sábado, 7 de outubro de 2023

Escalei a montanha - Juraci Cruz

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Nasci cacto,
No chão seco do sertão finquei meus pés
Caminhei pelo chão empoeirado
Andei pelas veredas estreitas
Segui, nunca parei
Recebi pedradas, juntei as pedras
Fiz uma escada e subi a montanha
À medida que subia, removi os espinhos que tentavam
me sufocar
Aprendi a cada dia, fui moldada pelas adversidades
Os espinhos deram lugar as folhas da esperança
Busquei a luz, com ela me banhei
Saí das sombras, virei girassol
Cada pedra foi um impulso, o degrau subido
Hoje, escalei a montanha da vida
Estou no topo
Do alto da maturidade, tenho a visão ilimitada,
de todos os lados
Olho o infinito e tenho uma certeza
Sobre o chão seco, sempre vem a chuva do amor e da bondade
Espinhos, são para nos proteger e ensinar a respeitar o limite
do outro
Pedras, são pra virar travesseiro e nos mostrar escada.
E a vida? É a montanha do aprendizado.

EM - ELAS E AS LETRAS: SEMENTE, PRESENTE - UM LIVRO PARA MARIELLE FRANCO - COLETÂNEA - IN-FINITA

sexta-feira, 6 de outubro de 2023

As palavras que te digo - Joaquina Raimundo

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Meu amor, as palavras que sinto e te digo
Têm o pulsar do meu feliz coração,
De mim, têm o amor que trago comigo,
E por te amar tanto ganharam emoção!

Dos meus lábios, são fonte de água pura,
Têm a frescura de um lindo jardim;
Dos meus olhos são toda a ternura
E por te amar tanto ficaram assim!

Têm da florida primavera a linda cor,
Foram criadas somente por amor
E com elas estás, no meu amoroso eu!

Têm todas os meus sonhos de mulher
E em tudo o que, em cada uma, te disser,
É o meu coração a dar-te cada beijo meu!

EM - PARA AMAR NÃO HÁ LIMITES - JOAQUINA RAIMUNDO - IN-FINITA

quinta-feira, 5 de outubro de 2023

Mulher - Alexandra Conduto

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Sou mulher
E nesta minha condição
Jamais baixarei os braços
Jamais pedirei perdão.
Luto pela igualdade
Pelo direito total à liberdade.
Voto contra a discriminação
Contra a indiferença
Contra a subordinação.
No meu ventre carreguei esperanças
As minhas no amanhã.
Sofri as dores lacerantes do nascimento
De educar e criar os frutos do futuro.
Chorei as dores da saudade
No corte do cordão, na separação.
Mas jamais baixarei a cabeça
Nem perderei a compostura.
Nunca os meus olhos
Hão de perder o brilho da ternura.
E nesta condição sou
Totalmente e apenas Mulher…

EM - ENTRE VIDAS - ALEXANDRA CONDUTO - IN-FINITA

quarta-feira, 4 de outubro de 2023

Que morra - António Soares Ferreira

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Se um dia me faltarem as palavras, que morra
Se um dia me faltar a sede de viver, que morra
Se um dia me faltar a verdade, que morra
Que não me falte esta vontade de viver
Ver os rios a correr, ver as florestas verdejantes,
ver o arco-íris depois de uma chuva fina em dia de sol.
Ver um rebanho de ovelhas e cabras a pastar no alto daquele monte.
Ver a ave de rapina que esvoaça nos céus calma
e com astúcia à espreita de alguma presa incauta.
Ver uma criança feliz num baloiço de corda preso
num tronco de alguma árvore.
Que morra se a minha mão ficar trémula e não consiga 
escrever palavras tão simples como estas.
Se um dia me faltarem as palavras… Que morra.

EM - APENAS PALAVRAS E OUTROS CANTOS - ANTÓNIO SOARES FERREIRA - IN-FINITA

terça-feira, 3 de outubro de 2023

Frases - Rosário Pedroso

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Frases, talha dourada
altares, claustros agitados
deslizam pelo mármore inexprimível.
Silentes falares andadeiros
caem nas folhas
trepam pelo tronco bifurcado
recostado no vago.
Passo a passo, insurgentes
saltam pelas cachoeiras
numa imoderação da natureza
reentrâncias esguias das ideias.
Do fumo das serranias, rebentam áleas
outrora marinheiras!
A seiva da oliveira explode
a pele chora resistente
mas caem as folhas!
Pólvora a acordar o onírico
sofrimento telúrico
provocado por valas no espanto!

EM - ROSÁRIO PEDROSO - ANTOLOGIA - IN-FINITA

segunda-feira, 2 de outubro de 2023

Fremente - Jeane Tertuliano

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Palavras são vertidas
Silenciosamente
Dos lábios escarlates
Que denotam perversão
Aos pútridos olhos
Dos cidadãos de bem
Que, imersos na maldade,
Provêm egoicos rebentos
Do reflexo peçonhento
Da grandiosa pequenez.
A densidade corpórea
Do sexo oprimido
É fremente.
Anseia por ser lida
E compreendida
Nas entrelinhas das rimas
Que ecoam ritmadamente
Ao som da mudez dorida
Infligida a tantas Marias.
Já não podemos ser belas,
Recatadas e do lar...

