Ó prisioneira de um imóvel pássaro
e teu reino é branco sob uma coroa do silêncio
o teu nome é a tua própria respiração
O teu quarto é uma imagem mas é também uma pedra
As tuas pálpebras são irrigadas pelas falanges da chuva
Num lado tu desvias e separas
no outro situas e reúnes
A íris escuta sob a íris
o horizonte divisa-se através das árvores
os círculos esvaziam-se dos seus nomes
o vazio multiplica os elos do vazio
EM - DELTA /PELA PRIMEIRA VEZ - ANTÓNIO RAMOS ROSA - QUETZAL
sábado, 12 de março de 2011
sexta-feira, 11 de março de 2011
Ignoto deo - ANTERO DE QUENTAL
Que beleza mortal se te assemelha,
Ó sonhada visão desta alma ardente,
Que reflectes em mim teu brilho ingente,
Lá como sobre o mar o sol se espelha?
O mundo é grande - e esta ânsia me aconselha
A buscar-te na terra: e eu, pobre crente,
Pelo mundo procuro um Deus clemente,
Mas a ara só lhe encontro... nua e velha...
Não é mortal o que eu em ti adoro.
Que és tu aqui? olhar de piedade,
Gota de mel em taça de venenos...
Pura essência das lágrimas que choro
E sonho dos meus sonhos! Se és verdade,
Descobre-te, visão, no céu ao menos!
EM - SONETOS - ANTERO DE QUENTAL - ULMEIRO
Ó sonhada visão desta alma ardente,
Que reflectes em mim teu brilho ingente,
Lá como sobre o mar o sol se espelha?
O mundo é grande - e esta ânsia me aconselha
A buscar-te na terra: e eu, pobre crente,
Pelo mundo procuro um Deus clemente,
Mas a ara só lhe encontro... nua e velha...
Não é mortal o que eu em ti adoro.
Que és tu aqui? olhar de piedade,
Gota de mel em taça de venenos...
Pura essência das lágrimas que choro
E sonho dos meus sonhos! Se és verdade,
Descobre-te, visão, no céu ao menos!
EM - SONETOS - ANTERO DE QUENTAL - ULMEIRO
quinta-feira, 10 de março de 2011
Crime perfeito - TERESA M. G. JARDIM
O meu gato branco gosta de brincar
com os papéis amachucados
que deito no lixo. Tira-os do caixote
e esconde-os no odor dos ratos, nos vasos
de flores, pelo quintal. Já fiz desaparecer
muitos poemas que não gostava
assim, sem indícios.
EM - JOGOS RADICAIS - TERESA M- G. JARDIM - ASSÍRIO & ALVIM
com os papéis amachucados
que deito no lixo. Tira-os do caixote
e esconde-os no odor dos ratos, nos vasos
de flores, pelo quintal. Já fiz desaparecer
muitos poemas que não gostava
assim, sem indícios.
EM - JOGOS RADICAIS - TERESA M- G. JARDIM - ASSÍRIO & ALVIM
quarta-feira, 9 de março de 2011
A palavra - CASIMIRO DE BRITO
Mordo a palavra e dispo-a
de pó. Sorvo seus rios de sangue
e nela me reclino, e nela se demora
o azul do sol, os dedos submissos
da lama, a luz, o perfil silencioso
de um pequeno animal
parindo, na relva, quase desfeito.
A palavra bebo, a palavra equilibro
no vinho dos olhos, na húmida
cadência da noite. E outras cores
se abrem. E outros sons amanhecem.
E o poema se desprende, vivo e aberto.
Inviolado.
EM - JARDINS DE GUERRA - CASIMIRO DE BRITO - ASSÍRIO & ALVIM
de pó. Sorvo seus rios de sangue
e nela me reclino, e nela se demora
o azul do sol, os dedos submissos
da lama, a luz, o perfil silencioso
de um pequeno animal
parindo, na relva, quase desfeito.
A palavra bebo, a palavra equilibro
no vinho dos olhos, na húmida
cadência da noite. E outras cores
se abrem. E outros sons amanhecem.
E o poema se desprende, vivo e aberto.
Inviolado.
EM - JARDINS DE GUERRA - CASIMIRO DE BRITO - ASSÍRIO & ALVIM
terça-feira, 8 de março de 2011
Oitavas da oficina - VASCO GRAÇA MOURA
canto o rebite, o cravo, a dobradiça,
a luz coada junto das limalhas,
o alicate, a grade onde se eriça
um animal de pregos e cisalhas.
canto a chapa dobrada ou inteiriça,
o rigor milimétrico das calhas.
canto a paz mineral deste recinto
da dura criação. no labirinto
habita o minotauro, o que devora
no mais fundo do antro materiais
que despedaça à serra e à tesourada
e agrega depois noutros sinais,
o monstro vagaroso que elabora
a dúctil lentidão dos seus metais
e nas formas que engendra tem ofício
de conjugar silêncio e desperdício.
