sábado, 30 de abril de 2016

Sabor a mar - MARIA ERMELINDA MORGADO

Quero conhecer essa tua janela
abri-la, escancará-la de par em par
para que tu, ao abeirares-te dela
possas sorrir, talvez até cantar

Porque de janelas fechadas não gosto
e porque o sol e a lua devem entrar
deixarei que saboreies este mosto
que daqui a pouco começa a fermentar

Na janela de onde não vês o rio
deixarei o cheiro e o sabor a mar
sei que amanhã pode fazer frio
mas tens o meu braço pra te agasalhar

EM - MAR DE ABRIL - MARIA ERMELINDA MORGADO - LUA DE MARFIM

sexta-feira, 29 de abril de 2016

29 - PEDRO TAMEN

Essa nudez de carne que vislumbro
nesta reviva pele que a mão trabalha
vem como luz na escuridão da cave
e qual espuma do mar desce na praia,
e a ferramenta é leve sendo chumbo
já sem força vetusta que se acabe.

EM - O LIVRO DO SAPATEIRO - PEDRO TAMEN - DOM QUIXOTE

quinta-feira, 28 de abril de 2016

XXVIII - DANIEL AFONSO

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA EDITORA

como se cinzelam as letras
como se forma o mistério
das palavras

não sei
explicar mistérios
universos insondáveis
cânticos vulcânicos
da terra interior
tão-pouco
o assobiar do vento
as fúrias do mar
as alturas da montanha
o esvoaçar das aves
na suavidade dos fins da tarde
não te sei dizer
como se constrói
o poema
não te sei explicar

contemplo apenas

EM - DIAS DE SETEMBRO - DANIEL AFONSO - UNIVERSUS

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Amêndoa - ANA MARQUES GASTÃO

E assim do corpo resta um ocre tudo-nada,
do coração um suspiro em terra húmida,
do tronco a emanação de júbilo ou tristeza
quando o rosto se expõe de tão oculto.

Somos ensurdecedores cravos ou esferas,
ramificações em holística natureza e canto,
giramos em espiral, sendo a rotação amorosa
e o trato cruel, invisivelmente linguístico.

E de tudo ou nada sobra um sabor amendoado
quando te esqueces de ti, e, tardia, escreves
uma palpitação herdada, a dor e a cor do fruto
que desconheces e desejas alquebrada em sonhos.

EM - ADORNOS - ANA MARQUES GASTÃO - DOM QUIXOTE

terça-feira, 26 de abril de 2016

Serenata - EUGÉNIO DE ANDRADE

Venho ao teu encontro a procurar
bondade, um céu de camponeses,
altas árvores onde o sol e a chuva
adormecem na mesma folha.

Não posso amar-te mais,
luz madura, espaço aberto.
Não posso dar-te mais do que te dou:
sangue, insónias, telegramas, dedos.

Aqui estou, fronte pura, rodeado
de sombra, de soluços, de perguntas.
Aceita esta ternura surda,
este jasmim aprisionado.

Nos meus lábios, melhor: no fogo,
talvez no pão, talvez na água,
para lá dos suplícios e do medo,
tu continuas: matinalmente.

EM - AS PALAVRAS INTERDITAS/ATÉ AMANHÃ - EUGÉNIO DE ANDRADE - ASSÍRIO & ALVIM 

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Aliado - EMANUEL LOMELINO

O tempo é o melhor aliado
que um poema pode ter
por lhe dar a oportunidade
de revelar toda a extensão
da mensagem que contém.
O tempo dá peso ao poema.
Ou de forma mais metafórica:

o tempo engorda o poema.

EM - NOVO RESPIRAR - EMANUEL LOMELINO - LUA DE MARFIM

domingo, 24 de abril de 2016

Funcionário, o público - JOÃO RUI DE SOUSA

Este seu dia ajustado
numa sala onde balança
entre o papel que é o seu prado
e o escrevinhar algum lance
do relinchar burocrático
é um tempo alinhavado
com peripécias uivantes
e intervalos cantados
a cumprir aquilo que ordena
alguém algures distante
(o chefe - o engravatado
sobre esporas cintilantes),
é um tempo encurralado
com a cabeça a boiar
e o gesto condizente
ao bocejo do enfado
na mesa de funcionar
- perdido (nunca encontrado)
nas cavernas do horário.

