quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

Dia cinzento - LUÍSA GALVÃO

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Sozinha subi ao monte
De lá eu vejo a praia
Vi o mar com suas ondas
Eu com meu lenço á faia.
Inspirei o seu iodo
Com limos fiz uma trança
Suas ondas estavam calmas
Era tempo de bonança.
Deixei o tempo passar
Respirei a sua aragem
Achei estrelas do mar.
Barcos eu vi em viagem
Deixei que meu pensamento
Nas suas ondas brincasse
Pedi que meus dissabores
As suas águas levasse
Senti-me bem lá no mar
Minha neta me levou.
Arejei fiquei melhor
O meu ânimo voltou.

EM - MEMÓRIAS DE UM ROUXINOL - LUÍSA GALVÃO - VENTOS SÁBIOS/RUTH COLLAÇO/IN-FINITA

Varina - MANUEL A. RODRIGUES

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Fui às compras à praça,
Do que observei, achei graça,
Do que vi,
Nostalgia senti,
Passou por mim gente,
Com o corpo humildemente impertinente,
Senti na calçada um soar,
Eram as socas, o passo marcar,
Rodilha à cabeça,
Segurando a cesta,
Com as mãos à cintura,
Mostrando firmeza de uma vida dura,
Apregoava a sardinha,
Que estava linda e fresquinha,
Era sardinha da boa,
Ela não apregoava peixe à toa,
Com ar de traquina,
Linda de ar sorridente,
Era uma alegre Varina,
Mostrando-se bem-disposta a toda a gente…

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS VII - COLECTÂNEA - IN-FINITA

Tempo - CONCEIÇÃO FERREIRA

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Passo pela luz dos dias
Como os dias passam por mim…
Eles são o tempo que é meu,
O tempo deste lugar,
Eu sou quem nele se perdeu
À espera de se encontrar.

EM - OLHAR A ESCRITA - CONCEIÇÃO FERREIRA - IN-FINITA

Água corrente - CELSO CORDEIRO

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Apetecia-me ser água corrente…
a água de banho que percorre teu corpo
invadindo cada segredo
dos teus detalhes e recantos,
a água que desliza em todo o teu corpo
e beija toda a tua intimidade,
água pura que pode até ousar
invadir-te e entrar em ti…

Fosse eu água corrente…
e não pararia de correr
até que corresse em mim o teu prazer,
até que secasse a tua fonte…

EM - CADERNOS DE ENSAIOS EM VERSO - CELSO CORDEIRO - IN-FINITA

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

Poseidon - MANUELA LOPES DIPP

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Repenso o horizonte
Nosso sítio de pedras
e água salgada
Refaço os grãos de areia
Um a um
E não penso em castelos

Anseio o reino de algas
e cascalhos
Os peixes prata
Que nos recusamos a pescar
E o desejo orgânico
Amalgamado
Que nos atravessa
Como o tridente
De Netuno.

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS VII - COLECTÂNEA - IN-FINITA

Vim de um tempo lá atrás... - SUSANA NUNES

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Vim de um tempo lá atrás,
onde me descobria nos mais bonitos seixos da praia,
e me deslumbrava na curiosidade
do sereno planar dos nenúfares,
dos cheiros do levedar das filhós doces
e da espera de água na boca
para as comer no outro dia

Vim de um tempo lá atrás,
onde procurava as resinas e as carumas,
e me adornava bela, em peças de teatro,
dos gestos das tragédias e dos dramas
que somente comigo eu ensaiava,
e escondia de todos os outros

Vim de um tempo lá atrás,
onde o medo sombrio da noite me inquietava,
e a compreensão p’ra realidade nunca chegava,
nas cenas que nos meus nervos s’instalavam
sem me darem luz nem idade,
p’rás conseguir perceber

Vim de um tempo lá atrás,
onde também habitavam fantasmas e horrores,
num quarto cheio de gente diferente,
pequeno demais p’rós chorar,
onde displicente, o meu coração se formou,
escondido do desabafo que o ocultou

