sábado, 19 de setembro de 2026

o chão treme - Sara Timóteo

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Vivaldi desconhecia
os passos do medo
sobre o solo ressequido
pelo silêncio. O medo
arranca fundações dos prédios
(antes fosse à catanada)
e as mentiras executam
fantásticas acrobacias
entre janelas – nenhum olhar
escapa ao escrutínio
do gelo e o fogo em breve
devorará os filhos destas
páginas

EM - ENTRE PALAVRAS (AO ENCONTRO DA POESIA) - COLETÂNEA - IN-FINITA

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Secos os pulmões* - Corsino Fortes

Secos os pulmões
                   neles cresce-me
                              a lenha do mato
De sol a sol
                 os meus ossos são verdes
                 os teus ossos são plantas
Como a fruta-pão o tambor e o chão

De sol a sol
        gritei por Rimbaud ou Maiakovsky
                    deixem-me em paz

EM - A CABEÇA CALVA DE DEUS... - CORSINO FORTES - DOM QUIXOTE

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

O fragmento de pétala - Susana Veiga Branco

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Ela sabia
Sabia que vivia em turbilhão
Sabia que vivia em quietude

Sabia que a dualidade se revezava como as ondas
Indo e vindo
Nada permanecendo
Nada garantido

Sabia que nela habitavam dois seres
Um ser interior e um ser exterior

Que ora comandava
Ora era comandada

Sabia que o mundo não a conhecia
Apenas fragmentos
Em forma de estilhaços ou de sangue
Em forma de pétalas ou de aroma a primavera

Sabia que a dor e o riso se misturavam
Numa agitação sem palavras
Sem ritmo certo

Frases soltas
Universos paralelos

EM - ATREVESTE-TE A ABRIR? - SUSANA VEIGA BRANCO - IN-FINITA

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Soneto de meditação I - Vinicius de Moraes

Mas o instante passou. A carne nova
Sente a primeira fibra enrijecer
E o seu sonho infinito de morrer
Passa a caber no berço de uma cova.

Outra carne virá. A primavera
É carne, o amor é seiva eterna e forte
Quando o ser que viveu unir-se à morte
No mundo uma criança nascerá.

Importará jamais por quê? Adiante
O poema é translúcido, e distante
A palavra que vem do pensamento

Sem saudade. Não ter contentamento.
Ser simples como o grão de poesia
E íntimo como a melancolia. 

EM - ANTOLOGIA POÉTICA - VINICIUS DE MORAES - DOM QUIXOTE

terça-feira, 15 de setembro de 2026

A vida é um carrossel - Fernando Silva

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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A vida é um carrossel
Um avião de papel
Um barco a navegar
Pelas ondas do teu corpo
Encontro o meu conforto
Neste poema d'amar.

À noite luzem estrelas
No rio as caravelas
Navegam pro infinito
Levam consigo saudade
A eterna mocidade
Fica comigo num grito.

A noite ficou mais bela
Olhando desta janela
Vejo as luzes da cidade
Ouço o cantar da sereia
É noite de lua cheia
Pra minha felicidade.

EM - PÁSSARO FERIDO - FERNANDO SILVA - IN-FINITA

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Entre o ser e o estar – Rita Bentes

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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[...] é nos caminhos da ilusão que nos vemos ao longe
pela vida fora.
seguindo-nos a nós próprios como a ninguém mais,
olhando para um ontem que fora, 
um amanhã que será 
e um hoje que vai sendo a cada segundo
a cada olhar
a cada passo contigo e comigo.
sonhos são o que agora vemos...
o que vamos percorrendo dia a dia, 
para alcançar o sonho da vida que se aproxima [...]

EM - ENTRE PALAVRAS (AO ENCONTRO DA POESIA) - COLETÂNEA - IN-FINITA

domingo, 13 de setembro de 2026

Lanzarote - Nuno Júdice

Para José Saramago

Numa ponta da ilha, o infinito; na 
outra ponta da ilha, o infinito. De
uma ponta à outra, a ilha é
pequena. Mas cerca-a o infinito,
e quando vamos de uma ponta
à outra, a ilha é demasiado
pequena para o infinito que
a cerca, como se o infinito apenas
servisse para medirmos o tamanho
da ilha. Porém, se olharmos
para a ilha de dentro do infinito,
é o infinito que nos parece
pequeno, quando o medimos pelo
tamanho da ilha.