EM - LAVRA E POUSIO - JOÃO RUI DE SOUSA - DOM QUIXOTE

sábado, 23 de abril de 2016

Deixa para amanhã... - RUI ALMEIDA

Deixa para amanhã, para nunca,
A possibilidade de ir, de receber
O sol na cara. Fecha os olhos,

Encosta as mãos ao peito para
Sentires melhor a resignação. Fica
Aí, parado, não tentes rasgar

O pano que te cobre e impede
A suavidade dos movimentos. O céu
É azul, como sempre. Cada passo

Que dás é demonstração
Da inutilidade de tudo, cansaço
Acumulado sem destino nenhum.

EM - A SOLIDÃO COMO UM SENTIDO/DESESPERO - RUI ALMEIDA - LUA DE MARFIM

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Noite - VERA SOUSA SILVA

O relâmpago rasga o céu
e estremece-me a cálida
sinfonia em desatino
matando o sono
e no quarto morto
há uma vertigem
e a cegueira aproxima-se
nas sombras que se movem
na luz que me fascina.

EM - ATÉ AMANHÃ - VERA SOUSA SILVA - LUA DE MARFIM

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Peso incerto - NUNO JÚDICE

A terra tem o peso de uma nuvem quando
cai sobre o corpo que lhe adormece nos braços;
e empurra-o para o seu fundo, onde se irá
transformar na raiz desta filosofia: deita-te
na terra sem dormir, ouvindo a sua respiração,
e levanta-te quando a nuvem passar sobre
ti, furando-a com um espinho de rosa
para que se desfaça em água. Então, em vez
de seres envolvido por lama e pedra,
mergulharás num oceano de névoa. E se
um dia te perguntarem a diferença entre
a terra e o céu, responde com a nuvem.

EM - GUIA DE CONCEITOS BÁSICOS - NUNO JÚDICE - DOM QUIXOTE

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Audaz fantasia - ALEXANDRE CARVALHO

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELO AUTOR

Maresia
Cheira a mar
E fantasia
Quero outro mundo encontrar.

Luzia a estrela suão ao luar
um visionário pôs-se a imaginar
qual Huxley
em tempo de sonhos
montado num pónei
altos voos medonhos
tosse convulsa terapia
em voo subsónico para a Academia
curando um mal de patologia
Nunca estudada em anatomia.

Aluvião se fez sentir,
a submersão combatida a dedal
imaginando a pedra filosofal
melhor seria usar o cálice de Graal.
Telefonia sem fios a ouvir
noticias do fim do mundo desalinhadas
há muito tempo por Nostradamus profetizadas
um novo mundo irá emergir
pensar um mundo em harmonia
não será Audaz Fantasia!

EM - CAVALETE COM POESIA - ALEXANDRE CARVALHO - UNIVERSUS

terça-feira, 19 de abril de 2016

Insistência - CASIMIRO DE BRITO

Inútil de músculos
vivo a esperar-te
tu-que-não-sei-quem-és

Mas quando vieres
se acaso vieres
o meu corpo cobrirá o teu corpo
e serás o hálito que me falta
o suicídio
a luz

E talvez te diga: Amanhece
tu-que-não-sei-como-és
mas a quem chamo

liberdade

EM - JARDINS DE GUERRA - CASIMIRO DE BRITO - ASSÍRIO & ALVIM

segunda-feira, 18 de abril de 2016

22 - REGINA GOUVEIA

Mudo, o piano a carecer de afinação.
Outrora, mãos virtuosas faziam escorrer do teclado
          suites, tocatas, fugas,
          noturnos de Chopin,
          sonatas de Schubert.
O ar ficava impregnado de
          azul,
          madressilva
          e mel.