Vim de um tempo lá atrás,
que tantas vezes ainda,
teima em andar, à minha frente

EM - SEMPRE PLANTO OÁSIS NAS PALAVRAS - SUSANA NUNES - IN-FINITA

terça-feira, 14 de fevereiro de 2023

Espelho - ROSA MORENA

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Carregado de intenções
Estava o teu silêncio a me olhar

A face desfigurada, a boca úmida
O corpo feito pêndulo
Estava o teu silêncio a me olhar

A ruga rasgando a face poluída
O suor deitado sobre os poros
Estava o teu silêncio a me olhar.

EM - NA FUNDURA DA PELE - ROSA MORENA - IN-FINITA

Réquiem - LUIZ EDUARDO DE CARVALHO

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O canto vinha do fundo escuro da cela.
Era triste choro de uma voz muito bela,
era da condenada a prece que ecoava
e como era triste aquele hino que entoava.

Um canto bonito na calada da noite,
um canto superlativo a falar de adeus
a traduzir o ativo sentido do açoite
que apenas sente aquele que parte sem Deus.

Sem fé e fustigada pela longa espera,
vê a anunciada aurora demorar-se deveras;
em canto, reza encanto para o perdão seu.

A noite rendeu-se ao lamento pelo dia,
o demorado astro, enfim, amanheceu.
Viu a ré que lá havia um sol com dó de si.

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS VII - COLECTÂNEA - IN-FINITA

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

Saudade - LUÍSA RODRIGUES

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Hoje a saudade veio visitar-me,
e teimosa fez questão de ficar.
Os dias vão passando,
mas dentro do peito há uma ferida aberta que não cicatriza.
Há momentos em que as lembranças me invadem a alma e o corpo.
O coração sangra cansado e vazio.
E sinto apenas aquele maldito nó no estômago
que não consigo desatar.
As palavras proferidas noutros tempos fervilham na minha mente, 
trazendo com elas fragmentos de momentos
que irrompem por cada poro, provocando-me calafrios na pele.
Recordações doloridas de momentos de paixão e prazer 
vividos a dois, de tal forma entranhadas no fundo da alma
que alimentam o imenso vazio da tua ausência,
provocado pelo gosto amargo da minha saudade.

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS VII - COLECTÂNEA - IN-FINITA

Eu bem sei o que precisas - NICOLETA PECELI

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Observava-me impassível, sem deixar transparecer aquilo
que sentia.
Inclinei a cabeça para um lado, acariciando delicadamente
o copo,
Percorrendo-o lentamente, com os dedos, de cima a baixo.
O movimento excitava-o e a respiração abrandou.
Descontraidamente, numa elegância natural, aproximou-se.
– Lamento, mas não te consigo resistir!
Um doce tremor percorria a sua voz.
O corpo carente suplicava pelo meu toque, provocando-lhe
intensos delírios,
Com os lábios molhados e expectantes procurava-me.
De olhos ardentes pediu-me para continuar.
Numa loucura desmedida desabotoei-lhe os botões da camisa,
Preenchendo-me com a sua agonia.
O meu fogo era a razão do seu calor,
o meu fogo era o encanto dos seus medos.
– Eu bem sei o que precisas - murmurou,
Como se estivesse a responder ao meu pensamento,
acariciando-me ternamente o rosto.
Submetido ao meu suplício, a língua combinou com o ritmo
dos seus lábios,
Roçando-me os dentes pelo lóbulo da orelha.
– Sabe tão bem tocar-te – segredou-me numa insânia
hipnótica.
Embalada no seu conforto, o corpo liberta a sabedoria
dos pecados,
E, numa sincera imperfeição, um frágil gemido explora
o milagre de amar.