EM - POESIA 2001/2005 - VASCO GRAÇA MOURA - QUETZAL
a luz coada junto das limalhas,
o alicate, a grade onde se eriça
um animal de pregos e cisalhas.
canto a chapa dobrada ou inteiriça,
o rigor milimétrico das calhas.
canto a paz mineral deste recinto
da dura criação. no labirinto
habita o minotauro, o que devora
no mais fundo do antro materiais
que despedaça à serra e à tesourada
e agrega depois noutros sinais,
o monstro vagaroso que elabora
a dúctil lentidão dos seus metais
e nas formas que engendra tem ofício
de conjugar silêncio e desperdício.
EM - POESIA 2001/2005 - VASCO GRAÇA MOURA - QUETZAL
segunda-feira, 7 de março de 2011
A revolução foice - DINIS H. G. NUNES
a revolução é nossa, gritaram os puros
não, a revolução é nossa, disseram uns energúmenos
é nossa a revolução, insistiram outros matreiros
afinal, de quem é a revolução?
de todos menos de quem precisa, pelos vistos
e, na algazarra, a revolução foice.
EM - AVRYL - DINIS H. G. NUNES - POPSUL
não, a revolução é nossa, disseram uns energúmenos
é nossa a revolução, insistiram outros matreiros
afinal, de quem é a revolução?
de todos menos de quem precisa, pelos vistos
e, na algazarra, a revolução foice.
EM - AVRYL - DINIS H. G. NUNES - POPSUL
domingo, 6 de março de 2011
Aglutinados* - ALEXANDRINA PEREIRA
Aglutinados
os olhares inquietos
procuravam a luz
na inércia dos sentidos.
Os silêncios
vestiram-se de Inverno
inventando glaciares
que tinham a forma
do coração do Homem.
EM - INSUBMISSÃO DOS SENTIDOS - ALEXANDRINA PEREIRA - TEMAS ORIGINAIS
os olhares inquietos
procuravam a luz
na inércia dos sentidos.
Os silêncios
vestiram-se de Inverno
inventando glaciares
que tinham a forma
do coração do Homem.
EM - INSUBMISSÃO DOS SENTIDOS - ALEXANDRINA PEREIRA - TEMAS ORIGINAIS
sábado, 5 de março de 2011
Lagos... - ANTÓNIO BOAVIDA PINHEIRO
Lagos, terra de eleição,
Onde o progresso domina
Na tua urbanização,
E a tua bela «marina».
Uma beleza que são
As praias de areia fina,
Onde, ondas vêm e vão...
Do mar que não se amofina.
Antes te envolve a preceito,
Te namora com tal jeito,
P'ra sempre tua glória...
S. Gonçalo te protege,
D. Sebastião... te rege,
E o «povo» te fez a História...
Em - CEM POEMAS... DIVERSOS - ANTÓNIO BOAVIDA PINHEIRO - TEMAS ORIGINAIS
Onde o progresso domina
Na tua urbanização,
E a tua bela «marina».
Uma beleza que são
As praias de areia fina,
Onde, ondas vêm e vão...
Do mar que não se amofina.
Antes te envolve a preceito,
Te namora com tal jeito,
P'ra sempre tua glória...
S. Gonçalo te protege,
D. Sebastião... te rege,
E o «povo» te fez a História...
Em - CEM POEMAS... DIVERSOS - ANTÓNIO BOAVIDA PINHEIRO - TEMAS ORIGINAIS
sexta-feira, 4 de março de 2011
11 - GLEIDSTON CÉSAR
Em cada amanhecer se renova o desejo,
Se afirmam os votos e ganham vida os sonhos.
A caminhada ao seu lado torna a
Dor suportável, a solidão resistível.
Nos abraços encontrei meu oásis.
A segurança que contigo tenho me
Torna imbatível para meus desafios.
O sol tem brilho a lua claridade
Os dias têm vida os sorrisos têm
Liberdade, as lágrimas têm
Compaixão, e o diálogo tem
Compreensão.
EM - OS SENTIMENTOS POR DETRÁS DAS PALAVRAS - GLEIDSTON CÉSAR - TEMAS ORIGINAIS
Se afirmam os votos e ganham vida os sonhos.
A caminhada ao seu lado torna a
Dor suportável, a solidão resistível.
Nos abraços encontrei meu oásis.
A segurança que contigo tenho me
Torna imbatível para meus desafios.
