sexta-feira, 10 de junho de 2022

A ferrugem dos afetos - MARIA FRATERNA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Olha o caminho!
Volta a olhar!
Não sabes
Da ferrugem dos afetos
Tão incapaz que és de sentir
Qualquer despedida!
Até das luzes fortes
de quartzo de néon
Onde tudo é dor, ilusão
E provocação.
É a evolução com olhos de ver,
São os passeios, os paralelos,
E os risos amarelos.
É a vida lustrosa da cochonilha
A sugar o azevinho da cidade.
É a evasão da flor dente-de-leão
Com a perda das sementes,
Por um sonho de aventuras.
São as viagens visíveis com anjos,
E a brisa a sentir e a fugir.

EM - DE DENTRO PARA FORA - MARIA FRATERNA - IN-FINITA

quinta-feira, 9 de junho de 2022

Esquecer - ANA MENDES

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O que a história nos escancara
A cada página virada!
Que a democracia é algo
Que foi ganho e não roubada!
Que cada homem foi criança,
protegida até hoje!
Que cada sorriso que se apaga
É mais uma morte que se festeja!
Que cada arma fria, metálica
Apropria-se e esmaga
Mais um abraço, um beijo!
Que apenas com um dedo
Pouco se precisa
Sobre um botão
Não de flor, nem de camisa
O Mundo nunca mais será
Como agora o vejo!
Por um verbo a morrer... ESQUECER!
Eu
Sou
Qualquer
Ucraniano
Entendo
Condeno
Entretanto
Resisto

EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL - COLECTÂNEA - IN-FINITA

Entardecer - MANUEL MACHADO

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Olho o horizonte
Quase indistinguível linha
Entre mar e firmamento
Qual azul ora mar ora celeste.
Gaivotas rodopiam
Entre asas multicolores
Desorientando seus voos
Regulares e planadores
Questionando origens
Movimento e dimensões
Outrora conhecidos em
Pelagornis Sandersi.
Sete ondas revoltas
Amainam em encontro
Com areias escaldantes,
Sedentas de maré cheia.
O sol desce lentamente
Em banho diário revigorante,
Erguendo-se brilhante
Em auroras de outros lugares.
Brisas viram vento forte
Levantam areias incómodas
Aos corpos estiraçados
Em toalhas estendidas.
Dois corpos duas almas,
Entrelaçados, quedos,
Deliciam-se no presente
Esquecendo incertezas futuras.

EM - MANUEL MACHADO - COLECÇÃO DISPERSOS - IN-FINITA

quarta-feira, 8 de junho de 2022

Mulher-fases - ANA CLARA SOLON RUFINO

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Despedaçada e ferida,
Nas desilusões dessa vida,
Aqui estou nua, descalça.
Verdadeiramente em carne-viva.

Despida das minhas emoções,
Traída em minhas razões,
Recuso-me em acreditar que semear amor,
Feriu-me os espinhos.

Perdida, incompreendida.
Talvez, sem saída!
Por alguns momentos sinto-me brutalmente entristecida.
Alma-luz em tuas mãos saudade induz.

Recordar? Esquecer?
Sonhar? Viver?
Amar? Abandonar?
Oh! Meu Deus, por que te amar assim?

Amar-te é um desabrochar versos-encantos,
Um desejar beijar-te em todos os instantes,
Um caminhar-mundo com intensidade e ousadia.
Ah! Tu és, inspiração, versos e melodias.

Preciso apenas que tu me vejas,
Vejas-me como mulher, mulher-essência,
Mulher persistência,
Mulher resistência!

EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL - COLECTÂNEA - IN-FINITA

Natureza - FERNANDO VASCONCELOS

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Abraço-vos e beijo-vos
A natureza é a minha religião,
O amor é o meu sentido,
A visão a minha luz,
As pernas minhas rodas!
Tenho em mim,
A perspicácia e não esqueço a raiz!
Já não sinto aquele cheiro infiltrado,
De mesquinhez e malvadez…
Deixa-me sentir o teu cheiro,
A água a florir ao vento,
Ao sol do nosso maravilhoso:
Quintal, País!