EM - (E)TERNA SENSUALIDADE - NICOLETA PECELI - IN-FINITA

A flor e o galho - RUTH COLLAÇO

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Pisa de leve este chão
não te denunciem teus passos
pois este chão sagrado
cores rubras, sangue quente
é teu leito e teu sustendo.
Vem então deitar-te
aninha-te ao meu lado
neste chão ardente
enamora-me ao poente.
Sejam estas folhas leito
e estas copas nosso tecto.
Nosso quarto é o fim do dia
os seus cheiros suas paredes
transparente o nosso mel
que nos serve de janela.
Vem, fica aqui deitado
não vês que este dia foi longo e pesado?
E o galho quebrado
no chão derrubado
deitou-se ao seu lado.
De rosto corado
a meiga flor
abraçou seu amado
dormiu, sonhou com o amor.

EM - PÉ DE CARVÃO E POEMAS NA PALMA DA MÃO - RUTH COLLAÇO - VENTOS SÁBIOS/RUTH COLLAÇO/IN-FINITA

domingo, 12 de fevereiro de 2023

Levei lá ontem os meus dias - SUSANA NUNES

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Encosto os dias às paredes desses tempos
caiadas num imaculado e irrepreensível branco,
calmarias tão claras como auroras
que sempre rezam credos p'las calçadas
a par do som das romarias dos sinos
em forma de chamamento de igreja
espalhado por toda a devota aldeia

Quantas vezes, o Sol espelhado nelas
me fez semicerrar o acastanhado dos olhos,
quando o frio gélido, me encolhia as costas
e a saudade me comia voraz por dentro
o duro osso do esterno do peito

Falarão disso por certo
essas paredes onde com alma pintei as tardes
quietas e sentadas nos bancos de madeira...
elas contarão de mim todas as frases
que mais tardiamente serão serões em verso
cantaroladas unicamente em pensamento
encostadas nos umbrais das soleiras
Levei lá ontem os meus dias
p'ra ver se eles ainda as encontravam
mas... tudo estava tão diferente...

Andava o Povo a caiá-las
por tantos e tantos escritos
que os meus dias lá deixaram...

EM - SEMPRE PLANTO OÁSIS NAS PALAVRAS - SUSANA NUNES - IN-FINITA

Dois amores - LINDALVA FREITAS

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Coração acelerado, extasiado e apaixonado
Saudade daqui e de lá
Saudade que acompanha meu viver
Nas terras de Machado de Assis e Camões
Dividida entre dois mundos
Meu coração é um mapa geográfico
Que vive a vagar, amando dois amores
Apaixonado pelas praias, ilhas, cachoeiras
Tantas matas verdejantes
Povo alegre, acolhedor que vive a sorrir
É o meu amado Brasil varonil
Nesse coração geográfico
Fico a recordar, sonhando acordada
Lembrando do outro amor além mar
De Porto, Coimbra, Belém, Lisboa
Do fascinante Mosteiro de Alcobaça
Túmulo de D. Pedro e Inês de Castro
No Porto fui estudar
Nas Caves, Vila de Gaia, Rio Douro
Cascais, Estoril, tudo a me fascinar
Sem esquecer do Santuário de Fátima
Lugar sagrado, de fé e adoração
Como esquecer meu Portugal?
Como deixar meu Brasil?
E nesse coração dividido
Cheio de emoções e recordações
Amo Portugal, amo meu Brasil
Ambos vivem em meu coração
Meus dois amores de encantos mil!

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS VII - COLECTÂNEA - IN-FINITA

Passou um ratinho - CARLA SANTOS

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Passou um ratinho
Por baixo da mesa...
Era tão pequenininho
Mas ia cheio de pressa.
Levantou o rabinho
Com enorme leveza
Saltou para o banquinho
E depois para a mesa.
Huuummmm....
Olhem só o que vejo
Um ratinho malandreco
A roer uma fatia de queijo
Sossegado e sem medo...
Despercebido como um boneco...
Vou guardar o seu segredo.