EM - QUANDO O MEL ESCORRE NAS SEARAS - REGINA GOUVEIA - LUA DE MARFIM

domingo, 17 de abril de 2016

Cravo as unhas... * - GRAÇA PIRES

Cravo as unhas na carne da indiferença.
Escrevo sangue
com o lápis gasto pela culpa acorrentada
à cegueira que desfoca os olhares
na bastardia dos abraços.
Digo fome
com os dentes colados à secura dos trigais
e às sobras rapadas nas latas do lixo.
Leio dor. Dolorosamente.
Em lugares desabrigados,
em portas franqueadas aos rasgões
da vida rondada pela morte.

EM - CLARIDADE QUE CEGA - GRAÇA PIRES - POÉTICA EDIÇÕES

sábado, 16 de abril de 2016

Morte em flor - MANUEL MADEIRA

Quando vieres, ó morte, hás-de encontrar
minha alegria em plena primavera.
Não deixarei as rosas soluçar,
hei-de morrer de pé como uma fera.

Os frutos já maduros hão-de sorrir
ao breve adeus da minha despedida:
- até logo, direi - até surgir de novo
em qualquer folha renascida.

Depois é o regresso à escuridão
da terra, a simular tranquilidade,
descrente aconselhando confiança.

Só receio, afinal, que o coração,
a sete palmos de profundidade,
não deixe adormecer a vizinhança.

EM - PARA A DECIFRAÇÃO DO CAOS - MANUEL MADEIRA - LUA DE MARFIM

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Coisas sem explicação - JACQUELINE AISENMAN

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA AUTORA

Coisas sem explicação.
Uma flor voa
e depois cai no chão.

A brisa abraçando
a gente.

O canto de um pássaro
ecoando no jardim...
Liberdade!

A nuvem que, algodão tão branco,
se desmancha para melhor
desenhar no céu...

Um sorriso que passa
num rosto desconhecido
e ilumina o meu dia...

EM - PINTURA INGÉNUA - JACQUELINE AISENMAN - DESIGN EDITORA

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Perspectiva - MARIZA SORRISO

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA AUTORA

Segundo a física,
Duas pessoas não podem estar
Ao mesmo tempo
No mesmo lugar,
Por isso, é impossível
Termos, na íntegra,
O mesmo ponto de vista do outro.

EM - DAS RAÍZES DO CORAÇÃO - MARIZA SORRISO - SAPERE

quarta-feira, 13 de abril de 2016

54 - CASIMIRO DE BRITO

Há muito que não me lavo em águas limpas,
Diz o mestre; por mais barro que tragam
Do vento e da montanha
As águas são mais puras mais perfumadas
Longe dos homens. Observo-as
No chão - observo a virtude bem
Cultivada. Não preciso de ver o mar vinhoso
A pata do lobo as nuvens do outono
Para saber o peso dos pensamentos
Urbanos. Afasto-me e celebro
O culto antepassado: o fulgor
Das águas a cal rumorosa o pó das viagens
Sem regresso.

EM - NA VIA DO MESTRE - CASIMIRO DE BRITO - TEMAS ORIGINAIS

terça-feira, 12 de abril de 2016

Mafra - VÍTOR CINTRA

Primeiro um povoado neolítico,
Que os homens do passado edificaram.
Seguiu-se, em outro tempo bem mais crítico,
Um pouso onde os romanos se instalaram.

Depois os visigodos, que ficaram,
Até à invasão dos muçulmanos.
Os mouros um castelo levantaram
E a terra dominaram largos anos.

Mas quando Afonso Henriques, à chegada,
O viu, lá bem no topo da colina,
Impondo-se aos ribeiros e à ravina,

Lançou-se na conquista desejada,
Chamando Santo André como patrono
Da praça, que ruiu por abandono.

EM - RUÍNAS DA HISTÓRIA - VÍTOR CINTRA - LUA DE MARFIM

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Destino - ANA CASANOVA

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA AUTORA

Esqueço o ontem
Seguindo para o amanhã.
Abdico das palavras
Existe um caminho
Eu sei...
Encontrei-o nos teus olhos!

EM - À FLOR DO TEMPO - ANA CASANOVA - EDIÇÃO DE AUTOR