EM - A SEMENTE - FERNANDO VASCONCELOS - IN-FINITA

terça-feira, 7 de junho de 2022

Poesia - ANA ACTO

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Não quero estar, além dos que lá chegaram
Nem tão pouco me considero, a lá chegar
Sou rasa, nos que embarcam a imortalidade
Mas cheia de fatalidade, ao tanto que lhes sinto igual

Nesta terra se me crescem raízes
Prementes, me ancorando à vida
Mas já cá não estou…

E meus versos
Castos de genialidade
Depuram sem formalidade
Todo o pouco, que lhes valho…

EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL - COLECTÂNEA - IN-FINITA

Hoje vi o tempo... - CECÍLIA DIAS GOMES

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Hoje vi o tempo,
Tenho todo tempo do mundo
Pensar no que vivi, no que quero viver.
Como eu quero viver!
Formar-me num acorde maravilhoso.
Hoje vi o tempo...
Tenho todo o tempo do mundo,
Para pensar nas pequenas coisas que já vivemos.
Recordo as imagens cheias de ternura...
Hoje vou pensar em ti,
Porque o tempo me deu mais tempo.
Levanto-me todas as manhãs,
Agradeço ao Divino por todos os meus suspiros.
O tempo pode machucar...
Mas... este nosso sentimento ultrapassa todo o tempo.
Só conheço um único sentimento...
Sim... é o único sentimento que eu conheço.
O amor!
Neste meu coração tão sensível,
Espera que eu me cure.
Sabes... o amor cura.
Prometo-te que tudo se vai resolver,
Basta manter o amor e a paixão.
Apenas abraça-me,
Não digas que não!
Espera eu voltar com este meu coração curado.
Hoje eu vi o tempo...
Ao lado do teu coração é que o meu deve estar.
Caso me saibas entender...
A teu lado eu vou ficar.

EM - A MINHA VEZ - CECÍLIA DIAS GOMES - IN-FINITA

segunda-feira, 6 de junho de 2022

O máculo e a femêa - AMELIA COSTA

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Femêa, peça motriz da humanidade,
Originou da luz divina da qual foi consagrada,
Um pacto do mestre em sua benignidade,
Pois a ela foi confiado o tratado celestial,
Para nós um ato abençoado!
Criou-se um ser destinado a consagrar a humanidade,
Vindo ao mundo cumprir o firmamento,
Que através do feminino é sempre renovado.
Entre o céu e a terra é o ato de amor consagrado!
Porém mulheres nem sempre viveram em nirvana,
Há uma mácula obscura que se esconde na sociedade,
O retrogrado pensamento que muitos grupos ainda domina,
Uma maldição que ainda permanece alejando e matando.

Infelizmente, há entre os humanos as brutais mentalidades machistas,
Que muitas vezes impune seguem fazendo suas vítimas,
Não há nada que justifique os atos de machos frustrados,
Neles parece haver um ódio vindo de um medo incubado,
Talvez se sintam humilhado por um dia terem passado,
Pela gruta do amor que lhe deu a vida.
Ou quem sabe mesmo, vinda de uma angustia na garganta sufocada,
Talvez seja a perna do “XIS” que nasceu no lugar errado.
Pode até ser, quem sabe, o lado oculto da inveja,
Pois a mulher é o ser abençoada!

EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL - COLECTÂNEA - IN-FINITA

O alvo - ZITO JR.

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Por não ser filho daqui,
De forasteiro taxado,
Sou ainda perseguido,
Por muitos sou patrulhado.
Minhas boas intenções
Para o povo desse lado,
Só mesmo o tempo dirá
Se faço certo ou errado.
Pras serpentes que transitam
O circo desgovernado,
Não precisarei dizer
Que “de cobra sou curado”.

Meus filhos nasceram aqui,
Neste chão por mim amado,
Jamais me arrependerei
Por isso ter afirmado.
Sou um artista do povo
Pr’este tenho trabalhado;
Meu espírito, maior símbolo,
Neste mastro hasteado.
Por isso, não me intimido
Com o peso desse fardo...
Posso ser alvo pra alguns,
Mas não estarei parado!

EM - ECOS DO NORDESTE - COLECTÂNEA - IN-FINITA

Em manhãs tristes, da janela... - ANA MENDES

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Encosto o rosto ao vidro frio
Busco no tempo o sentido
Enquanto o Sol preenchia o vazio
De quem muito espera, perdido.
Mas o mar cada vez mais longe
Enfeita-me a alma de espuma e esperança
Surdos gritos do vento do norte fogem
E dela levam a singela fragrância...
Olhos fechados, mãos juntas num rezar forte
Rasgos de liberdade, sangue que pulsa de raiva
Por um milagre profundamente clamar
Almejar o que a vida esconde à força.
Ser marinheiro, pirata, timoneiro, navegar
Seguir à deriva, espadas ou bandeiras içar
Deixar muros, caminhos, o mar atravessar
Esquecer tormentas longe da terra firme, direita
Deixar esta igreja repleta
De coristas de outras velas e batina.
Na travessia criar pontes entre homens
Esquecer choros da calçada por ordens
Sobe velhos becos e passagens
E cartas à amada de um amor gasto
Rumo a caminhos em outras margens.
Sonho e agarro o corpo que arrasto
Em manhãs tristes,
Da janela bordada de viagens...

EM - PELO FIO DE ARIANA - ANA MENDES - IN-FINITA

domingo, 5 de junho de 2022

Canção a Sergio Bonelli - ZITO JR.

