segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Só - GONÇALO MIRANDA

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELA EDITORA
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Não temo nada
Como temo a solidão
Tempo que degrada
Minha constituição.

Preciso de me mover
Mesmo que não saiba
Para onde vim
Porque não temo a solidão
Temo-me a mim.
Porque após anos de traição
E farsas disfarçadas
Temo o dia em que sejam
Nossas contas acertadas.

Aceito estes demónios
Que me perseguirão
Aceito esta corrida
Seja minha condição
Mas que só prossiga
Em minha solidão.

E como estes
Todo o homem tem.
Não fiquemos sós
Toda a gente precisa de alguém.
E já conto os dias
Para te contar as histórias
Enquanto fujo
Ao meu acerto de contas.

EM - BRINCADEIRAS A SÉRIO - GONÇALO MIRANDA - EDIÇÕES VIEIRA DA SILVA

Tempo - CONCEIÇÃO FERREIRA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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O tempo passa!
Que tempo?
Pois mesmo agora, este tempo
Que me acompanhava na escrita
Já passou a ser memória.

Comecei a ouvir o vento...
O vento soprava, soprava,
Punha a nu a rouquidão.
Mas o tempo...? O tempo é outro.
É novo, mas já está morto,
Seguiu o sopro da história!

Aqueles que pensam no mundo
Tragam a secreta inquietação
Que do tempo, pouco sabem...
Mas ele existe e ele passa,
Solitário e vagabundo!

O que é o tempo, afinal?
Não sei nada senão
Nada ter de vendaval
Até ao dia em que grita:
Não sabiam...? Eu passava!

EM - SUSSURROS - CONCEIÇÃO FERREIRA - IN-FINITA

Ferus - ANAMARIA ALVES

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
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Me parece que não sabes
És sobrenatural
Por que adormeces?
Quem terá te anestesiado?
Podes tudo em ti mesmo!
Levanta!
Caminha entre as feras
e verás:
Tu és o fogo
Nem bom nem mau
És justiça
E tudo que precisas te habita
A chama que teu coração bombeia e arde em teu corpo
sou Eu.

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS IV - ANTOLOGIA - IN-FINITA

Tela - MANUELA DINIZ

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Quero pintar a vida
com as minhas cores favoritas,
entre os tons do arco-íris!

Há tantas cores bonitas,
posso escolher duas ou mais,
misturar em aguarela
e pintar uma tela
em cada rosto triste,
desenhar sorrisos
em cada olhar cansado,
inventar esperanças!

Quero pintar uma feira ao ar livre
e brinquedos de crianças!

Quero pintar o sol
nas manhãs de nevoeiro!

No Tejo, que corre calmo,
vou pintar um veleiro
e no azul do céu
pinto nuvens de algodão,
brancas, fofas,
que convidem à contemplação...

Sim, quero pintar a vida
com as minhas cores favoritas
E quando o arco-íris voltar,
vou guardar as mais bonitas!

EM - ESSÊNCIA DE MIM - MANUELA DINIZ - IN-FINITA

domingo, 4 de agosto de 2019

XLVI - MARIA TERESA DIAS FURTADO

O corpo do poeta e o corpo do mar
Abraçam-se num amplexo líquido esmeralda
Dançam nas pequenas vagas vigorosas.
Como poderá o poeta escrever sobre o mar?
As palavras liquefazem-se,
A mão escapa-se para a areia
Onde rabisca palavras como
Sal, ondulação, baloiço, rebentação.
Retira-se do calor maior e já em casa,
Rasga no papel o som das ondas.