EM - TROLARÓ - CARLA SANTOS - IN-FINITA

sábado, 11 de fevereiro de 2023

Vidas - LUÍSA GALVÃO

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Eu nasci, encontrei nada
Nada continuo a ter
Como bens, tenho papeis
E caneta p'ra escrever
Não enriqueço escrevendo
Não vendo os versos eu dou
Não sei se sou um poeta
Não sei aquilo que sou
Escrevo versos ao vento
Ouço a chuva bater
Em redemoinho andando
Não sei onde eu irei ter
Dizem que há outras vidas
Obrigada, bom proveito
Para mim bastou-me esta
Encheu-me de água a testa
E muitas mágoas no peito
Outras vidas, nem pensar
Obrigada, bom proveito.

EM - MEMÓRIAS DE UM ROUXINOL - LUÍSA GALVÃO - VENTOS SÁBIOS/RUTH COLLAÇO/IN-FINITA

Meu quintal amigo - LENITA STARK

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Assim que o dia clareava,
eu levantava e, com os pés descalços,
para o quintal eu corria…
Nos meus pés, afagos eu sentia,
do tapete verde ainda com neblina.
As plantas do caminho me conheciam -
O pico-pico em mim grudava,
Alguns espinhos me cutucavam,
Todavia, muitas flores me encantavam.
As formigas eram amigas, algumas desconhecidas,
às vezes me mordiam… mas logo nos entendíamos.
A goiabeira e eu éramos confidentes -
ela, com seus frutos “doentes” (goiabas com ferrugens),
e eu com os meus lamentos.
Ali eu me refugiava emergente!
Entre a vegetação eu encontrava
tudo o que me faltava…
Os sentimentos dispersavam.
No encantamento do campo,
eu enxergava a representação da vida,
e, com alegria, na relva eu saltava - como uma cria…
Fui adotada pela soberana - a Mãe Natureza!

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS VII - COLECTÂNEA - IN-FINITA

Caminhada - CELSO CORDEIRO

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Apetecia-me "caminhar"...
sem horas no relógio a marcar,
sem pensar sequer onde passar,
abster-me de quem possa olhar,
somente continuar a “caminhar”
num caminho por desbravar.

Apetecia-me "caminhar"...
explorar cada vereda do caminho
e todos os recônditos recantos,
sentir-lhe os cheiros e tatear,
ter total liberdade de desfrutar
e não ter vontade de parar.

EM - CADERNOS DE ENSAIOS EM VERSO - CELSO CORDEIRO - IN-FINITA

Entardecer - CONCEIÇÃO FERREIRA

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Se me sento à beira do rio
O rio em mim se faz tarde…
Na esteira do seu caminho
Sussurra-me segredos em fio,
Mas o sol, que assiste sozinho
A esse queixume tardio,
Sente um ciúme que arde
E em mim faz arder o rio.

EM - OLHAR A ESCRITA - CONCEIÇÃO FERREIRA - IN-FINITA

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

Sessenta - JURACI AUGUSTA DA CRUZ

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Sessenta
Você senta-se e olha
Vê o quanto já viveu
O quanto já sonhou e realizou

Sessenta
Você senta-se
A pressa já passou
Já não se estressa
Porque a calma do tempo já chegou
A sabedoria já faz parte do dia a dia
A maturidade já chegou e com ela a paz
De quem já não faz as coisas com pressa

Sessenta
Uma vida, uma lida
Uma conquista e mesmo assim
Ainda tantos sonhos à vista.

Vivi, sofri, sonhei, sorri, pari, criei
Trabalhei, conquistei
E aprendi
Que tudo a seu tempo acontece
E que aos sessenta a gente se senta
E já não tem pressa.

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS VII - COLECTÂNEA - IN-FINITA

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

Mãe África - JOSICLÉNIO SEBASTIÃO

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É tolo quem diz
Que és um triste retrato
Racista é quem te chama de negra
É tolo que sorri dos teus maltratos
Cego é quem ignora os heróis
Que em teu corpo sossegam

Ó, Mãe África
Tu és mais que bela
Em ti há muita maravilha.
Tu és Mãe, berço da humanidade
Ó Mãe África, perdoa quem te humilha!

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS VII - COLECTÂNEA - IN-FINITA