EM - ELAS E AS LETRAS: SEMENTE, PRESENTE - UM LIVRO PARA MARIELLE FRANCO - COLETÂNEA - IN-FINITA

domingo, 1 de outubro de 2023

Quem sou? - Joaquina Raimundo

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Sou a alegria de riso sempre presente,
Nascida nos campos ao Sul do Tejo,
Sou a azinheira forte e resistente,
Sou planície do meu vasto Alentejo!

Sou o livre rio que sem cessar corre,
Que canta e salta sem dor nem mágoa,
Pedra que resiste à força da água,
Planta que por sede, de dor, não morre!

Sou ave cruzando todos os horizontes,
Sobre a vastidão de vales e montes
Abro os braços ao céu livremente!

E sou chão que se abre feliz em flor,
Ceara de poemas, fértil em amor,
Por tanto colher e espalhar a semente!

EM - PARA AMAR NÃO HÁ LIMITES - JOAQUINA RAIMUNDO - IN-FINITA

sábado, 30 de setembro de 2023

Antes de - João Manuel Ribeiro

Tenho medo de morrer antes de viver
tenho medo de viver antes de morrer
ou simplesmente
tenho medo
do amor
[amor]

EM -  AMO-TE POEMAS PARA GRITAR AO CORAÇÃO - JOÃO MANUEL RIBEIRO - TRINTA POR UMA LINHA
 

sexta-feira, 29 de setembro de 2023

Perdida - António Soares Ferreira

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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O rio não para de correr
Vai com certeza para algum lugar
E eu prá aqui a morrer
Já quase sem forças para lutar

A cidade corre apressada
Na luta constante do dia-a-dia
Uma criança para ali atirada
Por uma sociedade que por ela nada fazia

Os “Doutores” preocupados com a “massa”
Atropelam tudo á sua frente
Sem se lembrarem nem uma só vez
Que têm de se preocupar com a sua gente

A mesma gente que os criou
Lhes deu o ser e conhecer
A mesma gente que tanto os amou
E os mesmos “Doutores” os deixam apodrecer

Gente com fome, com frio e com raiva
Gente que sofre depois de tanto lutar
Já não resta futuro, nem esperança nem nada
Já não vale a pena sequer amar

Já não vejo a luz ao fundo do túnel
Esta é uma nação completamente perdida
Foi o estado em que os “Doutores” a deixaram
Uma nação completamente fodida.

EM - APENAS PALAVRAS E OUTROS CANTOS - ANTÓNIO SOARES FERREIRA - IN-FINITA

quinta-feira, 28 de setembro de 2023

A permanente curva do pensamento - Rosário Pedroso

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Encontro o sentimento que me religa
às vezes, a um vulto em chamas
nas manhãs perenes.
Ensina a cair sobre a ausência
o realce luminoso
peregrinando a comer pêssegos
se os houvesse.
Essa queda a perder de vista
magoa-me as mãos na permanente curva
do pensamento ou caminho calcetado.
O que terá de especial este tempo de névoa
esta hora húmida ou a raridade da tua voz
a escorrer pelas rochas
sem o salgado das brisas?
Onde estás, grito desmedido
lavradio, sisal e trigo?

EM - ROSÁRIO PEDROSO - ANTOLOGIA - IN-FINITA

quarta-feira, 27 de setembro de 2023

Esperança - João Melo

     quem espera
não desespera
     nem alcança - 

cumpre
     um fa(r)do

EM - EXERCÍCIOS E LINGUANGENS - JOÃO MELO - CAMINHO

terça-feira, 26 de setembro de 2023

Aguardo por ti... - LUÍSA RODRIGUES

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Aguardo por ti, calma e serena.
Mas os dias passam, e tu não vens...
A inquietação cresce, percorre-me o corpo,
a alma e a mente.
As memórias invadem-me, levitando no ar
como fantasmas que não consigo afastar.
O medo de não voltar a ver-te, é superior a esses fantasmas 
que me assombram os dias e as noites.
E dou por mim lavada em lágrimas, deitada na cama 
que foi palco do nosso amor, onde ainda te aguardo pacientemente.

EM - DOCE SEDUÇÃO - LUÍSA RODRIGUES - IN-FINITA

segunda-feira, 25 de setembro de 2023

A humana condição - José Augusto de Carvalho

Das rotas dos princípios disto tudo,
emerge o verbo - essência de água e lodo.
Das tábuas que quiseram ser um todo,
não resta nem espada, nem escudo.

O verbo, sem sentido, anestesia
a dor que prolifera e que subjuga.
Já nem sequer a mão canhestra enxuga
a lágrima que dói e tomba, fria.

Casado o desespero com a ira,
irrompe da cratera a violência
na lava da vergonha e da mentira.