EM - ONDE O POETA MORA - MARIA TERESA DIAS FURTADO - POÉTICA EDIÇÕES

Ciranda - BEATRIZ H. RAMOS AMARAL

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR BEATRIZ H. RAMOS AMARAL

habitante de raiz,
ficando estrelas,
jogo

no mapa, latitudes
se rasgam

combustão de hipóteses:
pólvora

no útero das ruas
luas de musgo
se acasalam

EM - MUNDO(S) 5 - COLECTÂNEA - EDIÇÕES COLIBRI

Terra minha - ANA KANDSMAR

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
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Eis que me devolvo
A minha poesia ao teu ovo
Devolvo-te os sorrisos, hoje mortos
Os meus sonhos brotos
O meu inútil corpo
Devolvo-te o cheiro
Destes eucaliptos que acenam
Adeus e despedidas
Devolvo-te as coisas que eu vi
As colinas verdejantes,
praças e passos de viajantes
as rochas insensíveis, indiferentes
a servis e seus senhores
as riquezas que eu nunca quis
e até as que quis, os meus amores
O sal na minha pele, o branco dos meus cabelos
Todos os laços que fiz, todos os elos
Só não te devolvo o que não tenho
Pois não me pertence o que não é meu,
Devolvo-te as coisas que eu senti,
Chuva que caiu dos meus olhos, que me deu o céu
O calor do sol e as tempestades,
Troco a luz, que me era vida, p’lo teu bréu
E aos que ficam, deixo as saudades.

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS IV - ANTOLOGIA - IN-FINITA

Pórtico - ALICE VIEIRA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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nunca te direi as palavras essenciais
que buscam no tempo incerto
a mensagem incompleta do poeta desconhecido

nunca te darei o meu corpo inteiro e verde
                    nas manhãs de girassóis
                    nas nuvens claras
                    nos horizontes de cravos
                    nos espelhos serenos

nenhum sinal de lírios na boca de quem passa

apenas o segredo
duro e hermético
à flor do peito na cidade estranha

EM - DE ESTARMOS VIVOS - ALICE VASSALO PEREIRA (ALICE VIEIRA) - IN-FINITA

sábado, 3 de agosto de 2019

Lagos de sofrimento - ISABEL BASTOS NUNES

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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São lagos de lodo o meu sofrimento
São raivas profundas onde afogo os meus tormentos,
São gritos lançados em tempestades de vento
Não sabendo até quando me estão destinados

E esta vida chorando vai-me destroçando.

E a morte vai descendo pelos meus sentidos,
cheia de desejos de me levar
E envolvendo o seu manto em todo o meu corpo,
eu vou lutando emergindo desses lagos de lodo.

Ah! Misérias eternas que a vida nos dá,
Sem nos perguntar se as queremos ter,
E, nos nossos caminhos errados em gestos obscenos
e bizarros, esbracejando pedimos ajuda, mas ninguém vem
nos socorrer.
E, nesses lagos de lodo
Onde me afogo,
Onde oiço gritos e gemidos das misérias eternas.
Eu sigo lutando em rumo ilusório.

Então imploro que tudo não passe de um sonho do meu
purgatório.
E já cansada das lutas que travo dentro de mim, renego
esses espaços sem luz, cinzentos de fumo com imagens
de fogo e de corpos retorcidos.
E são nesses lagos de lodo, que me prendem o corpo
e riem de mim, que me vou afogando, até ao meu fim.

EM - ENTRE OS POEMAS... AS PALAVRAS - ISABEL BASTOS NUNES - IN-FINITA

Insónia III - CARLOS MANUEL FIDALGO GASPAR

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO PELO AUTOR

Amanhece!
alvorada
o incêndio está extinto

Azáfamas levantam-se
trânsito, semáforos
escapes, buzinas
autocarros, cacilheiros
rotinas...
Rotinas de cansaço
Cacilhas, terreiro do paço
Metro, chiado
sete rios, areeiro
- Isto todos os dias!

Alvorada...
o ateu converteu-se
o desempregado arranjou trabalho
o trabalhador foi despedido
o operário está em greve
o carteirista foi preso
o anarquista votou
o fascismo acabou
tudo isso mudou.

Insónia...
sonolência o dia inteiro
o cão calou-se
o médico foi para a casa
o bombeiro já dorme
a enfermeira sai ao meio dia
os amantes vestiram-se
os putos estão na escola
tenho os olhos pesados
da insónia de todos os dias
a ver se hoje consigo dormir.

