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quarta-feira, 26 de maio de 2010

Poema sem esperança - ANTÓNIO GEDEÃO


Toda a esperança que tive a dividi
por quantos a quiseram receber.
Deles espero agora que a devolvam
com novo rosto e acrescentado juro.
A esperança era fingida, toda feita
de conscientes manhas e de enganos,
tão bem arquitectada que passava
por sincera, vivida, verdadeira.
Era uma esperança imposta, necessária
para as voltas dos dias e das noites,
sem roupagens, sem véus, sem adereços
como na estatuária se apresenta.
Uma esperança sem esperança, alimentada
a soro e drogas no hospital das letras:
no escuro, ensimesmada como um feto;
na luz, extravasada como adulto.
Transferindo-me a outros me recolho
e me fico, de ouvidos apurados,
num solitário andar entre automóveis
nas poluídas ruas da cidade.

in... Obra completa - ANTÓNIO GEDEÃO - Relógio D'Água

Site da editora aqui 

1 comentário:

  1. Que bom , hoje nos trouxe Gedeão o conhecedor das coisas da Vida o grande sabedor eu acho.
    Adoro lê-lo, embora me tivesse decidido há pouco tempo a fazê-lo mas agora sou fã.

    um abraço
    da amiga rosafogo

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