EM - A MATÉRIA DO POEMA - NUNO JÚDICE - DOM QUIXOTE

sábado, 12 de setembro de 2026

Aroma a morangos e hortelã (excerto) - Susana Veiga Branco

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Os piscos fizeram ninho no meu vaso de parede
Sem receio
Acreditando que a minha presença é possível
Ou até benéfica
Os piscos não sabem da destruição humana
Ou sabem?

Observo-os agora
Aos pequeninos que já querem voar
Batem as asas
Preparando-se para o que advém

A mãe chama-os
Persistente
Incentivando-os a deixar o ninho
O trabalho de uma boa mãe
De uma mãe feliz por o ser
Tantas que não o são
...

EM - ATREVESTE-TE A ABRIR? - SUSANA VEIGA BRANCO - IN-FINITA

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

6 (Canto seis) - Júlio Pomar

Há quem s'adestre
E chegue a mestre
Do nexo o uso
Não tolera abuso

O risco de susto
Nos jogos do sexo
Do recto ao verso
Agravado o custo

Depois das meças
A convicção
Da ilusão

Vista às avessas
Toda a razão
Perde as certezas

EM - PRIMA CONTRADIÇÃO - JÚLIO POMAR - ASSÍRIO & ALVIM

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Neste navegar - Fernando Silva

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Nas margens do meu rio onde canto
Há sonhos que trazem a realidade
Heróis que partiram por encanto
Árvores derrubadas pela tempestade.

Por entre as persianas do meu quarto
Passam olhares, loucos, de ingenuidade
Rebeldes loucuras neste meu retrato
Pintado diariamente por triste saudade.

Quando aos quatro ventos se vestiu
Num cinzento escuro adormecido
Pensou naquele homem que partiu
Enquanto outros dissipam ter morrido.

Onde vais meu barco triste, tão sozinho
Por entre as margens do meu rio
Navegas nestas águas sem caminho
Deixaste em mim este enorme vazio.

No baú de recordações levas memórias
Que partilhas nas águas frias deste mar
Carregas tantas vozes destas histórias
Que levas para sempre neste navegar.

EM - PÁSSARO FERIDO - FERNANDO SILVA - IN-FINITA

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

O poema rasga a noite - Pedro Caldeira Santos

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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O poema rasga a noite, grão a grão 
Como se brotasse no útero 
De cabeça para baixo, caindo no mundo;
O poema nasce devagar, em silêncio
E molhado pelo sangue, de olhos fechados 
Até ao momento em que alguém o pegue 
E o obrigue a chorar;
As lágrimas despontam 
No rosto das letras 
E berram perante a dor da vida 
O choro anuncia a chegada;
Até os poemas que nascem violentos são desejados 
E tornam-se doces, hipocritamente doces
Quando o embalam 
Perante o cantarolar de melodias;
Letra a letra, grão a grão 
O poema assemelha-se ao retrato do pai que parte 
Deixando a mãe ao abandono;
O poema está só 
Sente-se só entre tantos poemas 
Aguarda que a poesia aconteça sem saber como viver
E o que fazer da vida se a poesia acontecer.

EM - ENTRE PALAVRAS (AO ENCONTRO DA POESIA) - COLETÂNEA - IN-FINITA

terça-feira, 8 de setembro de 2026

Conto III - Corsino Fortes

Antes da manhana
                            Ela ia
De baía em baía
                       peregrina
Amando
            no útero das veias
                    a voz uterina dos navios

Na ilha
A minha mãe é ilha nua
Por Dezembro rasgando
                o seu inverno de chita

EM - A CABEÇA CALVA DE DEUS... - CORSINO FORTES - DOM QUIXOTE

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Cinza no vento - Susana Veiga Branco

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Não penses que és ou foste importante para ela
Não creias que a tocaste profundamente

Foste apenas uma passagem

Ela é intocável
Não está nem esteve ao teu alcance

Não é culpa tua
Nem dela a culpa é

É assim
Tudo é volátil
Tudo é passageiro
Tudo se torna em cinza
Em nada...

EM - ATREVESTE-TE A ABRIR? - SUSANA VEIGA BRANCO - IN-FINITA

domingo, 6 de setembro de 2026

Canção - Vinicius de Moraes

Não leves nunca de mim
A filha que tu me deste
A doce, úmida, tranquila
Filhinha que tu me deste
Deixa-a, que bem me persiga
Seu balbucio celeste.
Que bem me persiga, a fim
De que eu não queira comigo
A primogénita em mim
A fria, seca, encruada
Filha que a morte me deu
Que vive dessedentada
Do leite que não é seu
E que de noite me chama
Com a voz mais triste que há
E pra dizer que me ama
E pra chamar-me de pai.
Não deixes nunca partir
A filha que tu me deste
A fim de eu nõ prefira
A outra, que é mais agreste
Mas que não parte de mim.