Suspenso do mistério da existência,
dedilho, em desespero, a minha lira,
vergado à perdição da minha essência.

EM - DA  HUMANA CONDIÇÃO - JOSÉ AUGUSTO DE CARVALHO - EDIUM EDITORES

domingo, 24 de setembro de 2023

Esperas - António Soares Ferreira

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Esperas para nascer.
Esperas pelo teu primeiro dente.
Esperas para aprenderes a falar.
Espera que já vais brincar.

Esperas para ires para a escola.
Esperas pelo tempo de ilusão.
Esperas pela primeira paixão,
Não esperas pela desilusão.

Esperas pelo primeiro emprego,
Não esperas pela desilusão.
Esperas pelo casamento,
Não esperas pela desilusão.

Esperas pelo primeiro filho.
Esperas pela estabilidade pretendida,
Não esperas pela desilusão.

Esperas pela sorte ao jogo,
Não esperas pela desilusão.

Esperas pela velhice que chega.
Olhas para trás e não tens nada.
Só te resta esperar pelo fim.

EM - APENAS PALAVRAS E OUTROS CANTOS - ANTÓNIO SOARES FERREIRA - IN-FINITA

sábado, 23 de setembro de 2023

Destino - João Melo

     sonhos, quimeras, mitos
decisões, martírios, heroísmos,
     desilusões, raivas, suicídios,
enganos, traições, cinismos -

     o destino
é uma escolha intuitiva

EM - EXERCÍCIOS E LINGUAGENS - JOÃO MELO - CAMINHO.

sexta-feira, 22 de setembro de 2023

Visita - José Augusto de Carvalho

Vim chorar
a raiz arrancada
deste nada
a sangrar...

Verificar
que quanto alegre ou doa
é asa que não voa,
no céu vazio
e frio,
alheio a contemplar...

EM - DA  HUMANA CONDIÇÃO - JOSÉ AUGUSTO DE CARVALHO - EDIUM EDITORES

quinta-feira, 21 de setembro de 2023

Encosta o teu corpo no meu... - LUÍSA RODRIGUES

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Encosta o teu corpo ao meu.
Sente o calor da minha pele nua, na tua.
Toca-me a alma, com esse teu jeito tão meigo de ser.
Deita-me no teu colo, e abraça-me, como se não me fosses largar nunca.
Deixa-me sentir amada, incondicionalmente, dentro desse teu abraço.
E não digas uma palavra, pois não vale a pena.
Ama-me somente, agora e para sempre.

EM - DOCE SEDUÇÃO - LUÍSA RODRIGUES - IN-FINITA

quarta-feira, 20 de setembro de 2023

Pedaço de céu - João Manuel Ribeiro

Tenho-te atravessada nos meus dias
um pedaço de céu
posto como flor nos cabelos

sei que urge atar-te às mãos
o sinal evidente da sede
crescendo para o chão

amo-te com a fúria do silêncio
tão em desassossego
que morro por ter-te

EM -  AMO-TE POEMAS PARA GRITAR AO CORAÇÃO - JOÃO MANUEL RIBEIRO - TRINTA POR UMA LINHA

terça-feira, 19 de setembro de 2023

Imagino o frio imaculado lá fora - VIRGÍLIO GUERREIRO

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Escuto as vozes que me seguem,
são ventanias entre o silêncio dos freixos.

O frio que se adensa no dia,
é propositado e celestial,
é abraço nos nossos braços,
teus e meus,
envoltos no inverno de janeiro,
encruzilhada em tempo maduro.

Será o rio água que corre dura,
entre rochedos de vinho e mel,
onde me afogo no fogo,
teu e meu,
embargados no jejum de fevereiro,
embutida flor dos sinos, Linária.

Imagino o frio imaculado lá fora,
formando o branco lunar na erva rasa.

EM - AMANTES DA POESIA E DAS ARTES - COLETÂNEA - IN-FINITA

Não quero - António Soares Ferreira

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Não quero.
Não quero que me digam o que devo fazer.
Não quero.
Não quero que me digam como eu devo ser.
Mas porque raio terei de ser como todos os outros?
Mas porque será que tenho de fazer o que todos fazem?
Será que teremos de ser todos “ovelhas” de um rebanho só?
Será que teremos de fazer todos as mesmas coisas?
E o individuo?
Onde fica?
Será que já não posso ser livre como o homem sonhou?
Será que já não posso ir onde o homem quis ir?
Será que já não posso ser como eu sou?
Será que já nem posso sorrir?
E o pensamento?
Onde fica?
Já não sou livre de pensar como penso?
Já não sou livre de falar o que quero?
Onde será que está aquilo a que chamam bom senso?
Será que teremos em cada um de nós um “Néro”?
E as ações?
Quem as pratica?
Seremos todos “máquinas de produção em linha”?
E aos grandes cérebros, o que lhes vão fazer?
Amputar-lhes a alma e a sede de viver?
Não, assim eu não quero ser.

EM - APENAS PALAVRAS E OUTROS CANTOS - ANTÓNIO SOARES FERREIRA - IN-FINITA