EM - NA SOMBRA DAS PALAVRAS - CARLOS MANUEL FIDALGO GASPAR - EDIÇÃO DE AUTOR

Meu menino d'oiro - ANA KANDSMAR

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Meu menino, canta
Canta essa canção que só tu entendes
E te faz sorrir
Meu menino, brinca
Brinca e não sintas a minha dor
Por te ver partir.
Tens nos olhos os mistérios
Dum mundo que só tu vês e que eu não vejo
As pedrinhas na tua mão
A flor silvestre que me estendes
É uma luz que em mim acendes
E plantas no coração
Meu menino
Onde estão agora os teus passinhos ágeis?
Onde estão, menino, as tuas mãos pousadas?
As tuas asas, menino?
Onde as tens quebradas?
Os teus bracinhos frágeis?
Já não me pedes colo, menino
Já não me pedes nada
Já não corres pela casa
Não esventras a noite com o teu choro
Não me acordas de madrugada
E eras d’ouro, menino.
Eras o meu menino d’ouro.

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS IV - ANTOLOGIA - IN-FINITA

Decadência - ALEXANDRE GERARDO

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Decadência
Terra de morte
Terra de podridão
Terra de escuridão
Outrora foste grande,
Hoje encontras-te cada vez mais pequena
Comeram-te os grandes em busca de ambição
Agora habitam em ti os pequenos
Restantes da crise e sem possível salvação
Neste nevoeiro mais escuro que a noite, habita em ti a escuridão!
O que outrora trazia esperança,
Hoje traz uma iludida salvação
Foste em busca do tesouro
E trouxeste destruição
Chegou a hora!
Sem alma vivida
Resta apenas uma terra destruída.

EM - AS DORES DE UM POETA - ALEXANDRE GERARDO - EDIÇÕES VIEIRA DA SILVA

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Desenho - JOSÉ LUIZ MELO

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO PELO AUTOR

Vejo distante, longe, no horizonte,
uma linha quebrada que desenha
a imagem caprichosa numa senha,
a marca digital na própria fronte.

Me desafia a linha, ali, defronte,
cheia de si, embora, nada tenha
que ameace; nem temo, algo que venha
no bojo do seu colo que amedronte.

Mas sinto que esta linha, ela me embrenha
nesga fumaça renda, nesta brenha,
e me não deixa ver além do monte.

que surgiu de repente, atrás da linha,
no caminho do voo da andorinha:
- Sem que mais nada veja no horizonte.

EM - SEGUNDO LIVRO DOS SONETOS - JOSÉ LUIZ MELO - NOVOESTILO

Confiança perdida - ELÍDIO ROSA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Pelo mau passo que dei na vida
quase te perdi meu grande amor.
A tua confiança em mim, perdida
é até hoje um manancial de dor.

Foi nessa longa noite, tão escura,
que da traição ficaste a saber.
Foram uns poucos momentos de loucura
que deitaram quase tudo a perder.

Foram tantas horas de agonia
nessa madrugada tão fria, tão dura.
Choro e desespero até ser dia.
Noite sem fim de dor e tortura

Quero ter de volta o teu amor,
juro por meus olhos hoje ser só teu.
Nunca mais me digas, peço, por favor,
que a tua confiança em mim, já morreu.

Sei que foi enorme o meu erro;
tenho chorado por nós um rio.
Acaba com o meu desespero
e tenta esquecer o meu desvario.

Sei que a barreira é muito alta,
mas perdoa-me se fores capaz.
Não te vingues da minha falta
porque a vingança nada de bom traz.

Vamos juntos regando a nossa flor.
Não vamos mais olhar para trás.
Vamos desfrutar do nosso grande amor
até ao dia em que eu descanse em paz.