O sol tem brilho a lua claridade
Os dias têm vida os sorrisos têm
Liberdade, as lágrimas têm
Compaixão, e o diálogo tem
Compreensão.
EM - OS SENTIMENTOS POR DETRÁS DAS PALAVRAS - GLEIDSTON CÉSAR - TEMAS ORIGINAIS
quinta-feira, 3 de março de 2011
eternidade - GONÇALO B. DE SOUSA
junto a ti esplende a Vida.
tudo ganha sentido: o mar, o bosque e nós.
num instante. a Eternidade.
EM - CANÇÃO DO EXÍLIO - GONÇALO B. DE SOUSA - TEMAS ORIGINAIS
tudo ganha sentido: o mar, o bosque e nós.
num instante. a Eternidade.
EM - CANÇÃO DO EXÍLIO - GONÇALO B. DE SOUSA - TEMAS ORIGINAIS
quarta-feira, 2 de março de 2011
O ignorante absoluto...* - ANTÓNIO RAMOS ROSA
O ignorante absoluto o imóvel nómada
no imponderável acorde da deriva da terra
com as velas do sangue voltadas para o mar
na incendiada inércia da sombra como um fruto
ouve o único canto que nunca se repete
e os lúcidos animais acaçapados
por detrás de arbustos invisíveis
A sua lucidez é o abandono às marés sem margens
e a sua sabedoria uma distracção que o conduz ao centro
EM - DELTA/PELA PRIMEIRA VEZ - ANTÓNIO RAMOS ROSA - QUETZAL
no imponderável acorde da deriva da terra
com as velas do sangue voltadas para o mar
na incendiada inércia da sombra como um fruto
ouve o único canto que nunca se repete
e os lúcidos animais acaçapados
por detrás de arbustos invisíveis
A sua lucidez é o abandono às marés sem margens
e a sua sabedoria uma distracção que o conduz ao centro
EM - DELTA/PELA PRIMEIRA VEZ - ANTÓNIO RAMOS ROSA - QUETZAL
terça-feira, 1 de março de 2011
Suicídio e paixão - EDUARDA CHIOTE
Metáforas, porquê?
"A definição de um homem
não pertence ao homem"
tal como a do insecto escavador
ao pólen,
meus lábios sem diálogo, meu amuo
tão frágil,
tão menino!
Deixa sobre eles poisar o seio.
A morte.
Deixa, pois, e em silêncio,
a palavra infantil
cumprir
o seu destino.
EM - NÃO ME MORRAS - EDUARDA CHIOTE - &ETC
"A definição de um homem
não pertence ao homem"
tal como a do insecto escavador
ao pólen,
meus lábios sem diálogo, meu amuo
tão frágil,
tão menino!
Deixa sobre eles poisar o seio.
A morte.
Deixa, pois, e em silêncio,
a palavra infantil
cumprir
o seu destino.
EM - NÃO ME MORRAS - EDUARDA CHIOTE - &ETC
segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
Pousa devagar... - VERA L. T. SANTOS
Pousa devagar o coração.
Não vês?
Meu corpo sóbrio a desenhar-te o dia em movimento.
És tu o sangue e o mar sobre os meus olhos.
EM - CARDIO.GRAFIA - VERA L. T. SANTOS - TEMAS ORIGINAIS
domingo, 27 de fevereiro de 2011
Agonia do mundo - DINIS H. G. NUNES
a qualquer hora
em qualquer parte
há tanta gente a sofrer à toa
e nós nada
nada temos a ver
sacudimos a água do capote
um dia essa agonia há-de entrar sem bater
e talvez percebas
que todos na desventura somos irmãos
e na aventura camaradas.
EM - AVRYL - DINIS H. G. NUNES - POPSUL
em qualquer parte
há tanta gente a sofrer à toa
e nós nada
nada temos a ver
sacudimos a água do capote
um dia essa agonia há-de entrar sem bater
e talvez percebas
que todos na desventura somos irmãos
e na aventura camaradas.
EM - AVRYL - DINIS H. G. NUNES - POPSUL
sábado, 26 de fevereiro de 2011
Reescrita - INÊS LOURENÇO
Fender os versos
com a lâmina implacável do
tempo. No umbigo do poema cravar
o sabre rente às vísceras dos verbos,
à linfa de adjectivos. Despedaçar
os músculos dos sentidos. Abrir
a rede viária do sangue. Romper
a velha epiderme.
EM - COISAS QUE NUNCA - INÊS LOURENÇO - &ETC
com a lâmina implacável do
tempo. No umbigo do poema cravar
o sabre rente às vísceras dos verbos,
à linfa de adjectivos. Despedaçar
os músculos dos sentidos. Abrir
a rede viária do sangue. Romper
a velha epiderme.
