
e tu não sabes.
EM - CANÇÃO DO EXÍLIO - GONÇALO B. DE SOUSA - TEMAS ORIGINAIS
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