EM - POESIA COM HISTÓRIAS - ELÍDIO ROSA - IN-FINITA

Despedida - ADRIANA GARCIA

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Em meio a tanto tempo migalhas de amor me fez
encantar.
No sussurro que passava o vento uma esperança
de te beijar.
E lá se foi dias e noites sem você do meu lado apreciar.
Na expectativa do amor esperava um dia você chegar.
Para um grande amor não há despedida...
O tempo passou sem avisar.
No sentido chamado vida fez de mim uma alma sofrida.
Na luz reluzente da noite de luar inspirava escrever
poemas de amor a te elogiar.
Despedida...
Uma lágrima cai na imensidão de uma galáxia
não sentida.
Uma chama comovente incompreendida...
Sem saber, teve medo de se entregar fazendo da vida
uma oportunidade perdida.
Foi amor além da vida... um momento de lágrimas
pelo grande amor despercebida.

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS IV - ANTOLOGIA - IN-FINITA

Peço - CAROLINA MANGANA MONTEIRO

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Ao mar,
Que enrole e caia
Na branca areia da praia!
Ao vento,
Que sopre o seu assobio,
Que traga de longe o frio!
À chuva,
Que chore o mundo cinzento,
Que derrame seu lamento!
A tudo o que é,
Que seja e não deixe de ser!...
A Deus,
Que mo deixe ver...

EM - HÁ QUEM NÃO ESCREVA POESIA - CAROLINA MANGANA MONTEIRO - EDIÇÕES VIEIRA DA SILVA

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Feitiço - MARIANA ASPER

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO PELA EDITORA
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No meu coração fizeste teu céu
onde sorrateiramente entraste
e eu sem estorvo deixei-te ficar...
Na torrente da paixão, te enfeiticei
como mestre de muito amar...
Teu olhar me veste como um raio de sol,
aquece minha alma fria...
No calor dos teus afagos prende-me
nas teias da tua fantasia...
Leva-me às nuvens nas asas do sonho,
como tua feiticeira que fui, um dia!

EM - O MEU TEMPO É VIVER - MARIANA ASPER - EDIÇÕES VIEIRA DA SILVA

Eu amo, sempre e ainda! - MANUELA FRADE

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Eu sou madura...
Doce como um pêssego,
Amarga como alperce,
Plena como a uva ou cereja
Amo...
Sempre e ainda...
Exuberante e plena de vida!
Meu sangue pulsa
Com a vontade de meu desejo...
Sim amo...
Sempre e ainda!
Deitada no verde campo...
Olhando o céu azul,
Espero finalmente...
O suspiro terno, maduro e doce,
Sim... Eu amo, sempre e ainda!

EM - PINCELADAS POÉTICAS - MANUELA FRADE - IN-FINITA

O encontro - ADEMILTON BATISTA

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Desculpe-me a ausência!
Tenho andado muito ocupado ultimamente,
na incumbência de fazer algumas declarações!
Porém, a minha, é exclusiva a você!
Quero que saiba que és a minha musa,
a minha lua, a rosa preferida do meu jardim!
És, portanto o meu amor sem fim!
Estou com saudade, muita saudade,
de te ver meu amor!
Vem! Abraça-me forte e junto a ti direi;
Direi baixinho e sentirás lentamente,
o pulsar do meu coração em ti.
Em teu rosto descansarei meus lábios,
enquanto os nossos olhares viajarão juntos,
aos nossos interiores buscando o nosso sol.
Mas, somente será para você ouvir,
como irá ser criado o nosso universo.
O encontro perfeito, onde o nosso mundo,
terá a importância merecida e nele habitaremos.
Os nossos corpos terão a sublimidade,
unidos na leveza dos ventos,
com pureza de sentimentos,
unicamente pelo amor.

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS IV - ANTOLOGIA - IN-FINITA

Procura - MANUEL MACHADO

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Amor
onde estás tu?

Existes?

Perdido
neste mundo
de víboras.

Calem-se
bocas imundas
deste covil
miserável.

Procuro
o meu amor!

EM - DAR VOZ A... - MANUEL MACHADO - IN-FINITA