EM - COISAS QUE NUNCA - INÊS LOURENÇO - &ETC
sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011
Ilusão... - ANTÓNIO BOAVIDA PINHEIRO
No dia a dia que passa,
Vivemos a ilusão
De que tudo tenha graça!
Talvez sim... ou talvez não...
Para fora da carapaça,
Deste nosso coração,
O que quer que a gente faça
Não passa de uma ilusão...
O que talvez possa ser,
É porém, bem mais profundo,
Porque todos julgam ser
Eles, o centro do "mundo".
Enganados estão, porém,
Para seu mal e desdém...
Em - CEM POEMAS... DIVERSOS - ANTÓNIO BOAVIDA PINHEIRO - TEMAS ORIGINAIS
quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011
Constrói a paz - EDUARDO ALEIXO
Constrói a paz
Para que tenham
Sentido as flores
E se diga aos que nascem
A razão das dores.
EM - AS PALAVRAS SÃO DE ÁGUA - EDUARDO ALEIXO - CHIADO EDITORA
Para que tenham
Sentido as flores
E se diga aos que nascem
A razão das dores.
EM - AS PALAVRAS SÃO DE ÁGUA - EDUARDO ALEIXO - CHIADO EDITORA
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
9 - GLEIDSTON CÉSAR
No luar que aqui
Encontro
Revivo teu amor
No seio do sublime
Ser contempla, aqui,
A tua formosura
O amanhecer em ti.
Me encanto em teu
Ser
Manhãs e noites em
Teu seio
Revigorado sobre
Tua graça
Sinto-me livre.
Livre sobrevivo
Nesse amor.
EM - OS SENTIMENTOS POR DETRÁS DAS PALAVRAS - GLEIDSTON CÉSAR - TEMAS ORIGINAIS
Encontro
Revivo teu amor
No seio do sublime
Ser contempla, aqui,
A tua formosura
O amanhecer em ti.
Me encanto em teu
Ser
Manhãs e noites em
Teu seio
Revigorado sobre
Tua graça
Sinto-me livre.
Livre sobrevivo
Nesse amor.
EM - OS SENTIMENTOS POR DETRÁS DAS PALAVRAS - GLEIDSTON CÉSAR - TEMAS ORIGINAIS
terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
São objectos da noite...* - ANTÓNIO RAMOS ROSA
São objectos da noite nos limites da luz
Sombras e palavras em confusas massas
areias ervas ondas e números sementes
alfabetos e entre os cabelos flutuantes
uma cabeça verde Uma espécie de pele
forma um volume azul de contornos negros
Mas o cego que gira no centro de uma roda
restabelece o vazio e a brancura perfeita
Aí se concentram todos os fios da trama
e nela o tranquilo sono de uma estrela
EM - DELTA/PELA PRIMEIRA VEZ - ANTÓNIO RAMOS ROSA - QUETZAL
Sombras e palavras em confusas massas
areias ervas ondas e números sementes
alfabetos e entre os cabelos flutuantes
uma cabeça verde Uma espécie de pele
forma um volume azul de contornos negros
Mas o cego que gira no centro de uma roda
restabelece o vazio e a brancura perfeita
Aí se concentram todos os fios da trama
e nela o tranquilo sono de uma estrela
EM - DELTA/PELA PRIMEIRA VEZ - ANTÓNIO RAMOS ROSA - QUETZAL
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
das coisas velhas e novas - GONÇALO B. DE SOUSA
já agora, fiquem os meus afectos antigos
junto com as folhas secas, entre páginas,
de velhos livros de poesia.
todo o poema relido é triste; cor e perfume,
só na planta que cresce, à beira do regato,
água viva a caminho do mar.
vinho quero-o no copo, à minha frente;
o teu beijo, agora; e o poema a crescer
na folha branca, sobre a mesa.
estas coisas do presente, meus amigos,
são a nossa eternidade.
EM - CANÇÃO DO EXÍLIO - GONÇALO B. DE SOUSA - TEMAS ORIGINAIS
junto com as folhas secas, entre páginas,
de velhos livros de poesia.
todo o poema relido é triste; cor e perfume,
só na planta que cresce, à beira do regato,
água viva a caminho do mar.
vinho quero-o no copo, à minha frente;
o teu beijo, agora; e o poema a crescer
na folha branca, sobre a mesa.
estas coisas do presente, meus amigos,
são a nossa eternidade.
EM - CANÇÃO DO EXÍLIO - GONÇALO B. DE SOUSA - TEMAS ORIGINAIS
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