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Aventuras munidas com muita ação
O preto no branco em arte refinada
Encantava do adulto à criançada
Que além de ler, fazia coleção,
Brincadeira de “polícia e ladrão”
Era passatempo bastante divertido
Hoje, às vezes, o papel fica invertido
E ninguém sabe de que lado a Lei está
Só o Tex de Bonelli pra nos mostrar
Que “o certo” é mocinho vencer bandido.

Com o parceiro Kit Carson enfrentava
De índios revoltosos a feiticeiros
Vez por outra, com mexicanos bandoleiros
Tiroteios ferrenhos ele travava
Águia da Noite era como se chamava
Pela nação Navajo, um povo destemido
Cum revólver de espoletas, eu “metido”,
Com outros garotos só pensava em duelar
Só o Tex de Bonelli pra nos mostrar
Que “o certo” é mocinho vencer bandido.

Hoje em dia, com o advento da Internet
O gibi perdeu sua popularidade
Ofuscado pelo flash da modernidade
O jovem com quase nada se compromete
Com a leitura não tem mais do que um flerte
E é chamado de “doutor” sem nunca ter sido
O futuro com esse “tiro” cai ferido
E só nos resta rezar e se esperançar
Só o Tex de Bonelli pra nos mostrar
Que “o certo” é mocinho vencer bandido.

EM - ECOS DO NORDESTE - COLECTÂNEA - IN-FINITA

Quem sabe? - MARIA FRATERNA

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Quem sabe se voltas
Com uma rosa na noite
Que eleva as pétalas
Graças ao louco relento?

Quem sabe se queres
O milagre do tempo
A correr no encontro
Que ninguém detém?

Quem sabe se tens fome
Do néctar da flor de sangue
Ou dos espinhos espessos
Com que nasceste?
Quem sabe?

EM - DE DENTRO PARA FORA - MARIA FRATERNA - IN-FINITA

sábado, 4 de junho de 2022

Brincos de Princesa - ALEXANDRA FERREIRA

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Pus os brincos de princesa
E saí para a rua.
Ia livre, leve, linda e nua.

Cantei nos raios do sol,
Dancei sob o clarão da lua,
Sempre livre, leve, linda e nua.

Envergonhado,
O sol tapou-me
Com seu manto dourado.

Ciumenta,
A lua cobriu-me
Com sua capa luarenta.

Recusei docemente,
Despi seus enfeites,
Anunciei com brandura:

- Nem sol nem lua
Me vão impedir de ser
Livre, leve, linda e nua!

EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL - COLECTÂNEA - IN-FINITA

Meu Nordeste - ZEZÉ MATOS

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Minha morada és.
E aconchego de um povo resistente.
Unido numa prece resiliente.
Nas romarias do sertão.
Olhos atentos esperam.
Rosas de cactos surgir.
Deste solo sagrado.
Em meio a seca florir.
Será inocência, ilusão?
Ter no peito o esperançar?
Embalar de esperança o coração?

EM - ECOS DO NORDESTE - COLECTÂNEA - IN-FINITA

Momentos - MANUEL MACHADO

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São sempre um novo dia,
Novas horas, minutos e segundos
Escassos momentos na vida
Desejosos, vividos, partilhados
Prazeres infindáveis sentidos
Doados e recebidos até à exaustão
Guardados silenciosamente
Em caixa tal Pandora.
Não proibidos, entendíveis e respeitados
Às circunstâncias dos nossos seres.
São sempre um novo dia.
Tratos mútuos relaxantes
Corpos sedentos entrelaçados
Pensamentos na impossibilidade
Tão desejada paragem do tempo.
Malandros, safados, desejosos,
Sofregamente amorosos, apaixonados,
Cientes do instante, momento,
Na incerteza do amanhã.
Há que vivê-los intensamente.
Réstia à esperança de nova aurora
Anunciada por clarins em alvorada,
Novo dia, novas horas, novos momentos.
Sempre inesquecíveis.

EM - MANUEL MACHADO - COLECÇÃO DISPERSOS - IN-FINITA

sexta-feira, 3 de junho de 2022

Diálogo com o corpo - ADRIANA MONDADORI

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Que nome gostaria de ter?
Maria, Ana, Catarina, Simone, Beatriz
Yone, Vilma, Vânia, Vulva

Que cores te emocionam?
roxa, cinza, rubra
violeta, rosa, baunilha
preta, castanha, fulva

Que roupa te envolve?
cetim toque de seda
veludo molhado
burlesca
xale aconchegante
vestido sem calcinha

Que personalidade teria?
inovadora, comandante, aventureira
ativista, defensora, protagonista

Palavras que adora?
afrontosa, carinho
clitóris, ousadia
língua

Qual teu mantra?
"Liberdade, eu te saúdo"

EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL - COLECTÂNEA - IN-FINITA

Jornada de viajantes corações - ZEZÉ MATOS

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Na rota das estações
Sigam viajantes corações
Em incessantes galopes
Busquem o elixir do existir
A rosa do bem querer
A razão de estar e ser
Sigam corações viajantes
Em ondas vivas, serenas
Permitam-se mergulhar.
Sigam viajantes corações
A Navegar em mares distantes
Que a cada mágico instante
Reconheçam seus pares.
Seu ninho, seu caminho.
E prossigam rochas
Fortalecendo a existência
Sigam viajantes corações
A Dissipar dores, acolher afetos,
A imergir em oceanos de amores.
Sigam corações viajantes
A celebrar a vida
No delicado bailado das borboletas
Sigam a bailar
E voem livres de amarras.
Em jornadas diversas
Sentimentos supridores da vida
Sigam a alimentar.
A nós!

EM - ECOS DO NORDESTE - COLECTÂNEA - IN-FINITA

Não me descartes - FERNANDO VASCONCELOS

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Não me descartes,
Só por sentir o que não sentes,
Só porque vejo o que não vês,
Porque gosto do teu cheiro.

Não me descartes,
Por reparar em tuas curvas modeladas,
De suspirar de meu coração!
Pela energia que despertas, eliminasses meu
Coração.
Não me descartes,
Amor.

EM - A SEMENTE - FERNANDO VASCONCELOS - IN-FINITA

quinta-feira, 2 de junho de 2022

Transformação - ADELINA SANTOS

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Transforma-me.
Equaliza-me no movimento das tuas sombras,
uniforma os gestos das nossas mãos,
a transparência dos olhares,
os nossos passos marcados na senda dos dias.
Porque quanto mais puro mais sensual,
o cristal nativo do sentimento,
veleja por inteiro num oceano de ondas mansas...

Transforma-me num delta translúcido de afagos,
realiza em mim a foto síntese das flores,
a metamorfose das essências e das cores.
Cinge-me de ti, da voz rouca do mar;
alisa e adocica o pregueado da minha pele,
com a melodia dos corais e das conchas....

Faz de mim urdidura de palavras a esbravejar,
como borboletas a rasgar casulos de libertação;
asas que me dás,
na voz da poesia...

Lapida as arestas da minha imperfeição,
minimiza os erros da tecedura que me compõem,
completa a metade do puzzle que me falta...

EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL - COLECTÂNEA - IN-FINITA

O florescer do Sertão - VITÓRIA BARRETO SANTOS

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Era uma manhã ensolarada
Debaixo do pé de juá
Onde olhava a seca se espalhar
E as palhas do milho a secar.

Olhava suas pequenas filhas
Brincar com o golfo
Daquele antigo tanque que estava
Com os dias contados pra secar.

Ficava pensando na chuva
Nas goteiras da velha casa de taipa
Que nem era de piso queimado
Era de chão batido.

Se aproximava a hora do almoço
Sua esposa já vinha chegando
Como já era de costume
Vinha sorrindo e cantando.

Que a chuva chegasse mais depressa
Do que a do outro ano
Antes de lavar as mãos
Afastava o golfo e enchia a cabaça.

Mais ou menos quatro litros de água
Então se sentavam em uma roda
Faziam a sagrada oração
Os pais contavam uma história.

Saboreava a comida de sua amada
Era fava com farinha
E o resto de uma galinha
Que matou na noite passada.

Ainda tinha a rapadura
Para adoçar qualquer paladar
Mesmo que desse uma sede danada
Não deixava de provar.

Descansava meia hora
E já voltava a trabalhar
Sentia o suor escorrer na testa
E a coluna a queimar.

Mas como um bom trabalhador
Não deixava o mato crescer
Em sua pequena plantação
Pois dali tiraria seu sustento.

O dinheiro do seu pão
Assim se aproxima a noite no sertão.
Seu Pedro sentado no terreiro da casinha
Chamando as crianças da casa vizinha.

Para contar a história de Lampião
O candeeiro apagava e ascendia
A fumaça que incomodava
Já nem existia.

Pois nessa noite
Tudo se tornará alegria
Na casa de dona Maria
Tinha festa e cantoria.

Os mais velhos
Daquele povoado
Era ali que se reuniam
Ao som do xote e baião.

Com sua velha sanfona
Luiz Gonzaga a tocar
E aos amigos do pife
Vinham prestigiar.

Naquela cozinha de taipa
O fogão de lenha a assopra
O caldeirão de mungunzá
Prestes a cozinhar.

O milho pisado no pilão
Para fazer a fubá
Tudo feito com coração
Só viemos nos deliciar.

E no outro dia sem esperar
A chuva começa a cair
A terra a molhar
E o sertanejo a sorrir.

EM - ECOS DO NORDESTE - COLECTÂNEA - IN-FINITA