EM - ANTOLOGIA POÉTICA - VINICIUS DE MORAES - DOM QUIXOTE

sábado, 5 de setembro de 2026

Reflexos de minha alma - Fernando Silva

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA

Reflexos de Minh ‘alma porque choram
Por entre as persianas do meu quarto
Cantigas são momentos que adoram
Consensos na chegada quando parto.

Há em cada beijo doce primavera
Socalcos refletidos neste poema
Indícios enaltecidos de ser quem era
Conjuntos de amor lindo valeu a pena.

Perante a aguarela da saudade
Dormem noites escuras influentes
Enquanto as luzes brilham na cidade
Recuperas as forças contingentes.

Num eco bramindo vindo do mar
Repousam as gaivotas à tempestade
Retêm em uníssono o seu voar
Esvoaçam pequenos voos pela cidade.

EM - PÁSSARO FERIDO - FERNANDO SILVA - IN-FINITA

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Desilusão – Paula Fuso

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Foste nuvem passageira
que com o vento se foi.
Foste brisa suave e leve
que fez o coração balançar.
Foste paixão desmedida
que tirou os pés do chão 
e no corpo se entranhou                           
qual ferrugem que corrói. 
Foste lume, foste chama
fogo que se apagou.
Foste chuva desejada
que, de mansinho, chegou
sem alarde e tudo alagou.
Foste como o mar revolto
que tudo arrasta, destrói
e se vai com a maré.
Foste amor avassalador 
que consome a alma
destrói qualquer sentimento
foste, afinal, um amor perverso
que num oceano de mentiras
se afundou e no tempo se apagou!

EM - ENTRE PALAVRAS (AO ENCONTRO DA POESIA) - COLETÂNEA - IN-FINITA

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Enigma fechado - Nuno Júdice

Procurava o centro das suas indecisões; andava
por entre elas como se estivesse num labirinto;
e o monstro era ele próprio, afrontando-o
com as suas certezas, desafiando-o com a hipótese
de uma saída que o impediria, para
sempre, de conhecer o que procurava. «A alma?
A solução do que nunca soubeste como iria
acabar? O resultado de uma adivinha
de infância?» E empurrava portas atrás
de portas, sem ver nenhuma janela que se abrisse,
e sem ouvir a voz que desejava.

EM - A MATÉRIA DO POEMA - NUNO JÚDICE - DOM QUIXOTE

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Não limpo as lágrimas - Susana Veiga Branco

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Não limpo as lágrimas
Deixo a pele absorver este sal
Como uma tatuagem
Como uma sentença positiva

Memorizando cada sentido

Elegendo aprender com o acontecimento
Ampliando-me com ele
Impondo-me a não predominância de limites

Criando sobre o preto
Sobre o branco
Sobre qualquer matéria
Sobre o invisível
Sobre a vida

Éloigne-toi de moi...*

* Afasta-te de mim

EM - ATREVESTE-TE A ABRIR? - SUSANA VEIGA BRANCO - IN-FINITA

terça-feira, 1 de setembro de 2026

13 (Canto quarto) - Júlio Pomar

De que falas tu anjinho
Tu tens fome ou terás frio
Vou aí num instantinho
Em promessas não me fio

O país ó tio ó tio
A pisar se faz o vinho
Mas nada se faz sozinho
E nada mais aprecio

Do que bondade de todos
Diga-se pois com bons modos
Mude-se o fado de vez

O país bem mais merece
E vai ficar, se arrefece,
Bem pior do que tu vês

EM - PRIMA CONTRADIÇÃO - JÚLIO POMAR - ASSÍRIO & ALVIM

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Hora - José Saramago

Vou no caminho esparso, à luz difusa
Do longo amanhecer: o sol não falta
Ao encontro marcado no silêncio
Da noite que se afasta.
A certeza do sol, a madrugada,
O meu corpo de terra, descoberto
Nesta rosa doirada que da morte
Traz a vida tão perto.

EM - POESIA COMPLETA - JOSÉ SARAMAGO - IN-FINITA